79 Park Avenue
Capítulo 17
Joker Martin olhou para Marja, que estava em pé diante de sua mesa.
— Já resolvi tudo — disse ele. — A Assistência Social concordou em que você curse a escola à tarde e continue a trabalhar aqui.
— Muito obrigada. O senhor é sempre tão gentil comigo.
— Talvez porque goste de você — disse ele, sorrindo.
Ela não falou.
— Você é assı́dua e estável, Marja. Nunca falta e nunca me cria problemas como as outras. Talvez seja por isso.
— Ainda não sei como possa retribuir-lhe.
Ele ia dizer alguma coisa, mas nesse momento o telefone tocou e ele atendeu. Ouviu durante alguns instantes, olhando para ela. Ela já ia sair, mas ele com um gesto a fez parar e disse ao telefone: — Espere um instante.
Cobriu o fone com a mão e disse:
— Aqui está uma oportunidade para você me retribuir. Estou falando com um camarada muito importante. Vai dar uma festa esta noite, mas falta-lhe uma dama. Você ganhará cinco dólares se quiser ir.
— Não sei, Sr. Martin. Acho que icarei deslocada lá...
— Deixe disso. O homem é legal. Não tomará liberdades com você. Basta você dançar um pouco com ele e mostrar cara alegre. Tudo estará terminado às três e meia.
— Tem certeza?
— Claro que tenho.
— Mas eu não tenho roupa. É melhor não ir.
— Pode levar o seu vestido. Amanhã, você o trará. Com isso, você estará me fazendo um favor, um grande favor.
Marja não via como poderia recusar isso a quem tinha sido tão bom com ela.
— Está bem, Sr. Martin.
— Ótimo! Vá buscar sua bolsa e volte aqui que vou dar-lhe o endereço.
Esperou que ela saísse e fechasse a porta para falar de novo ao telefone.
— Vou lhe mandar uma novata, Jack. Vá com jeito, portanto; não quero que ela se assuste, está ouvindo?
Ficou em silêncio, ouvindo a pessoa que estava do outro lado do fio. Depois, disse:
— Pois olhe, é a coisa mais linda que você já viu. Mas não se engane. Ela é menor e haverá encrencas se houver alguma coisa errada. Seja correto e tenha um pouco de paciência. No fim, vai dar certo.
Desligou no momento em que Marja voltava.
Saltou do táxi à porta do grande edifício de apartamentos. O porteiro abriu a porta do carro enquanto ela pagava ao motorista.
— Onde é o apartamento do Sr. Ostere?
— Décimo sétimo andar. Apartamento D.
O ascensorista envolveu-a no mesmo olhar que já lhe dirigira o porteiro.
— À esquerda — disse ele, quando o elevador parou no décimo sétimo.
Tocou a campainha do apartamento e a porta se abriu. Um homem de casaca olhou-a.
— Sr. Ostere. Sou Marja Flood.
O rosto do homem estava muito sério.
— Entre — disse cerimoniosamente. — Vou dizer ao Sr. Ostere que está aqui.
Esperou no vestíbulo. O homem saiu e voltou daí a um momento em companhia de outro. Este era mais baixo e vestia um terno escuro.
Foi ao encontro dela de mão estendida.
— Sou Jack Ostere — disse ele, sorrindo.
— Marja Flood — disse ela, apertando-lhe a mão.
Ele recuou um pouco para olhá-la e disse teatralmente:
— Meu Deus! Joker teve razão uma vez na vida! Você é mesmo linda!
— Obrigada, Sr. Ostere — disse ela com um sorriso satisfeito.
— Chame-me de Jack. Entre que vou preparar-lhe um drinque antes que os outros cheguem.
Tomou-lhe o braço e levou-a para a maior sala de estar que ela jamais vira.
— Que prefere? — perguntou ele, parando diante de um pequeno bar portátil sobre rodas. — Manhattan? Martíni?
— Coca? — perguntou ela, hesitante.
O homem franziu as sobrancelhas, mas logo depois sorriu.
— Muito bem — disse ele, puxando uma corda perto da parede.
O mordomo apareceu quase imediatamente.
— Jordan, uma Coca para a Srta. Flood.
— Está bem, senhor — disse o mordomo impassivelmente, afastando-se.
— Bem gelada — disse Marja.
— Bem gelada, senhora — disse o mordomo, olhando-a. Em seguida, saiu da sala.
Marja voltou-se para o dono da casa:
— Espero não ter chegado cedo demais. O Sr. Martin me disse que viesse imediatamente.
Ostere serviu-se de um copo de uísque com gelo e disse:
— Quem é tão bonita como você nunca chega cedo demais, Marja.
A campainha tocou,
— Com licença — disse Ostere —, alguns dos meus convidados estão chegando e tenho de recebê-los.
O mordomo trouxe o refrigerante de Marja, e ela olhou para a sala. Devia ter uns doze metros de comprimento, e numa das extremidades havia portas que davam para um terraço.
O dono da casa voltou com os recém-chegados, e Marja arregalou os olhos.
Uma das mulheres era uma estrela de cinema cujos filmes ela tinha visto muitas vezes no cine RKO, da 86th Street. E um dos homens era um jornalista famoso cuja coluna ela lia quase sempre no jornal da manhã.
Antes de Ostere terminar as apresentações, a campainha tocou de novo, e ele foi receber outros convidados. Marja estava cada vez mais deslumbrada. Embora não conhecesse todos os nomes, podia ver que era gente importante.
Ficou calada e intimidada a maior parte do tempo, porque não sabia o que ia dizer a gente como aquela. Pelas conversas que ouvia, chegou à conclusão de que Ostere era um homem muito rico que de vez em quando financiava peças de teatro.
Era, porém, um homem muito gentil porque, embora andasse sem parar pela sala para dar atenção a todos os convidados, aproximava-se dela a todo instante para saber se tudo ia bem e se queria alguma coisa. Simpatizou com ele. Era tão atencioso, tão delicado.
Em dado momento, o jornalista aproximou-se dela e perguntou-lhe o que ela fazia. A princípio, não soube o que dizer, mas resolveu chegar o mais perto possível da verdade.
— Sou dançarina.
Ostere apareceu nesse momento e aprovou a resposta com um sorriso.
— Onde trabalha? — insistiu o jornalista. — Posso dar-lhe uma promoçãozinha na minha coluna.
— Não estou ainda nessa fase — disse ela sorrindo. — Mas espero que se lembre de mim quando eu estiver.
O colunista já havia bebido além da conta. Sabia que espécie de garotas Ostere convidava para ocasiões como aquela. Resolveu então ser desagradável.
— Pois se você é dançarina, vamos vê-la dançar. Não acredito no que está dizendo.
Fez-se um silêncio pesado quando o jornalista disse isso. Todos ficaram olhando com curiosidade para Marja, a fim de ver qual seria sua reação. As garotas de Ostere não eram segredo para ninguém.
Marja abriu bem os olhos para vencer a timidez e disse:
— Eu bem que gostaria de fazer-lhe a vontade, mas infelizmente não é possível. Nesse momento, estou atacada da doença profissional das dançarinas.
— Doença profissional? — exclamou o colunista, com uma nota de triunfo na voz. — Nunca ouvi falar disso.
— Pois olhe que pensei que conhecesse tudo — disse Marja suavemente. — Nunca ouviu falar em pés doloridos?
As gargalhadas que ressoaram na sala atenuaram a tensão, e Ostere bateu-lhe no ombro, murmurando:
— Muito bem!
Os convidados começaram a sair por volta das duas e meia da manhã, e às três horas Marja e Ostere estavam sozinhos de novo. Ele deixou-se cair numa cadeira, olhou para ela e exclamou:
— Graças a Deus, agora estou livre disso por uma semana!
— Se não gosta disso, por que o faz? — perguntou Marja, admirada.
— Sou forçado. É importante para meus negócios. Além disso, todos ficariam decepcionados se eu não os convidasse. Isso já se tornou um hábito semanal.
— Quer dizer que isso acontece todas as semanas?
— Claro. Nova York não seria a mesma sem a recepção da meia-noite em casa de Jack Ostere — disse ele, com certa satisfação.
Marja sacudiu a cabeça. Estava além de sua compreensão. Não sabia que diferença fazia haver essa festa ou não.
— Bem, está na hora de eu ir, Sr. Ostere — disse ela, afinal.
Ele a olhou com o que julgava uma expressão suplicante.
— Tem de ir mesmo? Tenho lugar de sobra aqui.
— Tenho de ir, Sr. Ostere. Meu pai está acordado à minha espera.
Ele se levantou, murmurando:
— É verdade. Eu devia ter compreendido isso. Tirou uma nota do bolso e fechou-a na mão dela. Ela não olhou para a nota e disse, estendendo a mão:
— Muito obrigada, Sr. Ostere. Gostei muito.
Ele apertou-lhe a mão e disse:
— Eu é que gostei de tê-la aqui, minha cara. Espero que venha de novo. Talvez na semana que vem.
— Não sei. Terei que falar com o Sr. Martin.
— Quanto a isso não se incomode. Eu falarei com Joker — disse ele, levando-a até a porta.
— Boa noite, Sr. Ostere.
— Boa noite, Marja.
A porta do elevador se abriu e ela entrou, dando adeus a Ostere, que ainda estava à porta do apartamento. Foi só quando o elevador já ia descendo que ela olhou para a nota que ainda apertava na mão esquerda.
Não pôde conter uma exclamação de surpresa. Eram vinte dólares, tanto quanto ela fazia em toda uma semana de trabalho. Guardou o dinheiro na bolsa, com a vaga ideia de que havia cometido um erro.
O porteiro mostrou surpresa quando a viu.
— Táxi, senhora?
Ela olhou um instante e encolheu os ombros. Por que não? Naquela noite ela podia.