79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 5 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 4

As primeiras vermelhidões do crepúsculo espalhavam-se pelo céu. Para os lados do poente, o sol ainda lutava contra a noite, grande bola vermelha que voltava desesperadamente para a companhia de todos os ontens. O calor começou a atenuar-se.

Marja sentou-se na manta que Ross havia estendido para eles.

— Que horas serão? — perguntou ela.

Ele abriu os olhos, examinou o céu e respondeu:

— Seis e quinze mais ou menos.

— Como é que sabe?

— Já fui escoteiro — disse ele, rindo.

— Você é o primeiro escoteiro que eu conheço — disse ela, rindo também e pousando a mão no joelho dele.

O corpo de Ross reagiu instintivamente. Ela percebeu e tirou prontamente a mão.

— Desculpe, tinha me esquecido.

— Não é preciso pedir desculpas.

— Mas você não gosta de que eu toque em você.

— Não é que não goste. Acho que o que acontece é que não estou habituado.

— Gosta então de mim?

— Comecei a gostar desde o momento em que a vi da porta suja do bilhar.

— Palavra?

— Palavra. Vi você na calçada com Francie e não consegui mais tirar os olhos de você. Nem pude mais jogar. Mike ganhou a partida.

— Mike? É aquele rapaz louro que não quis vir conosco?

— Isso mesmo. Ele nem levantou os olhos da mesa de bilhar quando eu disse que havia na rua uma garota linda.

— Foi isso mesmo que você disse?

— Não. Disse: "Onde é que vendem aquilo, que eu quero comprar todo o estoque?"

— Atrevido — disse ela, rindo.

— Foi muito bom Jimmy estar no bilhar, senão eu talvez nunca a tivesse conhecido.

— É verdade. O seu outro amigo não iria ajudá-lo em nada.

— Mike é um ótimo rapaz. Só que é sério demais. Não pensa em garotas. Estuda o tempo todo. Diz que vai ser advogado.

— Ele é da sua idade?

— Um ano mais moço. Mas estivemos na mesma turma na escola.

Marja estava com a vaidade ferida. Era para ela uma questão de honra que todos os rapazes gostassem dela.

— Aposto que ele não é tão simpático quanto você.

— Obrigado, Marja. Você é a primeira garota que conheço que pensa assim. Em geral, quando elas o veem, eu passo para o segundo lugar.

— Ele deve ser tremendamente presunçoso — disse ela com desdém. — Não tolero gente presunçosa.

— Não. Ele é uma ótima pessoa. Acho que ele nem toma conhecimento do sucesso que faz.

Ela tremeu ligeiramente, sentindo o frio da tarde.

— Aliás, ele pouco me interessa. Mas onde está Francie?

— Foram para a casa há coisa de uma hora, quando você estava cochilando. Francie se queixou de que estava sentindo frio.

Ela se levantou e espreguiçou-se.

— Acho que é melhor entrarmos também. Estou começando a sentir frio.

Ele a olhou, tentando calcular qual seria a idade dela. Mais ou menos dezessete. Não podia ter mais. Nunca vira uma garota que fosse tão mulher na idade dela. A pele clara, as maçãs do rosto salientes, a boca rasgada e sensual, a linha firme do queixo. Ela se espreguiçou de novo, levantando bem os braços acima da cabeça. Ross viu os tufos louros das axilas, seguiu com o olhar a curva dos seios cheios e jovens, a cintura fina e sólida, os quadris generosos e redondos, as coxas fortes e as pernas longas e benfeitas.

Ela percebeu o olhar e o exame. Sorriu para ele. Gostava que ele a olhasse.

A pergunta veio-lhe involuntariamente aos lábios.

— Quantos anos você tem, Marja?

— Adivinhe — respondeu ela, ainda sorrindo.

— Dezessete.

Ela ficou satisfeita de que ele a achasse mais velha.

— Quase isso — disse ela, com o justo grau de hesitação.

Ele abraçou-lhe as pernas e fê-la cair para junto dele. Ela deixou-se cair rindo, com o rosto bem próximo ao dele.

— Está disposta a beijar-me, beleza?

— Agora e sempre — disse ela com sua voz rouca, sem que os olhos mudassem de expressão.

As bocas se uniram e ele ficou vagamente surpreso de que ela realmente quisesse beijá-lo. Os lábios dela se moveram sobre os seus, abrindo caminho para a língua. Mas dessa vez, ele já sabia e não a deixaria tomá-lo de surpresa. Reagiu contra o ímpeto apaixonado que o invadia. Sentiu os dedos dela afagarem-lhe o rosto, um calor se alastrou por dentro dele e ele compreendeu que havia perdido.

Desesperado, quase com raiva, afastou a boca.

— Acho que é melhor irmos.

— Está bem — disse ela, calmamente, levantando-se e esperando por ele.

Evitando-lhe o olhar, ele apanhou a manta, dobrou-a, colocou-a no braço e levantou-se. Dirigiu-se para a casa, carregando a manta, sem olhar para ela.

Ela caminhava ao lado dele. Em dado momento, estendeu a mão para a manta. Ele a olhou. Ela estava sorrindo e perguntou:

— Está escondendo alguma coisa, querido?

Ele ficou vermelho. Quis dar-lhe uma resposta malcriada, mas já estavam chegando à casa. Em vez de falar, ele abriu a porta para que ela passasse.

Entraram pela porta que dava para a praia. Abriu-se num porão nos fundos, arrumado para quem vinha do mar preparar-se. Marja parou logo que entrou. Voltou-se com o dedo nos lábios para recomendar silêncio a Ross.

— Veja — disse ela. — Os namorados.

Francie e Jimmy estavam deitados num divã nos braços um do outro, completamente nus. O primeiro impulso de Ross foi de choque, mas logo começou a rir. Era engraçado. Jimmy era muito magro e Francie era bem cheia de corpo.

— Vamos acordá-los? — perguntou em voz baixa.

— Não — disse Marja. — Parecem tão cansados, coitadinhos.

Passaram por eles na ponta dos pés e chegaram ao corredor. Marja perguntou então:

— Como é que se vai para o quarto? Quero vestir a roupa.

Subiram, e ele abriu a porta do quarto.

— Posso tomar um banho? — perguntou ela.

— Só se for de água fria. O aquecedor não está ligado.

— Não faz mal.

Apanhou as roupas em cima da cadeira e entrou no banheiro. Fechou a porta, passou o ferrolho e ficou esperando. Ouviu a porta do quarto bater quando ele saiu. Em seguida, sorrindo, entrou na banheira, puxou a cortina e abriu a torneira do chuveiro.

Mesmo com água fria era maravilhoso. Ela adorava um banho de chuveiro. Em casa, havia apenas a tina na cozinha para tomar banho. O aparelho sanitário era no corredor. Mas assim, numa casa daquelas, é que se devia viver. Começou a cantar numa voz clara, mas meio desentoada. Já estava debaixo da água havia dez minutos quando relutantemente fechou o chuveiro.

Correu a cortina do banheiro e já estava com um pé fora da banheira quando levantou os olhos. Levou a mão à boca para conter um grito de surpresa.

Ross estava diante dela, sorrindo, com uma grande toalha nas mãos estendidas.

— Achei que ia precisar disto — disse ele.

Ela não se moveu.

— Como foi que entrou aqui? — perguntou.

— Pelo meu quarto. O banheiro é comum aos dois quartos. É melhor pegar logo a toalha. Ouvi dizer que as louras verdadeiras são muito suscetíveis a resfriados.

Ela pegou a toalha e enrolou-se nela.

— Muito obrigada — disse secamente.

— Espere aí, Marja. Não está zangada comigo, está?

— Não, mas não gosto de gente que faz o que você fez. É só.

— Ora, foi uma simples brincadeira, Marja — disse ele, tentando beijá-la.

Ela afastou o rosto.

— Pois não achei graça nenhuma. E tenha a bondade de sair, que eu quero me vestir.

Ross podia sentir-lhe o calor através da toalha felpuda. Passou-lhe pela cabeça a imagem dos dois que tinham visto lá embaixo, nus, nos braços um do outro, e cingiu-a com os braços.

— Você não me vai deixar assim — disse ele com uma voz cheia de tensão e o coração a bater-lhe violentamente.

Ela o olhou com os olhos mais gelados que ele já havia visto e nem respondeu.

Ele se sentiu dominado por violenta cólera. Tentou beijá-la à força, mas ela se desvencilhou dele em silêncio. Ele não podia segurá-la. Afinal, empregando todo o seu peso, empurrou-a contra a parede. Agora, ela não podia fugir. Olhou-a firmemente, arfante de esforço. Ela lhe sustentava o olhar sem sombra de medo.

— Vamos deixar dessa tolice, Marja — disse ele, rudemente. — Para que acha que a trouxe para cá?

Ela não respondeu. Continuou a olhá-lo.

Ele tentou arrancar a toalha, mas ela segurou-a com irmeza. Ross se descontrolou. Havia um prazer intenso na violência. Deu-lhe uma bofetada com as costas da mão.

— Vamos, cachorra! Pare com isso! Francie disse que você fazia tudo!

Viu que ela se abrandava e relaxava o corpo de encontro à parede. A marca de seus dedos ainda era visível na pele queimada pelo sol. Um sorriso se esboçou nos lábios dela, e as pálpebras baixaram.

— Ross, querido — murmurou ela, suavemente.

Ross sorriu confiantemente. Aquelas vagabundas eram todas iguais. Às vezes, precisavam ser um pouco sacudidas para saber quem mandava. Aproximou-se dela cheio de segurança.

Não viu o joelho dela levantar-se impetuosamente até sentir a explosão de dor nas virilhas. Ficou um momento diante dela, vacilante, sem poder acreditar.

— Marja! — exclamou com voz trêmula e lábios brancos. — Marja...

Sentiu então novo acesso de dor e caiu no chão diante dela. Podia vê-la olhando-o friamente, enquanto se torcia todo com as violentas dores que sentia.

Viu-a passar por cima dele e apanhar as roupas em cima da cadeira. Sentiu o vento encanado no rosto quando ela abriu a porta e procurou levantar a cabeça para olhá-la.

Ela estava na porta, olhando para ele, e disse com voz fria:

— Se era isso que você queria, por que não escolheu Francie?

A dor já estava passando. Já podia respirar, mas ainda não tinha coragem de mover-se com medo de que ela voltasse.

— Porque era você que eu queria, Marja — conseguiu dizer.

— Bem, há algumas coisas que eu faço e outras que não faço — disse ela, como se estivesse explicando alguma coisa a uma criança. — Que espécie de garota você acha que eu sou, Ross?

A porta se fechou, e ele ficou sozinho, estendido ali no chão. Encostou o rosto que queimava no ladrilho frio do banheiro e fechou os olhos. Viu-a no momento em que saía do quarto, e a dor voltou.

— Marja, Marja — murmurou ele, sozinho —, que espécie de garota é você?