79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 41 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 4

A morena que fazia companhia a Ross estava aborrecida. Pela atenção que lhe tinha sido dispensada durante o jantar, ela bem poderia estar longe dali. Pouco lhe interessava o que Ross e Maryann tinham feito quando eram garotos.

Mas Hank Vito se interessava. Aquilo explicava uma porção de coisas a respeito de Ross e a respeito de Maryann. Eram coisas que o haviam intrigado. Foi arquivando em silêncio as reminiscências de ambos. Era colecionador de informações sobre as pessoas. Na sua profissão, essas informações prestavam às vezes inestimáveis serviços.

Uma coisa ele viu sem demora: teria de esperar a sua vez com Maryann. Se tinha havido um caso inacabado entre duas pessoas era entre aqueles dois. Em dado momento, olhou para a morena, sorriu e disse:

— Quer dar o fora comigo e deixar esses dois entregues às suas recordações?

A garota lhe retribuiu prontamente o sorriso.

— Acho que é o mais acertado, Sr. Vito. As recordações dos outros são tão desinteressantes...

Vito não concordava com ela, mas levantou-se.

— Então, vamos!

Ross levantou os olhos e disse:

— Mas ainda não tratamos dos nossos negócios, Hank!

Hank sorriu.

— Se puder apareça no meu escritório amanhã bem cedo. Boa noite, amiga — disse, estendendo a mão para Maryann.

— Boa noite, advogado — disse ela, com um sorriso cordial.

Ross viu-o sair e disse a Maryann:

— Venha sentar-se junto de mim.

Ela passou em silêncio para a cadeira onde a morena havia se sentado.

— Mais um drinque? — perguntou-lhe Ross, segurando-lhe a mão.

— Não, muito obrigada.

— Pois vou tomar um — disse ele, pedindo outro uísque ao garçom. — Como foi que conheceu Hank Vito?

— Tive um caso difícil, precisei de um advogado e fui procurá-lo.

— Pois foi procurar o que havia de melhor. Ele cobra caro, mas não há ninguém que se compare com ele.

— Com o tempo, o mais caro acaba saindo o mais barato.

— Ele também é meu advogado — disse Ross, que acrescentou: — Trabalho para o sindicato. Sabe o que é isso?

Ela fez um sinal afirmativo.

— Mas eu estou limpo. Só trato de atividades legı́timas. Agora mesmo, querem que eu vá a Los Angeles para instalar uma empresa de construção. Era sobre isso que eu queria conversar com Hank. Lembra-se de Joker Martin?

— Lembro-me.

— Ele é uma das iguras do sindicato. Eu antes trabalhava para ele, mas agora sou independente. Convenci-o de que trabalho melhor sozinho. Ele foi a única pessoa que me deu um emprego quando meu velho brigou comigo.

— Quer dizer que está ganhando bem?

— Sem dúvida, menina. Há um bocado de dinheiro para se ganhar e eu estou na fila.

— Se o exército não o pegar antes.

— Não me pegará.

— Tem tanta certeza?

— Quando a gente conhece bem os médicos, é fácil livrar-se da convocação.

— Não sei, Ross... Tenho sabido de casos em que nada adiantou.

— Mas, minha filha, eu tenho um seguro contra a convocação. Uma perfuração no tímpano esquerdo que vale um dinheirão.

— Você não mudou nada, Ross — disse ela rindo. — Sempre acha um jeito para tudo.

De repente, sentiu-se extremamente cansada. Ross lhe lembrava o passado e muitas coisas de que ela queria esquecer-se. Pegou a estola.

— Está icando tarde, Ross. Acho que vou para casa.

— Vou levá-la — disse ele, prontamente. — Meu carro está aí fora.

— Com gasolina no tanque?

— Claro! — disse ele, rindo. — É com Ross que você está falando, lembra-se?

 

Ela nunca pudera habituar-se ao blackout da cidade imposto pela guerra e à maneira pela qual isso fazia tudo parecer silencioso e morto. Deu seu endereço a Ross e recostou-se no carro como se estivesse fora da realidade, sentindo-se muito longe das pessoas e dos lugares que conhecia.

Parecia-lhe que estavam rodando havia uma infinidade de horas quando o carro parou. Abriu os olhos e viu que não estava diante do seu edifício.

— Ross! — disse ela severamente.

— Ora, querida! Há tanto tempo que não nos vemos! Que mal faz matar as saudades?

Maryann olhou para fora e viu o rio, onde de quando em quando se refletiam algumas luzes esparsas. Estavam em Riverside Drive, onde tinham ido tantas vezes juntos. Sentiu o braço dele passar-lhe pelas costas e disse:

— Não, Ross! Já passou mesmo tanto tempo que não se pode mais voltar ao que se era antes. Por favor, leve-me para casa.

Ela o viu franzir a boca no ar de amuo e arrogância que havia conhecido tão bem. Mas pôs o carro em movimento e dentro em pouco estavam à porta do prédio.

— Não me convida para um drinque, Marja? Pelo menos, para lembrar os velhos tempos?

— Está bem — disse ela com relutância. — Só um drinque.

Entraram no apartamento e ela disse:

— Há bebidas aí na mesinha ao lado.

Colocou o sobretudo dele em cima de uma cadeira e entrou no quarto. Voltou alguns minutos depois com um robe de veludo verde.

Ele olhou para ela e sorriu.

— Você ainda é a maior.

— Obrigada — disse ela secamente.

— Que é que há, menina?, — perguntou ele, franzindo as sobrancelhas. — Ainda está zangada comigo pelo que aconteceu entre nós há tanto tempo?

Ela sacudiu a cabeça.

— Não, Ross, não estou mais. Já me aconteceu tanta coisa depois, que não posso mais zangar-me com isso.

Ele estendeu a mão para pegar-lhe o braço, mas ela se esquivou.

— Então por quê? Ainda tenho por você aquela grande paixão que sempre tive.

Ela sorriu.

— Eu sei. A mesma grande paixão que sempre teve por todas.

— Com você, era diferente, Marja. Sempre foi diferente.

— Sério, Ross? — perguntou ela, sarcasticamente.

Ele largou o copo de uísque e foi para junto dela. Segurou-a com força pelos ombros.

— Ainda a mesma, hem? Provocando e fugindo!

Ela o olhou com olhos sem medo.

— E você ainda é o mesmo Ross, impulsivo e violento, não é?

— Estou mais velho agora. Você não pode mais livrar-se de mim como fez da primeira vez.

Puxou-lhe o corpo e ela passou os braços em torno do pescoço dele.

— Assim, sim — disse ele, sorrindo, e inclinou a cabeça para beijá-la.

Sentiu uma dor súbita nas têmporas. Com uma praga deixou-se escorregar até o chão e olhou para ela. A dor havia passado logo que ele a largara, mas havia uma sensação desagradável no pescoço.

— Cachorra! — exclamou ele. — O que foi que você fez?

Ela sorriu.

— Uma coisa que um amigo meu na marinha me ensinou. É um golpe de judô num dos pontos de pressão.

Ele se levantou, pegou o copo de uísque e disse:

— Você não mudou nada mesmo.

Sem responder, ela foi até a mesa das bebidas e serviu-se de um drinque.

— Que é isso?

— Cassis e soda.

— Parece remédio — disse ele, fazendo uma careta.

— Eu gosto.

Ross correu os olhos pelo apartamento e disse:

— Muito bonito isto aqui.

— Obrigada.

— Deve estar também fazendo um bom dinheiro.

— Não me queixo.

— Que é mesmo que você está fazendo?

Ela o olhou por um momento, mas justamente então o telefone tocou. Ela foi atender e tirou o fone do gancho. Cobrindo o fone com a mão, olhou-o bem nos olhos e disse:

— Sou puta.

Ross sentiu a revelação como se fosse uma pancada brutal no peito. Muito ao longe, ouviu-a dizer ao telefone:

— Não, querido, hoje não. Estou ocupada. Telefone amanhã, sim?

Desligou o telefone, atravessou a sala, pegou o sobretudo de Ross e entregou-o a ele.

— Quer fazer o favor de sair agora, Ross? Estou muito cansada.

Ele não se moveu. Continuou com os olhos fitos nela. Meteu a mão no bolso e tirou um grande maço de notas. Jogou o dinheiro aos pés dela e exclamou:

— Compro o resto da sua noite.

 

Estavam deitados em silêncio na cama. Os remotos rumores noturnos da cidade infiltravam-se no quarto através das janelas fechadas. Ross virou-se para ela. A brasa do cigarro dela espalhava-lhe pelo rosto uma suave claridade vermelha.

Ross sentia um toque de tristeza no fundo da alma. Estendeu a mão para a dela e sentiu-a macia e fria. Lembrou-se do seu contato em outros tempos e da incontida exaltação que ela lhe causava.

— Marja — sussurrou ele e sentiu a leve pressão dos dedos dela em resposta.

— Marja, você não sentiu nada? Nada mesmo?

— Claro, querido. Você é um homem de verdade!

— Não, Marja! Não é isso que eu quero saber!

A sua voz era um grito de agonia. De repente, alguma coisa explodiu dentro dele, e Ross começou a chorar pelo que perdera, sacudido por soluços convulsivos.

Ela passou os braços por ele e pousou a cabeça dele em seu peito.

— Que é isso, menino? Não chore — disse ela com voz consoladora.