79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 51 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 14

— Deixe-me na esquina da Park com 38th Street — disse ela. — De lá irei a pé.

— Está bem — disse ele, manobrando o carro para encostá-lo junto ao meio-fio. Curvou-se sobre o banco e abriu a porta para ela. — Quer jantar comigo esta noite?

— Quero.

— Irei buscá-la às oito horas em sua casa.

— OK.

Viu-a juntar-se à multidão na esquina e atravessar a rua à frente dele. Gostava do andar dela. Era o mesmo do tempo da sua mocidade. Sorriu percebendo os olhares que os homens lhe lançavam. Não era de admirar. Um carro buzinou atrás dele. Olhou para o sinal para ver se já estava aberto. E saiu com o carro.

A agência ficava numa fila de casas antigas cujo uso residencial em Nova York se tornara antieconômico e tinham passado a ser utilizadas para escritórios. Pululavam nelas pequenas agências de publicidade, empresas mais ou menos suspeitas e outros negócios que queriam um endereço na Park Avenue sem ter de pagar uma exorbitância.

Havia uma placa metálica ao lado da porta: "79 Park Avenue". Abaixo, em placas menores, figuravam os nomes dos inquilinos. Pagava-se pela placa mais cinco dólares por mês. Maryann entrou pela porta principal e caminhou por um comprido corredor. Uma porta à direita trazia o letreiro "PARK AVENUE MODELS, INC.". Adiante, via-se a escada que levava aos outros escritórios.

Passou diante da escada e entrou por uma porta na qual não havia letreiro algum. Abriu-a e entrou diretamente para um confortável escritório. Tirou o casaco leve e sentou-se à mesa. As cortinas estavam descidas. Ligou um interruptor e a sala imediatamente ganhou vida. Nas paredes, havia dois bons quadros e várias fotografias coloridas de moças. Numa cesta em cima da mesa havia outras fotografias e ao lado uma cópia da lista dos modelos.

Apertou o botão de uma campainha. Um momento depois, apareceu uma mulher de meia-idade, que estava visivelmente nervosa.

— Foi muito bom ter chegado, Srta. Flood! Acabam de telefonar da polícia.

— O quê?

— Da polícia.

— Sobre o quê, Sra. Morris?

— Florence Reese está no hospital entre a vida e a morte em consequência de um aborto. Querem saber se ela trabalha para nós.

— Que foi que disse?

— É claro que eu disse que não trabalhava. Uma publicidade desse tipo nos arruinaria.

— Não devia ter mentido, Sra. Morris. Talvez a pobre moça esteja mesmo em dificuldades e precise da nossa ajuda.

A Sra. Morris olhou-a, indignada.

— Sabe muito bem a minha opinião a respeito de moças como ela. Não devia gastar um minuto de seu tempo com essa gente. Não apreciam o que a gente faz e só tratam é de desgraçar-se e a todo mundo que entra em contato com elas.

Maryann baixou os olhos para a mesa. Era justamente isso que dava valor à Sra. Morris como testa de ferro, a sua sincera indignação com as pessoas que abusavam da profissão para encobrir patifarias. Talvez morresse do coração se soubesse do que se falava pelos dois telefones reservados que havia em cima da mesa de Maryann. Mas não podia perder tempo com a indignação da Sra. Morris. Tinha de telefonar para Hank Vito e pedir-lhe uma orientação.

— Está bem, Sra. Morris. Muito obrigada. Houve outros telefonemas?

— Dois. Um de um tal Sr. Gellard. Precisa de três modelos especiais para esta tarde. Alguns fregueses chegaram à cidade, e ele quer fazer uma exibição para eles. Sugeri-lhe algumas moças, mas ele insistiu em falar primeiro com a senhora. O outro foi da Loja de Peles da 14th Street. Queriam um modelo para trabalhar na vitrina, e eu lhes mandei Raye Marnay.

— Muito bem — disse ela, estendendo a mão para o telefone. — Vou saber o que o Sr. Gellard deseja comigo.

Esperou que a mulher saísse e fechasse a porta para começar a discar. Ficou olhando pensativamente para a porta fechada enquanto o telefone tocava do outro lado do fio.

Pobre Flo. Ela bem a aconselhara havia uma semana a não tentar o aborto. Havia esperado demais e já estava grávida de três meses. Teria sido muito mais inteligente deixar a criança nascer e depois entregá-la para ser adotada por alguém. Tudo seria mais seguro e, ainda por cima, Hank conseguiria arrancar algum dinheiro para ela. Mas ela ficara em pânico e devia ter ido cair nas mãos de algum incompetente. Maryann sentiu uma raiva imensa. Que espécie de médico era um homem que punha assim em risco a vida de uma garota, que podia ser uma prostituta, mas era também um ser humano?

Uma voz de homem atendeu ao telefone.

— Maryann — disse ela.

— Ah, felizmente. Estava com receio de não poder falar-lhe antes do almoço. Estou com três texanos soltos nas mãos e estão ansiosos por alguma coisa excepcional. Estão no hotel e eu lhes prometi que tudo estaria resolvido na hora do almoço.

— É muito pouco tempo para tomar as providências, John.

— Que é que eu posso fazer, querida? Só soube quando cheguei ao escritório hoje de manhã.

— Serviço completo? Almoço e visita?

— Claro.

— Vai custar um bocado de dinheiro, John.

— Quanto?

— Mil dólares.

Ele deu um assobio e disse:

— Vamos com mais calma. Não posso lançar tanto assim na conta de despesas.

— Não posso fazer de outro jeito. O julgamento do caso Jelke tornou muito difícil encontrar bons elementos.

— Está bem — disse o homem, depois de um momento de hesitação. — Vou lhe dizer para onde deve mandá-las.

Ela tomou nota dos endereços e desligou o telefone. Esperou um momento e discou de novo. Dessa vez, atendeu uma voz de mulher.

— Encontro para almoço, Cissie. Leve Esther e Milie. Serviço completo. Por conta da casa.

— Mas já tenho outro encontro — disse a mulher.

— Vou botar outra no seu lugar. O endereço é o seguinte.

Quando acabou, acendeu um cigarro e tornou a pegar no telefone. No mesmo instante, o telefone tocou e ela atendeu.

— Pronto.

— Maryann? É Frank.

— Houve alguma coisa?

— Uma moça internada no Hospital Roosevelt. Florence Reese. Daí da sua agência disseram que ela não trabalha para vocês. Ela diz que trabalha. Essas contradições são muito perigosas. A mulher da sua agência agiu erradamente. Se ela não tivesse negado, eu poderia ter abafado tudo. Mas agora vai ser difícil, porque há muita gente curiosa sobre o caso.

— Que é que eu devo fazer?

— Não sei.

— Como está Florence?

— À morte.

— Pobre menina. Eu disse a ela que não fizesse isso.

— Não se preocupe mais com ela, que não adianta. Trate de tomar alguma providência.

— Está bem, Frank. Vou telefonar para Vito. Ele me dirá o que devo fazer.

— Diga-lhe que ele tem de usar bem a cabeça. Tomei conhecimento do caso em companhia de um dos rapazes do gabinete do promotor. Ele está fervendo de indignação.

— Quem é ele? — perguntou ela distraidamente.

— Keyes. Mike Keyes.

— Mike Keyes? — repetiu ela, sentindo um aperto na garganta.

— Sim. Eu sabia que havia alguma coisa sobre ele de que estava procurando lembrar-me. Ele foi da polícia. Escute, não foi ele que uma vez você me pediu que descobrisse para uma amiga sua?

— Não... não me lembro. Deve ter sido há tanto tempo que já me esqueci.

Desligou o telefone e ficou pensando. Sim, tinha sido há tanto tempo que até parecia que havia acontecido em outro mundo.