79 Park Avenue
Capítulo 4
As primeiras vermelhidões do crepúsculo espalhavam-se pelo céu. Para os lados do poente, o sol ainda lutava contra a noite, grande bola vermelha que voltava desesperadamente para a companhia de todos os ontens. O calor começou a atenuar-se.
Marja sentou-se na manta que Ross havia estendido para eles.
— Que horas serão? — perguntou ela.
Ele abriu os olhos, examinou o céu e respondeu:
— Seis e quinze mais ou menos.
— Como é que sabe?
— Já fui escoteiro — disse ele, rindo.
— Você é o primeiro escoteiro que eu conheço — disse ela, rindo também e pousando a mão no joelho dele.
O corpo de Ross reagiu instintivamente. Ela percebeu e tirou prontamente a mão.
— Desculpe, tinha me esquecido.
— Não é preciso pedir desculpas.
— Mas você não gosta de que eu toque em você.
— Não é que não goste. Acho que o que acontece é que não estou habituado.
— Gosta então de mim?
— Comecei a gostar desde o momento em que a vi da porta suja do bilhar.
— Palavra?
— Palavra. Vi você na calçada com Francie e não consegui mais tirar os olhos de você. Nem pude mais jogar. Mike ganhou a partida.
— Mike? É aquele rapaz louro que não quis vir conosco?
— Isso mesmo. Ele nem levantou os olhos da mesa de bilhar quando eu disse que havia na rua uma garota linda.
— Foi isso mesmo que você disse?
— Não. Disse: "Onde é que vendem aquilo, que eu quero comprar todo o estoque?"
— Atrevido — disse ela, rindo.
— Foi muito bom Jimmy estar no bilhar, senão eu talvez nunca a tivesse conhecido.
— É verdade. O seu outro amigo não iria ajudá-lo em nada.
— Mike é um ótimo rapaz. Só que é sério demais. Não pensa em garotas. Estuda o tempo todo. Diz que vai ser advogado.
— Ele é da sua idade?
— Um ano mais moço. Mas estivemos na mesma turma na escola.
Marja estava com a vaidade ferida. Era para ela uma questão de honra que todos os rapazes gostassem dela.
— Aposto que ele não é tão simpático quanto você.
— Obrigado, Marja. Você é a primeira garota que conheço que pensa assim. Em geral, quando elas o veem, eu passo para o segundo lugar.
— Ele deve ser tremendamente presunçoso — disse ela com desdém. — Não tolero gente presunçosa.
— Não. Ele é uma ótima pessoa. Acho que ele nem toma conhecimento do sucesso que faz.
Ela tremeu ligeiramente, sentindo o frio da tarde.
— Aliás, ele pouco me interessa. Mas onde está Francie?
— Foram para a casa há coisa de uma hora, quando você estava cochilando. Francie se queixou de que estava sentindo frio.
Ela se levantou e espreguiçou-se.
— Acho que é melhor entrarmos também. Estou começando a sentir frio.
Ele a olhou, tentando calcular qual seria a idade dela. Mais ou menos dezessete. Não podia ter mais. Nunca vira uma garota que fosse tão mulher na idade dela. A pele clara, as maçãs do rosto salientes, a boca rasgada e sensual, a linha firme do queixo. Ela se espreguiçou de novo, levantando bem os braços acima da cabeça. Ross viu os tufos louros das axilas, seguiu com o olhar a curva dos seios cheios e jovens, a cintura fina e sólida, os quadris generosos e redondos, as coxas fortes e as pernas longas e benfeitas.
Ela percebeu o olhar e o exame. Sorriu para ele. Gostava que ele a olhasse.
A pergunta veio-lhe involuntariamente aos lábios.
— Quantos anos você tem, Marja?
— Adivinhe — respondeu ela, ainda sorrindo.
— Dezessete.
Ela ficou satisfeita de que ele a achasse mais velha.
— Quase isso — disse ela, com o justo grau de hesitação.
Ele abraçou-lhe as pernas e fê-la cair para junto dele. Ela deixou-se cair rindo, com o rosto bem próximo ao dele.
— Está disposta a beijar-me, beleza?
— Agora e sempre — disse ela com sua voz rouca, sem que os olhos mudassem de expressão.
As bocas se uniram e ele ficou vagamente surpreso de que ela realmente quisesse beijá-lo. Os lábios dela se moveram sobre os seus, abrindo caminho para a língua. Mas dessa vez, ele já sabia e não a deixaria tomá-lo de surpresa. Reagiu contra o ímpeto apaixonado que o invadia. Sentiu os dedos dela afagarem-lhe o rosto, um calor se alastrou por dentro dele e ele compreendeu que havia perdido.
Desesperado, quase com raiva, afastou a boca.
— Acho que é melhor irmos.
— Está bem — disse ela, calmamente, levantando-se e esperando por ele.
Evitando-lhe o olhar, ele apanhou a manta, dobrou-a, colocou-a no braço e levantou-se. Dirigiu-se para a casa, carregando a manta, sem olhar para ela.
Ela caminhava ao lado dele. Em dado momento, estendeu a mão para a manta. Ele a olhou. Ela estava sorrindo e perguntou:
— Está escondendo alguma coisa, querido?
Ele ficou vermelho. Quis dar-lhe uma resposta malcriada, mas já estavam chegando à casa. Em vez de falar, ele abriu a porta para que ela passasse.
Entraram pela porta que dava para a praia. Abriu-se num porão nos fundos, arrumado para quem vinha do mar preparar-se. Marja parou logo que entrou. Voltou-se com o dedo nos lábios para recomendar silêncio a Ross.
— Veja — disse ela. — Os namorados.
Francie e Jimmy estavam deitados num divã nos braços um do outro, completamente nus. O primeiro impulso de Ross foi de choque, mas logo começou a rir. Era engraçado. Jimmy era muito magro e Francie era bem cheia de corpo.
— Vamos acordá-los? — perguntou em voz baixa.
— Não — disse Marja. — Parecem tão cansados, coitadinhos.
Passaram por eles na ponta dos pés e chegaram ao corredor. Marja perguntou então:
— Como é que se vai para o quarto? Quero vestir a roupa.
Subiram, e ele abriu a porta do quarto.
— Posso tomar um banho? — perguntou ela.
— Só se for de água fria. O aquecedor não está ligado.
— Não faz mal.
Apanhou as roupas em cima da cadeira e entrou no banheiro. Fechou a porta, passou o ferrolho e ficou esperando. Ouviu a porta do quarto bater quando ele saiu. Em seguida, sorrindo, entrou na banheira, puxou a cortina e abriu a torneira do chuveiro.
Mesmo com água fria era maravilhoso. Ela adorava um banho de chuveiro. Em casa, havia apenas a tina na cozinha para tomar banho. O aparelho sanitário era no corredor. Mas assim, numa casa daquelas, é que se devia viver. Começou a cantar numa voz clara, mas meio desentoada. Já estava debaixo da água havia dez minutos quando relutantemente fechou o chuveiro.
Correu a cortina do banheiro e já estava com um pé fora da banheira quando levantou os olhos. Levou a mão à boca para conter um grito de surpresa.
Ross estava diante dela, sorrindo, com uma grande toalha nas mãos estendidas.
— Achei que ia precisar disto — disse ele.
Ela não se moveu.
— Como foi que entrou aqui? — perguntou.
— Pelo meu quarto. O banheiro é comum aos dois quartos. É melhor pegar logo a toalha. Ouvi dizer que as louras verdadeiras são muito suscetíveis a resfriados.
Ela pegou a toalha e enrolou-se nela.
— Muito obrigada — disse secamente.
— Espere aí, Marja. Não está zangada comigo, está?
— Não, mas não gosto de gente que faz o que você fez. É só.
— Ora, foi uma simples brincadeira, Marja — disse ele, tentando beijá-la.
Ela afastou o rosto.
— Pois não achei graça nenhuma. E tenha a bondade de sair, que eu quero me vestir.
Ross podia sentir-lhe o calor através da toalha felpuda. Passou-lhe pela cabeça a imagem dos dois que tinham visto lá embaixo, nus, nos braços um do outro, e cingiu-a com os braços.
— Você não me vai deixar assim — disse ele com uma voz cheia de tensão e o coração a bater-lhe violentamente.
Ela o olhou com os olhos mais gelados que ele já havia visto e nem respondeu.
Ele se sentiu dominado por violenta cólera. Tentou beijá-la à força, mas ela se desvencilhou dele em silêncio. Ele não podia segurá-la. Afinal, empregando todo o seu peso, empurrou-a contra a parede. Agora, ela não podia fugir. Olhou-a firmemente, arfante de esforço. Ela lhe sustentava o olhar sem sombra de medo.
— Vamos deixar dessa tolice, Marja — disse ele, rudemente. — Para que acha que a trouxe para cá?
Ela não respondeu. Continuou a olhá-lo.
Ele tentou arrancar a toalha, mas ela segurou-a com irmeza. Ross se descontrolou. Havia um prazer intenso na violência. Deu-lhe uma bofetada com as costas da mão.
— Vamos, cachorra! Pare com isso! Francie disse que você fazia tudo!
Viu que ela se abrandava e relaxava o corpo de encontro à parede. A marca de seus dedos ainda era visível na pele queimada pelo sol. Um sorriso se esboçou nos lábios dela, e as pálpebras baixaram.
— Ross, querido — murmurou ela, suavemente.
Ross sorriu confiantemente. Aquelas vagabundas eram todas iguais. Às vezes, precisavam ser um pouco sacudidas para saber quem mandava. Aproximou-se dela cheio de segurança.
Não viu o joelho dela levantar-se impetuosamente até sentir a explosão de dor nas virilhas. Ficou um momento diante dela, vacilante, sem poder acreditar.
— Marja! — exclamou com voz trêmula e lábios brancos. — Marja...
Sentiu então novo acesso de dor e caiu no chão diante dela. Podia vê-la olhando-o friamente, enquanto se torcia todo com as violentas dores que sentia.
Viu-a passar por cima dele e apanhar as roupas em cima da cadeira. Sentiu o vento encanado no rosto quando ela abriu a porta e procurou levantar a cabeça para olhá-la.
Ela estava na porta, olhando para ele, e disse com voz fria:
— Se era isso que você queria, por que não escolheu Francie?
A dor já estava passando. Já podia respirar, mas ainda não tinha coragem de mover-se com medo de que ela voltasse.
— Porque era você que eu queria, Marja — conseguiu dizer.
— Bem, há algumas coisas que eu faço e outras que não faço — disse ela, como se estivesse explicando alguma coisa a uma criança. — Que espécie de garota você acha que eu sou, Ross?
A porta se fechou, e ele ficou sozinho, estendido ali no chão. Encostou o rosto que queimava no ladrilho frio do banheiro e fechou os olhos. Viu-a no momento em que saía do quarto, e a dor voltou.
— Marja, Marja — murmurou ele, sozinho —, que espécie de garota é você?