79 Park Avenue
Capítulo 15
Eram quase quatro horas da tarde quando a enfermeira saiu da enfermaria e chegou à sua mesa no corredor. Mike, que ali a esperava, levantou os olhos.
— Acho que pode voltar para o seu escritório, Sr. Keyes. A moça morreu — disse ela sem qualquer emoção.
Mike levantou-se e disse cansadamente:
— Que horror!
— Não podia escapar, coitadinha! Estava toda dilacerada por dentro. O miserável deve ter usado agulhas de crochê!
Ele apanhou o chapéu e disse:
— Naturalmente, vão fazer a autópsia. Telefonarei depois para cá a fim de saber do resultado.
Saiu pelo corredor como se tivesse chumbo nos pés. Florence Reese. Como teria sido a vida para ela? Não devia ter sido muito boa. E parecia apenas uma criança. Chegou à porta no momento em que o Capitão Millersen vinha entrando.
— Soube mais alguma coisa, Mike?
— Nada. Ela não pôde mais falar. E você?
O rosto de Millersen se fechou numa máscara impenetrável.
— Falei com o chefe da contabilidade da agência de modelos. Nada sabia a respeito de Florence Reese. Fui verificar no hotel. A moça chegou a Nova York há cerca de um ano, vinda de uma cidade qualquer da Pensilvânia. Viveu em grandes dificuldades até há coisa de seis meses. Depois disso, pareceu ter-se arrumado na vida e estar ganhando bem.
— E a família dela? — perguntou Mike, indo com Millersen para o carro.
— Falei com os pais dela pelo telefone há uma hora. Já devem estar em viagem para cá. Pensavam que a filha tinha vencido em Nova York.
— Pobres coitados.
Quando chegou ao escritório Joel Rader lhe disse:
— Telefonaram para você há uma hora mais ou menos.
— Quem foi?
— Uma mulher daquela agência, Park Avenue Models, a mesma que você mandou Frank veri icar. Parece que a moça fez alguns trabalhos para a agência e a mulher queria saber se havia alguma coisa que ela pudesse fazer.
— Nada! Ninguém pode fazer mais nada. A moça morreu.
— Que pena! Era bonita?
Mike encolheu os ombros.
— Era difícil dizer no estado em que ela se achava. Devia ter sido. Era tão menina ainda.
Redigiu um breve relatório sobre o fato, assinou-o e levantou-se.
— Vou-me embora. Estou arrasado.
— Então evite ver o Velho. Ele está em pé de guerra. Fez um barulhão com Alec por uma coisinha à toa.
— Pobre Alec. A coisa sempre estoura nas costas dele. Quer entregar este relatório para mim, Joel?
— Certo.
Joel levantou os olhos da sua mesa e perguntou a Mike:
— Em que deu o caso daquela moça que você investigou na semana passada, a tal que morreu de um aborto?
— Não deu em nada. A moça morreu. Por que você pergunta?
— Veja isto aqui — disse Joel, entregando-lhe uma folha de papel.
Era um relatório da polícia sobre uma diligência. Algumas mulheres tinham sido presas numa festa pela Divisão de Repressão ao Vício. Uma delas dissera que trabalhava para a Park Avenue Models. Mais tarde se desdissera. Todas elas tinham sido soltas na manhã seguinte mediante fiança. Tinham sido representadas em juízo por um advogado do escritório de Henry Vito. A festa se realizava no apartamento de John Gellard, um industrial. A batida da polícia se efetuara em consequência de queixas de pessoas não especificadas contra Gellard. Este fora também solto mediante fiança, tendo como advogado o próprio Henry Vito.
Quando Mike acabou de ler, Joel perguntou:
— Não foi a Park Avenue Models a agência mencionada pela moça que morreu?
Mike assentiu com a cabeça e tornou a ler o relatório.
— Que é que acha, Mike?
— Acho que é coincidência demais. Vou conversar com Frank Millersen sobre isso. Talvez ele possa esclarecer alguma coisa.
— Conte-me tudo depois.
Frank Millersen levantou os olhos quando viu Mike entrar.
— Alô, Mike! Que é que há?
— Já viu isto, Frank? — perguntou ele, entregando-lhe o relatório.
Frank leu tudo rapidamente e perguntou com o rosto impassível:
— E daí?
— Sabe a esse respeito alguma coisa que eu não sei?
— Não sei muita coisa — disse Frank, pondo o cachimbo na boca. — Uma diligência comum da Repressão ao Vício. Um dos detetives falou comigo. Deve ter sido uma farra e tanto. Ele me disse que quando chegaram lá as garotas estavam todas...
— Não é disso que eu quero falar. Uma das garotas mencionou a Park Avenue Models. É a mesma agência para a qual Florence Reese disse que trabalhava.
— Não creio que isso tenha muita importância. Muitas dessas garotas conhecem a agência de nome e se servem dela como proteção.
— Talvez. Mas por que depois negou o fato? Outra coisa que me espanta é o fato de poderem pagar um advogado caro como Vito. Ele não trabalha por pouco dinheiro, e é evidente que essas pequenas não podem ter dinheiro para contratar seus serviços.
— De acordo com o relatório ele também foi advogado de Gellard. Este deve ter pago por todas elas, por questão de legítima defesa.
— Não sei, Frank. Tudo isso está me parecendo muito esquisito.
Frank sorriu.
— Não pense mais nisso, Mike. Quando você tiver experiência bastante no escritório, terá encontrado tantas dessas coincidências que deixará de preocupar-se com elas.
— Não posso me esquecer daquela pobre moça do hospital. Não foi aquele triste fim que ela veio procurar nesta cidade.
— Claro que não foi. Mas uma moça direita nunca se mete em dificuldades dessa natureza. Falei com o pai dela quando veio buscar o corpo. Disse-me que ela sempre foi rebelde.
— Uma pessoa rebelde nem sempre é uma mulher má. Gostaria de poder esquecer esse caso.
— Que é que pretende fazer?
— Não sei ainda. Vou pensar no caso e, se chegar a alguma conclusão, darei um telefonema para você amanhã de manhã.
— Faz muito bem — disse Frank, sorrindo. — Uma boa noite de sono faz a gente ver melhor as coisas. De qualquer maneira, seja qual for a sua decisão, estarei aqui amanhã.
— Obrigado, Frank.
Mike saiu da sala do capitão, mas quando chegou ao corredor, percebeu que apanhara outro papel em cima da mesa além do relatório. Voltou.
Abriu a porta do detetive e viu que o mesmo estava falando ao telefone.
— Espere um minuto, Mary — disse o detetive, cobrindo o fone prontamente com a mão.
Mike olhou-o com estranheza. O rosto do detetive, habitualmente tão corado, havia ficado terrivelmente pálido.
— Desculpe, Frank. Não sabia que você estava falando ao telefone. Peguei este papel por engano em cima da sua mesa. E vim devolver — disse ele, colocando o papel em cima da mesa.
— Não tem importância, Mike — disse o outro, com um sorriso contrafeito. — Estou falando com a patroa. Obrigado.
Mike saiu da sala e fechou a porta. Só depois de ter-se afastado um pouco foi que ouviu de novo o murmúrio da voz de Frank ao telefone. Voltou ao escritório e sentou-se.
— Então? — perguntou Joel.
— Millersen acha que o fato não tem importância.
— Frank deve saber. Ele é técnico no assunto.
Mike continuou pensativo e, ao fim de um instante, perguntou a Joel:
— Sabe por acaso o nome da mulher de Frank?
— Claro — disse Joel, rindo. — Sra. Millersen.
— Não estou brincando, Joel. Sabe?
— Por quê?
— Simples curiosidade. Ele estava falando pelo telefone com ela quando eu entrei.
— Elizabeth — disse Joel. — Uma noite, tomei alguns drinques com eles. Ele a trata de Betty.
Mike acendeu um cigarro e virou a cadeira para a janela. Na rua, já havia homens andando em mangas de camisa. O verão chegava a Nova York prometendo um calor de fornalha. Betty. Por que Millersen teria mentido?
Que espécie de empresa era a tal Park Avenue Models? Nunca ouvira falar nela e agora duas vezes em pouco tempo o nome lhe aparecera. Pegou o telefone e pediu à telefonista que fizesse uma ligação para Alec Temple, que acabara de ser transferido para a Seção de Atividades Ilegais.
— Alô, Mike — disse Alec pelo telefone.
— Preciso de um favor seu, Alec. Quero que me investigue uma companhia chamada Park Avenue Models Inc., na Park Avenue, 79.
— Quer saber o quê?
— Tudo o que você puder apurar. E muito importante que ninguém mais saiba disso, especialmente o escritório de Millersen. Creio que desta vez vamos dar-lhes uma lição.
— Está certo, Mike — disse Alec, rindo. Havia sempre rivalidade entre os adjuntos da promotoria e o pessoal da polı́cia designado para trabalhar com eles. — Compreendo.
— Com a maior urgência possível, Alec.
— Amanhã de manhã está bem para você?
— Está ótimo. Muito obrigado.
Mike desligou e quase no mesmo instante o telefone tocou. Atendeu.
— Mike? Quem fala é Frank Millersen.
— Pode dizer, Frank.
— Estive pensando e acho que podemos fazer uma investigação naquela agência de modelos, se você quiser.
— Ora, nem pense nisso, Frank. Já estou achando que você tem razão. Pura coincidência. Desculpe-me por tê-lo incomodado.
— Está bem, Mike — disse Millersen, com voz hesitante. — Se acha assim...
— Acho, Frank. De qualquer maneira, muito obrigado.
— De nada.
Desligou, deixando Mike com a impressão de ter percebido um tom de alívio na voz do outro.