79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 30 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 7

Quando ela chegou à praia na manhã seguinte, piscou, espantada. Havia uma mesa na areia, coberta por um guarda-sol. Estava cheia de comida, e Gordon Paynter se encontrava de pé ao lado dela.

— Está com dez minutos de atraso — disse ele, rindo.

Ela não respondeu.

— Não quis arriscar-me. Mandei Tom instalar tudo aqui.

— Parece que o senhor está tendo tanto trabalho por nada, Sr. Paynter.

— Não penso assim, Srta. Desconhecida.

— Por que me chama assim?

— Srta. Desconhecida... Gosto do nome. Dá-lhe um toque de mistério.

— Mas nada tenho de misteriosa.

— Uma moça sem nome em Miami é sempre misteriosa — disse ele e voltou-se para a mesa. — Espero que goste de camarões. Tom faz uma salada de camarões razoável.

— Adoro camarões.

— Então, vamos comer — disse ele, sentando-se.

Ela deixou cair o roupão na praia e disse:

— Gostaria de entrar na água antes.

— OK — disse ele.

Levantou-se e tirou a camisa. Deixou cair as calças na areia ao lado do roupão dela. Estava de calções de banho.

— Vamos!

Ele a seguiu até o mar. Ela mergulhou numa onda e veio à tona, espadanando água.

— A água está fria — disse ela, batendo os dentes.

— Vou falar com Tom — disse ele, rindo. — Talvez se possa trazer água quente encanada até aqui para você.

— Deixe de ser bobo — disse ela, rindo e voltando às ondas. Em dado momento, uma onda mais forte arrebentou em cima dela e a fez perder o equilı́brio. Já ia rolando quando sentiu a mão dele agarrá-la pelos ombros e levantá-la.

— Agora que lhe salvei a vida, quer dizer-me seu nome?

Ela sentiu uma ponta de emoção. Havia nos olhos dele alguma coisa que lembrava Mike. Era a mesma decência, a mesma delicadeza com que a olhavam.

— Acho que pelo menos seria de boa educação — disse ela.

— Pelo menos — murmurou ele, ainda segurando-a.

— Meu nome é Mary Flood.

— Prazer em conhecê-la, Srta. Flood — disse ele, beijando-lhe o rosto e soltando-a. — Muito prazer mesmo.

 

— Nunca comi tanto em minha vida, Gordon — disse ela ao fim do almoço.

Ele sorriu.

— Tom vai gostar de saber disso. Ele fica radiante quando alguém aprecia a comida dele.

— Pode dizer a Tom que ele é o maior.

— Mais café?

— Não, muito obrigada. Ih! já passa de uma hora da tarde. Tenho de correr!

— E hoje à noite, Mary? Quer marcar um encontro comigo?

— Gostaria muito, mas não posso.

— Por quê, Mary?

— Tenho de trabalhar.

— Amanhã à noite, então?

— Não é possível. É à noite que eu trabalho.

— Que é que faz?

— Faço um número com outra moça. Trabalhamos cada noite num clube diferente.

— Aonde vai trabalhar hoje à noite? Diga, que eu irei vê-la.

— Não sei. O nosso número é uma espécie de tapa-buraco. Ficamos à espera de um telefonema do agente. Quando alguém não aparece em algum lugar para fazer o seu número, vamos correndo para lá.

— Está bem. Quando souber com antecedência, dê-me um aviso.

— Está combinado, Gordon — disse ela, apanhando a bolsa na areia, ao lado. — Muito obrigada pelo almoço.

— Deixe-me levá-la até o carro para você — disse ele, tomando-lhe a bolsa.

— OK.

Foram em passos lentos até o carro.

— Espero-a amanhã — disse ele.

Ela olhou para os pés na areia. Já havia tomado uma decisão. Não voltaria àquela praia. Nunca mais. Teria de procurar outro lugar.

— Está bem — disse ela.

Já haviam chegado ao carro. Gordon abriu a porta para ela. Colocou a bolsa no banco ao seu lado.

— Obrigada por tudo, Gordon.

— Eu é que lhe agradeço, Mary.

Ela estendeu-lhe a mão e ele tomou-a de surpresa. Em lugar de apertá-la, levou-a carinhosamente aos lábios e disse:

— Até amanhã.

— Adeus, Gordon — disse ela, ligando o motor. — Você foi muito gentil comigo. Mais uma vez, muito obrigada.

 

Chegou ao apartamento, cantarolando. Joe e Evelyn estavam sentados à mesa, tomando café. Joe olhou-a e perguntou:

— Por que está tão feliz?

— Por nada. Um camarada me pagou o almoço.

— Devia conseguir dele mais do que o almoço. O meu contato acaba de me dizer que não trabalharemos durante duas ou três semanas.

— Que quer dizer com isso?

— A lei está contra nós. A polícia está sendo alertada.

— E que é que vamos fazer agora, Joe?

Em vez de responder, Joe olhou para Evelyn. Depois, ainda calado, levantou-se e foi para o quarto.

— Que é que há com ele? — perguntou Mary.

— Joe é assim mesmo — disse Evelyn, encolhendo os ombros. — Você não o conhece bem, mas ele é muito sensível a respeito de certas coisas.

Mary riu. Achava mais engraçadas ainda as palavras de Evelyn em vista da seriedade com que tinham sido proferidas.

— A única coisa a que ele é sensível é o dinheiro — disse ela.

— Exatamente. Está com vergonha de pedir-lhe dinheiro para podermos sair daqui e ir para Nova Orleans.

Mary arregalou os olhos.

— E que foi que houve com o dinheiro de Joe? Ele recebeu a metade de tudo o que nós fizemos.

— Gastamos tudo nas corridas e por outros motivos — murmurou Evelyn, que então sorriu para Mary. — Mas eu disse a ele que não se preocupasse, pois você não teria dúvidas em emprestar-nos todo o dinheiro que tivesse.

Mary falou muito séria:

— Tenho cerca de vinte e dois dólares aqui na bolsa. Isso está à disposição dele, para ajudar no que é possível.

A decepção se estampou no rosto de Evelyn.

— Só isso? E o resto do seu dinheiro? Você deve ter pelo menos uns duzentos dólares guardados. Você nunca foi muito de gastar o seu dinheiro.

— Gastei tudo em roupas — disse Mary, sorrindo. — Você bem sabe como é quando se começa a fazer compras.

Nesse momento, a voz zangada de Joe fez-se ouvir do quarto.

— Eu bem lhe disse, Evelyn, que ela não ia nos dar nada. A verdade é que a temos tratado bem demais. Só há um meio de fazer uma vagabunda dessas saber quem é que manda.

Dizendo isso, saiu do quarto e avançou ameaçadoramente para ela.

Mary abriu calmamente a bolsa e tirou o canivete que havia adquirido na primeira vez em que saíra para fazer compras. Olhou firmemente para ele enquanto apertava o botão, projetando a lâmina.

— Evelyn lhe disse por que é que me mandaram para o reformatório? — perguntou ela numa voz que não se alterou.

— Porque ela retalhou o rosto do padrasto com uma faca — disse Evelyn, muito pálida.

Joe parou no meio da sala e olhou para Mary. Esta começou displicentemente a limpar as unhas com o canivete. Joe voltou-se para Evelyn e disse, com uma voz de desprezo:

— Que belas amigas você arranja! Não disse que se tratava de uma pessoa de muita classe?