79 Park Avenue
Capítulo 13
Mike levantou os olhos do livro e esfregou-os cansadamente. Sentia-os arder. Olhou pela janela Ainda estava nevando. Na sala ao lado, o telefone começou a tocar. Ouviu a mãe atender.
Fechou os livros. Estava quase na hora de sair para o trabalho. Cabia-lhe naquele mês o turno da noite. Levantou-se e foi para o banheiro. Todos os seus apetrechos de barbear estavam em cima da pia.
Estava ensaboando o rosto quando a mãe chegou à porta.
— Já estou preparando seu almoço, meu filho.
— Obrigado, mamãe.
Ela ficou ali a olhá-lo. Ao fim de alguns momentos ele teve consciência do olhar dela.
— Que é, mamãe?
Ela sacudiu a cabeça e foi saindo, mas ao fim de alguns passos, voltou-se e disse:
— Você não dormiu muito. Ouvi-o levantar-se às três horas da madrugada.
— Perdi o sono, mamãe. Além disso, tinha de estudar. Os exames da polícia são daqui a dois meses. Não quer que eu seja um recruta a vida inteira, quer?
— Claro que não. Mas ficaria mais satisfeita se você fosse um pouco igual aos outros rapazes. Seria bom você sair e passear de vez em quando em lugar de viver sempre metido com esses livros. Há por exemplo aquela menina, filha de Gallagher, o farmacêutico. Encontro-me com ela na rua todos os dias e ela nunca deixa de perguntar por você...
— Já lhe disse uma porção de vezes, mamãe, que não tenho tempo para namoros. Depois, haverá tempo de sobra para isso. Agora, tenho mais o que fazer.
Ela o olhou firmemente através do espelho e disse:
— Se fosse Marja, você encontraria tempo.
— Esqueça-se dela, mamãe! — exclamou ele com o rosto vermelho. — Já não lhe disse que isso acabou?
— Eu posso me esquecer dela, meu filho. Mas será que você pode?
Ficou ouvindo os passos dela, que se afastavam pelo corredor, e levou a navalha distraidamente ao rosto. A sensação de queimadura mostrou-lhe logo que havia se cortado.
Enquanto cuidava de estancar o sangue, Marja veio-lhe à lembrança. Marja. Estaria sua mãe com a razão? Acabou de fazer a barba, enxugou o rosto e olhou pela janela. Ainda nevava.
Que estaria Marja fazendo àquela hora?
O grande relógio do vestíbulo marcava oito horas quando Mary saiu do hotel. A neve cobria as ruas com um lençol branco e amortecia todos os ruídos do tráfego. Entrou pela 49th Street em direção à Sixth Avenue. Devia haver mais movimento nas imediações do Rockefeller Center.
De qualquer maneira, seriam fregueses de mais classe. Os turistas e os funcionários de escritório daquela zona tinham mais para gastar. A Broadway, a Seventh e a Eighth Avenue no máximo rendiam dois dólares de cada vez. Na Sixth Avenue havia chance para uma mulher ganhar cinco ou dez dólares de uma vez.
Olhou para o céu. Ainda estava nevando pesadamente. Não iria fazer muito naquela noite, mas não podia dar-se ao luxo de ficar em casa. Estava quase sem dinheiro e teria de pagar o aluguel daí a alguns dias. Saiu caminhando devagar, com o rosto afastado da rua e voltado para as vitrinas, como se estivesse interessada em comprar o que elas ostentavam.
Na realidade, olhava para as vitrinas como se elas fossem espelhos. Cada homem que passava era examinado e instintivamente avaliado. Virou à esquerda na Sixth Avenue e chegou até a esquina da 50th Street. Quase não havia ninguém na rua. Entrou na cafeteria da esquina e pediu uma xícara de café.
Levou-a para uma mesa perto da janela, de onde podia observar a entrada do music hall do outro lado da rua. O show devia acabar daí a uns vinte minutos. A multidão saía para a rua e havia sempre uma oportunidade nessas ocasiões.
A xı́cara estava quase no im quando as pessoas começaram a sair. Acabou prontamente o café e foi para a rua. Ficou num canto da entrada do teatro como se estivesse esperando alguém com quem houvesse marcado encontro.
Um porteiro passou, olhando-a, e ela olhou impacientemente para o relógio, como se estivesse cansada de esperar. Muita gente passava, mas nada havia senão rostos. O fluxo de espectadores foi diminuindo. Mais alguns minutos e ela teria de sair de novo para a neve. Parecia que aquela noite seria perdida.
Já ia saindo quando o instinto a fez levantar os olhos. Um homem a estava olhando do outro lado da porta do teatro. Olhou-lhe prontamente os sapatos. Eram marrons. Isso automaticamente lhe dava segurança. A gente da polícia só usava sapatos pretos. Olhou de novo para o homem, sem qualquer expressão nos olhos. Depois, voltou-se e saiu para a rua.
Ela esperou na esquina que o sinal se abrisse. Sem virar-se para olhar, sabia que o homem a havia seguido. Quando o sinal abriu, ela atravessou a rua e entrou no edifício da RCA. Subiu alguns degraus para a galeria e parou em frente a uma vitrina.
Viu pelo reflexo o homem passar por ela e parar junto a uma vitrina pouco adiante. Ela passou lentamente por ele e parou em frente a um restaurante cujas janelas envidraçadas eram pintadas de preto na parte inferior para que não se pudesse espiar para dentro. Ali, ela tirou um cigarro da bolsa e ia acendê-lo, quando viu a chama de um isqueiro brilhar perto dela.
A mão do homem tremia um pouco quando ela o olhou. Tinha rosto redondo e olhos pretos. Parecia direito.
— Muito obrigada — disse ela, acendendo o cigarro.
— Posso oferecer-lhe um drinque? — perguntou ele, sorrindo, mas com voz gutural e pesada.
Ela levantou as sobrancelhas e falou com voz amistosa e sem qualquer intenção de insulto.
— É só isso o que deseja?
— Não — gaguejou o homem. — Mas...
— Por que é então que vai aumentar a sua despesa? Não é preciso gastar dinheiro comigo.
Ele tossiu um pouco e aprumou o corpo como se esperasse assim parecer um homem do mundo.
— E... quanto é?
— Dez dólares — disse ela prontamente, observando-o para baixar o preço se ele quisesse desistir.
— OK— disse ele.
Ela sorriu e tomou-lhe o braço. Desceram juntos a escada e foram para a rua. Ela o levou para o hotel.
— Não há nada que se compare à neve do inverno — disse ela.
— É verdade.
— Mas na cidade a neve não é tão agradável. Tudo fica molhado e não se pode fazer nada.
— Nada? Pois agora mesmo estou fazendo uma boa coisa.
Ela riu e agarrou-lhe com mais força o braço. Já estava perto do hotel e ela largou o braço do homem.
— Vou entrar ali — disse ela. — Espere cinco minutos e suba para o quarto 209, no segundo andar. Entendeu?
— OK. Quarto 209. Cinco minutos.
Ela estava usando um quimono quando bateram na porta. Atravessou prontamente o quarto e abriu-a. O homem ali estava, embora com sinais de hesitação.
— Entre.
Ele entrou com passo lento e ficou no meio do quarto enquanto ela fechava e trancava a porta.
— Não vai tirar o sobretudo? — perguntou ela. — Vou, sim.
Tirou o sobretudo, que ela pegou e foi pendurar num cabide. Quando voltou, ele já havia tirado o paletó e estava desatando a gravata.
Ela sorriu e sentou-se na cama, balançando as pernas. Ele a olhou enquanto tirava a camisa e mostrava os ombros musculosos.
— Como é seu nome, menina?
— Mary.
— Como foi que acabou nessa vida, Mary? Você parece uma garota tão boazinha...
Ela teve uma expressão de enfado. Todos eles faziam a mesma pergunta. As vezes, pensava até que eles gostavam mais de ouvir a história de sua vida do que qualquer outra coisa.
— Ora, a gente tem de comer...
O homem começou a afrouxar o cinto.
— Não esqueceu alguma coisa? — perguntou ela.
Ele a olhou espantado, mas logo compreendeu. Meteu a mão no bolso e tirou uma nota que entregou a ela.
Ela guardou o dinheiro na bolsa que estava em cima da cômoda. Depois, tirou o quimono e foi para a cama. Estendeu-se na cama completamente nua e olhou para ele, que ainda estava de pé no meio do quarto, sem ter tirado as calças.
— Venha — disse ela. — Que é que está esperando?
Ele correu a língua pelos lábios. Tornou a meter a mão no bolso e tirou uma carteirinha de couro preto. Abriu-a e ela viu brilhar uma insígnia da polícia.
— Sou o detetive Millersen, da Repressão ao Vício. Está presa. Trate de vestir-se.
Ela se sentou na cama, com o coração a bater forte. Aquilo tinha forçosamente de acontecer. Sempre soubera disso. Só não esperava que fosse tão depressa.
Ela forçou um sorriso.
— Errei, mas que é que vou fazer? Mas venha. Será por conta da casa.
— Vista-se.
— Sabe que nunca vi um polícia mais simpático? — disse ela, aproximando-se dele.
Ele se afastou e plantou-se diante da porta, ao mesmo tempo que vestia a camisa.
— Não adianta, menina. O melhor que tem a fazer é vestir-se logo.
Ela começou a vestir-se e perguntou:
— Qual é a pena por isso?
— É a primeira vez?
Ela assentiu com a cabeça, tentando prender um colchete nas costas. Os dedos lhe tremiam tanto que não conseguia.
— Quer ser bonzinho pra variar? Veja se esquece um instante que é polícia e me prenda isto aqui.
O detetive fez o que ela pedira e disse:
— Trinta dias.
— Trinta dias o quê? — exclamou ela, que já havia esquecido a pergunta que fizera.
— Trinta dias, se é a primeira vez — disse ele, voltando para o seu lugar junto à porta.
— E que dia é hoje?
— Vinte e sete de fevereiro.
Ela abriu o armário e tirou o casaco.
— Lá se foi o mês de março — disse ela. — Escute: posso arrumar o que é meu? Senão, quando voltar, não encontro mais nada.
— Está bem. Mas ande depressa.
Ele a viu tirar uma maleta do armário. Não havia muito o que arrumar e tudo coube dentro da maleta.
— Estou pronta agora. Muito obrigada.
Ele abriu a porta e saiu depois dela.
Ela se voltou, olhou-o e disse:
— Deve haver maneiras mais fáceis de viver.
Ele a olhou com súbito respeito. Aquela garota tinha fibra. Concordou sombriamente.
— Deve haver de fato.
Ela lhe tomou o braço como se fossem velhos amigos que saíssem para um passeio. Murmurou em voz baixa e rouca:
— Para nós dois, sabe?