79 Park Avenue
Capítulo 8
Mary foi cedo para seu quarto e leu um pouco antes de dormir. Ouvia do outro lado da porta fechada um murmúrio abafado de conversa. Sorriu. Joe aceitara os vinte e dois dólares sem reclamar. Que iriam os dois fazer em seguida? Afinal, apagou a luz e tratou de dormir. No dia seguinte, teria tempo de sobra para preocupar-se.
Quando acordou no dia seguinte, o sol entrava radiosamente pela janela aberta. Rolou o corpo pela cama e espreguiçou-se. Era magnı́ ico ir dormir cedo. Quase já se havia esquecido disso. Levantou-se e pegou o robe em cima da cadeira. Não havia armário no quarto dela. O armário icava no quarto maior, onde estavam Evelyn e Joe.
Vestindo o robe, Mary passou para o outro quarto. Arregalou os olhos, surpresa. A cama estava vazia e sem o menor sinal de que alguém houvesse dormido nela. Foi até a janela e olhou. O carro também não estava mais lá.
Foi até a pia e encheu a chaleira para fazer café, ainda pensando na ausência dos dois. Deviam ter saído na noite passada e ainda não haviam voltado. Acendeu o gás e foi até o armário.
Vazio. Não havia mais roupas. Abriu as gavetas da cômoda. Tinham levado tudo. Praguejou baixinho. Tudo o que restava de roupas no apartamento era o que ela trazia em cima do corpo: uma camisola, um robe barato e as sandálias. Tinham levado todas as roupas dela, até o maiô.
O café estava fervendo. Serviu-se de uma xícara e sentou-se para pensar no que ia fazer. Estendeu a mão para o maço de cigarros que ficava sempre em cima da mesa. Até isso tinham levado. Foi até o quarto e apanhou o maço que estava dentro da bolsa.
Nesse momento, bateram à porta e ela abriu. Era o zelador do edifício.
— Que é? — perguntou ela.
Era um homem baixo e atarracado, que a olhou por entre as cerradas sobrancelhas, dizendo:
— Seus amigos foram-se embora.
— Sei disso — disse ela, sem sair da porta.
Ele fez um movimento para entrar no apartamento, mas ela lhe bloqueou a passagem.
— Disseram-me que pagaria o aluguel — disse ele, tentando olhar por cima do ombro dela, para ver o que ainda restava do apartamento.
— Quanto lhe devem?
— Três semanas. São noventa dólares.
Não dava para saber se ele estava mentindo ou não. Se estava dizendo a verdade, Joe havia embolsado a parte do aluguel que ela pagara.
— Ele me disse que lhe havia pago até a semana passada.
— Tem os recibos?
— Devem estar por aí.
Ele bem sabia que ela não tinha os recibos. Quando ouvira o barulho do motor do carro no meio da noite, saíra do quarto às pressas. Sempre dormia com um ouvido voltado para os inquilinos. Num edifício de apartamentos mobiliados era preciso agir assim; do contrário se perderia até a camisa do corpo. Havia sempre quem tentasse sair sem pagar o aluguel.
O homem e a mulher estavam arrumando as malas no carro.
— Olá! — dissera ele, amarrando o roupão. — Aonde é que vão?
— Vamos embora.
— E meu aluguel?
— Que é que há com seu aluguel? A loura vai ficar. Não irá conosco.
— Como é que eu vou saber se ela tem dinheiro?
O homem olhara para a companheira e depois levara o gerente para trás do carro, onde ela não poderia ouvi-lo.
— Ela tem dinheiro, sim, e você pode até cobrar-lhe mais duas semanas e não apenas esta.
O gerente baixara inconscientemente a voz.
— Mas os recibos estão na sua mão.
O homem tirou alguns papéis do bolso e disse:
— Posso devolvê-los.
O gerente viu em suas mãos os recibos das duas últimas semanas.
Ouviu então o homem dizer-lhe:
— Tenho de sair. Minha garota é muito ciumenta e a loura não me deixa em paz. Quer saber de uma coisa? Você pode até...
— Acha mesmo? — perguntou o zelador, sentindo a boca seca ao lembrar-se de como a vira ir para o carro de maiô.
— Fácil, fácil.
O zelador ficou indeciso. Na realidade, o aluguel só estava com dois dias de atraso.
— Como é que eu vou fazer?
— Ora, ela é uma ninfomanı́aca, sabe? Não pode passar sem fazer isso. Basta você mostrar a ela que está querendo.
— Está bem — disse o zelador, dando um suspiro. — Vou tentar.
O carro desapareceu então dentro da noite, e ele voltou para seu quarto. Ainda que o homem não estivesse dizendo a verdade, o pior que podia acontecer era ele conseguir apenas alguns dólares a mais...
Meteu o pé no batente da porta e disse categoricamente:
— Escute aqui, o aluguel não foi pago e eu quero o meu dinheiro.
— Não poderá receber nada agora — disse Mary. — Só depois que eu for ao banco e tirar o dinheiro.
— Nada disso. Acha então que vou cair nessa? Se você sair daqui, não me aparecerá mais e eu ficarei sem o meu dinheiro. Quero tudo agora.
— Não tenho dinheiro aqui — disse ela.
— Tem, sim — disse o homem, correndo os olhos cobiçosamente pelo corpo mal coberto pelo robe. — Tem todo o dinheiro de que precisa.
Um sorriso apareceu nos lábios de Mary. Compreendera tudo sem demora.
— Está bem — disse ela. — Mas preciso de algum tempo para me aprontar. Preciso tomar um banho e...
O homem estendeu a mão na direção dela. Sentiu-lhe a rigidez do seio sob o robe, mas ela esquivou agilmente o corpo e disse, sorrindo:
— Agora, não.
O gerente olhou para ela. O sujeito havia dito a verdade.
— Está certo — disse ele magnanimamente. — Dou-lhe uma hora e então voltarei.
— Obrigada — disse ela secamente.
— Mas não tente enganar-me. A polícia daqui não gosta de caloteiros, especialmente quando se trata de turistas.
Ela fechou a porta e escutou-lhe os passos que se afastavam pelo corredor. Ficou um momento ali e depois foi até a mesa. Pegou a xícara de café e tomou um gole. Estava gelado.
Acendendo outro cigarro, foi até o fogão e ficou ali pensativamente enquanto esquentava a cafeteira. No fundo do seu ser, sempre soubera o que ia acontecer. Mais cedo ou mais tarde, teria de tomar uma decisão.
Quando o café estava quente, levou uma xícara de novo para a mesa e sentou-se. Se ao menos tivesse algumas roupas, poderia ir embora. Mas, nesse caso, o gerente chamaria a polícia. Joe tinha dito que a polícia já estava alerta. Talvez fosse reconhecida como uma das figurantes do ato. Tudo então seria pior para ela.
Tomou o café e acendeu um cigarro na ponta do outro. Sorriu tristemente. Não que tivesse alguma coisa a perder. Já não era uma virgem que tivesse de proteger a invisível barreira. O padrasto tratara disso. Também sabia cuidar-se em relação a outras coisas que nunca mais deveriam acontecer. Isso ela havia aprendido no reformatório. Não havia motivo algum para preocupação. Entretanto, alguma coisa sempre a retivera.
Fechou os olhos, quase fatigada. Era o que todos sempre queriam. Os homens eram todos iguais. Ela sabia disso e costumava divertir-se. Gostava de ver até onde podia ir com eles com possibilidade de escapar. Se ao menos houvesse dentro dela alguma coisa que pudesse corresponder aos desejos deles, talvez ela pudesse pensar de maneira diferente a esse respeito. Só ao lado de Mike é que havia sentido alguma coisa surgir dentro dela.
Era estranho que ela pensasse nele naquele momento. Parecia que ele pertencia a um mundo completamente diverso. Talvez fosse o amor que sentia por ele que o tornava diferente. Devia ser. Nunca sentira o mesmo com qualquer outra pessoa.
Tomou outra xícara de café e olhou para o relógio. Quinze minutos ainda. Levantou-se e lavou a xícara. Depois de enxugá-la e guardá-la no armário, tornou a olhar o relógio. Dez minutos.
Acendeu outro cigarro e esperou, com os olhos no relógio. Gostaria de sentir alguma coisa naquele momento, nem que fosse medo. Nada sentia, porém. Apenas a fria certeza de que aquilo teria de acontecer e de que tudo fora apenas uma questão de tempo.
Estava ainda olhando para o relógio quando bateram na porta. Levantou-se e foi abri-la.
— Entre.
O gerente hesitou um instante e afinal entrou e fechou a porta.
— Então? — perguntou ele, com o rosto ansioso.
Mary notou que ele fizera a barba e vestira uma camisa limpa. Sorriu consigo mesma.
— Então — respondeu ela.
— Está pronta? — perguntou ele, encaminhando-se para ela.
— Estou sempre pronta — respondeu ela automaticamente, com os olhos fitos no homem.
O gerente estendeu as mãos e abraçou-a rudemente. Beijou-a, e ela sentiu-lhe os dentes atrás dos lábios. Não se mexeu. As mãos do homem moveram-se rapidamente, e som de suas roupas sendo rasgadas chegou-lhe aos ouvidos como se viesse de muito longe. Foi então que ela o empurrou.
Olhou com pesar para o robe rasgado no chão. Estava mesmo sem roupas de espécie alguma. Olhou para o homem. Ele estava devorando-a com os olhos injetados e uma expressão de furor intenso no rosto. Avançou para ela.
Ela o encaminhou para o quarto. Tudo lhe era naquele momento perfeitamente claro. Demorara muito, mas a inal compreendia. Era aquela a vida para a qual nascera. Algumas mulheres nascem para ser esposas, secretárias, funcionárias ou atrizes. Mas ela nascera para ser prostituta.
Era por isso que as coisas tinham sempre corrido de maneira estranha para ela. O que todos viam nela antes de mais nada era a prostituta.
— Entre — disse ela calmamente, apontando a porta.
Ele avançou de novo para ela.
— Para que essa pressa toda? — perguntou ela, sorrindo. — Não vou fugir.
Ele hesitou um pouco e entrou no quarto, tirando a camisa. Ela apanhou o robe rasgado e seguiu-o para o quarto, olhando os pelos que lhe cobriam o peito e os ombros.
Lembrou-se das coisas que Evelyn lhe ensinara para o número e que sempre excitavam a assistência. Se ela tinha de ser uma prostituta, queria ser a melhor que havia. As palavras lhe vieram aos lábios como se as tivesse dito durante toda a sua vida.
— Como é que você gosta?