79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 54 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 17

Quando Mike abriu a porta, ouviu a mãe falando com alguém na cozinha. Dirigiu-se para seu quarto. Não se lembrava de algum dia ter-se sentido tão cansado, tão completamente exausto.

Ouviu a voz da mãe, da cozinha.

— É você, Mike?

Teve de fazer um esforço para altear a voz e responder:

— Sim, mamãe.

Entrou no carro e fechou a porta. Tirou o paletó e jogou-se na poltrona perto da janela. Acendeu um cigarro e ali ficou com o olhar absorto.

A porta se abriu, mas ele não se voltou para olhar.

— Está bem, meu filho? ;

— Estou, sim, mamãe.

— Veio para casa cedo — disse ela, aproximando-se da poltrona. — Houve alguma coisa?

— Não, mamãe. Não houve nada.

— Mas sua cara não está nada boa. Vou lhe fazer um chá.

— Por favor, mamãe, deixe-me descansar — disse ele com uma nota de aborrecimento na voz. — Não tenho nada.

Viu que ela ficara magoada e pegou-lhe na mão.

— Desculpe, mamãe. Não tive a intenção de ser rude.

— Não tem importância, Mike. Eu compreendo.

— Não, mamãe — murmurou ele. Ninguém podia compreender. Só ele sabia como se sentia.

A mãe continuou no quarto e disse:

— Conheço muito bem esse seu aspecto.

— Que aspecto, mamãe?

— É aquela moça — disse ela. — Ela voltou. Posso ver pelos seus olhos. Você estava desse mesmo jeito quando foi ao Bronx buscá-la e ela não quis vir com você. Não pode tirá-la da cabeça, não é, meu filho?

— Fiz o possível, mamãe. Mas não consigo. Parece que ela faz parte de mim.

— Você a viu?

— Não, mamãe.

— E então?

— A polícia está indo prendê-la agora. Preparei um processo contra ela que vai mandá-la para a cadeia.

— Fez o seu dever, meu filho.

— Não me diga isso, mamãe! — exclamou ele num assomo de raiva. Millersen também dissera isso e estava morto.

— Há muito tempo lhe disse que ela não servia para você. Talvez acredite em mim agora.

— Mas que é que eu posso fazer se sei que não há outra mulher para mim no mundo? — perguntou ele, com verdadeira agonia na voz.

 

Maryann levantou a vista da mesa e viu Tom, que sorria.

— Mandei o táxi esperar, Sra. Maryann. Temos apenas uma hora para chegar ao aeroporto.

— Só alguns minutos mais, Tom.

— Vou esperar lá fora. Estou ansioso para ver a queridinha.

— Eu também — disse ela.

Tom saiu do escritório e fechou a porta. Maryann olhou um retrato de Michelle em cima da mesa; depois, pegou alguns papéis e olhou-os rapidamente. Eram contas que podiam esperar até que ela voltasse, daí a duas semanas. Guardou-as num envelope, que deixou em cima da mesa. Trancou a gaveta e levantou-se.

Apanhando o casaco em cima da mesa, lançou um último olhar para a sala. O telefone começou a tocar. Hesitou. Depois, fez uma careta e dirigiu-se para a porta, sem atender. Se fosse Joker, iria descobrir no dia seguinte que ela havia partido. Daquela vez, iria cumprir a promessa que fizera a Michelle.

Quando estendeu a mão para a maçaneta, a porta se abriu e um homem alto apareceu. Maryann olhou-lhe automaticamente os pés. Sentiu os cabelos da nuca se levantarem. Um policial!

— Já ouviu dizer que se bate numa porta antes de abri-la?

Ele entrou, e ela viu que vários homens o acompanhavam. O primeiro homem sorriu e perguntou:

— Pode-se saber se vai a algum lugar?

— Não é da sua conta! — replicou ela.

Um homem baixo e moreno abriu caminho por entre os outros homens.

— Pare com a comédia, George — disse ele. Voltou-se depois para Maryann e perguntou: — É Maryann Flood?

— Sou.

— Sou Joel Rader, do gabinete do promotor público. Esses homens são da polı́cia. Gostaria que viesse conosco.

— Trata-se então de uma prisão?

— Claro que sim — disse rudemente o homem alto.

— De que sou acusada, Sr. Rader?

— Este mandado explica tudo, Srta. Flood — disse ele entregando-lhe uma folha de papel dobrado.

Ela recebeu o papel e passou os olhos por ele. Quando levantou os olhos, o rosto estava impassível.

— Posso telefonar para meu advogado? — perguntou calmamente.

Joel fez um sinal afirmativo e olhou-a com admiração, enquanto ela dava volta à mesa e pegava o telefone. Discou rapidamente. Não era de admirar que ela pudesse fazer o que fazia. Tinha nervos de aço.

— Hank — disse ela pouco depois ao telefone. — Acabo de ser presa... Não, ainda estou no escritório... Sim... Então, até logo.

Desligou, olhou para Joel e disse:

— Estou pronta.

Ele se afastou para deixá-la passar. Ela foi até a outra sala. Ali a esperava o velho negro, e ela parou para dizer-lhe:

— Não se preocupe, Tom. Vá para casa e prepare o jantar. Telefone para a menina e diga-lhe que os negócios não nos permitiram ir.

 

Tom olhou para Joker no escritório de Vito e perguntou:

— A Sra. Maryann está em dificuldades?

Joker olhou para Hank Vito e depois para Tom, a quem disse:

— Sim, está em grandes dificuldades.

— Tudo por causa daquele promotor, não é? O tal que, os jornais dizem que preparou o processo? O que se chama Keyes e entrou em férias enquanto a Sra. Maryann está sofrendo todas essas coisas?

A voz de Tom estava indignada.

— É esse mesmo, Tom.

— Pois ele é um homem mau, Sr. Joker. Só está fazendo isso porque a Sra. Maryann não quis casar com ele.

— O quê? — perguntou Joker, surpreso.

Ocorreram-lhe então vagas e torturantes lembranças. O amigo de Ross, o rapaz que costumava ir buscá-la quando ela saía do trabalho no dancing. Chamava-se Mike, também.

— Isso é verdade, Tom?

— É, sim. Ele é o pai de Michelle.

— Como é que sabe? — perguntou Vito. — Foi ela que disse?

— Não, ela nunca fez isso.

— Como é então que você sabe? — perguntou Vito. — Se pudéssemos provar isso, seria fácil livrá-la. Nenhum júri no mundo deixaria de acreditar que ele forjou tudo de puro despeito.

— Ela guarda a certidão de nascimento de Michelle, numa gaveta da cômoda. Nessa certidão, o nome do pai é o dele. Vi muitas vezes quando fazia a limpeza.

Vito levantou-se nervosamente.

— Vá correndo a casa e me apanhe essa certidão. Traga-a para cá e não a entregue senão a mim, compreende?

Tom já estava a caminho da porta. Olhou para trás, rindo, e disse:

— Compreendo, sim, Sr. Hank. Compreendo muito bem!

Logo que ele saiu, Vito perguntou a Joker:

— Que é que acha disso?

— É incrível! — exclamou Joker. — E ela nunca nos disse nada!

— Acha que ela ainda gosta dele?

— Há muito tempo já que desisti de tentar compreendê-la.

— Não direi nada até o julgamento. Não quero que a promotoria toque no assunto antes de nós. Acha que Keyes sabe disso, Joker?

— Acho que não. Não creio que ela tenha dito isso a pessoa alguma, salvo a Ross. E este não pode mais falar.

— Não entendo aquela mulher — murmurou Vito. — Falei com ela na prisão hoje de manhã. Já está lá há três dias e não me disse uma palavra sobre isso. Talvez não saiba que isso pode ser a sua salvação.

— Ainda que saiba, duvido que diga alguma coisa. Lembra-se do que me disse há muito tempo, Hank, quando me falou sobre ela pela primeira vez?

— Não.

— Você disse que ela era uma coisa especial, uma puta com um código de ética.