79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 10 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 9

Marja sentou-se na grama e levantou as pernas, passando os braços em torno dos joelhos. Ficou olhando para o rio Hudson. Já estava escurecendo e as luzes se acendiam como vaga-lumes na margem de Nova Jersey. Um doce vento tépido lhe agitava os cabelos.

— Tenho de conseguir um emprego no verão — disse ela de repente.

— Por quê? — perguntou Ross, olhando para ela.

— Porque estamos precisando muito de dinheiro. O velho lá de casa gosta tanto de cerveja que nem pensa em trabalhar. Minha mãe trabalha à noite. O que temos não dá para viver.

— Que é que sabe fazer? — perguntou Ross, com curiosidade. — Que espécie de emprego você quer?

— Não sei — respondeu ela com franqueza. — Nunca pensei nisso. Talvez me empregue como balconista em alguma loja.

Ele riu.

— Qual foi a graça?

— Pagam muito pouco. No máximo, oito dólares por semana.

— Oito dólares são oito dólares. Muito melhor do que nada.

Ross olhou-a. A irmã dele vivia falando em trabalhar, mas nunca se decidia.

— Está falando sério?

— Claro que estou.

Ross tirou do chão um talo de grama e começou a mordê-lo, pensativamente. Ela às vezes lhe lembrava Mike. Eram ambos tão sérios a respeito de dinheiro. Teve uma ideia.

— Você sabe dançar?

— Sei, sim.

— Mas sabe dançar bem?

— Muito bem.

Ele se levantou e limpou as calças. Estendeu as mãos para ela e ajudou-a a levantar-se.

— Venha comigo e vamos ver. — disse ele, dirigindo-se para o carro.

 

O som levemente desafinado de uma orquestra enchia a estreita entrada. As paredes estavam cobertas de fotografias de mulheres, todas elas com o mesmo sorriso sedutor nos lábios. Debaixo das fotografias havia uma legenda:

 

"VENHA DANÇAR COMIGO. DEZ CENTS APENAS".

O som da música aumentou quando Marja seguiu Ross pela escada acima. No alto da escada, havia uma pequena bilheteria, em frente à qual Ross parou.

— Duas — disse ele, colocando uma nota de um dólar em cima da pequena prancha do guichê.

Ross pegou as duas entradas e levou Marja para o salão de danças. Era comprido e estreito, com as paredes pintadas de um azul encardido. A iluminação era fraca. A orquestra que ficava nos fundos havia terminado um número. Alguns pares, que tinham ficado no meio do salão, retiravam-se para junto das paredes. Algumas mulheres estavam sentadas às mesas perto da porta. Tinham olhado prontamente quando Ross entrara, mostrando automaticamente no rosto sorrisos que logo se apagaram quando viram que ele não estava sozinho.

À direita, havia um balcão comprido e estreito e várias filas de mesas. Ross levou-a para uma delas e os dois se sentaram. Um garçom apareceu imediatamente.

— Cerveja — disse Ross sem levantar a vista. — E você?

— Coca.

O garçom saiu e nesse momento a orquestra recomeçou a tocar. Era um foxtrote lento.

— Está disposta? — perguntou Ross.

— Estou sempre disposta — respondeu ela, com seu estranho sorriso.

— Vamos dançar então.

Ross tinha o rosto quente e vermelho quando a levou de volta à mesa. Não tinha mais dúvida alguma de que ela soubesse dançar e muito bem. Seguia-o como se fosse parte dele. Seu ritmo era bom e, embora outras garotas dançassem mais coladas e o apertassem mais, nenhuma ainda lhe dera aquela impressão de estarem flutuando dentro da música que os unia.

— Então? — perguntou ela quando ele pegou o copo de cerveja e tomou um bom gole.

— Sabe dançar de fato. Onde foi que aprendeu?

— Ninguém nunca me ensinou — disse ela, sorrindo.

Houve silêncio durante algum tempo. Ela estava esperando que ele falasse.

— As garotas aqui fazem entre vinte e cinquenta dólares por semana.

— Só para dançar? — perguntou ela, com um tom de ceticismo na voz.

Ele hesitou e murmurou:

— A maior parte.

— Devem fazer com dança uma média de vinte dólares — calculou ela.

Ele assentiu com a cabeça, observando-a atentamente.

Ela tomou um gole do refrigerante e disse:

— Não é preciso ir a outro lugar? Só para dançar?

Ele meneou a cabeça afirmativamente.

— É muito dinheiro — murmurou ela.

De repente, ficou revoltado consigo mesmo. Jogou uma nota em cima da mesa e levantou-se, dizendo:

— Vamo-nos embora.

Marja levantou-se em silêncio. Nisso, uma voz de homem ressoou às suas costas.

— Há tempo não o vejo, Ross! Por onde tem andado?

Ela se voltou, assustada. Atrás dela, estava um homem alto, grisalho, de olhos escuros, que sorria.

O homem olhou para ela e tornou a falar antes que Ross tivesse tempo de responder-lhe.

— Não é preciso explicar nada. Sei agora por que é que você não liga mais para as minhas garotas.

Marja sorriu e olhou para Ross, cujos olhos estavam frios.

— Alô, Joker — disse ele. Hesitou um instante e então fez as apresentações. — Joker Martin. Marja Flood.

— Venha até o bar, Ross. Quero oferecer-lhe um drinque.

— Não, Joker, muito obrigado. Temos de ir saindo.

— Há quatro meses que não vejo este camarada — disse Martin, pegando no braço de Ross e olhando para Marja —, e quando aparece é com essa pressa toda. Diga-lhe que não faz mal tomar um gole rápido comigo.

Marja sorriu. Era lisonjeiro aquele homem pensar que ela podia mandar em Ross. Era quase como se pensasse que ela era a garota dele.

— Está bem, Joker — disse Ross. — Um só e rápido.

Os homens quiseram cerveja e Marja pediu outro refrigerante. Martin voltou-se para ela e disse:

— Devia zangar-me com você, moça, Ross sempre foi um dos meus melhores fregueses e não me conformo com o desaparecimento dele. Mas, depois de vê-la, não posso censurá-lo.

— Joker é o dono disto aqui, Marja — explicou Ross. — Vive pensando em dinheiro.

— E quem não é assim? — perguntou Marja, levantando os olhos para o homem grisalho.

Joker riu e disse, batendo-lhe no ombro:

— Menina inteligente. Nem todo mundo pode ser rico como o nosso amigo aqui. — Pela primeira vez, Marja notou-lhe os olhos vivos e observadores. — Está procurando emprego, menina?

Antes que ela dissesse alguma coisa, Ross atalhou a conversa.

— Não, Joker. Ela ainda está na escola.

Marja ficou ajuizadamente em silêncio, bebendo o seu refrigerante.

— Foi bom você ter aparecido — disse Martin. — Temos algumas novidades agora.

— Por exemplo?

— Dados e roleta na sala atrás do meu escritório. Fiz alguns contatos e isso agora é permanente. Tudo muito bom e correto.

A voz de Ross era calma, mas havia nos seus olhos um brilho diferente.

— Talvez eu apareça por aqui alguma noite para dar uma espiada.

— Venha. E traga a moça para dar-lhe sorte. Será sempre bem recebida aqui.

— Muito obrigada, Sr. Martin — disse ela, sorrindo para ele.

Acabaram os drinques, e Joker levou-os até a porta. Sua voz forte ressoou na estreita entrada.

— Tive muito prazer em vê-lo, Ross. Veja se não some de novo.

A música da orquestra ainda os seguia pela rua até perder-se no rumor do tráfego.

— Para onde vamos agora? — perguntou Ross, saindo com o carro.

— Não sei, Ross. Quem está dirigindo é você.

Ele a olhou rapidamente pelo canto dos olhos. Gostaria de saber em que ela estava pensando.

— Quer ir até minha casa para comermos alguma coisa? — perguntou ele.

— E sua família? Não vai ficar aborrecida?

— Foram todos passar o fim de semana fora.

— OK — disse ela.

 

— Boa noite, Sr. Drego — disse o porteiro.

— Boa noite, Sr. Drego — disse o ascensorista que os levou para cima.

Pouco se disseram até saírem do elevador. A porta do apartamento ficava bem em frente, e Ross tirou a chave do bolso.

Abriu a porta e segurou-a para Marja passar. Em seguida, fechou a porta e estendeu a mão para acender a luz.

Ela segurou-lhe a mão e disse:

— Passamos a tarde toda juntos; você ainda não me beijou uma só vez.

Ele a olhou na penumbra, tentando ver-lhe a expressão do rosto. Mas nada disse.

— Está zangado comigo, Ross? Por quê? Fiz alguma coisa errada? Disse alguma coisa?

Ele abanou a cabeça em silêncio. Não podia dizer-lhe que estava zangado consigo mesmo por tê-la levado àquele dancing. Com aquela turma ela não teria a menor oportunidade. Fariam dela uma prostituta em menos de uma semana. E isso ele não queria, por mais que ela precisasse de dinheiro.

Ela estava muito junto dele e beijou-o de leve no rosto.

— Não fique zangado comigo, querido — sussurrou ela.

Ross encostou-se na porta, segurou-a pelos ombros e puxou-a. Ela veio sem resistência e ele a beijou.

Ela fez sanduı́ches e café. Levou tudo para a sala de estar e ali comeram sentados no sofá com o rádio ligado e a sala iluminada apenas por um pequeno abajur num canto.

Quando acabaram, ela se recostou nas almofadas e deu um suspiro de contentamento.

— Estava com fome — murmurou.

Ele sorriu e acendeu um cigarro.

— Dê esse para mim, sim? — disse ela, estendendo a mão.

Ele passou-lhe o cigarro e ela começou a fumar, com os olhos fechados e deixando a fumaça sair-lhe lentamente pelos lábios.

— Você nem sabe a sorte que tem — murmurou ela.

— Por quê?

— Você devia ver onde é que eu moro. Compreenderia então o que quero dizer. Tudo aqui é muito tranquilo. Não se ouve o barulho da rua. Não há mau cheiro do pátio. Não há a algazarra dos vizinhos.

Ross não respondeu. Não sabia o que responder. Pegou a bandeja dos sanduíches e levou-a para a cozinha. Quando voltou, Marja estava estendida no sofá, com os olhos de novo fechados.

— Marja — murmurou ele.

Ela não respondeu. Seu peito subia e descia com sua respiração calma. Ross sentou-se no sofá e então ela abriu os olhos.

— Estava dormindo — disse ela.

— Eu sei.

— Que horas são?

— Quase dez horas.

Ela se levantou de súbito e disse:

— Acho que é melhor eu ir andando.

Ross pegou-a pelos ombros e disse:

— Sabe que estou louco por você, Marja?

Ela moveu a cabeça, fitando-o bem nos olhos.

— Gosta de mim, Marja?

Ela lhe viu o rosto pálido e suplicante e disse:

— Você é a pessoa mais simpática que eu conheço. Claro que gosto de você!

— Não é isso que eu quero dizer! — exclamou ele, agarrando-a e beijando-a violentamente. — Quero você, entende? Você sabe disso, você sente isso. Quero saber é se você me deseja também do mesmo jeito.

Ela o olhou durante algum tempo e afinal disse com voz bem calma:

— Ainda que o queira, Ross, nada posso fazer. Sou virgem e, se eu ceder, ficarei em dificuldades e isso não quero.

— Mas há meios...

— Nem sempre dão resultado. Farei tudo o que você quiser para que ique feliz, Ross, mas isso não posso fazer.

— Tudo? — perguntou ele, arregalando os olhos.

— Tudo.

Ele tomou-a nos braços e os dois caíram juntos no sofá. Ross fechou os olhos. Ouviu o farfalhar das roupas de Marja e, depois, um seio quente e firme em sua mão. O desejo dentro dele era intenso e cruciante. Encostou a cabeça no peito dela e murmurou, quase chorando:

— Ajude-me, Marja! Por favor, me ajude!

— Vou ajudá-lo, sim, Ross querido. Fique quieto.