79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 3 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 2

O sol de junho havia derretido um pouco o asfalto das ruas da cidade, e ele se colava as solas dos sapatos, tornando cada passo um penoso esforço. O sol batia nas paredes de concreto das casas de cômodos como a chama estendida de uma fornalha aberta.

Ela hesitou um pouco à porta da loja antes de mergulhar na fogueira da rua. Comeu mais um bombom enquanto corria os olhos pela rua para ver se havia algum sinal de vida.

Estava tudo deserto, salvo na esquina da Second Avenue, onde algumas crianças brincavam. Uma mulher saiu do armazém de Hochmeyer, carregando uma sacola de compras. Um táxi passou velozmente pela rua, deixando no asfalto a marca dos pneus.

Quando acabou de comer os bombons, limpou os dedos no papel, que jogou na rua. Guardou os cigarros dentro de uma bolsinha e saiu pela rua. O calor e o sol bateram-lhe no rosto e ela piscou rapidamente. Sentia o suor escorrer-lhe pelo corpo. Por um instante, lamentou não ter ficado na loja de bombons, divertindo-se mais algum tempo com o velho. Ao menos, lá dentro era mais fresco.

Foi pela rua rumo a casa sem muita vontade. Viu no relógio de uma vitrina que já eram quase três horas da tarde. Hesitou. Se não estivesse fazendo tanto calor, não iria para casa. Mas só um louco ficaria na rua num dia como aquele. Gostaria de ter dinheiro para ir ao cinema. O cinema da RKO, na 86th Street, tinha um sistema de refrigeração. Os ventiladores sopravam sobre grandes blocos de gelo. Por dez cents, podia-se passar o dia inteiro lá e fugir ao calor.

— Marja! — gritou atrás dela uma voz de moça.

Voltou-se e viu sua amiga Francis Keegan. Ficou esperando por ela.

— Alô, Francie!

A outra estava ofegante da caminhada. Era uma moça robusta, com seios e quadris bem grandes. Tinha um ano mais do que Marja, com cabelos pretos e olhos azul-escuros.

— Aonde é que vai, Marja? — perguntou ela, ainda ofegante.

— Para casa. Está fazendo muito calor para ficar na rua. A decepção estampou-se no rosto de Francie.

— Podíamos ir ao cinema.

— Você tem dinheiro?

— Não.

— Nem eu! — disse Marja, continuando a andar.

— Epa! — exclamou Francie, acompanhando-a. — Parece que ninguém mais neste mundo tem dinheiro!

Marja sorriu, olhou a amiga pelo canto dos olhos e disse:

— Quem sabe disso melhor do que eu?

Andaram algum tempo em silêncio até que Francie pegou o braço de Marja e disse:

— Tenho uma ideia.

— Qualé?

— O velho Rannis. Talvez se possa arrancar alguma coisa dele.

— Nada feito — disse Marja. — Saí de lá agora mesmo.

— E então? — perguntou Francie, com curiosidade.

— Nada. Arranjei apenas uns bombons depois de deixar o homem usar os seus raios X em mim.

— E depois?

— Foi só. Ele quis me levar para os fundos da loja para ver a nova pintura, mas dinheiro nada. Já devo a ele mais de três dólares. Ainda o deixei me pegar, mas ele só queria mesmo era levar-me para os fundos.

Francie pensou no que a amiga tinha dito e falou:

— Ao menos, dê-me um bombom.

— Tarde demais — disse Marja, sorrindo. — Já comi tudo.

— Ih! Estou sem um pingo de sorte hoje — murmurou Francie. — Acho que o melhor mesmo é irmos para casa. — Enxugou o rosto na manga do vestido e exclamou: — Que calor!

Caminharam em silêncio durante algum tempo. Já estavam quase no meio do quarteirão quando Francie perguntou:

— Quem é que está em sua casa?

— Todo mundo, imagino. Minha mãe só sai para o trabalho às cinco horas.

A mãe de Marja. limpava à noite alguns escritórios no centro e trabalhava até as duas horas da madrugada.

— Seu padrasto também?

Uma expressão de frieza apareceu nos olhos de Marja.

— Especialmente ele. Não deixaria de ficar em casa bebendo sua cerveja por todo o dinheiro deste mundo.

— Ele não trabalha?

Marja riu.

— Para quê? Que é que ele quer mais? Três refeições por dia e toda a cerveja que puder beber. Não é trouxa. Passa o dia todo sentado, gozando a vida.

— Ele outro dia me encontrou no corredor e me fez parar — disse Francie.

— O que ele queria?

— Fez-me algumas perguntas a seu respeito.

— Sobre o quê?

— Queria saber o que você fazia na rua com os rapazes. Coisas assim.

— A mim ele também vive perguntando isso. Que foi que você disse?

— Nada, que eu não sou trouxa — respondeu Francie.

Marja deu um suspiro.

— O que ele quer é um motivo para ir contra mim. Ele me odeia.

— Sei disso. De vez em quando, ouço os gritos dele.

Francie morava no apartamento acima do de Marja.

— Está sempre gritando — disse Marja.

Estavam quase chegando. As casas eram todas iguais naquele quarteirão. A mesma fachada pardacenta que havia visto dias melhores e as janelas escuras e sujas abertas para a rua.

Pararam na escada. Havia uma lata de lixo descoberta perto da entrada. Enquanto ali estavam, um gato de rua, cinzento, pulou dentro da lata, espantando um enxame de moscas, e começou a ver o que podia encontrar lá dentro. As duas olharam-no em silêncio.

Marja franziu o nariz.

— O encarregado devia pelo menos ter cabeça para cobrir essa lata num tempo como este. Que mau cheiro!

Francie não disse nada. Começaram a subir a escada. Nisso, ouviram um assobio na rua e voltaram-se ao mesmo tempo.

Três rapazes iam saindo do bilhar defronte da casa e estavam olhando para elas. Um deles gritou:

— Olá, Francie! Quem é essa sua amiga loura?

As moças se entreolharam rapidamente e sorriram.

— Por que não vem até aqui para saber? — disse Francie em resposta.

Os três rapazes conversaram alguma coisa entre si na porta do bilhar, enquanto Marja tentava ver se os reconhecia. O que falava com Francie ela já tinha visto várias vezes. Vivia mais abaixo no mesmo quarteirão, mas ela não se lembrava do nome dele. Os outros dois nunca tinha visto.

Os dois desconhecidos eram altos. Um tinha cabelos claros — castanhos, quase louros —, um rosto largo e delicados olhos azuis. O outro era quase o oposto. Moreno, simpático, com belas feições gregas e uma boca cheia e sensual. Um instante depois, o louro despediu-se dos outros enquanto os dois atravessavam a rua.

— Alô, Jimmy — disse Francie, quando eles chegaram perto.

Jimmy sorriu e perguntou:

— Por onde tem andado, Francie?

— Por aí mesmo. E você?

— Também por aí. Que é que estão fazendo?

— Nada — respondeu Francie. — íamos agora mesmo subir para fugir deste calor.

— Ross e eu íamos nadar um pouco. Querem vir?

Francie olhou para Marja, que tinha icado em silêncio até então. Havia nos seus olhos um brilho de interesse.

— Se fôssemos buscar os maiôs lá em cima — explicou ela —, não poderíamos mais descer.

O outro rapaz riu.

— Podemos arranjar maiôs no lugar para onde vamos. — Ross tem um carro — disse Jimmy. — Vamos até Coney Island.

Marja falou pela primeira vez, dizendo:

— Que é que estamos esperando?

O outro rapaz segurou o braço de Marja com firmeza, e ela desceu os degraus até onde ele estava.

— Ótimo, menina! — disse ele, olhando-a bem nos olhos. — Gosto de garotas decididas.

— Quem decidiu não fui eu. Foi meu corpo, com o calor que está fazendo.

— Quente assim é que eu gosto...

Os outros vinham logo atrás dela. Marja olhou para Francie. Jimmy dizia-lhe alguma coisa ao ouvido e ela sorria, meneando a cabeça afirmativamente. Marja olhou para o rapaz que ia com ela e perguntou:

— Onde é que está o seu carro?

— Ali na esquina. Meu nome é Ross Drego. E o seu?

— Marja.

— Estou perguntando o nome todo.

— Marja Anna Flood.

— Flood é um nome inglês.

— E eu sou polonesa. O nome mesmo é Fluudjincki.

— Compreendo por que trocaram de nome — disse ele com um sorriso que atenuou a grosseria da frase.

Já haviam dobrado a esquina e ele a conduziu até um Buick conversível com a capota arriada. Abriu a porta e disse com um gesto teatral:

— O carro é de vocês, meninas.

Marja olhou para o carro e depois para ele.

— Que é que está esperando? — perguntou Ross. — Entre.

Ela sacudiu a cabeça.

— Não. Não é atrás disso que eu ando.

— Como assim? — perguntou Ross, com uma expressão de surpresa.

— Não vou passear com ninguém num carro roubado — disse Marja. — Já chegam os problemas que eu tenho.

Ross começou a rir.

— Este carro não é roubado. É meu mesmo.

— Sério? E como conseguiu comprá-lo? Deve ser por isso que o outro não quis ficar com vocês.

— Quem, Mike Keyes? — perguntou Ross, sorrindo. — Ele se despediu porque tinha de ir trabalhar. Ajuda o pai, que é encarregado de um edifício.

— Ainda não estou convencida — disse Marja.

Nesse momento, Jimmy interveio na conversa.

— Entre logo. O carro é dele. Foi o pai quem lhe deu.

— Prove primeiro — disse ela, afastando-se do carro.

Ross não estava mais rindo.

— Não acredita em mim?

— Acredito, sim. Não quero é facilitar. Conheço uma garota que morava aqui na rua. Acreditou num rapaz e agora está no reformatório.

O rosto moreno do rapaz contraiu-se de cólera.

— Dê o fora então. Posso arranjar às pencas garotas como você para saírem comigo.

Ela deu-lhe as costas e começou a voltar pela rua. Já estava quase na esquina quando a voz dele a fez parar e esperar por ele.

— Espere um pouco, Marja — disse ele, metendo a mão no bolso. — O carro é meu. Vou lhe mostrar.

Tirou uma carteira e abriu-a para ela ver. Nunca vira tanto dinheiro em toda a sua vida.

— Tire um cartão que está dentro deste compartimento aqui.

Ela tirou o cartão. De um lado, havia uma carteira de motorista; do outro, um certificado de propriedade do carro. Ambos traziam o nome de Ross Drego, Park Avenue, 987, Nova York. Marja olhou de relance para a idade. Dezoito anos. Devolveu-lhe o cartão.

— E agora? Quer vir?

— Por que não fez isso logo?

— Não gostei da sua dúvida. Desculpe — disse ele com um sorriso.

Ela o olhou por um momento. Ali estava um rapaz estranho. Nunca conhecera ninguém como ele. Falava bem, mas havia nele um traço de brutalidade que ela sentia perfeitamente, mas que desaparecia quando ele sorria.

Ela tomou-lhe o braço.

— Vamos! E está tão quente, que estou ansiosa para cair dentro da água.