79 Park Avenue
A Justiça Pública Contra Maryann Flood
A JUSTIÇA PÚBLICA CONTRA
MARYANN FLOOD
Passei devagar diante dos jurados. Seus olhos me seguiam com interesse. Eu ia até a mesa do juiz para contestar o requerimento de arquivamento que Vito fizera com a preliminar das suas razões. Esperei que os jurados me ouvissem, embora eu falasse em voz bem baixa.
— Há duas coisas que é preciso sempre levar em conta em qualquer tribunal: a culpa moral e a culpa legal. Só podemos punir aqueles que forem considerados legalmente culpados. Mas é raro encontrar em algum tribunal a culpa moral e a legal tão estreitamente entrelaçadas.
"Apresentamos com o maior cuidado ao tribunal e ao júri as acusações formuladas contra a ré. Documentamos exaustivamente essas acusações com fatos, provas e testemunhas. Fizemos a nossa acusação sem dramaticidade, sem truques, profundamente cientes das nossas responsabilidades para com todas as pessoas envolvidas no caso. Cumprimos o nosso dever sem medo e sem parcialidade e, com isso, criamos uma estrutura de culpa que envolve e incrimina a ré.
"O povo do Estado de Nova York reclama-lhe justiça, Meritíssimo. E a justiça é neste caso indeferir o requerimento do patrono da ré."
Afastei-me da mesa para voltar ao meu lugar. Parei no meio do caminho ao ouvir a voz do juiz às minhas costas.
— Indeferido o requerimento!
No mesmo instante, a confusão se armou. Os repórteres saíram correndo para transmitir a notícia para seus jornais. O juiz bateu com o martelo até poder ser ouvido em meio à algazarra.
— Este tribunal entrará em recesso até as dez horas da manhã.
Eu estava banhado em suor quando cheguei ao meu gabinete, e deixei-me cair numa cadeira.
Joel e Alec entraram logo depois de mim.
— Você precisa é de um drinque — disse Joel, depois de olhar para mim.
Fiz um sinal afirmativo e fechei os olhos. Precisava de muito mais do que isso. Não sabia como iria passar as duas semanas seguintes, enquanto Vito apresentasse as suas razões de defesa. Parecia que toda a energia se havia esgotado dentro de mim.
— Tome — disse Joel.
Abri os olhos, peguei o copo e fiz a bebida descer pela garganta. Queimou-me o tempo todo até chegar ao estômago. Tossi.
— Bourbon cem por cento — disse Joel.
Olhei para ele e disse sinceramente:
— Felizmente, a minha parte está acabada.
— Você foi ótimo — disse Alec, sorrindo. — Otimo mesmo.
— Obrigado. Mas não é preciso dizer isso. Sei muito bem quais foram as minhas falhas.
— Não houve falhas coisa nenhuma! — disse a voz de outra pessoa.
Voltamo-nos surpresos para a porta e eu me levantei apressadamente.
— Chefe!
Ele entrou na sala, sorrindo.
— Muito bom, na minha opinião.
Alec e Joel se entreolharam. Aquele tinha sido o maior elogio que já haviam ouvido o Velho fazer.
— Muito obrigado, Chefe!
— Não me agradeça, pois a coisa ainda não acabou. Vito ainda tem uma oportunidade. Um julgamento só acaba quando os jurados voltam da sala.
Puxei uma cadeira para o Velho e ele se sentou cautelosamente. Era a primeira vez que ia ao escritório depois da operação.
— Está com muito bom aspecto — disse Joel.
O Velho aceitou a observação.
— Sinto-me bem — disse ele, colocando um cigarro na boca. Alec quase quebrou um dedo para chegar com o isqueiro antes de Joel.
Sorri intimamente. As coisas tinham prontamente voltado ao normal. Eu estava começando a sentir-me melhor. Talvez fosse o uísque que tinha no estômago.
— Que é que você acha que Vito vai fazer? — perguntou-me o Velho.
— Na verdade, não sei.
— Não estou gostando do jeito dele, Mike. Está displicente demais.
— Vito sempre procede assim, quer tenha alguma coisa em vista, quer não — disse Joel.
O Velho fê-lo calar-se com um olhar carrancudo.
— Conheço Hank Vito há quase vinte anos. Sei quando ele está representando. Desta vez, não está. Tem uma surpresa reservada para nós. Eu daria outro apêndice para saber o que é.
Ficamos todos em silêncio, durante alguns minutos, tentando pensar em alguma possibilidade que nos houvesse passado despercebida.
Afinal o Velho levantou-se.
— Acho que não teremos muito que esperar. Com toda a certeza, será a primeira coisa com que nos vai atingir amanhã.
— Por que pensa assim, Chefe? — perguntou Joel.
O Velho foi até a porta e de lá se voltou para nós.
— Ele não intimou testemunhas para amanhã, uma só que fosse.
Entreolhamo-nos espantados. A declaração do Velho nos colhera de surpresa.
— Se qualquer de vocês fosse mais vivo, teria apurado isso com facilidade antes de sair do tribunal.
Em seguida, saiu para o corredor. Foi Joel quem deu voz à nossa envergonhada admiração.
— Temos de fazer justiça. Está velho, mas não perdeu nada da sua esperteza.
Fiquei no escritório naquela noite até depois das onze horas, estudando o caso. Fiz tudo. Examinei as informações que tínhamos sobre as testemunhas de defesa. Repassei as perguntas que Vito fizera às testemunhas de acusação. Nada me deu algum indício do que ele poderia fazer. Afinal, fechei a escrivaninha e peguei o sobretudo e o chapéu no cabide.
Estava cansado, mas sem sono. Fazia muito frio, mas resolvi caminhar um pouco, esperando que o ar fresco da noite me melhorasse o estado de espírito. Dirigi-me para a Broadway.
Naquele ponto, a Broadway era uma rua sombria e deserta. Correndo os olhos por ela vi ao longe a claridade que Times Square projetava para o alto. Mas ali onde eu estava os edifícios de escritórios se elevavam, escuros e vazios. Só se viam acesas algumas janelas onde trabalhavam as mulheres da limpeza.
Levantei a gola do sobretudo para proteger-me do vento e comecei a caminhar rapidamente. Já havia percorrido quase quatro quarteirões quando notei um automóvel que seguia em marcha lenta pela rua, quase como se me acompanhasse. Olhei cheio de curiosidade, mas não pude ver quem ia nele, pois estava muito escuro.
Continuei a caminhada, absorto em meus pensamentos. Quando cheguei à esquina seguinte, o carro encostou junto ao meio-fio, interrompendo-me a passagem. Dei um pulo para trás com uma exclamação de raiva.
Ouvi então uma risada. Aquele riso me era conhecido. Meti a mão na porta da frente do carro e abri-a.
Era ela, sentada ao volante. À fraca luz do painel, pude ver-lhe o brilho dos dentes.
— Alô, Mike — disse ela, com sua voz rouca.
— Marja! — exclamei sem dissimular minha surpresa. Fiquei imóvel ali no passeio.
— Entre, Mike. Vou levá-lo.
Hesitei um momento e entrei no carro. Ela pôs imediatamente o automóvel em movimento e eu fiquei a olhá-la.
No cruzamento seguinte, o sinal estava fechado e ela parou.
— Trabalha até muito tarde, Mike. Estou com o carro parado diante do seu escritório desde as seis horas da tarde.
— Por que não mandou me avisar? Eu não a deixaria ficar esperando.
— Sim? — disse ela, pondo de novo o carro em marcha.
Acendi um cigarro e, à luz do fósforo, seus cabelos estavam quase brancos. Havia nos seus lábios um calmo sorriso. Ela dirigia em silêncio, com tranquila displicência.
— Você esteve muito bem hoje no tribunal — disse ela, como se não fosse o seu destino que estava em jogo.
— Obrigado.
Entrou numa transversal, encostou o carro junto à calçada e desligou o motor. Pegou um cigarro, e eu risquei um fósforo para ela.
— Há quanto tempo, Mike! — murmurou ela.
— Se não me engano, não é a primeira vez que ouço essas palavras.
O fósforo se apagou, mas não antes que eu visse um toque de sofrimento no olhar dela. Isso me alegrou. Nunca acreditei que alguém pudesse fazê-la sofrer.
Ela pousou a mão na minha e disse com voz delicada:
— Não vamos brigar, Mike.
— E que é que você pensa que estamos fazendo desde que esse julgamento começou? Não se trata de nenhum jogo.
— Eu sei, Mike. Mas acontece uma coisa. Nada disso nos diz respeito pessoalmente.
Eu sentia a atração daqueles olhos e mergulhei vertiginosamente nas suas profundezas. As coisas não haviam absolutamente mudado. Inclinei-me para ela e beijei-a.
Senti-lhe a boca suave e quente. Um desejo violento surgiu dentro de mim. Afastei-me. Aquilo era uma loucura.
Ela ainda estava com os olhos fechados. Pegou-me na mão e murmurou:
— Por que isso foi acontecer conosco, Mike?
— Não sei, Marja. Muitas vezes tenho feito essa pergunta a mim mesmo.
— Obrigada, Mike — disse ela suavemente. — Estava com receio de que você tivesse mudado.
Nada disse. Um minuto depois, ela tornou a falar.
— Como vão os seus?
— Papai morreu há dois anos de um ataque do coração.
— Sinto muito, Mike. Eu não sabia. E sua mãe?
Voltei os olhos para ela, pensando que ela talvez soubesse do juízo que minha mãe fazia dela. Mas era claro que ela não podia saber.
— Mamãe vai bem. Agora mesmo, está passando uns tempos no interior. Espero-a daqui a duas semanas.
Ficamos em silêncio. Nossos cigarros chegaram ao fim e eu joguei o meu pela janela. Parecia que havíamos esgotado os assuntos.
— Soube que tem uma filha — disse eu.
— É verdade — disse ela com um sorriso.
— Deve ser multo bonita. Uma filha sua não poderia deixar de ser.
Um brilho estranho lhe apareceu nos olhos e ela disse com voz calma:
— É bonita, sim.
O silêncio tornou a cair sobre nós. Havia um milhão de coisas que eu queria dizer-lhe, um milhão de perguntas que queria fazer-lhe, mas o tempo e as circunstâncias me tolhiam.
Um carro da polícia desceu a rua e fez convergir para nós a luz dos seus faróis. Tive o impulso de esconder o rosto, mas desisti.
Quando o carro se afastou, eu disse:
— É uma loucura o que estamos fazendo!
— Eu gosto de fazer loucuras...
— Pois eu não. Foi sempre essa uma das diferenças entre nós.
— Deixe de sermões, Mike. Já ouvi sermões de sobra nestas últimas semanas.
Encarei-a.
— Por quê, Marja? Por quê?
Ela encolheu os ombros.
— Não sei. Aconteceu.
— Mas por que não aconteceu a duas outras pessoas? Por que tinha de ser conosco?
Ela não respondeu.
Estendi a mão com raiva e girei a chave do carro.
— Vamos!
Ela deu partida no carro, obedientemente.
— Aonde quer que o leve?
— Até a esquina da Broadway com a Canal Street. Pegarei um táxi lá.
— Está certo.
Chegamos à esquina poucos minutos depois e ela encostou o carro junto ao meio-fio. Abri a porta e já estava quase saindo, quando ela falou. Olhei para ela. As luzes de uma vitrina iluminavam-lhe o rosto — as maçãs salientes, a boca rasgada e as narinas delicadas.
— Gostaria de que tivesse acontecido com outras pessoas, Mike.
— Agora é tarde — murmurei com um baque no coração.
— Mas não para uma coisa, Mike.
— Que é?
Ela se inclinou para fora do carro, puxou-me pela gola do sobretudo e roçou-me o rosto com os lábios.
— Amo-o, Mike — disse num sussurro. — Sempre foi você o único. Não importa o que tenha acontecido. Eu é que não soube ver a verdade em meu coração.
O carro partiu rapidamente e eu fiquei ali parado a olhá-lo. Desapareceu por fim noutra esquina, e eu me dirigi para o ponto de táxis.
Ainda sentia a pressão dos seus lábios e o seu perfume. Não podia compreender. Quanto mais a conhecia, menos a compreendia.
Naquela ocasião durante a guerra, por exemplo. Havíamos passado um fim de semana maravilhoso. Senti que ela era toda minha, mas, logo depois, foi-se embora com Ross. Passei a mão pelo nariz quebrado. Não precisava de nada mais para recordar-me. Fora Ross quem fizera aquilo.
Entrei num táxi e dei meu endereço ao motorista. Depois, recostei-me no banco. Tantos anos. Tanta coisa havia acontecido. Ross estava morto. Nada mais era a mesma coisa.
Nada — exceto o meu amor por ela.