79 Park Avenue
Capítulo 17
Quando Mike abriu a porta, ouviu a mãe falando com alguém na cozinha. Dirigiu-se para seu quarto. Não se lembrava de algum dia ter-se sentido tão cansado, tão completamente exausto.
Ouviu a voz da mãe, da cozinha.
— É você, Mike?
Teve de fazer um esforço para altear a voz e responder:
— Sim, mamãe.
Entrou no carro e fechou a porta. Tirou o paletó e jogou-se na poltrona perto da janela. Acendeu um cigarro e ali ficou com o olhar absorto.
A porta se abriu, mas ele não se voltou para olhar.
— Está bem, meu filho? ;
— Estou, sim, mamãe.
— Veio para casa cedo — disse ela, aproximando-se da poltrona. — Houve alguma coisa?
— Não, mamãe. Não houve nada.
— Mas sua cara não está nada boa. Vou lhe fazer um chá.
— Por favor, mamãe, deixe-me descansar — disse ele com uma nota de aborrecimento na voz. — Não tenho nada.
Viu que ela ficara magoada e pegou-lhe na mão.
— Desculpe, mamãe. Não tive a intenção de ser rude.
— Não tem importância, Mike. Eu compreendo.
— Não, mamãe — murmurou ele. Ninguém podia compreender. Só ele sabia como se sentia.
A mãe continuou no quarto e disse:
— Conheço muito bem esse seu aspecto.
— Que aspecto, mamãe?
— É aquela moça — disse ela. — Ela voltou. Posso ver pelos seus olhos. Você estava desse mesmo jeito quando foi ao Bronx buscá-la e ela não quis vir com você. Não pode tirá-la da cabeça, não é, meu filho?
— Fiz o possível, mamãe. Mas não consigo. Parece que ela faz parte de mim.
— Você a viu?
— Não, mamãe.
— E então?
— A polícia está indo prendê-la agora. Preparei um processo contra ela que vai mandá-la para a cadeia.
— Fez o seu dever, meu filho.
— Não me diga isso, mamãe! — exclamou ele num assomo de raiva. Millersen também dissera isso e estava morto.
— Há muito tempo lhe disse que ela não servia para você. Talvez acredite em mim agora.
— Mas que é que eu posso fazer se sei que não há outra mulher para mim no mundo? — perguntou ele, com verdadeira agonia na voz.
Maryann levantou a vista da mesa e viu Tom, que sorria.
— Mandei o táxi esperar, Sra. Maryann. Temos apenas uma hora para chegar ao aeroporto.
— Só alguns minutos mais, Tom.
— Vou esperar lá fora. Estou ansioso para ver a queridinha.
— Eu também — disse ela.
Tom saiu do escritório e fechou a porta. Maryann olhou um retrato de Michelle em cima da mesa; depois, pegou alguns papéis e olhou-os rapidamente. Eram contas que podiam esperar até que ela voltasse, daí a duas semanas. Guardou-as num envelope, que deixou em cima da mesa. Trancou a gaveta e levantou-se.
Apanhando o casaco em cima da mesa, lançou um último olhar para a sala. O telefone começou a tocar. Hesitou. Depois, fez uma careta e dirigiu-se para a porta, sem atender. Se fosse Joker, iria descobrir no dia seguinte que ela havia partido. Daquela vez, iria cumprir a promessa que fizera a Michelle.
Quando estendeu a mão para a maçaneta, a porta se abriu e um homem alto apareceu. Maryann olhou-lhe automaticamente os pés. Sentiu os cabelos da nuca se levantarem. Um policial!
— Já ouviu dizer que se bate numa porta antes de abri-la?
Ele entrou, e ela viu que vários homens o acompanhavam. O primeiro homem sorriu e perguntou:
— Pode-se saber se vai a algum lugar?
— Não é da sua conta! — replicou ela.
Um homem baixo e moreno abriu caminho por entre os outros homens.
— Pare com a comédia, George — disse ele. Voltou-se depois para Maryann e perguntou: — É Maryann Flood?
— Sou.
— Sou Joel Rader, do gabinete do promotor público. Esses homens são da polı́cia. Gostaria que viesse conosco.
— Trata-se então de uma prisão?
— Claro que sim — disse rudemente o homem alto.
— De que sou acusada, Sr. Rader?
— Este mandado explica tudo, Srta. Flood — disse ele entregando-lhe uma folha de papel dobrado.
Ela recebeu o papel e passou os olhos por ele. Quando levantou os olhos, o rosto estava impassível.
— Posso telefonar para meu advogado? — perguntou calmamente.
Joel fez um sinal afirmativo e olhou-a com admiração, enquanto ela dava volta à mesa e pegava o telefone. Discou rapidamente. Não era de admirar que ela pudesse fazer o que fazia. Tinha nervos de aço.
— Hank — disse ela pouco depois ao telefone. — Acabo de ser presa... Não, ainda estou no escritório... Sim... Então, até logo.
Desligou, olhou para Joel e disse:
— Estou pronta.
Ele se afastou para deixá-la passar. Ela foi até a outra sala. Ali a esperava o velho negro, e ela parou para dizer-lhe:
— Não se preocupe, Tom. Vá para casa e prepare o jantar. Telefone para a menina e diga-lhe que os negócios não nos permitiram ir.
Tom olhou para Joker no escritório de Vito e perguntou:
— A Sra. Maryann está em dificuldades?
Joker olhou para Hank Vito e depois para Tom, a quem disse:
— Sim, está em grandes dificuldades.
— Tudo por causa daquele promotor, não é? O tal que, os jornais dizem que preparou o processo? O que se chama Keyes e entrou em férias enquanto a Sra. Maryann está sofrendo todas essas coisas?
A voz de Tom estava indignada.
— É esse mesmo, Tom.
— Pois ele é um homem mau, Sr. Joker. Só está fazendo isso porque a Sra. Maryann não quis casar com ele.
— O quê? — perguntou Joker, surpreso.
Ocorreram-lhe então vagas e torturantes lembranças. O amigo de Ross, o rapaz que costumava ir buscá-la quando ela saía do trabalho no dancing. Chamava-se Mike, também.
— Isso é verdade, Tom?
— É, sim. Ele é o pai de Michelle.
— Como é que sabe? — perguntou Vito. — Foi ela que disse?
— Não, ela nunca fez isso.
— Como é então que você sabe? — perguntou Vito. — Se pudéssemos provar isso, seria fácil livrá-la. Nenhum júri no mundo deixaria de acreditar que ele forjou tudo de puro despeito.
— Ela guarda a certidão de nascimento de Michelle, numa gaveta da cômoda. Nessa certidão, o nome do pai é o dele. Vi muitas vezes quando fazia a limpeza.
Vito levantou-se nervosamente.
— Vá correndo a casa e me apanhe essa certidão. Traga-a para cá e não a entregue senão a mim, compreende?
Tom já estava a caminho da porta. Olhou para trás, rindo, e disse:
— Compreendo, sim, Sr. Hank. Compreendo muito bem!
Logo que ele saiu, Vito perguntou a Joker:
— Que é que acha disso?
— É incrível! — exclamou Joker. — E ela nunca nos disse nada!
— Acha que ela ainda gosta dele?
— Há muito tempo já que desisti de tentar compreendê-la.
— Não direi nada até o julgamento. Não quero que a promotoria toque no assunto antes de nós. Acha que Keyes sabe disso, Joker?
— Acho que não. Não creio que ela tenha dito isso a pessoa alguma, salvo a Ross. E este não pode mais falar.
— Não entendo aquela mulher — murmurou Vito. — Falei com ela na prisão hoje de manhã. Já está lá há três dias e não me disse uma palavra sobre isso. Talvez não saiba que isso pode ser a sua salvação.
— Ainda que saiba, duvido que diga alguma coisa. Lembra-se do que me disse há muito tempo, Hank, quando me falou sobre ela pela primeira vez?
— Não.
— Você disse que ela era uma coisa especial, uma puta com um código de ética.