79 Park Avenue
Capítulo 6
Estacionou o carro do outro lado da rua, defronte do portão do hospital, e ficou à espera. Na esquina, estava parado um grande ônibus, que deveria levar os soldados para a cidade. Olhou para o relógio. Eram sete e meia. Sentiu um ligeiro tremor de frio e acendeu um cigarro. Havia muito que não saía de casa tão cedo.
Ao fim de algum tempo, começou a pensar que estava fazendo uma tolice. Era uma infantilidade ter acordado ainda de madrugada e vir para tão longe só para vê-lo. Não para falar com ele ou tocá-lo. Para vê-lo apenas andar alguns metros e entrar num ônibus. Ele nunca saberia nem que ela havia estado ali.
Já estava no terceiro cigarro quando o portão se abriu e os primeiros soldados saíram. Sentiu um súbito medo. Pareciam todos iguais nos seus uniformes, e ela poderia não reconhecê-lo. Talvez ele tivesse mudado muito.
Uma pequena cantina ambulante da Cruz Vermelha fora instalada diante do portão e algumas mulheres começaram a oferecer roscas e café quente aos soldados. Mais dois ônibus se colocaram junto ao primeiro.
Maryann esquadrinhava ansiosamente os rostos dos soldados. O primeiro ônibus ficou lotado e partiu, depois do que, o segundo ônibus rodou para o seu lugar. As vozes e os risos dos homens chegavam-lhe aos ouvidos.
O segundo ônibus saiu e o último tomou posição. Olhou nervosamente o relógio. Oito e quinze já. Millersen estava errado. Mike não ia aparecer. Havia poucos soldados naquele momento. O grosso já havia ido.
Olhava rapidamente os rostos, um por um. Talvez o houvesse perdido entre os soldados que tinham partido nos dois ônibus anteriores. Só uns poucos soldados vinham ainda se encaminhando para o portão. A cantina da Cruz Vermelha já estava fechando.
Apagou o cigarro no cinzeiro do carro e girou a chave. Ou o perdera entre os outros ou ele não ia sair do hospital naquele dia. Pisou o acelerador e o motor pegou. O último ônibus saiu para a estrada à frente dela.
Engrenou o carro e foi saindo. Um impulso a fez olhar Para a estrada. Ele vinha justamente chegando ao portão. Freou automaticamente e olhou.
Estava magro, terrivelmente magro. O rosto estava ossudo e os olhos pareciam estar no fundo de duas covas. Coxeava um pouco, como se quisesse aliviar a perna direita. Quando viu o ônibus que ia desaparecendo na estrada, parou e estalou os dedos no seu velho gesto de decepção. Ela quase pôde ouvir o "Diabo!" que seus lábios murmuraram.
Mike mudou da mão direita para a esquerda a maleta de lona que levava. Acendeu então um cigarro e começou a descer a rua.
Ela ficou ali como que paralisada, olhando-o. Parecia-lhe estranho assim fardado e, entretanto, dava a impressão de que tinha andado de farda a vida toda. Saltou do carro, como se sentisse que um ímã a atraía. Começou a correr para alcançá-lo.
Estendeu a mão e cobriu a dele na alça da maleta. Havia tamanho zumbido em seus ouvidos que mal pôde ouvir a própria voz quando disse:
— Posso levar sua mala, soldado?
Ele se voltou para ela, mas aí a visão dela se turvou e ela não pôde vê-lo bem. Teria ficado aborrecido? Repetiu, assustada:
— Posso levar sua mala, soldado?
O cigarro que pendia dos lábios dele caiu, bateu na túnica e foi parar no chão do passeio entre eles. Ela ficou trêmula, esperando que ele falasse.
Os lábios de Mike moveram-se, mas não houve som algum. Começou a empalidecer e parecia que iria desmaiar. Ela estendeu a mão para sustentá-lo. Então, como se entrassem numa fogueira, ela lhe caiu nos braços, beijando-lhe a boca e sentindo nos lábios o gosto salgado das lágrimas de alguém.
Ela girou a chave na fechadura e abriu a porta. Olhando para ele, que vinha atrás nas sombras do corredor, disse:
— Estamos em casa, Mike.
Ele entrou na sala e olhou-a. Ela já lhe tinha dado as explicações dizendo que um amigo a ajudara a descobri-lo. Depois de fechar a porta, uma súbita timidez a envolveu.
— Sente-se e descanse, Mike. Vou preparar-lhe um drinque. Que é que você quer?
— Gim puro com gelo.
Depois de entregar-lhe o copo, ela se sentou diante dele e disse:
— Você está mudado, Mike.
— Sou um homem agora, Marja. Não podia icar para sempre um garoto. Você me disse isso uma vez, lembra-se?
Ela assentiu com a cabeça, os olhos fitos nos dele.
— Às crianças que éramos — disse ele, levantando o copo num brinde.
— Mike! — exclamou ela com uma voz em que havia um eco de sofrimento. — Não vamos recordar coisa alguma. Vamos fazer de conta que acabamos de nos conhecer, com todos os ontens esquecidos e tendo apenas à nossa frente radiosas manhãs!
— É muito difícil fazer de conta, Marja — disse ele, com os cantos da boca torcidos. — Muitas coisas estão acontecendo em torno de nós.
— Então, apenas por estes dias, Mike. Por favor!
Mike colocou o copo na mesa e, levantando-se, abriu-lhe os braços. Ela foi prontamente e encostou a cabeça ao peito dele.
— Quanto a mim, não preciso fazer de conta, Marja. Estar ao seu lado foi sempre e apenas o que eu quis.
O telefone começou a tocar, e ele afastou os braços.
— Deixe tocar, Mike. Não vou atender.
— Mas pode ser importante.
— De importante para mim neste fim de semana só haverá nós dois.
Quando o telefone parou de tocar, ela discou um número.
— Quem fala aqui é a Srta. Flood. Vou ficar fora neste fim de semana. Faça o favor de receber todos os telefonemas para mim e anotar.
Quando ela desligou, Mike disse:
— Você deve ter um emprego muito bom para poder viver num apartamento como este.
— Tenho tido sorte — disse ela, sorrindo.
— E inteligência também — disse ele com alguma satisfação. — Não se conseguem estas coisas sem ser inteligente.
Cautelosa de súbito, ela o observou para ver se havia nele alguma intenção oculta. Depois, deu um suspiro.
— Não quero falar de trabalho. Basta o que tenho durante a semana toda. Este im de semana é todo para mim.
Era quase meia-noite quando voltaram do jantar, ainda rindo de alguma coisa que ele dissera no táxi. Mas ela percebeu de repente que o rosto dele estava abatido e cansado. Ficou imediatamente preocupada.
— Diverti-me tanto — disse ela — que me esqueci que você saiu do hospital hoje de manhã.
— Estou bem, Marja.
— Não está, não, senhor. Vou fazer a cama e preparar-lhe um banho. Depois tem de ir dormir diretamente.
— Ora, Marja, você está me tratando como se eu fosse um garoto.
— E você não vai ser outra coisa neste fim de semana. Meu garotinho.
Ela tirou rapidamente a colcha da cama e, depois, foi ao banheiro e abriu a torneira de água quente. Quando voltou ao quarto, ele estava à porta, olhando-a.
— Não é preciso você sair de sua cama por minha causa, Marja. Posso dormir no sofá.
Ela sentiu imediatamente o rosto vermelho. Atravessou o quarto, abraçou-o e beijou-o, dizendo:
— Mike, você é tão bobinho.
Ele abraçou-a então com tanta força que ela mal podia respirar. As luzes lhe dançavam diante dos olhos e o quarto todo parecia girar. Sentia deliciada a força dos músculos que a apertavam. Fechou os olhos. Nunca tinha sido assim. Nunca. Aquilo era o seu sentimento, a sua emoção, a sua força de vida. Era o seu começo e o seu im. O mundo e as estrelas estavam explodindo dentro dela.
— Mike! — exclamou ela. — Como eu amo você, Mike!