79 Park Avenue
Capítulo 3
O táxi deixou-o diante de um edifício da West 73rd Street. A luz da entrada era fraca e ele teve de riscar um fósforo para ver o nome. Maryann Flood. Tocou a campainha.
Quase no mesmo instante, a porta se abriu. Entrou num corredor de estilo antigo. A porta dela, marcada por um C dourado, ficava no alto de uma pequena escadaria. Já ia bater quando a porta se abriu.
— Entre — disse ela, sorrindo.
Vito entrou e ficou imediatamente surpreso. O mobiliário era elegante e simples, mas havia uma nota exótica no apartamento, Era dada pelo grosso tapete e pelos objetos que decoravam as paredes: uma espada, uma velha pistola e um chicote de muitas pontas. A luz era suave. Abaixo das janelas havia estantes cheias de livros e quinquilharias.
— Quer tirar o sobretudo? — perguntou ela, ainda sorrindo.
— Sem dúvida.
— Há gelo e uísque ali naquela mesa, Hank. Daqui a alguns minutos estarei pronta.
Ele foi até a mesa. O balde de gelo era de prata. Os copos eram de cristal Steuben. O uísque era Johnnie Walker, rótulo preto, o rye era Canadian, o bourbon era Old Grand dad e o gim, House of Lords.
— Como você se trata! — não pôde deixar de exclamar.
— É preciso — disse ela, voltando-se para ele com seu robe de veludo verde. — É a única compensação que minha profissão oferece. Depois não há a menor garantia de que isso continue, de modo que eu tenho de aproveitar o momento o mais que posso.
Vito preparou o uísque e foi até as estantes. Eram todos livros modernos de ficção, uns bons, outros ruins.
— Já leu tudo isso?
— Em geral, passo o dia todo sem ter o que fazer.
— Posso preparar-lhe um drinque?
— Não — disse ela. — Deixe que eu mesma preparo.
Colocou num copo um pouco de creme de cassis, alguns cubos de gelo e, depois, soda. Levantou o copo:
— Ao advogado mais competente de Nova York.
— Obrigado — disse ele, sorrindo. Ergueu também o copo num brinde: — E à mais encantadora cliente que um advogado já teve a sorte de servir.
— Muito obrigada — disse ela. — E agora? Como é que eu me visto? Aonde é que vamos?
Ele acompanhou-a até a porta do quarto e disse:
— Pode caprichar. Vamos ao Clube Shelton, onde tenho de me encontrar com um cliente.
— O Shelton? Estamos realmente nas alturas.
— Tudo do melhor — disse ele, rindo.
Ela tirou o robe e sentou-se diante da penteadeira. Ele arregalou os olhos. Ela fizera isso naturalmente. Estava apenas com um sutiã sem alças, calças e longas meias de seda presas a uma cinta-liga. Olhou para ele e disse maliciosamente:
— Desculpe por estar com as roupas de trabalho.
Ele cobriu os olhos com as mãos e disse:
— Dentro de um minuto, estarei de novo normal. Acontece que não estou habituado a mulheres.
Ela riu, começando a maquilar-se.
— Você é ótimo, sabe disso, Hank?
— Obrigado, Maryann.
— Estou falando sério. Poucos são os homens de quem eu gosto, pois na sua maioria não passam de animais.
Vito pensou que não havia ninguém melhor que ela para fazer esse julgamento e disse:
— Espero que possamos ser amigos.
— Também espero — disse ela com sinceridade —, mas duvido.
— Por quê? — perguntou ele, surpreso.
Ela se levantou e voltou-se para ele. Uma indefinível transformação se operara nela. Vito sentiu as têmporas latejarem. À luz suave do quarto, ela parecia ter-se tornado de repente uma estátua erótica. Os seios eram cheios e firmes, a curva do ventre quente e provocante e as pernas pareciam hastes de estranhas flores. Vito sentiu a boca seca. Levou o copo à boca não para beber, mas para refrescar os lábios.
— Você é muito bela! — murmurou ele embevecido.
— Sou mesmo? — perguntou ela, com um sorriso. — Mas não muito. As pernas são compridas demais, o busto é cheio demais, os ombros são largos demais, os olhos são grandes demais, o queixo é muito quadrado, as maçãs do rosto são muito salientes e a boca é grande demais. Tudo é errado, de acordo com os padrões reconhecidos. Apesar disso, você diz que eu sou bela.
— E é!
Ela o olhou com firmeza.
— Tudo isso representa outra coisa, não beleza. O que você quer dizer é que eu sirvo para outra coisa, não é?
— Existe outra medida para a beleza?
O sorriso desapareceu dos lábios dela.
— E isso mesmo que eu quero dizer. E é por isso que duvido que possamos ser amigos. No im, vai acabar nisso.
— Posso dizer que a conheço — murmurou ele suavemente. — Você não quer que seja de outra maneira. É sua única arma. É a sua maneira de ser igual aos outros.
Ela o olhou por um momento e voltou para a penteadeira. Pegou uma caixa de pó de arroz e estendeu-a para Vito.
— Quer empoar-me as costas? Talvez seja diferente de todos os outros. É mais inteligente.
Mas ele voltou para a sala, dizendo:
— Se temos de ser amigos, empoe você mesma suas costas. Afinal de contas, sou humano.
Quando Maryann saiu do quarto, ele se levantou e deu um assobio de admiração. Ela usava um vestido simples de lamê dourado que deixava um ombro descoberto, colava-se levemente ao seu corpo e descia até o meio das pernas. As meias eram de seda finíssima e os sapatos, dourados. Usava nas orelhas pequenos brincos de ouro em forma de coração e no pescoço uma pedra que parecia um topázio, suspensa de uma corrente de ouro. Os cabelos claros cintilavam em contraste com o dourado mais forte do vestido.
— Gosta? — perguntou ela.
— Fabuloso!
Ela tirou o sobretudo de Vito do armário e colocou sobre os ombros uma estola de marta.
— Pronta? — perguntou ele, sorrindo, ao pensar na cara de espanto de Ross quando a visse.
— Sempre pronta — respondeu ela.
Quando iam se dirigindo para a porta, o telefone começou a tocar.
— Não vai atender? — perguntou Vito.
— Não. Deve ser algum cliente que não sabe que resolvi ficar de folga esta noite.
Entraram no táxi e ele deu o endereço ao chofer. Ela passou a mão pelo braço dele, e Vito sentiu o seu delicado perfume.
— Que é que você quer mesmo da vida, Maryann?
— Muitas pessoas me fazem a mesma pergunta. Quer a resposta convencional ou a verdade?
— A verdade, já que vamos ser amigos.
— O mesmo que todas querem. Amor. Um lar. Família, segurança. Casamento. Não sou diferente de qualquer outra mulher.
— Mas...
Ela interrompeu-o.
— Ia dizer que sou uma prostituta, não é?
Foi como se ela lhe tivesse lido os pensamentos.
— Mas isso não me torna um ser humano de segunda classe. Sinto tudo o que as outras sentem. Sangro como as outras quando me corto, choro como elas quando alguma coisa me dói. Trabalho tão arduamente na minha pro issão quanto as outras mulheres nas que exercem. E mais difı́cil ser uma boa prostituta do que ser uma boa secretária.
— Como foi então que nunca tentou outra coisa?
— Como pode saber o que eu tentei? Por que você é advogado e não médico? Porque é melhor como advogado. Pois bem, eu sou melhor como aquilo que sou.
— Sou advogado porque é o que eu quero ser, porque foi para isso que eu nasci.
— Então falemos como pro issionais. Durante toda a minha vida, lutei contra isso. Ainda era garotinha quando os rapazes começaram a perseguir-me. Eu resistia e lutava. Alguém me disse que era para isso que eu tinha nascido. Não acreditei, mas hoje sei que a pessoa tinha razão.
Vito bateu-lhe delicadamente na mão. Cada vez gostava mais daquela garota. Tinha uma forma de honestidade bastante curiosa.
— Espero que algum dia consiga o que deseja, Maryann.
Ela esperou no restaurante enquanto Vito entregava na chapeleira o sobretudo e o chapéu. Quando se aproximaram, Ross estava de costas para eles, conversando com uma morena sentada ao seu lado.
Vito se aproximou levando Maryann pelo braço e tocou nas costas dele.
— Ross.
Ele se voltou sorridente, com os olhos brilhantes.
— Hank!
— Ross, quero apresentar-lhe Maryann Flood. Maryann, este é Ross...
Não concluiu as apresentações. Ross ficou de repente muito pálido e Vito teve a impressão de que ele fora atacado de algum mal súbito, tamanha era a agonia estampada no seu semblante. Mas os olhos estavam vibrantes, cheios de um desejo que Vito nunca vira antes. Por fim, Ross murmurou com voz trêmula de emoção:
— Mar... Marja!
Vito olhou para Maryann. Também ela estava muito pálida sob a maquilagem, mas tinha mais domínio do que Ross. Estendeu a mão para ele.
— Ross! Há quanto tempo!
— Sete anos, Marja! — disse ele. — Sente-se, Hank.
Sentaram-se todos.
— Criamo-nos juntos, Hank — explicou Ross, olhando para Maryann. — Lembra-se do que eu lhe disse pelo telefone? Pois bem, esta é a única garota no mundo de quem eu acreditaria o que você me disse!
Vito olhou-os. Havia em ambos a mesma vitalidade agressiva. Eram tão semelhantes nas suas diferenças que poderiam ter vindo do mesmo molde, com apenas um toque final para distingui-los. Ross voltou-se para ela como se ninguém mais existisse e murmurou:
— Conte-me tudo!