79 Park Avenue
Capítulo 12
Saltou do táxi em frente à casa e, chegando à porta tocou a campainha.
Foi Gordon quem abriu, e ela sentiu o cheiro de uísque no momento em que o viu.
— Você bebeu! — exclamou ela. — E me prometeu que ia deixar!
Ele riu nervosamente e disse:
— Estava apenas fazendo uma comemoração. Não é todo o dia que se recebe a visita de velhos amigos!
— Que amigos são esses?
Ele a fez entrar para a sala. Mary parou à porta, gelada. Evelyn estava estendida no sofá, vestida apenas de calças e sutiã. As roupas dela estavam espalhadas por toda a sala. Deu um adeus bêbado para Mary.
Joe foi ao encontro dela.
— A querida Mary! Tem um beijinho para seu velho amigo Joe?
De repente, começou a trautear a Marcha nupcial
— Que é que estão fazendo aqui? — perguntou ela iradamente.
Joe riu.
— Ora essa! Viemos festejar o casamento de uma velha amiga. Estou certo?
Ela se voltou para Gordon.
— Quando foi que eles chegaram aqui?
— Esta tarde...
Tentava concentrar o olhar nela, mas a cabeça lhe doía demais. Precisava de outro drinque. Pegou a garrafa e perguntou:
— Quer beber?
Ela sacudiu a cabeça. Gordon bebeu da garrafa. Teve prazer ao sentir o uísque queimar-lhe a garganta.
— Eu precisava disso — disse ele, olhando para Mary. — Tem certeza de que não quer também um gole?
— Não, muito obrigada — disse ela secamente, acendendo um cigarro.
— Vamos, Mary — disse Joe, — Beba um pouco. Assim ficará com boa disposição para o show.
— Que show?
— Nós estávamos contando ao seu amigo como era o nosso número — disse Evelyn, levantando-se do sofá. — Joe achou que seria muito divertido representá-lo agora para ele ver como é.
Ela se voltou para Gordon:
— Disseram-lhe, não foi?
Ele assentiu com a cabeça.
— E você ouviu sem me dar uma chance de explicação?
Ele apontou as fotografias em cima de uma mesa.
— Essas fotografias falam por si. Não há necessidade de ouvir mais nada. Você devia ter-me dito antes.
— Você não me deixou — respondeu ela. — Todas as vezes que eu começava, disposta a dizer-lhe tudo, você me dizia que pouco se importava com o que eu tivesse sido, que o que já sabia a meu respeito lhe bastava.
Ele não respondeu, e ela se voltou para Joe, com a voz cheia de desprezo.
— O mesmo Joe de sempre! Capaz de todos os papéis para pegar algum dinheiro. Espero que desta vez tenha tido bom proveito.
— Ainda não sei. Mas não há problema. A polícia já está mais calma e nós poderemos voltar ao nosso velho número.
A mão dela moveu-se com tanta rapidez que ele não teve tempo de esquivar-se. A bofetada estalou-lhe no rosto, deixando uma marca vermelha.
— Cachorra! — exclamou ele, dando um passo na direção dela. — Vou dar-lhe uma lição!
— Pode vir — disse ela, com um olhar de provocação.
Ele parou, vendo a lâmina brilhar-lhe na mão, e recuou.
Gordon olhou para eles e exclamou:
— Mary!
Ela voltou-se para ele e falou com um tom magoado e colérico:
— Você é tão ruim quanto eles. A mim não quis escutar, mas escutou a primeira pessoa que apareceu para falar de mim. Será que lhe contaram também como fugiram e me deixaram sem uma peça de roupa dentro do apartamento? Aposto que você também achou muita graça nisso!
Ele nada disse. Continuou a olhar fixamente para ela.
— Mas eles não lhe contaram tudo porque não sabiam. Depois que eles me abandonaram sujamente, comecei a fazer a vida. Era preciso pagar o aluguel e viver. Ganhei bom dinheiro. Quarenta dólares por dia. Era isso o que estava fazendo no dia em que você me encontrou.
— Não, Mary! — disse ele, com uma voz que era mais um gemido.
— Tinha me afastado de você, mas isso não lhe bastou. Teve de ir atrás de mim, tinha de mostrar-me seu amor. Se houve alguém enganado em tudo isso fui eu, Gordon, porque acreditei em você, porque pensei que havia encontrado o homem perfeito, genuíno, superior, porque pensei que a vida podia reservar-me alguma coisa de bom. Mas como estava errada!
Em seguida deu as costas e dirigiu-se para a porta.
Gordon pegou-lhe o braço e murmurou:
— Mary...
Havia nos olhos dele um brilho diferente.
Ela o olhou com uma chama de esperança a acender-se no coração.
— Você está me retendo, Gordon?
Ele não respondeu e a chama se apagou dentro dela.
Puxou o braço e saiu rapidamente, fechando a porta. Ele ficou ali parado alguns momentos, depois voltou-se para os outros.
Joe teve um riso forçado.
— Você viverá muito melhor sem ela, fique sabendo!
— Saiam! — gritou Gordon, numa voz cheia de ódio. — Saiam imediatamente daqui os dois antes que os mate!
Mary descia tropegamente o passeio. As lágrimas lhe enchiam os olhos e rolavam pelas faces.
De repente, ouviu uma voz delicada que lhe dizia:
— Quer que chame um táxi, Sra. Mary?
Ela levantou os olhos. Era o velho preto que ali estava, com um mundo de compreensão no olhar.
— Não... Muito obrigada, Tom — disse ela com voz rouca. — Prefiro andar um pouco.
— Se me der licença, vou acompanhá-la. É muito deserto por aqui.
— Não vai acontecer nada, Tom. Não tenho medo.
— Sei que não tem, Sra. Mary. A senhora é uma das mulheres mais corajosas que já conheci.
Ela o olhou e de repente compreendeu.
— Quer dizer que sabia todo o tempo, Tom?
Ele assentiu com a cabeça.
— Mas nada disse a ele. Por quê?
— Já lhe disse por quê. Vi que a senhora era corajosa, forte, uma mulher de verdade. O Sr. Gordon não passa de uma criança grande. Eu tinha a esperança de que a senhora fizesse dele um homem. Agora, esse sonho acabou. Não é mais possível!...
— Obrigada, Tom. E adeus!
— Espere um instante, Sra. Mary. Eu tenho algum dinheiro, e caso a senhora esteja desprevenida...
Pela primeira vez naquela tarde, o seu ceticismo em relação à humanidade se abrandou. Segurou a mão do velho.
— Posso arranjar-me, Tom.
Ele baixou os olhos e murmurou:
— A senhora nem sabe como sinto tudo isso!
Ela o olhou enternecídamente e disse:
— Acho que mudei de ideia, Tom. Você pode fazer-me um favor?
— Pois não, Sra. Mary!
— Vou para casa. Quer me chamar um táxi?
— Claro, Sra. Mary.
Ela o viu descer a colina para a avenida lá embaixo, onde sempre passavam táxis. Tirou outro cigarro e acendeu-o. Olhou para cima.
As estrelas pontilhavam o céu e a lua se refletia no mar. Da praia vinha o leve murmúrio das ondas e uma brisa suave soprava do lago.
De repente, jogou o cigarro fora. Havia tomado uma decisão. Estava cansada da Flórida. Voltaria para Nova York. Também lá as estrelas brilhavam.