79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 17 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 16

Marja só voltou ao trabalho no dancing uma semana depois. Seu rosto emagrecera e havia fundas olheiras que a desfiguravam levemente. Antes, tinha havido o funeral de Katti.

A missa na St. Augustine tinha sido simples. O Padre Janowicz se mostrara bondoso e compreensivo. Falou gentilmente da grande coragem de Katti e de sua devoção aos princípios católicos e rogou a Deus que seus filhos pudessem seguir seu exemplo.

Marja sentou-se ao lado de Peter em silêncio, no carro que acompanhou o féretro até o cemitério. O sepultamento foi rápido e, dentro em pouco, voltaram para casa.

Duas assistentes sociais estavam à espera deles. A mãe de Francie, que tinha tomado conta do pequeno Peter enquanto eles haviam estado fora, deixou-os e subiu. As assistentes estavam preocupadas com a capacidade de eles cuidarem devidamente da criança.

Marja convenceu-as de que tudo correria bem. Ela estaria em casa durante o dia e Peter se encarregaria do garoto à noite, quando ela fosse trabalhar. As assistentes concordaram em deixar as coisas nesse pé até o outono, quando Marja teria de continuar os estudos.

Parou um instante na entrada do dancing. Parecia-lhe estranho que tanta coisa houvesse mudado em sua vida e o dancing continuasse o mesmo. A decoração barata, as mortiças lâmpadas azuis, a orquestra cansada com seus falsos ritmos — tudo era o mesmo.

O leão de chácara aproximou-se.

— O Sr. Martin está chamando no escritório.

Marja atravessou a pista e bateu na porta do escritório.

— Entre — disse Martin.

Estava sentado à mesa com alguns papéis abertos à sua frente. Ela fechou a porta e postou-se diante da mesa.

— Mandou me chamar?

— Mandei, sim. Sente-se que falarei com você logo que acabar isto aqui.

Marja sentou-se numa cadeira ao lado da mesa e ficou a observá-lo. O rosto era duro e cheio de rugas, e os cabelos grisalhos davam aos olhos azuis um tom ainda mais frio. O queixo era firme e quadrado, mas os lábios finos mostravam uma distinção quase estranha.

Por fim, ele levantou os olhos e disse delicadamente:

— Meus pêsames pela morte de sua mãe, Marja.

— Obrigada — disse ela, sentindo um aperto na garganta. Ainda lhe era difícil falar sobre o triste fato.

— Esteve aqui um investigador da Assistência Social. Querem informações a respeito de seu emprego.

Um medo súbito se estampou no rosto dela. Martin sorriu, tranquilizando-a.

— Fique descansada. Eu disse que você trabalha na caixa.

— Não sei como posso agradecer-lhe, Sr. Martin — murmurou, com a voz alterada pela emoção.

Martin olhou para os papéis que tinha em cima da mesa e perguntou de repente:

— Por que não me disse qual era sua idade, Marja?

— Se eu dissesse, o senhor me empregaria?

— Acho que não.

— Foi por isso que eu não disse. Por outro lado, o senhor nunca me perguntou.

— Isso nunca me passou pela cabeça. Você parece ter idade suficiente.

— E tenho mesmo — disse ela, com um leve sorriso.

Martin levantou-se e aproximou-se dela. Pôs-lhe a mão no ombro e meneou a cabeça, lembrando-se de sua mocidade. Criara-se num bairro muito parecido com o de Marja.

— Acho que tem — disse ele.

— Posso voltar então a trabalhar, Sr. Martin?

— Pode. Mas fique de olhos abertos. Se houver alguma desordem ou qualquer coisa assim, saia o mais depressa possível. Se a polícia a prender e apurar que você é menor, a casa será fechada.

— Terei cuidado, Sr. Martin — disse ela, levantando-se. — Prometo-lhe.

Ele lhe abriu a porta, e ela ficou ali um momento com um sorriso de gratidão nos lábios.

— Muito obrigada, Sr. Martin. Nunca esquecerei como o senhor foi bom para mim nesta ocasião.

Ele ficou na porta, vendo-a dirigir-se para o vestiário. Balançou a cabeça. Mesmo sabendo, não acreditava. Não tinha nem dezesseis anos completos. As polonesas eram assim mesmo, muito precoces. Riu sozinho, enquanto fechava a porta e voltava à sua mesa.

O calendário nunca significaria grande coisa para ela. Tinha já todo o juízo de que precisaria na vida. Tinha faro para homens. Era o sexto sentido que muitas mulheres passam a vida toda sem adquirir.

 

Ela abriu a porta e entrou na cozinha. O padrasto estava lendo um jornal aberto em cima da mesa.

— Como está o garoto? — perguntou ela.

— Bem. Dormiu calmamente a noite toda.

Ela entrou no quarto e olhou para o berço. Peter estava dormindo com o dedo na boca. Tirou-o com cuidado. De repente, sentiu o olhar do padrasto e virou-se prontamente.

Ele estava na porta do quarto, olhando-a. Ficou de repente vermelha.

— Que deseja? — perguntou ela.

— Nada — respondeu ele e voltou para a cozinha.

Marja tirou o vestido e a combinação, vestiu um robe e foi para a cozinha, onde abriu a torneira da pia.

Peter olhou-a de sua cadeira e perguntou cautelosamente:

— Esse tal Mike veio para casa com você?

— Veio — disse ela, lavando o rosto vigorosamente.

— Gosta de você, não gosta?

— Acho que sim.

— Você passa um bocado de tempo com ele lá embaixo antes de subir.

Ela se voltou para ele e perguntou friamente:

— Que é que está querendo saber?

— Nada — respondeu ele, sem poder sustentar-lhe o olhar.

— Trate então de sua vida e deixe a minha em paz — disse ela, saindo para o quarto.

Quando voltou à cozinha, ele a esperava na porta. Agarrou-lhe o braço. Ela o encarou, apertando os olhos, sem falar.

— Você é muito bonita, Marja — disse ele, num tom suplicante.

Ela nada disse.

— Talvez algum dia você resolva ser boazinha para mim, e todo mundo será então feliz, hem?

Ela puxou o braço, cansada demais para zangar-se.

— Peter — disse ela com a voz neutra, notando que era a primeira vez que se dirigia a ele pelo nome, sem chamá-lo de tio —, não seja desagradável. Só estou aqui porque era assim que mamãe queria. Só por isso. Nada mais.

Ele a seguiu até a porta do quarto e fez outra pergunta:

— Mas, Marja, você sabe o que sinto a seu respeito?

— Sei, mas não me interessa. Se precisa tanto de mulher, saia e vá procurar uma na rua.

Bateu-lhe a porta na cara e passou a chave. Esperou um instante até ouvir seus passos se afastarem. Depois, acabou de despir-se e meteu-se na cama.

Estendeu os braços para trás da cabeça e deixou a leve brisa que entrava pela janela beijar-lhe o corpo. Sentia uma surda angústia. Fechou os olhos, e o rosto de sua mãe surgiu-lhe na escuridão.

"Seja boa, Marja", parecia que Katti lhe estava dizendo.

— Fique descansada, mamãe — murmurou baixinho Marja, virando-se para o lado. Ouviu o estalo da porta da geladeira, quando já estava pegando no sono.