79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 49 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 12

Mike entrou no escritório e tirou o chapéu. Jogou-o numa cadeira diante de sua mesa, com a testa rebrilhante de suor. Deixou-se cair então na cadeira da mesa.

— Que calor, hem? — disse Joel, da outra mesa.

— É, está quente demais para o mês de maio. Parece que este ano o verão vai ser terrível.

— E isso me derrota — disse Joel. — O meu fim de semana foi horrível. Não suporto mais esse calor. O Velho bem que podia exigir ar-condicionado para nossos escritórios.

Mike riu.

— Ele acha que os bons promotores têm de ser destilados do próprio suor.

— O que eu acho é que ele não sabe o que é suor, pois o sangue dele não tem força suficiente para isso. Mas tome. Isso aqui está à sua espera.

Mike recebeu o papel, olhou-o e exclamou:

— Diabo!

— Que é que há, rapaz? — perguntou Joel, sorrindo.

Mike levantou-se e apanhou o chapéu em cima da cadeira.

— Não me venha com conversa, Joel! Sei que você leu.

— Li, sim. Não sei do que você está reclamando. Vai dar um belo passeio de automóvel longe do centro da cidade e passar algum tempo num bom hospital limpo e fresco. Tem sorte de não ter de ficar neste escritório abafado e velho.

— Bolas! — disse Mike, saindo da sala, ouvindo ainda o riso de Joel. Apertou o botão do elevador e olhou de novo para o papel que tinha na mão.

 

"Suspeita de aborto."

 

As portas do elevador se abriram e ele entrou, continuando a ler.

 

"Florence Reese. Entrada no Hospital Roosevelt às sete horas e dez minutos do dia 10 de maiô de 1954. Hemorragia interna em consequência de aborto. Estado grave."

Saiu do elevador e entrou numa sala no im do corredor. Quando entrou, alguns homens levantaram por um momento os olhos dos jornais que liam. Atravessou a sala em direção a uma porta na qual se via no vidro fosco o nome: CAPITAO F. MILLERSEN. Abriu a porta e entrou.

— Alô, Mike — disse o homem sentado à mesa.

— Alô, Frank. Preciso de um dos seus homens para ir ao Hospital Roosevelt comigo. Suspeita de aborto criminoso — disse ele, jogando o papel em cima da mesa.

O Capitão Millersen leu o papel e disse, levantando-se:

— Eu mesmo lhe farei companhia neste caso, Mike.

Mike arregalou os olhos. Millersen só se envolvia pessoalmente com os casos importantes. Dizia-se que ele tinha um instinto infalível para perceber os casos importantes pelo faro.

— Quer mesmo vir comigo, Frank?

— Quero, sim. Estou cansado de ficar sentado aqui neste calor, sem fazer nada.

— Escute, Frank. Você sabe de mais alguma coisa a respeito desse caso, não sabe?

— Eu? — exclamou Millersen, acendendo um charuto. — Não sei de nada. Estou apenas farto disto aqui.

 

Um cheiro de desinfetante impregnava tudo enquanto eles seguiam pelo longo corredor de paredes esverdeadas. Acompanharam a enfermeira até uma sala. No fundo, uma cama estava escondida atrás de cortinas.

— É ali que ela está — disse a enfermeira.

— Está em condições de falar? — perguntou Mike.

— Ela está muito fraca. Tenha cuidado.

Mike passou por entre as cortinas, seguido de Millersen, e chegou ao lado da cama. Olharam por um momento em silêncio a jovem ali deitada.

Parecia estar dormindo. Os olhos estavam fechados e o rosto se mostrava tão pálido como se não houvesse sangue sob a pele. A boca estava aberta e os lábios, arroxeados. Mike olhou para o detetive, que lhe fez um sinal afirmativo, e disse então em voz baixa:

— Srta. Reese.

A moça não se moveu. Ele tornou a pronunciar-lhe o nome. Dessa vez, ela se moveu um pouco. Abriu lentamente os olhos. Estavam tão cheios de sofrimento que Mike não pôde perceber-lhes a cor. Os lábios dela se moveram, mas sem emitir qualquer som. Mike chegou mais perto da cama.

— Está me ouvindo, Srta. Reese?

Ela fez um sinal afirmativo quase imperceptível.

— Sou Mike Keyes e o meu companheiro é o Capitão Millersen. Somos do escritório do promotor público.

Houve um sinal de medo nos olhos da moça, e Mike se apressou em tranquilizá-la.

— Não há nada com a senhorita. Tudo está em ordem. Temos apenas de fazer-lhe algumas perguntas de rotina para ver se podemos ajudá-la.

O medo foi desaparecendo. Mike esperou um momento e pensou na cruel zombaria que eram suas palavras. Tudo estava em ordem... Pois sim! A pobre moça estava morrendo.

— Tem algum parente a quem quer que avisemos para vir fazer-lhe uma visita? — perguntou ele com um sorriso.

— Não! — disse ela, numa voz que era um sussurro.

— Onde mora, Srta. Reese?

— Hotel Allingham.

Era um dos mais baratos hotéis de mulheres do centro da cidade.

— Tem algum emprego?

Ela fez um sinal afirmativo.

— Que é que faz?

— Modelo.

Trocou um olhar com Millersen. Metade das moças desempregadas em Nova York eram modelos. A outra metade eram atrizes.

— Avulsa ou de agência?

— Agência.

— Qual é a agência?

— Park Avenue Models — respondeu a moça, e pela primeira vez desde que Mike chegara mudou de expressão. — Digam a Maryann...

Mike teve a impressão de que havia uma expressão de esperança no rosto da moça.

— Maryann? De quê? Onde?

A moça pareceu concentrar todas as forças que lhe restavam para falar.

— Maryann... na agência... Ela fará o que for preciso... Ela...

A voz da moça sumiu e ela caiu com a cabeça para o lado.

A enfermeira apareceu prontamente e tomou-lhe o pulso.

— Adormeceu — disse ela. — Terão de continuar as perguntas depois.

Mike olhou para Millersen. O rosto do detetive estava quase tão pálido quanto o da moça. Mike mudou imediatamente de opinião a respeito do capitão, que tinha a fama de ser insensível e duro.

— Que é que acha, Frank? — perguntou, quando saiu com ele de perto da cama.

— Não vamos apurar nada — disse Millersen.

— Por que diz isso? — perguntou Mike, surpreso.

— Tenho visto muitos desses casos, Mike. Nunca se consegue nada.

— Mas a moça está morrendo! Temos de fazer tudo para descobrir quem foi que fez isso. Do contrário, o carniceiro poderá fazer outras vítimas...

— Calma, Mike. Vamos investigar, mas eu sei que nada encontraremos, salvo se a moça quiser falar...

— Vou telefonar para a agência de que ela falou, Frank. Talvez nos possam dar alguma informação.

— Deixe que eu ligo para lá — disse prontamente Millersen. — Fique por aqui para falar com a moça quando ela voltar a si. Já está acostumada com você.

— Boa ideia — disse Mike.

Viu Millersen sair da enfermaria e voltou para junto da cama da moça. A enfermeira levantou as sobrancelhas quando o viu.

— Vou esperar até que ela possa falar de novo comigo — explicou Mike.

— Então é melhor ir esperar sentado à minha mesa ali no corredor. Ela vai demorar um pouco até poder falar de novo... e talvez não possa mais.