79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 35 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 12

Saltou do táxi em frente à casa e, chegando à porta tocou a campainha.

Foi Gordon quem abriu, e ela sentiu o cheiro de uísque no momento em que o viu.

— Você bebeu! — exclamou ela. — E me prometeu que ia deixar!

Ele riu nervosamente e disse:

— Estava apenas fazendo uma comemoração. Não é todo o dia que se recebe a visita de velhos amigos!

— Que amigos são esses?

Ele a fez entrar para a sala. Mary parou à porta, gelada. Evelyn estava estendida no sofá, vestida apenas de calças e sutiã. As roupas dela estavam espalhadas por toda a sala. Deu um adeus bêbado para Mary.

Joe foi ao encontro dela.

— A querida Mary! Tem um beijinho para seu velho amigo Joe?

De repente, começou a trautear a Marcha nupcial

— Que é que estão fazendo aqui? — perguntou ela iradamente.

Joe riu.

— Ora essa! Viemos festejar o casamento de uma velha amiga. Estou certo?

Ela se voltou para Gordon.

— Quando foi que eles chegaram aqui?

— Esta tarde...

Tentava concentrar o olhar nela, mas a cabeça lhe doía demais. Precisava de outro drinque. Pegou a garrafa e perguntou:

— Quer beber?

Ela sacudiu a cabeça. Gordon bebeu da garrafa. Teve prazer ao sentir o uísque queimar-lhe a garganta.

— Eu precisava disso — disse ele, olhando para Mary. — Tem certeza de que não quer também um gole?

— Não, muito obrigada — disse ela secamente, acendendo um cigarro.

— Vamos, Mary — disse Joe, — Beba um pouco. Assim ficará com boa disposição para o show.

— Que show?

— Nós estávamos contando ao seu amigo como era o nosso número — disse Evelyn, levantando-se do sofá. — Joe achou que seria muito divertido representá-lo agora para ele ver como é.

Ela se voltou para Gordon:

— Disseram-lhe, não foi?

Ele assentiu com a cabeça.

— E você ouviu sem me dar uma chance de explicação?

Ele apontou as fotografias em cima de uma mesa.

— Essas fotografias falam por si. Não há necessidade de ouvir mais nada. Você devia ter-me dito antes.

— Você não me deixou — respondeu ela. — Todas as vezes que eu começava, disposta a dizer-lhe tudo, você me dizia que pouco se importava com o que eu tivesse sido, que o que já sabia a meu respeito lhe bastava.

Ele não respondeu, e ela se voltou para Joe, com a voz cheia de desprezo.

— O mesmo Joe de sempre! Capaz de todos os papéis para pegar algum dinheiro. Espero que desta vez tenha tido bom proveito.

— Ainda não sei. Mas não há problema. A polícia já está mais calma e nós poderemos voltar ao nosso velho número.

A mão dela moveu-se com tanta rapidez que ele não teve tempo de esquivar-se. A bofetada estalou-lhe no rosto, deixando uma marca vermelha.

— Cachorra! — exclamou ele, dando um passo na direção dela. — Vou dar-lhe uma lição!

— Pode vir — disse ela, com um olhar de provocação.

Ele parou, vendo a lâmina brilhar-lhe na mão, e recuou.

Gordon olhou para eles e exclamou:

— Mary!

Ela voltou-se para ele e falou com um tom magoado e colérico:

— Você é tão ruim quanto eles. A mim não quis escutar, mas escutou a primeira pessoa que apareceu para falar de mim. Será que lhe contaram também como fugiram e me deixaram sem uma peça de roupa dentro do apartamento? Aposto que você também achou muita graça nisso!

Ele nada disse. Continuou a olhar fixamente para ela.

— Mas eles não lhe contaram tudo porque não sabiam. Depois que eles me abandonaram sujamente, comecei a fazer a vida. Era preciso pagar o aluguel e viver. Ganhei bom dinheiro. Quarenta dólares por dia. Era isso o que estava fazendo no dia em que você me encontrou.

— Não, Mary! — disse ele, com uma voz que era mais um gemido.

— Tinha me afastado de você, mas isso não lhe bastou. Teve de ir atrás de mim, tinha de mostrar-me seu amor. Se houve alguém enganado em tudo isso fui eu, Gordon, porque acreditei em você, porque pensei que havia encontrado o homem perfeito, genuíno, superior, porque pensei que a vida podia reservar-me alguma coisa de bom. Mas como estava errada!

Em seguida deu as costas e dirigiu-se para a porta.

Gordon pegou-lhe o braço e murmurou:

— Mary...

Havia nos olhos dele um brilho diferente.

Ela o olhou com uma chama de esperança a acender-se no coração.

— Você está me retendo, Gordon?

Ele não respondeu e a chama se apagou dentro dela.

Puxou o braço e saiu rapidamente, fechando a porta. Ele ficou ali parado alguns momentos, depois voltou-se para os outros.

Joe teve um riso forçado.

— Você viverá muito melhor sem ela, fique sabendo!

— Saiam! — gritou Gordon, numa voz cheia de ódio. — Saiam imediatamente daqui os dois antes que os mate!

 

Mary descia tropegamente o passeio. As lágrimas lhe enchiam os olhos e rolavam pelas faces.

De repente, ouviu uma voz delicada que lhe dizia:

— Quer que chame um táxi, Sra. Mary?

Ela levantou os olhos. Era o velho preto que ali estava, com um mundo de compreensão no olhar.

— Não... Muito obrigada, Tom — disse ela com voz rouca. — Prefiro andar um pouco.

— Se me der licença, vou acompanhá-la. É muito deserto por aqui.

— Não vai acontecer nada, Tom. Não tenho medo.

— Sei que não tem, Sra. Mary. A senhora é uma das mulheres mais corajosas que já conheci.

Ela o olhou e de repente compreendeu.

— Quer dizer que sabia todo o tempo, Tom?

Ele assentiu com a cabeça.

— Mas nada disse a ele. Por quê?

— Já lhe disse por quê. Vi que a senhora era corajosa, forte, uma mulher de verdade. O Sr. Gordon não passa de uma criança grande. Eu tinha a esperança de que a senhora fizesse dele um homem. Agora, esse sonho acabou. Não é mais possível!...

— Obrigada, Tom. E adeus!

— Espere um instante, Sra. Mary. Eu tenho algum dinheiro, e caso a senhora esteja desprevenida...

Pela primeira vez naquela tarde, o seu ceticismo em relação à humanidade se abrandou. Segurou a mão do velho.

— Posso arranjar-me, Tom.

Ele baixou os olhos e murmurou:

— A senhora nem sabe como sinto tudo isso!

Ela o olhou enternecídamente e disse:

— Acho que mudei de ideia, Tom. Você pode fazer-me um favor?

— Pois não, Sra. Mary!

— Vou para casa. Quer me chamar um táxi?

— Claro, Sra. Mary.

Ela o viu descer a colina para a avenida lá embaixo, onde sempre passavam táxis. Tirou outro cigarro e acendeu-o. Olhou para cima.

As estrelas pontilhavam o céu e a lua se refletia no mar. Da praia vinha o leve murmúrio das ondas e uma brisa suave soprava do lago.

De repente, jogou o cigarro fora. Havia tomado uma decisão. Estava cansada da Flórida. Voltaria para Nova York. Também lá as estrelas brilhavam.