79 Park Avenue
Capítulo 6
Pela terceira manhã consecutiva, ele a viu no momento em que saía do mar, como se fosse uma deusa. Usava um maiô branco que lhe aderia ao corpo como se fosse a própria pele. Os seios altos e firmes, a cintura fina, os quadris benfeitos mas generosos — tudo parecia feito de mármore branco. Tirou lentamente a touca branca. Uma massa cintilante de cabelos dourados caiu-lhe sobre o rosto queimado de sol.
Caminhou pela praia até o lugar onde estava estendida a esteira. Pegou uma toalha e enxugou-se vigorosamente. O homem podia quase sentir a vibração animal da sua pele sob a toalha. Nunca vira ninguém mostrar tal prazer de existir como aquela mulher que saíra da água.
Sabia perfeitamente o que ela iria fazer em seguida. Estender-se-ia na esteira, afrouxaria as alças do maiô e ficaria tomando um banho de sol. Não olharia uma só vez para o alto da pequena colina onde a casa dele se erguia sobre o oceano. Depois de ficar ao sol mais ou menos uma hora, levantar-se-ia e guardaria tudo o que era dela numa pequena bolsa de praia. Depois, passaria um roupão pelos ombros, sairia da praia, entraria num pequeno conversível e iria embora.
Era isso o que ela fazia todas as manhãs. Seria quase possı́vel aceitar o relógio por ela. Todos os dias, da janela do seu quarto, ele a via chegar à praia às onze horas. Isso havia acontecido regularmente desde que ele chegara à Flórida, em ins de janeiro, quase três semanas antes. Vira-a pela primeira vez na manhã seguinte à festa do senador.
Acordara com uma terrível ressaca e gritara pelo empregado, pedindo suco de tomate. Mas Tom era meio surdo e não o ouvira ou não quisera ouvir. Levantara-se muito zangado e fora até a campainha perto da janela. Debruçara-se pesadamente no peitoril, olhando para a praia.
Ela estava saindo da água. A princípio, sacudira a cabeça, pensando que estava tendo visões. À luz enevoada da manhã, pensara que estivesse nua. Olhara melhor e percebera o maiô branco. Saíra da janela, julgando-se um idiota. Mas, na manhã seguinte, fora de novo para a janela, na esperança de que ela aparecesse.
"Puxa!", disse consigo mesmo. "Sou Gordon Paynter. Sou considerado o melhor partido da temporada. Todas as mães da Flórida me marcaram como noivo para suas filhas e aqui estou eu suspirando por uma mulher desconhecida que aparece na praia. Não sei nem quem ela é. Com toda a certeza, é uma bobinha sem uma ideia na cabeça, salvo o prazer que lhe dão o sol e a areia."
Teve de repente a impressão de que havia alguém ao seu lado. Voltou-se prontamente. Tom estava olhando para a praia.
— Muito bonita aquela moça, Sr. Gordon — murmurou ele.
Gordon sorriu.
— Acho que é por isso que você não faz coisa alguma para mim de manhã, não é? Fica também, a olhá-la, hem?
Tom falou com uma intimidade que vinha de longas relações.
— Posso ser velho, Sr. Gordon, mas tenho olhos que gostam de ver o que é bonito.
— Sabe quem é?
— Não. Só a tenho visto aqui na praia.
— Acha que poderia aceitar um convite para vir almoçar aqui?
— Isso só se pode saber depois de fazer o convite — murmurou o velho, abrindo bem os olhos.
Gordon olhou para a praia. Ela estava estendida na esteira, quase confundida com a areia.
— Pois faça isso, Tom — disse ele, rindo. — Vá convidá-la para almoçar comigo.
Ela estava deitada imóvel na areia, com a cabeça pousada nos braços. O sol quente queimava-lhe as costas. Era um calor bom e limpo. Não era um calor sujo como o dos refletores que haviam brilhado sobre ela no show da noite anterior. Pensou nos homens cujos olhares cobiçosos grudavam-lhe ao corpo como coisas sensíveis. Que homens eram esses que se emocionavam com aquelas exibições de segunda classe?
O mais difícil de tudo era fazê-los compreender, depois do show, que tudo ficaria naquilo. Não tinha nada mais para dar-lhes. Ela e Evelyn esperavam no carro enquanto Joe recebia a outra metade do dinheiro delas. Em seguida, iam-se embora.
Em geral, Evelyn e Joe iam a algum lugar, mas ela ia diretamente para casa e se metia na banheira. Um banho quente purificava-a de uma porção de venenos. Ia depois para a cama, lia um pouco e adormecia. Às vezes, acordava na hora em que Evelyn e Joe voltavam. Havia muitos ruídos e ela esperava tranquilamente que o silêncio se restabelecesse.
De manhã, acordava antes deles, vestia o maiô, pegava o carro e ia para a praia. Acordavam quando ela voltava da praia e, quase sempre, era ela quem fazia o café da manhã. Depois, Evelyn e Joe se vestiam e iam para o prado de corridas. Só voltavam à tardinha. Em geral, perdiam e pediam-lhe algum dinheiro emprestado até o dia seguinte. Nunca lhe pagavam, mas ela achava mais sensato não cobrar o dinheiro.
Não era de todo má aquela vida. Já conseguira economizar cerca de quinhentos dólares, que estavam depositados num banco em Miami. Uma vez por semana, ia à cidade, entrava num cinema, lanchava e passava pelo banco. O trabalho havia deixado de preocupá-la. Sua reação diante do que tinha de fazer era rigorosamente impessoal. A inal de contas, aquilo era uma espécie de representação e não era preciso sentir nada de pessoal para representar.
Já estava na hora de virar-se. Sentia as costas bem quentes e queimadas. Quando virou o corpo, percebeu que havia alguém de pé perto dela. Sentou-se prontamente, segurando com as mãos as alças do maiô.
Era um homem preto e grisalho.
— Senhora — disse ele, sorrindo e numa voz delicada e hesitante.
— Que deseja? — perguntou ela friamente.
— Vim trazer-lhe os cumprimentos do Sr. Gordon Paynter — disse ele, solenemente. — Vim saber também se aceitaria o convite para ir almoçar em casa dele.
Ela olhou para a mão que apontava a casa da colina. Já havia notado aquela casa. Pertencia sem dúvida a um homem rico, cercada como era de um gradil de ferro e no centro de um terreno que vinha até a praia. Virou-se para o preto e disse:
— Faça o favor de dizer ao Sr. Paynter que aprecio muito a gentileza, mas se ele quer convidar-me para almoçar, por que não vem até aqui e me convida pessoalmente?
O homem não pôde conter um sorriso, mas disse gravemente:
— Muito bem, senhora. Vou dizer a ele.
Fez uma reverência e voltou para a casa.
Mary viu-o começar a subir a colina. Estendeu-se então na areia e fechou os olhos. Uma maneira estranha aquela de travar conhecimento com uma mulher: mandar um empregado chamá-la. Como seria aquele tal Paynter? Provavelmente um velhote, já com o pé na sepultura. Teria decerto de fazê-lo conhecer o seu lugar. Cochilou alguns minutos e preparou-se então para ir embora.
Já havia arrumado a bolsa e se encaminhava para o carro quando ouviu passos na areia e virou-se.
Um homem moço corria para onde ela estava. Usava calças de brim branco e uma camisa branca de malha. Seus cabelos eram castanho-claros e se agitavam à brisa da praia.
— Senhorita, espere! — gritava ele.
Ela esperou. Era alto e tinha olhos azuis. O rosto estava um pouco fatigado e havia pequenas rugas de exaustão em torno da boca e dos olhos.
— Pensei que iria embora antes de eu chegar aqui — disse ele, ofegante com o exercício, a que não estava habituado. — Mas não podia deixar de vestir alguma coisa.
Ela não respondeu e ele sorriu subitamente.
— Ih! Não estou em bom estado físico. Quase não tenho fôlego. Meu nome é Gordon Paynter.
Observou-a atentamente, mas ela não mostrou qualquer sinal de haver reconhecido o nome e, ainda por cima, continuou calada.
— Tenho-a visto várias vezes aqui na praia. Em geral, ninguém vem até aqui. É um trecho muito isolado.
Já estava respirando melhor e ouviu-a por fim falar.
— É por isso mesmo que venho para cá. Não gosto de ser importunada pelos outros.
— Então, desculpe. Mas não quis importuná-la. Queria apenas saber se gostaria de...
— Obrigada, Sr. Paynter — disse ela prontamente. — Foi muita gentileza da sua parte... Talvez em outra ocasião...
— Posso levá-la até o carro? Tenho certeza de que já a conheço de algum lugar. Seria da festa em casa do senador?
Ela o olhou atentamente, mas viu que o rosto era sincero e livre de qualquer malícia. Não parecia do tipo que frequentava aqueles espetáculos só para homens. Estava apenas jogando verde. Sorriu e disse:
— Não creio que já nos tenhamos visto, Sr. Paynter.
— Tem certeza, Srta.... Srta.?
Ela não respondeu. Quando chegaram ao carro, ela jogou a bolsa no banco de trás e entrou.
— É de Nova York — disse ele, olhando para a placa do carro. — Eu também sou. Quem sabe se já não nos vimos lá?
— Não, Sr. Paynter — disse ela, girando a chave. — Nunca nos vimos.
— Bem, Srta... — disse ele, esperando em vão que ela lhe dissesse o nome —, espero que não deixe de vir a esta praia por minha causa.
— Fique descansado. Gosto disto aqui.
— Irá então almoçar comigo amanhã?
— Talvez — disse ela, rindo. — Por que não me convida amanhã, Sr. Paynter?
Ele ficou olhando o carro alguns momentos depois que ela partiu, e coçou a cabeça. Muito estranha aquela moça. Não parecia absolutamente que já tivesse ouvido falar nele. Ou estaria apenas fingindo? Voltou para casa pensando. Talvez pudesse apurar tudo no dia seguinte.