79 Park Avenue
Capítulo 11
O café estava fervendo na chaleira quando bateram na porta.
— Quem é? — perguntou ela, sem sair de junto do fogão.
— Eu — disse uma voz abafada. — Eu, Mac.
— A porta está aberta. Pode entrar.
Mary serviu duas xícaras de café e levou-as para a mesa. Mac entrou com alguns jornais na mão.
— Já leu? — perguntou.
— Não. Estou muito ocupada e não tive tempo para isso.
— Pois devia ler. Você está em todos os jornais.
— Eu? — exclamou ela, incrédula.
— Sim. Todos os jornais dizem que você vai casar-se com Gordon Paynter.
Ela encolheu os ombros e tomou um gole de café.
— Não sei por que foram publicar isso. Que importância tem? Há casamentos todos os dias.
— Mas não com Gordon Paynter! Você sabe que ele é um dos homens mais ricos do Estado?
Ela não respondeu. Pegou os jornais e começou a passar os olhos por eles. Num deles, havia um flagrante dela ao sair do cartório de licenças em companhia de Gordon. Nem havia notado quando o fotógrafo batera o instantâneo. Lembrava-se do que Gordon dissera antes de irem ao cartório: "Vão fazer grande agitação com o caso. Mas nem ligue. Nada do que fizerem poderá alterar meus sentimentos a seu respeito".
Ela olhou para ele com os olhos sombrios e foi tomada subitamente de um grande medo.
— Talvez fosse melhor não fazermos isso, Gordon. Seria bom esperarmos um pouco. Você não sabe de nada a meu respeito.
— Sei de tudo o que quero saber. Pouco me importa a vida que você levou até agora. Só quero saber o que você representa para mim. No fundo, é só o que tem importância...
O gerente tomou o café.
— E verdade, Mary? Vai mesmo casar-se com ele? — Vou.
— Que sorte a sua! E ele...
Ela não o deixou concluir a pergunta.
— Ele diz que isso não tem importância, que nada mais tem importância — disse ela, esquivando-se à verdade.
— Ele deve ser mesmo louco por você — disse o gerente, levantando-se.
— Bem, isso quer dizer que vou perder um inquilino.
Ela o olhou um tanto surpresa. Havia uma alteração na sua maneira de tratá-la. Era uma alteração sutil, mas nem por isso menos real. Ela sentia uma subserviência que até então nunca existira.
— Ainda não, Mac — disse ela. — Só sairei daqui três dias antes do casamento.
Ele foi até a porta, abriu-a e disse:
— Se precisar de alguma coisa, Mary, basta chamar-me que eu virei correndo.
— Obrigada, Mac.
— Não quero que se esqueça de que sempre fui seu amigo.
— Não me esquecerei.
Ele saiu e ela levou as xícaras para a pia. Nome e dinheiro significavam muito. Apertou os lábios numa careta amarga. Estava decidida. Mac havia-lhe mostrado o caminho. Queria as duas coisas. E ai de quem atravessasse o caminho dela.
Gordon saiu do chuveiro, pegou uma toalha e começou a enxugar-se, cantarolando, cheio de satisfação. Só faltava um dia.
Olhou para o espelho enquanto se penteava. Os cabelos estavam começando a rarear na frente, mas ainda pareciam fartos e ondulados. Não sabia até que ponto a hereditariedade influía nessas coisas. Seu pai ficara calvo antes dos trinta. Riu para o espelho, contente consigo mesmo.
Começou a vestir-se. O físico ainda estava muito bom. Não era esbelto demais, mas não estava flácido. Mary lhe recomendara que bebesse menos. Nisso ela estava cena. Ele sempre soubera que a bebida não lhe fazia bem, mas tinha continuado a beber porque não tinha outra coisa para fazer.
Foi até o quarto e apanhou a camisa que Tom colocara em cima do travesseiro. Um leve cheiro se evolou do travesseiro — o perfume que ela usava. Sentiu uma onda de desejo acelerar-lhe o sangue. Ela era perfeita. Ninguém se ajustara tanto a ele quanto ela.
Podia ouvir-lhe a voz terna e apaixonada murmurando-lhe ao ouvido: "Mate-me, querido! Sufoque-me!" A pele lhe latejava como se ainda lhe estivesse sentindo as unhas. Nunca se sentira mais homem.
— Sr. Gordon — chamou Tom do andar de baixo.
— Que é que há, Tom?
— Há um cavalheiro aqui que deseja vê-lo.
— Quem é?
— Não quis dizer o nome. Diz que quer conversar com o senhor confidencialmente a respeito da Srta. Flood.
Gordon franziu a testa. Que poderia querer o homem? Devia ser algum repórter.
— Diga-lhe que espere. Já vou descer.
Alguns minutos depois, chegou à sala de estar. Um homem se levantou de uma cadeira e perguntou:
— Sr. Paynter?
Gordon assentiu com a cabeça, esperando que o homem se apresentasse.
— Chamo-me Joe — disse o homem. — O sobrenome não importa. Vim apenas fazer-lhe um favor. Que é que sabe sobre a moça que se chama Mary Flood?
Gordon sentiu uma cólera instintiva crescer dentro dele e exclamou rispidamente, apontando a porta:
— Saia imediatamente daqui!
O homem não se moveu.
— Creio que tem o direito de saber alguma coisa, já que vai se casar com ela.
— Sei tudo o que preciso saber! — disse ele, caminhando nervosamente para o homem. — Saia!
O homem moveu-se nervosamente e meteu a mão no bolso, tirando algumas fotografias que passou a Gordon.
— Antes de perder a calma, acho melhor ver isso aí.
Gordon olhou. Eram fotogra ias de duas mulheres nuas. Sentiu um frio correr-lhe pela espinha. Uma delas era Mary. Olhou para o homem e perguntou com voz trêmula:
— Onde conseguiu isso?
— Vou lhe contar tudo. O verdadeiro nome dela é Marja, Marja Fluudjincki. Saiu de um reformatório em Nova York há menos de um ano. Posso conseguir-lhe os negativos dessas fotografias, se o senhor quiser.
Gordon rangeu os dentes. Chantagem. Atravessou a sala e pegou o telefone.
— Polícia — disse ele à telefonista.
— Não adianta nada fazer isso — disse o homem. — Estou lhe oferecendo as fotografias como um favor especial. Se chamar a polícia, os jornais saberão de tudo, darão publicidade ao caso e todo mundo irá divertir-se à sua custa.
Gordon largou o telefone e deixou-se cair numa cadeira. Ela devia ter dito a ele. Não era direito. Olhou para o homem e disse:
— Como posso saber se estas fotografias não são falsas?
— Vou dar-lhe uma prova.
Foi até a porta e chamou:
— Evelyn! Venha cá!
Um instante depois, entrou na sala uma mulher de cabelos pretos bem curtos. Gordon olhou para as fotografias. Era a outra que estava com Mary.
— Conte tudo a ele — disse o homem.
— Mas, Joe... — murmurou nervosamente a mulher.
— Conte tudo! Viajamos a noite toda de Nova Orleans até aqui e não podemos perder a viagem! Conte!
Evelyn olhou para Gordon e disse:
— Conheci Marja na Casa Correcional Geyer no Estado de Nova York. Treinamos um número e viemos para cá. Trabalhávamos em festas só para homens e clubes particulares. Quando a polícia desconfiou e começou a rondar-nos, Joe e eu saímos da cidade. Mary ficou aqui e nós soubemos que...
Gordon levantou-se da cadeira e atravessou rapidamente a sala. Abriu o armário do bar e tirou uma garrafa de uísque. Serviu um copo, sentindo uma dor aguda dentro do peito.
— Querem beber? — perguntou ele.
— Acho que não faz mal algum — disse o homem com um sorriso forçado. — Você não quer, Evelyn?