79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 2 de 55

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79 Park Avenue

Marja

Livro um

1

Ela empurrou a porta da loja e esperou um instante enquanto os olhos se acostumavam à luz fraca. O sol brilhante atrás dela emoldurava-lhe o rosto no ouro líquido dos cabelos. O violento escarlate da boca contraiu-se sobre os dentes muito alvos numa tentativa de sorriso. Encaminhou-se para o balcão.

Não havia ninguém na loja. Ela bateu com uma moeda impacientemente no mármore do balcão.

Houve imediatamente uma resposta nos fundos da loja, onde vivia o Sr. Rannis.

— Um minuto, um minuto que eu já vou.

— Está bem, Sr. Rannis. Sou eu e posso esperar.

O velho apareceu na porta dos fundos ainda ajeitando as roupas.

— Marja! — exclamou ele, com uma nota de satisfação na voz. — Que é que você quer?

— Quero cinco Twenty Grands — disse ela, sorrindo.

O velho virou-se automaticamente para a prateleira atrás e, em seguida, hesitou. Virou a cabeça como se quisesse saber de alguma coisa.

— Tudo certo, Sr. Rannis — disse ela prontamente. — Tenho dinheiro.

O homem pegou um maço aberto, tirou cinco cigarros e colocou-os no balcão diante dela, mas sem tirar a mão de cima.

Ela empurrou um níquel para ele, que transferiu a mão dos cigarros para a moeda e fê-la cair na gaveta do dinheiro embaixo do balcão.

O papel branco dos cigarros se destacava sobre o mármore encardido. Marja pegou um cigarro e levou-o à boca. Estendeu depois a mão para a caixa aberta de fósforos que estava em cima do balcão.

No mesmo instante, ele estava com um fósforo aceso diante dela. Ela acendeu o cigarro e aspirou a fumaça, sentindo-a chegar até os pulmões.

— Que bom! — exclamou, olhando para o velho. — Pensei que nunca mais ia sair da escola. Passei o dia todo querendo fumar, sem ninguém para me dar uma tragada.

O velho olhou-a, franzindo num sorriso os lábios sobre as gengivas sem dentes.

— Por onde tem andado, Marja? Passou toda esta semana sem aparecer.

— Tenho andado sem dinheiro. E já estou lhe devendo muito.

— Por que fez isso, Marja? Já lhe reclamei dinheiro alguma vez?

Deu mais uma tragada sem responder.

O velho estendeu a mão sobre o balcão e tocou-lhe a mão.

— Você bem sabe que tenho sempre prazer em vê-la, Marja.

Ela não fez o menor esforço para tirar a mão e olhou-o com os olhos cintilantes.

— Você tem prazer em ver qualquer das meninas. Gosta delas todas.

— Nenhuma delas é como você — disse ele, calorosamente. — Prefiro você a qualquer outra. Você sempre foi minha favorita, desde quando era garotinha.

— Vá esperando que acredite nisso...

— É verdade, sim! Você é a única a quem dou crédito. Ninguém mais pode ficar me devendo três dólares e vinte e cinco cents sem eu dizer nada.

Ela puxou a mão lentamente, sem tirar os olhos dele. Sorriu levemente quando viu uma espécie de névoa cobrir os olhos do velho.

— E Francis Keegan? Ela me disse que você vendeu fiado a ela.

— Foi, mas depois cobrei, não cobrei? — disse ele, passando a língua sobre os lábios secos. — E nunca lhe cobrei nada.

Ela se afastou um pouco do balcão e correu os olhos pela loja.

— Parece que há alguma coisa diferente aqui.

O velho sorriu, satisfeito.

— Mandei pintar o quarto dos fundos.

Ela arregalou os olhos numa surpresa estudada.

— Foi?

— Mandei pintar o quarto e a sala de verde-claro. Estou pensando em mandar pintar também a loja, mas isso fica para quando eu tiver dinheiro.

— Não me venha com essa, Sr. Rannis! — disse ela, rindo. — Você tem mais dinheiro do que Deus!

Uma expressão de tristeza mostrou-se no rosto dele.

— Todos vocês dizem isso, mas não sei por quê. Bem veem o negócio que eu faço aqui.

— É justamente por isso — disse ela. — Eu vejo.

Virou-se de repente e curvou-se sobre o balcão dos bombons contra o vidro.

O velho prendeu a respiração. Todos os contornos do corpo de Marja se revelavam de encontro ao vidro. Os seios fortes e jovens comprimiam-se contra a leve blusa branca.

— Quer bombons? — perguntou ele.

Ela olhou para ele por cima do balcão e disse cautelosamente:

— Não tenho mais dinheiro.

— Quem foi que lhe pediu dinheiro? — perguntou ele, abaixando-se atrás do balcão e abrindo a porta. Olhou-a através do vidro e perguntou: — Que é que você quer?

— Qualquer um serve — respondeu ela, com os olhos sorridentes.

Sem tirar os olhos dela, ele pegou alguns bombons, com as mãos trêmulas. A luz forte que vinha da rua desenhava-lhe o corpo por baixo da saia ina. Ele descobrira havia muito aquele magnı́ ico ponto de observação. Era essa uma das razões pelas quais conservava bem fracas as luzes da loja. A outra era o alto preço da eletricidade.

Ela olhou para ele, pensando em quanto tempo ele iria ficar ali. Era uma coisa muito comentada entre risinhos pelas meninas do bairro. Bem sabia o que ele estava olhando. A vitrina de Rannis dava visão nos dois sentidos, mas isso não lhe interessava. Era um velho devasso, e era muito bem feito que se pudesse tirar alguma coisa dele, principalmente de graça.

Daí a alguns segundos, porém, ela se cansou daquilo e foi para o outro balcão. Ele se levantou quase imediatamente com os bombons na mão.

O rosto estava vermelho do esforço que fizera para abaixar-se. Colocou os bombons em cima do balcão e agarrou-lhe a mão quando ela tratou de apanhá-los. Ela não puxou a mão.

— Você é a garota mais bonita do bairro, Marja — disse ele.

Ela deu um risinho de escárnio.

— É verdade, Marja — disse ele, apertando-lhe a mão. Em seguida, abriu-a e examinou-a. — E tem mãos lindas também para uma menina.

— Não sou mais menina — protestou ela. — Vou fazer dezesseis anos.

— Vai mesmo? — perguntou ele, com voz de surpresa. Como o tempo corria ali no bairro! Com que rapidez as meninas cresciam! Quando menos se esperava, casavam-se e desapareciam.

— Vou, sim. Em novembro.

— Aposto que os rapazes da escola são todos loucos por você.

Ela encolheu os ombros, sem responder.

— Com certeza, estão procurando sempre levar você para os cantos — continuou ele.

— Que é que quer dizer com isso, Sr. Rannis? — perguntou ela com uma fingida expressão de inocência.

— Você bem sabe o que eu quero dizer, Marja.

— Não, não sei — disse ela, com uma vontade louca de rir. — Quer me explicar?

Ele soltou-lhe a mão e, voltando-se para os fundos da loja, disse:

— Entre aqui comigo que eu lhe explico.

Ela dirigiu-se lentamente para os fundos da loja, com um sorriso esboçado nos lábios. Colocou-se parcialmente atrás de uma vitrina e olhou para ele.

O velho estava com o rosto muito vermelho e o lábio superior cheio de gotas de suor. A boca movia-se febrilmente, mas não havia qualquer som.

— Que é, Sr. Rannis? — perguntou ela, com um sorriso mais amplo.

A mão do velho estendeu-se para Marja, que não se moveu.

— Não querem nunca pegar em você? — perguntou ele com voz rouca.

Ela olhou-lhe as mãos pertinho dela e depois o rosto, perguntando então:

— Onde?

Ele roçou de leve os dedos pela frente da blusa dela. A carne firme quase lhe queimou os dedos.

— Aqui — disse ele nervosamente, olhando-lhe o rosto para ver se havia algum sinal de medo.

Não havia. Ela nem chegou a fazer qualquer movimento para afastar-se. Sorriu apenas.

— Claro que sim, Sr. Rannis — respondeu ela. — A todo instante.

A resposta tomou-o de surpresa e ele quase esqueceu que a estava segurando.

— E você deixa?

— Às vezes deixo, às vezes não. Depende da minha disposição, de eu gostar ou não. — Virou levemente o corpo, afastando-se dele, e estendeu a mão dizendo: — Meus bombons, Sr. Rannis.

Ele entregou-lhe os bombons e ficou a olhá-la, com a lembrança daqueles seios firmes nos seus dedos ainda a dominá-lo.

— Quer ir ver a pintura lá nos fundos? — perguntou ele.

Ela não respondeu. Ficou olhando para ele, enquanto desembrulhava um bombom e mordia-o.

— Se você vier para os fundos e for mesmo boazinha, eu lhe perdoarei todo o dinheiro que me deve — disse ele, ansiosamente.

Ela botou o resto do bombom na boca e olhou-o, pensativamente. Depois, sem responder, deu-lhe as costas e encaminhou-se para a porta.

— Marja! — exclamou ele, com voz suplicante. — Posso até lhe dar dinheiro!

Ela parou diante do balcão de mármore para apanhar os cigarros e alguns fósforos. Depois, continuou na direção da porta. Começou a abri-la.

— Marja! — exclamou o velho. — Darei tudo o que você quiser!

Ela parou um instante com a mão na porta, antes de responder. Quando falou, ele percebeu que ela havia pensado na resposta que ia dar.

— Não, Sr. Rannis — disse ela polidamente com sua voz rouca. — Não estou preparada para o senhor. Ainda não.

Saiu fechando a porta, e a loja pareceu de repente fria e vazia sem o cintilante ouro de seus cabelos. Cansadamente, como se saísse de uma batalha, o velho encaminhou-se para os fundos da loja.