79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 47 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 10

Ela estava tomando café quando Ross desceu. O olhos estavam terrivelmente injetados e o rosto, cansado. Passara a noite sem dormir.

— Bom dia — resmungou ele, sentando-se à mesa.

— Bom dia — respondeu ela, sorrindo.

Levantou-se e foi até a cozinha, voltando pouco depois com uma bandeja de torradas e um bule de café fresco.

— Onde está Bunny? — perguntou ele, querendo saber da empregada.

— Mandei-a ir em companhia de Michelle. Achei que seria melhor irem passar algum tempo em Arrowhead. A menina não tem andado bem ultimamente.

Ross olhou-a surpreso e, embora seu rosto nada exprimisse, ele compreendeu que ela sabia de tudo.

— Boa ideia. Tom foi também com elas?

— Não. Não quis ir.

Ela lhe serviu café e ele bebeu rapidamente. Precisava de alguma coisa para reanimar-se. Estava cansado da noite em claro. Deu uma dentada na torrada e achou-a sem gosto, a ponto quase de não poder engoli-la.

— Seus guarda-costas estão esperando num carro lá fora.

Surpreendeu-se de novo. Era bem pouco o que ela deixava de notar. Procurou mostrar-se corajoso.

— Joker não vai fazer nada.

Ela ficou em silêncio.

— Não ouviu o que eu disse? Joker nada pode fazer.

— Ouvi, sim — disse ela. — Mas será que Joker ouviu?

Ele se levantou furiosamente e disse:

— Já estou numa posição em que eles não podem mais fazer comigo o que quiserem!

Olhou-a durante alguns momentos e saiu da sala. Pouco depois voltava com uma automática na mão. Verificou o pente e guardou-a no bolso do paletó. Sentou-se de novo à mesa e pegou a xícara de café. As mãos estavam trêmulas e o café entornou na toalha.

— Dê-me essa pistola, Ross.

— Por quê?

— Você não tem prática de espécie alguma com armas e está tão nervoso que poderá atingir alguma pessoa que nada tenha com o caso.

Ross jogou a pistola em cima da mesa, e ela a guardou numa gaveta.

— Assim é melhor — disse ela.

— Talvez fosse melhor você também ter ido para Arrowhead.

— Eu não. O clima de lá não é bom para minha saúde. Já lhe disse isso uma porção de vezes.

— Pode lhe acontecer alguma coisa.

— Posso também cair da escada.

Ele não replicou. Jamais conseguiria compreendê-la.

— Bem, vou indo.

— Ficarei à sua espera, Ross.

— Obrigado, Marja — disse ele com gratidão, quase com humildade.

Entrou no carro e sentou-se entre os dois homens.

— Qual é a última notícia? — perguntou ele logo que o carro se pôs em movimento.

— Falei com Pete pelo telefone há uma meia hora — disse um dos homens. — Martin não saiu do hotel desde a uma hora da madrugada.

— Ótimo — disse ele com voz satisfeita. — Vamos pegá-lo lá.

 

Um homem alto e de barba encaminhou-se para o carro quando Ross saltou.

— Ainda está lá em cima — disse o homem em voz baixa. — Passei a noite toda aqui.

— Obrigado, Pete.

— Consegui a chave mestra e dei dinheiro ao homem do elevador de carga para que ele fosse tomar café e demorasse bastante.

— Você pensa em tudo, Pete.

— É para isso que sou pago, não é? — respondeu o homem, impassível.

Ross fez um sinal para os dois homens no carro. Saíram em silêncio e entraram no edifício. Ross sentia o coração bater com força. Era aquele o momento, o grande momento. Não poderia errar dessa vez. Se errasse, estaria perdido.

Seguiram por um comprido corredor cimentado no porão do hotel. Pararam diante de uma porta, e Pete apertou um botão. A porta se abriu, mostrando um elevador. Entraram rapidamente.

Subiram no elevador, olhando o indicador que iluminava os números dos andares. No quinto, o elevador parou, e a porta se abriu.

— Fique aqui e segure o elevador — disse Pete a um dos homens.

Os outros foram pelo corredor, enquanto Pete olhava as portas. Afinal, apontou com a cabeça, e Ross olhou o corredor, para um lado e para o outro. Estava deserto,

Pete tirou do bolso um revólver da polícia, a cujo cano adaptou rapidamente um silenciador. Entregou a chave a Ross. Este aspirou profundamente o ar. Sentia o suor correr-lhe pelo rosto e sabia que Pete o estava observando atentamente.

— Pronto? — perguntou. Pete meneou a cabeça.

Ross meteu a chave na fechadura e, ao girá-la, teve a impressão de que estava fazendo um barulho enorme. Empurrou a porta, e Pete pulou para o quarto. Ross foi atrás dele, meio empurrado pelo homem que vinha em seguida.

Pete murmurou uma praga e correu para o outro quarto. Ross seguiu-o correndo e foi encontrá-lo a murmurar um rosário de nomes feios.

— Que foi? — perguntou ele.

Mas sabia o que havia acontecido antes mesmo de ouvir a resposta. O suor voltou a correr-lhe pelo rosto.

— Que foi que houve? — perguntou a Pete.

— Não sei — respondeu o outro.

Ross tornou a correr os olhos pelo quarto. Não havia ninguém. O quarto estava vazio. Joker havia desaparecido.

 

O zumbido dos motores dava sono a Joker. Sempre lhe acontecia isso e ele nunca conseguia saber se era o barulho dos motores mesmo ou os comprimidos que sempre tomava para não enjoar no avião. A verdade é que passava dormindo quase todo o tempo nas suas viagens de avião. Fechou os olhos.

Viu imediatamente o rosto de Maryann e se agitou inquietamente. Não costumava ser assim com as mulheres. Lembrou-se do rosto dela como fora havia muito tempo, quando ainda era uma garota. Era muito menina. Ou ele tinha sido um imbecil? Talvez ela nunca tivesse sido muito menina.

Depois fora o tempo em que ela saíra do reformatório. Perdera-a então por questão de minutos. Agora, não demoraria. A sua vez estava próxima.

A criança inquietava-o, porém. Se não era filha de Ross, havia então outra pessoa. Quem poderia ser? Ela não era tola. Antes de embarcar no avião, tinha sabido que ela mandara a menina para Arrowhead às cinco horas da manhã.

Sorriu. Era uma das coisas que mais admirava nela, a inteligência. Se Ross tivesse a metade da cabeça dela, não se veria na situação em que estava naquele momento.