79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 24 de 55

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79 Park Avenue

Mary

 

Livro dois

1

Estava de pé à porta aberta, com os cabelos dourados cintilando irisadamente à luz do sol. Hesitou um momento, passou a maleta da mão direita para a esquerda a im de cumprimentar a mulher que estava um pouco atrás dela.

— Adeus, Sra. Foster — disse ela com voz rouca.

A mulher apertou-lhe a mão com força quase masculina.

— Adeus, Mary. Cuide-se bem.

— Fique descansada, Sra. Foster — disse Mary com um sorriso. — Aprendi muito no ano e meio que passei aqui.

— É o que espero, Mary. Não gostaria de vê-la de novo em dificuldades.

O leve sorriso desapareceu dos lábios de Mary.

— Não verá — disse ela tranquilamente e encaminhou-se para a porta. A luz brilhante do sol a ofuscou um pouco, e ela parou no alto da escada para habituar os olhos.

Ouviu a porta fechar-se às suas costas com um pesado barulho metálico. Sentiu um assomo de liberdade, tão embriagador quanto um bom vinho. Virou-se e murmurou para a porta fechada:

— Nunca mais passarei por aqui. Aprendi muito.

Em seguida, dirigiu-se para a rua.

Estava alta e delgada no casaco ralo que as autoridades lhe haviam dado. O vento do im de novembro comprimia-lhe o casaco de encontro ao corpo, delineando-lhe os seios irmes, a cintura ina e os quadris suavemente arredondados. Andava com facilidade sobre as pernas ágeis e irmes.

O velho sentado na casinha ab lado do portão levantou-se quando a viu aproximar-se. Sorriu para ela.

— Vai voltar para casa, Marja?

— Não tenho mais casa, Vovô. Mudei tudo. Até o nome. Sou Mary agora, lembra-se?

— Lembro-me, sim. Mas não adianta. Para mim você ainda é Marja. O velho sangue polonês lhe corre nas veias, e isso você não pode mudar.

— Mudarei muitas coisas até ficar satisfeita.

— Mas não mudará a si mesma — disse ele, abrindo o portão. — Para onde é que vai?

— Não sei. Mas a primeira coisa que vou fazer é ir para um hotel e ficar duas horas dentro de uma banheira sem ninguém para me tirar de lá. Depois, vou comprar algumas roupas em que me sinta bem e jogar fora esses trapos. Em seguida, vou comer um grande jantar e ir a um cinema, talvez o Radio City. Depois, tomarei dois sorvetes bem grandes e voltarei para o hotel e dormirei até as duas horas da tarde.

— E depois disso, que é que vai fazer?

— Procurar emprego e começar a trabalhar.

— Faça isso em primeiro lugar, que pode precisar do dinheiro. — Acabou de abrir o portão e disse: — O mundo a espera, Marja. Desejo que ele seja bom para você.

Ela beijou o rosto do velho e disse:

— Adeus, Vovô.

— Adeus, Marja — disse ele, com a voz cheia de tristeza.

— Sabe que você é a única coisa aqui de que levo saudades, Vovô?

— É mesmo? — murmurou ele, rindo. — Aposto que diz isso a todos os rapazes.

— Não, Vovô. Só a você. E vou lhe dar uma coisa que me deram para que se lembre de mim.

— Não, Marja — disse o velho.

— Não? Por quê?

— Tudo o que faço é pelas minhas meninas. Para mim, não preciso de nada. Mas sei que elas gostam que alguém se preocupe com elas, ainda que seja apenas um velho como eu. E muito ruim estar aqui dentro, vendo apenas outras mulheres e com a impressão de que ninguém as quer, nem a famı́lia, nem ninguém. Assim, preocupo-me com elas, repreendo-as e elas acham graça e sentem-se bem.

Ela tornou a beijar-lhe o rosto.

— Obrigada, Vovô.

— Seja boa, Marja.

— Vou fazer o possível.

O portão se fechou depois da sua passagem, e ela chegou à rua. Saiu do passeio e, no meio da rua, bateu com os calcanhares no chão. Não houve barulho algum. Era asfalto e não cimento. Passara um ano e meio pisando no cimento e ouvindo a todos os instantes o rumor dos próprios passos. Mas isso tinha acabado, e ela continuou pelo meio da rua. Estava livre, livre de verdade.

Uma mão forte segurou-a e outra tomou-lhe a maleta. Uma voz conhecida disse então:

— Vai ser atropelada andando assim pelo meio da rua. Já se esqueceu de que existem automóveis?

Ela não teve de levantar os olhos para saber quem era. Esperava-o desde o momento em que saíra do portão. Não largou a maleta e disse com voz pausada, levantando lentamente os olhos:

— Há muitas coisas que se esquecem em um ano e meio, Mike.

— Vim buscá-la para levá-la para minha casa, Marja — disse ele, com um sorriso nervoso.

Ela não respondeu.

— Estou esperando aqui desde que amanheceu o dia.

Ela respirou fundo, sacudiu a cabeça e disse:

— Não! Não!

— Mas, Marja, eu...

Ela podia ver a tristeza que lhe enchia os olhos, mas arrancou a maleta das mãos dele e disse:

— Houve um engano de pessoa, Mike. Tudo está mudado, até o nome.

— Não quero saber o que foi que mudou, Marja. Não quero saber o que aconteceu. Você nunca respondeu às minhas cartas, mas vim para levá-la para minha casa.

Ela subiu para o passeio e olhou para ele.

— Quem foi que lhe pediu?

— Amo-a, Marja. E você disse que me amava.

— Éramos muito crianças naquele tempo e não sabíamos o que estávamos dizendo.

— Crianças! Você é muito mais velha do que era? Dois anos fazem tanta diferença assim?

— Fazem, Mike. Podem equivaler a mil. Cresci muito depressa.

— Eu cresci também, mas ainda tenho o mesmo amor por você. E sempre terei.

— Mas eu não.

— Que foi que fizeram com você, Marja?

Havia um profunda angústia na voz dele,

— Nada — disse ela, sacudindo tristemente a cabeça. Tudo veio de mim mesma. Está tudo acabado. Não podemos voltar ao que já passou. Nunca mais seremos crianças.

Começou a afastar-se dele, mas Mike a segurou pelos ombros.

— Por quê, Marja? Que foi que aconteceu?

Ela não respondeu.

— Ao menos em atenção ao que já representamos um para o outro, diga-me o que foi que houve!

Ele nunca mais poderia esquecer a máscara que caiu sobre os olhos dela naquele momento. Era como se de repente ficassem tão profundos que nada se refletia neles, nem mesmo o sol da manhã.

— Diga-me, Marja!

— Tive um filho, Mike. Enquanto estava aí, tive um filho e nem sei se é menino ou menina. Desisti dele, antes que nascesse. Quer ainda saber o que aconteceu, Mike?

Havia no rosto dele uma expressão de incredulidade.

— Quem foi o pai? — perguntou com voz entrecortada. — Ross?

— Não podia ser. Ele estava ausente, lembra-se?

O rosto dele era uma máscara de dor.

— Quer dizer que havia outros?

Ela não respondeu.

— Como pôde fazer isso, Marja? — perguntou ele com lágrimas nos olhos. — Você me amava.

— Houve outras coisas também, Mike — disse ela com voz fria e calma. — Havia lá dentro uma moça que gostava de mim. Ensinou-me a fazer coisas para ajudar o tempo a passar. Quer saber que coisas foram essas, Mike? Era divertido.

— Não quero saber — disse ele, com a voz trêmula. — O que está me dizendo é que Ross tinha razão e você era apenas...

Não conseguia dizer a palavra e ela disse por ele:

— Uma puta.

— E era, Marja? Você era o que ele dizia?

Ela não respondeu.

— Por que mentiu para mim, Marja? Eu teria feito tudo por você! Por que fez isso comigo?

— Nada disso tem mais importância, Mike. A verdade é aquilo em que se acredita e não o que nos dizem.

Um táxi apareceu na rua, e ela fez sinal ao motorista. O táxi parou, e ela disse:

— Deixe-me ir, Mike. O táxi está esperando.

Ele tirou as mãos dos ombros dela. Ela entrou rapidamente no táxi e fechou a porta. Quando o carro se afastou, ela olhou pelo vidro de trás para Mike. Ele continuava de pé, com os olhos fitos no táxi em que ela saía da sua vida. Sentiu as lágrimas subirem-lhe aos olhos. Lutou contra elas até sentir os olhos arderem. A liberdade era tantas coisas que ela já havia até esquecido. Era também gente que se amava e gente que se magoava. "Amo-o, Mike", murmurou consigo mesma.

— Para onde, moça?

A voz do motorista fê-la tirar os olhos do vidro.

— Hotel Astor, na Broadway — disse com voz trêmula.

Quando tornou a olhar pelo vidro, não o viu mais. De repente, não conseguiu conter as lágrimas. Ela não servia mais para ele. Muitas coisas haviam acontecido. Trazia aquela feia mancha e nunca mais se livraria dela.

Ele merecia alguém melhor. Uma mulher limpa, nova e resplandecente, que brilhasse como ele. Não alguém como ela, que só poderia privá-lo do que ele merecia.