79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 7 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 6

Ela ouviu o choro fraco da criança no momento em que chegou ao bali de entrada e começou a subir as escadas. O choro se tornava mais forte à medida que ela se aproximava da porta. A luz lá dentro estava acesa Hesitou um pouco antes de abrir.

Piscou ao sentir o impacto da luz. O choro da criança lhe dilacerava os ouvidos. Entrou na sala e fechou a porta. Ouviu passos no corredor à esquerda e seu padrasto apareceu com as calças quase caindo. Do alto da camisa de meia escapava a farta e áspera cabelama do peito. Não falou, limitando-se a olhá-la com ar furioso.

— Por que é que ele está chorando? — perguntou ela, apontando para o quarto.

— Onde é que você estava? — perguntou ele rudemente, sem responder-lhe à pergunta.

— Estava tomando banho de mar — disse ela, encaminhando-se para o quarto.

— Até as dez e meia da noite? — perguntou ele, olhando para o relógio da cozinha.

— Coney Island fica muito longe — respondeu ela, abrindo a porta do quarto.

O padrasto agarrou-a pelo braço e fê-la rodar.

— Por que antes de ir não veio falar com sua mãe? — perguntou furioso. — Ela ficou muito preocupada com sua demora e você bem sabe que ela não tem passado bem.

— Ela passaria muito melhor se você arranjasse um emprego e ela não tivesse de trabalhar à noite.

Ele levantou a mão como se fosse bater nela.

— Bata, vamos. Quero ver se tem coragem! — disse ela, rilhando os dentes.

Ele a insultou em polonês.

— Coorva! Prostituta!

— Vagabundo! — disse ela com desprezo. — Só sabe é beber cerveja. E nem tem coragem de me bater, pois sabe que no dia em que fizer isso minha mãe bota você pela porta afora!

O homem deixou cair a mão ao longo do corpo e murmurou noutro tom:

— Se eu não tivesse sido tão amigo de seu pai quando ele era vivo, pouco me incomodaria com o que você fizesse.

— Não meta meu pai nisso! Ele ao menos era um homem. Não ficava o dia inteiro em casa sem fazer nada, tomando cerveja!

O padrasto havia passado para a defensiva. Marja sentiu isso e ficou exultante.

— Sua mãe não quer que eu trabalhe mais na construção de edifícios — disse ele com voz incerta. — Fez-me prometer isso quando nos casamos. Disse que perder um marido naquele serviço perigoso bastava.

— Você viu meu pai cair — disse ela friamente. — Foi a promessa ou foi o medo que o fez ficar em casa?

O choro do bebê era mais forte e mais nervoso. O padrasto disse então, afastando-se:

— Vá ver o que Peter quer.

Marja entrou no quarto e fechou a porta. Ele foi pesadamente até a geladeira e tirou uma lata de cerveja. Abriu-a rapidamente com a habilidade de uma longa prática e virou a lata na boca. Um pouco de cerveja escorreu-lhe pelo rosto, descendo até a camisa de meia. Bebeu tudo avidamente e jogou a lata vazia num saco de papel junto da pia.

Olhou, para a porta fechada do quarto. O choro da criança havia parado. Ela era uma cadela, não havia a menor dúvida. Não era possível fazer nada com ela. Tinha sido assim desde o dia em que a mãe havia dito a ela que iam casar-se.

Fechou os olhos para lembrar melhor. Acontecera três anos antes. Um mês depois que o pai dela havia caído de uma longarina de aço num vigésimo terceiro andar.

Ainda podia ver o olhar de surpresa de Henry quando percebeu que o andaime que devia estar ali não estava. Foi um momento dramático em que tudo icou paralisado. Ele começou a dizer "Peter!" e estendeu a mão para o amigo.

Mas nesse mesmo instante mergulhou no espaço e foi caindo em direção ao chão. Olhando para baixo, Peter viu que o boné de Henry lhe caía da cabeça e que os cabelos louros se espalhavam ao vento tocados pelo sol, enquanto ele despencava no vácuo.

A cerveja subiu-lhe à garganta só de lembrar-se. Prendeu a respiração um momento e arrotou. Melhorou da náusea. Lembrava-se do amigo sempre que olhava para Marja. Era o mesmo cabelo louro-claro, os salientes zigomas poloneses e a mesma boca rasgada. E o andar dela lembrava também o do pai, firme e seguro.

Havia notado isso na noite em que fora propor casamento a Katti, um mês depois da morte do pai de Marja. Vestira seu melhor terno, com o qual ia à igreja aos domingos, e comprara uma caixa de bombons de dois dólares. O homem da loja lhe havia assegurado que eram os melhores e mais novos que ele tinha. Subira as escadas até o apartamento e ficara parado, suando do esforço e do nervosismo. Afinal, criou coragem e bateu na porta.

Ouviu então a voz da mãe dela.

— Quem é? — perguntou Katti.

— Sou eu, Peter.

Houve um rumor de correria atrás da porta fechada, a qual pouco depois foi aberta por Marja, que o cumprimentou com os olhos arregalados:

— Alô, tio Peter!

Ele sorriu para ela e correu os olhos pela sala, à procura da mãe. Mas não a viu. A mesa da cozinha estava coberta de alfinetes e retalhos de fazenda branca.

— Alô, Marja. Sua mãe está?

— Foi pôr um vestido. Entre, tio Peter.

Ele entrou na casa meio sem jeito e entregou-lhe a caixa, dizendo:

— Trouxe uns bombons.

— Muito obrigada — disse ela, recebendo muito séria a caixa, que colocou em cima da mesa da cozinha. — Mamãe mandou levá-lo para a sala.

— Não, não precisa se incomodar. Posso ficar na cozinha.

Ela sacudiu a cabeça.

— Mamãe disse que o levasse para a sala.

E conduziu-o pelo longo e estreito corredor que levava para a sala da frente. Parecia uma sombra clara a dançar à frente dele. Peter tropeçou em dado instante no corredor às escuras e sentiu a mão dela tocá-lo.

— Segure minha mão, tio Peter. Eu conheço o corredor, e o senhor pode cair no escuro.

A mão estava quente na dele. Ela parou de repente e ele esbarrou nela.

— Desculpe — disse ele.

— Não tem importância — disse ela, tirando a mão. — Vou acender a luz.

A luz se acendeu e incidiu em cheio sobre o vestido branco da moça. Ele a olhou, admirado. Parecia que o vestido estava em cima da pele.

Ela notou o olhar e sorriu levemente.

— Está gostando de meu vestido de formatura, tio Peter? Mamãe acabou de fazê-lo agora mesmo.

— Muito bonito — disse ele, sem poder desviar os olhos.

— Sabe que vou acabar o curso agora?

— Sei, sim. Seu pai me disse. Estava muito orgulhoso de você.

Uma sombra passou pelos olhos dela. Peter pensou que ela fosse chorar, mas a sombra logo se dissipou.

— No ano que vem, vou fazer o pré-universitário.

— Já? — perguntou ele com fingida surpresa. — Ainda penso em você como uma criança.

— Vou fazer treze. Não sou mais criança.

— Não — replicou. Já tinha visto que não devia discutir com ela.

— Mas não sou tão velha que não possa beijá-lo para agradecer os bombons que nos trouxe, tio Peter.

Ele sentiu de repente o rosto afogueado de acanhamento. Não disse uma palavra.

— Abaixe-se um pouco, tio Peter, senão eu não o alcanço.

Ele se curvou para a frente e estendeu-lhe o rosto. Foi colhido de surpresa pelo que ela fez. Passou-lhe os braços pelo pescoço e beijou-o na boca. Não era um beijo de menina, mas o beijo de uma mulher que nascera para beijar. Ele sentiu contra o paletó a pressão de seu corpo jovem.

Estendeu as mãos desajeitadamente para afastá-la, mas acidentalmente tocou-lhe nos seios. Deixou caírem as mãos para os lados como se tivesse tocado numa fornalha quente.

Ela recuou um pouco e olhou-o com um sorriso nos lábios.

— Obrigada pelos bombons, tio Peter.

— Não há de quê — respondeu ele.

— Venha sentar-se — disse ela, levando-o para a sala.

Ao chegar à porta, parou e perguntou-lhe:

— Não sou mais criança, não é, tio Peter?

— Não, não é — murmurou ele.

Ela sorriu, cheia de satisfação, e saiu depressa pelo corredor.

— Mamãe! — gritou ela. — Tio Peter nos trouxe uma caixa de bombons!

Ele se deixou cair numa cadeira, lembrando-se do que o pai dela lhe havia dito pouco antes do acidente: "Mais um ano, Peter, e os rapazes estarão andando atrás dela como cachorros atrás de uma cadela no cio".

Sacudiu a cabeça, com os dedos que haviam tocado nela ainda vibrantes, e cheio de estranha agitação. Henry devia ser cego. Os rapazes com certeza já andavam atrás dela.

Ouviu os passos de Katti no corredor e levantou-se. Estava ali de pé, com o rosto muito vermelho, quando ela chegou à sala.

Apertaram-se as mãos, como se fossem homens.

— Peter, você é bom demais para nós. Não devia ter trazido os bombons. São tão caros!

— Quero ser bom para você, Katti — disse ele com voz rouca, ainda segurando-lhe a mão.

Ela retirou a mão e disse, apontando uma cadeira:

— Sente-se, Peter.

Ele a olhou. Era uma mulher bem simpática. Alta e de proporções generosas. Uma mulher da velha terra, muito diferente das americanas que de tanto fazerem dieta acabavam magras como palitos. E como cozinhava bem! Ainda se lembrava da inveja que sentia sempre que Henry abria a geladeira. Que sanduíches deliciosos ela fazia para o marido!

Sempre dissera a Henry que nunca se casara porque não havia muitas mulheres parecidas com Katti. Henry tinha rido, dizendo que ele já estava tão enraizado nos seus hábitos que não sabia o que fazer para agradar à mulher.

Mas não era bem esse o caso. O que acontecia era que nem toda mulher lhe agradava. Katti era o tipo de mulher que o faria feliz.

— Estou fazendo café fresco para você — disse ela.

— Ora, para que foi incomodar-se? Não devia ter esse trabalho comigo.

— Não é trabalho...

Ficaram calados durante alguns minutos e, afinal, ela começou a falar em polonês.

— Gosta do vestido novo de Marja?

Ele meneou a cabeça e continuou a conversa inconscientemente na mesma língua.

— Já está bem crescida.

— É verdade. Forma-se em setembro.

— Já sei. Henry me havia dito.

As lágrimas chegaram no mesmo instante aos olhos de Katti, que virou o rosto.

— Desculpe. Não tive intenção...

— Eu sei — disse ela, com as lágrimas a rolarem-lhe pelo rosto. — As coisas às vezes ficam pesadas demais para mim. Não estou habituada a isso. Nunca sei o que devo fazer, mas Henry sabia.

Eram assim as mulheres da velha terra, pensou Peter. Sabiam o seu lugar e deixavam que os homens tomassem as decisões. Ocorreu-lhe um pensamento.

— Na verdade — disse ele solenemente —, Henry costumava dizer-me: "Peter, se me acontecer alguma coisa, tome conta de Katti e da menina por mim".

As lágrimas de Katti cessaram imediatamente, e ela o olhou muito surpresa.

— Ele disse isso?

— Disse, sim.

— E por isso que vem nos ver duas vezes por semana?

— A princípio, foi, Katti. Mas agora não é mais por isso.

— Por que vem então? — perguntou ela, baixando os olhos e em voz quase sumida.

— Para ver você, Katti — disse ele, sentindo mais coragem do que jamais sentira em sua vida. — Quero dar um lar a você e a Marja.

Um longo momento se passou sem ela falar. Afinal, estendeu a mão e disse:

— Você é tão bom para nós, Peter!

Depois, quando o café ficou pronto, foram para a cozinha. Os alfinetes e os retalhos de fazenda não estavam mais em cima da mesa, e Marja, que havia tirado o vestido, estava sentada, fazendo as lições de casa. A caixa de bombons estava aberta ao lado dela e sua boca estava lambuzada de chocolate.

Ela sorriu para ele.

— Os bombons são uma delícia, tio Peter.

— Fico satisfeito de que tenha gostado, Marja.

Katti foi até o fogão.

— Marja — disse ela, enquanto servia o café —, gostaria de ter o tio Peter como pai?

Peter viu os olhos da menina arregalarem-se, com uma expressão que ele não conseguiu penetrar.

— Que quer dizer com isso, mamãe? — perguntou ela, com voz subitamente magoada.

Katti estava sorrindo quando levou o café para a mesa.

— Quero dizer apenas que tio Peter e eu vamos nos casar.

— Não! — foi a exclamação angustiada de Marja.

Ambos olharam-na com surpresa. Ela se levantara bruscamente e nesse movimento derrubara no chão a caixa de bombons.

Katti disse então com voz grave:

— Você não compreende agora, Marja, mas mais tarde compreenderá, quando crescer. Uma mulher não pode viver sozinha sem um homem para tomar conta dela e da família.

— Mas, mamãe — exclamou Marja, chorando. — Nós duas estamos nos arrumando sozinhas. Não precisamos de ninguém. Não há quem possa tomar o lugar de papai.

A voz de Katti ainda era gentil.

— E ninguém tomará, minha filha. Apenas tio Peter quer ser bom para nós. Ele nos quer bem e quer tomar conta de nós.

— Não acredito! Ele é um homem falso, baixo, sujo, muito diferente de papai!

— Marja! — exclamou Katti, rispidamente. — Você não pode falar assim de seu novo pai!

— Ele não é meu pai e nunca será! — gritou Marja.

Correu para seu quarto, que ficava ao lado da cozinha, e bateu a porta.

Os dois ficaram a olhar-se desconsoladamente depois que ela saiu. Peter sentou-se em silêncio à mesa. É muito impulsiva a menina, pensou ele. Henry bem que lhe dissera que a garota tinha um temperamento um tanto violento. Precisava ser domada e ele se encarregaria disso depois do casamento. Algumas boas palmadas naquele lindo traseiro e ela ficaria mansa, mansa.

Katti deu a volta à mesa e colocou a mão no ombro dele.

— Não leve a mal, Peter. Ela está nervosa e tem razão. Ficou moça ontem. Você sabe como é que as meninas ficam nessa ocasião.