79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 15 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 14

Ross comprou uma porção de tíquetes na porta. Parou um instante à porta do salão de danças para deixar os olhos acostumarem-se à luz. Correu a vista em torno.

Lá estava ela. Mesmo com um daqueles vestidos baratos que Martin fornecia às dançarinas, destacava-se das outras.

Atravessou o salão e parou diante dela.

— Alô, Marja.

— Alô, Ross — disse ela com um olhar no qual não se podia distinguir qualquer expressão.

— Quer dançar? — perguntou ele.

— Tem tíquetes?

Ele abriu a mão e mostrou.

— Então podemos dançar — disse ela, levantando-se e encaminhando-se para a pista.

Colocou-se entre os braços dele como se ele lhe fosse completamente estranho. Pegaram automaticamente o ritmo da orquestra.

— Faz duas semanas que você concluiu o curso, Marja. E faz três semanas que não a vejo.

— O tempo voa, não é? — disse ela sem sorrir.

— Por que fugiu de mim?

— Tenho andado muito ocupada. Preciso trabalhar para viver.

— Você não me deu oportunidade de explicar.

— Você não me deve explicação nenhuma. Você já é um adulto e vive a sua vida como bem quiser.

— Por que então não quer me ver?

Ela o olhou bem nos olhos. Havia nele alguma coisa que lhe lembrava um animal selvagem, indomável e inteiramente egoísta.

— Não gosto de servir de instrumento para os outros — disse ela.

A música parou, e ela tomou a direção das mesas. Ross bloqueou-lhe a passagem com a mão, mostrando-lhe outro tı́quete. Ela pegou o tı́quete e icou esperando que a orquestra recomeçasse a tocar para ir então para os braços dele.

— Pensei que gostasse de mim, Marja.

— E gostava. Mas você não foi correto comigo.

— Desculpe. Mas o que fiz deu bom resultado. Ninguém foi prejudicado.

— Eu fui. Fiquei profundamente magoada. Pensei que você fosse diferente.

— Mas aquilo foi quase brincadeira, Marja — disse ele, sentindo-lhe o calor e revivendo todo o seu velho interesse por ela. — Não foi pelo dinheiro. Foi pela emoção.

— Não! Se você ainda precisasse de dinheiro, eu poderia compreender.

— Marja, querida — murmurou ele. Haviam chegado a um canto mais escuro, e ele tentou beijá-la.

— Pare com isso, Ross — disse ela energicamente. — Preciso do dinheiro que ganho aqui.

— Mas, Marja, vou-me embora depois de amanhã e só voltarei daqui a cinco meses. Tenho de ver você antes de viajar.

— Não!

— Por quê?

A música parou de novo, e ela se desvencilhou dos braços dele encaminhando-se para as mesas. Ele pegou-a pelo braço e fê-la rodar violentamente.

— Tome! Tome esses malditos tíquetes. Não fuja de mim toda vez que a orquestra para de tocar.

Ela tomou em silêncio o maço de tíquetes e guardou-os numa bolsinha. A música recomeçou e ela voltou para junto dele.

— Por que é que você não quer me ver?

— Quer mesmo saber? — perguntou ela, encarando-o.

— Quero.

— Pois então ouça: em primeiro lugar, porque não quero; em segundo lugar, porque não tenho tempo. Minha mãe está doente numa cama. Perdeu o emprego, e tenho de tomar conta dela e de meu irmãozinho pequeno durante o dia. Chega?

— Não — disse ele, rudemente. Ele a levou de novo para o canto escuro e tentou beijá-la. Ela virou o rosto. Ross não a viu fazer sinal com a bolsa. Um momento depois, uma mão forte caiu-lhe sobre o ombro.

Virou-se e viu um dos gorilas que mantinham a ordem no dandng. Ao lado dele, estava Joker Martin, sorrindo.

— Proceda direito, mocinho — disse o gorila —, se não quiser ser forçado a sair daqui.

Ross sentiu-se empalidecer. Olhou para Marja e viu que ela estava impassível.

— Se é assim que você quer, está bem, Marja — disse ele e saiu em direção à porta.

— Seu amigo ficou muito zangado — disse Joker Martin, quando ela se dispunha a voltar para as mesas.

— Não é meu amigo!

— Mas vocês estavam tão juntinhos na última vez em que estiveram aqui — disse ele, surpreso.

— Naquele tempo, era diferente. Mas não gostei de uma coisa que ele fez.

— Seria, por acaso, uma troca de dados? — perguntou Martin displicentemente.

A surpresa estampou-se no rosto dela, e ele sorriu.

— Pensa que somos tolos, menina? Somos profissionais. Percebemos imediatamente o que ele havia feito. Calculei que foi por isso que você soprou os dados tão depressa. Você sabia o que ele ia fazer?

— Não.

— Calculei isso também.

— Se sabia de tudo, por que não tomou alguma providência?

— O pai daquele rapaz tem muita in luência. Um dia, ele voltará e nós lhe tomaremos o dinheiro com juros. Até lá, podemos esperar. Temos paciência. Eles sempre voltam.

 

Marja pendurou cuidadosamente o vestido de baile no armário. Depois de verificar rapidamente o rosto no espelho, saiu apressada pela porta. Era pouco mais de meia-noite. O trabalho não era tão ruim assim durante a semana, pois só ficava de pé umas seis horas. Às sextas e aos sábados era pior, pois nesses dias trabalhava das cinco da tarde até as duas da madrugada.

Saiu para a rua barulhenta e o viu parado e encostado a um carro, à espera dela. Encontrava-o ali todas as noites, desde que começara a trabalhar.

Um sorriso chegou-lhe aos lábios.

— Alô, Mike.

— Alô, menina.

Saíram caminhando juntos.

— Você não precisa me esperar todas as noites, Mike. Posso ir para casa sozinha.

— Mas eu quero.

— Assim você não aguenta. Trabalha naquela banca de jornais doze horas por dia.

— Não me tire a alegria da vida, Marja — disse ele delicadamente. — Quer um café?

— Está bem, mas não se esqueça de que é a minha vez de pagar.

— E você acha que foi por outro motivo que a convidei? — perguntou ele, rindo.

Entraram numa drugstore, sentaram-se nos tamboretes altos do balcão, e Mike pediu dois cafés.

— Marja, quer dividir uma rosca comigo?

Ela aceitou e ele fez o pedido ao garçom. Depois perguntou:

— Como vai sua mãe?

— Hoje está melhor, obrigada. A hemorragia já parou, e o médico disse que, se ela continuar como está, poderá levantar-se amanhã.

— Ótimo — disse ele.

Ela ficou em silêncio por um momento, pensando na mãe. Katti estava de cama havia quase uma semana. Um dia, chegara mais cedo do trabalho e começara a perder sangue. A princípio, o médico pensara que se tratasse de um aborto, mas depois tudo se normalizou. O trabalho pesado da limpeza noturna estava matando-a.

Marja lembrava-se de como a mãe ficara preocupada ao saber do emprego no dancing. Mas os vinte dólares que ela ganhava por semana tinham sido uma salvação. Sem isso, teriam todos morrido de fome. Peter não valia coisa alguma dentro de casa.

O garçom colocou o café e a rosca diante dela. Ela dividiu-a prontamente, dando a Mike o pedaço maior.

— Como se saiu hoje? — perguntou Mike.

— Muito bem. Trabalhei muito.

— Quem é boa dançarina é assim mesmo — disse Mike, rindo.

— A melhor que há — disse ela com um sorriso que logo se desvaneceu quando acrescentou: — Ross apareceu hoje por lá para me ver.

— O que ele queria?

— Disse que ia ausentar-se da cidade e queria que eu saísse com ele.

— Que foi que você disse? — perguntou Mike sem olhar para ela.

— Disse que não era possível. Ele se excedeu e o Sr. Martin apareceu, depois do quê, ele foi embora.

— O pai vai mandá-lo à Europa.

— Puxa! — exclamou ela. — É preciso ter muito dinheiro para fazer isso.

— Você ainda gosta dele, não gosta, Marja?

— Para dizer a verdade, não sei. Ele é diferente de todos os outros rapazes que conheço. Fala diferente. Age diferente.

— Tem dinheiro.

— Não é isso, Mike.

— Que é então?

— É o jeito dele. Age sempre como eu gostaria de agir de vez em quando. É como se ele estivesse no alto do mundo e todo mundo tivesse de se esforçar para chegar lá. Deve ser bom estar no alto de tudo. E quer saber de uma coisa? O Sr. Martin sabia que ele trocou os dados naquela noite.

— Por que não o desmascarou então?

— Por causa do pai de Ross. O Sr. Martin disse que o velho é um homem de muito prestígio.

A voz dela demonstrava admiração, e Mike perguntou:

— É disso que você gosta?

Ela acendeu um cigarro e murmurou:

— Talvez. Eu gostaria de ter um pouco de luxo. Quem não gosta disso? De qualquer maneira, é melhor do que viver como eu vivo.