79 Park Avenue
Capítulo 7
Ela estava deitada calmamente na cama, vendo-o dormir. A luz cinzenta da manhã se iltrava através das cortinas fechadas. Um raio de sol desgarrado pousou na boca de Mike. Ele parecia estar dormindo. Ela pousou a cabeça no travesseiro com medo até de respirar para não o perturbar. O im de semana passara depressa. Fechou os olhos para recordar melhor tudo o que havia acontecido.
— Podemos casar-nos antes de eu me apresentar no hospital — disse ele, de repente.
Ela abriu os olhos, assustada.
— Pensei que estivesse dormindo.
— Temos tempo de sobra. Só tenho de me apresentar ao meio-dia.
Ela não respondeu. Ele pegou-lhe a mão e perguntou:
— Alguma coisa, Marja?
— Nada — disse ela, sacudindo a cabeça.
— Há alguma coisa, sim. Senti desde que lhe falei nisso ontem. Não quer casar comigo?
— Não deve nem me perguntar uma coisa dessas!
— Que é, então? Já me matriculei na escola de oficiais. Um tenente ganha mais ou menos, e nós poderemos viver com isso. Quando nada, poderíamos ficar juntos até eu ir de novo para o exterior.
— Pare, por favor, Mike. Não fale mais nisso!
— Mas eu adoro você, querida, e quero você comigo para sempre. É por causa do seu emprego? É por causa do dinheiro que você ganha?
Ela sacudiu a cabeça.
— Quando eu sair do exército, vou estudar direito. Um advogado pode ganhar muito dinheiro.
— Não, Mike, não!
— Se há alguma coisa de que tenha medo, Marja, pode dizer. Pouco me importa o que seja. Nada do que você possa fazer ou ter feito nos separará. Amo você demais.
— É verdade mesmo tudo isso que está dizendo? — murmurou ela, encarando-o.
— Claro que é.
— Alguém já me disse isso uma vez, mas não era de verdade.
— Era porque não amava você como eu. Ninguém nunca a amou e nunca amará como eu.
Ela deu um suspiro fundo.
— Gostaria tanto de acreditar nisso. Talvez um dia...
— Case comigo e verá — disse ele, sorrindo.
A campainha da porta tocou demoradamente. Mike olhou-a.
— Está esperando alguém?
— Não, ninguém. Deve ser o leiteiro. Deixe que ele desista e vá embora.
Mas a campainha não parava de tocar.
— É melhor ir ver quem é, Marja.
— Ah, está bem — disse ela, vestindo o robe. Saiu depois, fechando a porta do quarto.
Abriu a porta do apartamento, e viu Ross.
— Eu sabia que você estava em casa, embora houvesse passado o fim de semana todo sem atender aos meus telefonemas.
Ela colocou o pé atrás da porta.
— Não pode entrar. Não lhe disse que não viesse aqui sem antes ter combinado comigo pelo telefone?
— Como é que eu podia fazer isso se você não atende ao telefone!
— Volte à tarde — disse ela, começando a fechar a porta.
Mas ele empurrou a porta com força, e ela foi ao chão. Ross entrou no apartamento e ela pôde sentir o cheiro de uísque.
— Não vou voltar esta tarde coisa nenhuma! Vou para o oeste de vez, e você irá comigo!
— Você está louco, Ross! Não vou para lugar nenhum com você!
— Vai, sim! — gritou ele, segurando-a pelo braço.
Nesse momento, a porta do quarto se abriu e Mike apareceu. Não reconheceu Ross a princípio.
— Está precisando de ajuda, Marja? — perguntou.
Ross reconheceu-o logo.
— Mike! — exclamou e rompeu numa gargalhada.
— Que é que há com ele? — perguntou Mike, admirado.
— Está bêbado — disse ela.
Ross se dirigiu para onde Mike estava e disse:
— Meu velho camarada, quer dizer a essa sujeitinha à toa que é melhor ela ir para a Califórnia comigo do que ficar aqui se esfregando em tudo quanto é homem?
— Que quer dizer isso, Ross? — exclamou Mike. — Isso não é maneira de falar diante de Marja!
Ross olhou para um e para outro e pareceu compreender.
— Foi por isso então que você não atendeu ao telefone no fim de semana, hem, Marja?
Ela não respondeu.
— Estava na cama com ele.
Ela continuou calada.
— Mike, espero que ela lhe tenha feito um preço melhor do que fez para mim. Cem dólares por noite são um bocado de dinheiro para um soldado, mesmo com ovos e bacon no café da manhã.
Mike olhou-a. Ela estava muito pálida. Ross viu a pergunta nos olhos de Mike.
— Quer dizer que ela nada lhe disse? — perguntou sarcasticamente. — Isso não foi correto, menina, esperar até o último instante para exigir o dinheiro. Pode ser que . ele tenha o suficiente no bolso. Mas não faz mal — acrescentou, tirando várias notas do bolso. — Fica tudo por minha conta, em nome de uma velha amizade.
Ela não se moveu, mas ficou olhando para Ross com a fascinação que se deve sentir em face da morte.
— Aceite o dinheiro, soldado. Acabo de pagar-lhe um fim de semana com a melhor puta de Nova York. Além disso, é uma maneira de expressar a minha admiração pelas forças armadas.
Mike olhava-a, e murmurou com voz rouca:
— Não é verdade. Diga que não é verdade.
Marja não falou, mas Ross disse:
— Não seja idiota, Mike. Não preciso mentir.
— Você disse que me amava, Marja!
Ela ainda estava calada, e Ross continuou com voz pesada e sarcástica:
— E quando ela estava nos seus braços, disse que você era um amor? Que foi que ela fez com a língua quando você a beijou? E ela fez aquilo...
Um rugido de animal saiu da garganta de Mike quando ele se atirou sobre Ross. Só muito tarde foi que viu o que Ross tinha na mão. Sentiu uma dor aguda na cabeça e caiu no chão. Tentou levantar-se, mas a dor de novo o atingiu atrás da orelha e ele mergulhou numa escuridão que foi um alívio.
Ross olhou-o, arquejando pesadamente. Os olhos estavam vidrados de ódio e ele ainda brandia o pequeno cassetete. Vibrou outra pancada com toda a força no rosto de Mike.
— Há muito tempo que você me devia isso! — exclamou ele e continuou a golpeá-lo desvairadamente.
— Pare, Ross, pare! — gritou ela, agarrando-o. — Você vai matá-lo!
— E exatamente isso que eu quero fazer! E não é de hoje! — gritou ele como um alucinado, levantando o braço de novo.
— Irei com você se parar!
A mão dele parou no meio do caminho. Sacudiu a cabeça e perguntou:
— Que foi que você disse?
— Irei com você para onde você quiser se parar com isso.
Ross parou e guardou o cassetete no bolso. Ao fim de algum tempo, sua voz estava calma como se nada houvesse acontecido.
— Vá arrumar as malas, Marja.
Ela não se moveu. Olhava para Mike.
Ele olhou também e exclamou:
— Mas que serviço eu fiz! Vá. Enquanto você se arruma, vou levá-lo para a cama e fazer-lhe uns curativos.
Abaixou-se e passou os braços pelos ombros de Mike.
Estava quase escuro quando Mike abriu os olhos. Sentiu uma dor persistente e latejante no nariz. Abafou um gemido e chamou:
— Marja!
Não houve resposta.
Pouco a pouco, foi lembrando. Levantou-se da cama com dificuldade. Foi quase envolvido por uma onda de vertigem. Segurou-se a uma cadeira até melhorar e, depois, encaminhou-se para o banheiro. No escuro, abriu a torneira da água fria. Baixou a boca para a torneira e bebeu avidamente. Por fim, a secura que sentia na garganta desapareceu.
Levantou o corpo e acendeu a luz. Viu no espelho acima da pia um rosto estranho. As faces estavam feridas e contundidas, o nariz ensanguentado parecia afundado e os lábios estavam cortados e sangravam. Mas os olhos, principalmente, é que estavam diferentes. Estavam encovados e cheios de uma dor que não era física. Fechou e abriu os olhos rapidamente para ver se aquele estranho aspecto desapareceria. Mas não desapareceu.
Estaria sempre ali, sinal de uma dor que não haveria lágrimas que pudessem lavar.