79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 44 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 7

Ela estava deitada calmamente na cama, vendo-o dormir. A luz cinzenta da manhã se iltrava através das cortinas fechadas. Um raio de sol desgarrado pousou na boca de Mike. Ele parecia estar dormindo. Ela pousou a cabeça no travesseiro com medo até de respirar para não o perturbar. O im de semana passara depressa. Fechou os olhos para recordar melhor tudo o que havia acontecido.

— Podemos casar-nos antes de eu me apresentar no hospital — disse ele, de repente.

Ela abriu os olhos, assustada.

— Pensei que estivesse dormindo.

— Temos tempo de sobra. Só tenho de me apresentar ao meio-dia.

Ela não respondeu. Ele pegou-lhe a mão e perguntou:

— Alguma coisa, Marja?

— Nada — disse ela, sacudindo a cabeça.

— Há alguma coisa, sim. Senti desde que lhe falei nisso ontem. Não quer casar comigo?

— Não deve nem me perguntar uma coisa dessas!

— Que é, então? Já me matriculei na escola de oficiais. Um tenente ganha mais ou menos, e nós poderemos viver com isso. Quando nada, poderíamos ficar juntos até eu ir de novo para o exterior.

— Pare, por favor, Mike. Não fale mais nisso!

— Mas eu adoro você, querida, e quero você comigo para sempre. É por causa do seu emprego? É por causa do dinheiro que você ganha?

Ela sacudiu a cabeça.

— Quando eu sair do exército, vou estudar direito. Um advogado pode ganhar muito dinheiro.

— Não, Mike, não!

— Se há alguma coisa de que tenha medo, Marja, pode dizer. Pouco me importa o que seja. Nada do que você possa fazer ou ter feito nos separará. Amo você demais.

— É verdade mesmo tudo isso que está dizendo? — murmurou ela, encarando-o.

— Claro que é.

— Alguém já me disse isso uma vez, mas não era de verdade.

— Era porque não amava você como eu. Ninguém nunca a amou e nunca amará como eu.

Ela deu um suspiro fundo.

— Gostaria tanto de acreditar nisso. Talvez um dia...

— Case comigo e verá — disse ele, sorrindo.

A campainha da porta tocou demoradamente. Mike olhou-a.

— Está esperando alguém?

— Não, ninguém. Deve ser o leiteiro. Deixe que ele desista e vá embora.

Mas a campainha não parava de tocar.

— É melhor ir ver quem é, Marja.

— Ah, está bem — disse ela, vestindo o robe. Saiu depois, fechando a porta do quarto.

Abriu a porta do apartamento, e viu Ross.

— Eu sabia que você estava em casa, embora houvesse passado o fim de semana todo sem atender aos meus telefonemas.

Ela colocou o pé atrás da porta.

— Não pode entrar. Não lhe disse que não viesse aqui sem antes ter combinado comigo pelo telefone?

— Como é que eu podia fazer isso se você não atende ao telefone!

— Volte à tarde — disse ela, começando a fechar a porta.

Mas ele empurrou a porta com força, e ela foi ao chão. Ross entrou no apartamento e ela pôde sentir o cheiro de uísque.

— Não vou voltar esta tarde coisa nenhuma! Vou para o oeste de vez, e você irá comigo!

— Você está louco, Ross! Não vou para lugar nenhum com você!

— Vai, sim! — gritou ele, segurando-a pelo braço.

Nesse momento, a porta do quarto se abriu e Mike apareceu. Não reconheceu Ross a princípio.

— Está precisando de ajuda, Marja? — perguntou.

Ross reconheceu-o logo.

— Mike! — exclamou e rompeu numa gargalhada.

— Que é que há com ele? — perguntou Mike, admirado.

— Está bêbado — disse ela.

Ross se dirigiu para onde Mike estava e disse:

— Meu velho camarada, quer dizer a essa sujeitinha à toa que é melhor ela ir para a Califórnia comigo do que ficar aqui se esfregando em tudo quanto é homem?

— Que quer dizer isso, Ross? — exclamou Mike. — Isso não é maneira de falar diante de Marja!

Ross olhou para um e para outro e pareceu compreender.

— Foi por isso então que você não atendeu ao telefone no fim de semana, hem, Marja?

Ela não respondeu.

— Estava na cama com ele.

Ela continuou calada.

— Mike, espero que ela lhe tenha feito um preço melhor do que fez para mim. Cem dólares por noite são um bocado de dinheiro para um soldado, mesmo com ovos e bacon no café da manhã.

Mike olhou-a. Ela estava muito pálida. Ross viu a pergunta nos olhos de Mike.

— Quer dizer que ela nada lhe disse? — perguntou sarcasticamente. — Isso não foi correto, menina, esperar até o último instante para exigir o dinheiro. Pode ser que . ele tenha o suficiente no bolso. Mas não faz mal — acrescentou, tirando várias notas do bolso. — Fica tudo por minha conta, em nome de uma velha amizade.

Ela não se moveu, mas ficou olhando para Ross com a fascinação que se deve sentir em face da morte.

— Aceite o dinheiro, soldado. Acabo de pagar-lhe um fim de semana com a melhor puta de Nova York. Além disso, é uma maneira de expressar a minha admiração pelas forças armadas.

Mike olhava-a, e murmurou com voz rouca:

— Não é verdade. Diga que não é verdade.

Marja não falou, mas Ross disse:

— Não seja idiota, Mike. Não preciso mentir.

— Você disse que me amava, Marja!

Ela ainda estava calada, e Ross continuou com voz pesada e sarcástica:

— E quando ela estava nos seus braços, disse que você era um amor? Que foi que ela fez com a língua quando você a beijou? E ela fez aquilo...

Um rugido de animal saiu da garganta de Mike quando ele se atirou sobre Ross. Só muito tarde foi que viu o que Ross tinha na mão. Sentiu uma dor aguda na cabeça e caiu no chão. Tentou levantar-se, mas a dor de novo o atingiu atrás da orelha e ele mergulhou numa escuridão que foi um alívio.

Ross olhou-o, arquejando pesadamente. Os olhos estavam vidrados de ódio e ele ainda brandia o pequeno cassetete. Vibrou outra pancada com toda a força no rosto de Mike.

— Há muito tempo que você me devia isso! — exclamou ele e continuou a golpeá-lo desvairadamente.

— Pare, Ross, pare! — gritou ela, agarrando-o. — Você vai matá-lo!

— E exatamente isso que eu quero fazer! E não é de hoje! — gritou ele como um alucinado, levantando o braço de novo.

— Irei com você se parar!

A mão dele parou no meio do caminho. Sacudiu a cabeça e perguntou:

— Que foi que você disse?

— Irei com você para onde você quiser se parar com isso.

Ross parou e guardou o cassetete no bolso. Ao fim de algum tempo, sua voz estava calma como se nada houvesse acontecido.

— Vá arrumar as malas, Marja.

Ela não se moveu. Olhava para Mike.

Ele olhou também e exclamou:

— Mas que serviço eu fiz! Vá. Enquanto você se arruma, vou levá-lo para a cama e fazer-lhe uns curativos.

Abaixou-se e passou os braços pelos ombros de Mike.

 

Estava quase escuro quando Mike abriu os olhos. Sentiu uma dor persistente e latejante no nariz. Abafou um gemido e chamou:

— Marja!

Não houve resposta.

Pouco a pouco, foi lembrando. Levantou-se da cama com dificuldade. Foi quase envolvido por uma onda de vertigem. Segurou-se a uma cadeira até melhorar e, depois, encaminhou-se para o banheiro. No escuro, abriu a torneira da água fria. Baixou a boca para a torneira e bebeu avidamente. Por fim, a secura que sentia na garganta desapareceu.

Levantou o corpo e acendeu a luz. Viu no espelho acima da pia um rosto estranho. As faces estavam feridas e contundidas, o nariz ensanguentado parecia afundado e os lábios estavam cortados e sangravam. Mas os olhos, principalmente, é que estavam diferentes. Estavam encovados e cheios de uma dor que não era física. Fechou e abriu os olhos rapidamente para ver se aquele estranho aspecto desapareceria. Mas não desapareceu.

Estaria sempre ali, sinal de uma dor que não haveria lágrimas que pudessem lavar.