79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 22 de 55

Páginas do PDF

79 Park Avenue

Capítulo 21

— Mas deve ter havido uma razão para você fazer uma coisa dessas, Marja — insistiu a assistente social.

Marja sacudiu a cabeça obstinadamente e nada disse.

— Quer então ser mandada para um reformatório?

Marja encolheu os ombros.

— Diga eu o que disser, não vão me deixar em liberdade. Vou ser presa de qualquer maneira.

— Mas há uma grande diferença entre uma instituição correcional e um abrigo do Estado — explicou a mulher.

— Para mim, não. As duas coisas são péssimas.

A mulher deu um suspiro.

— Não quer mais ficar ao lado de seu irmãozinho?

— Se eu falasse, poderia ficar com ele? Posso trabalhar para sustentá-lo.

— Não, infelizmente não poderia permitir isso. Você é ainda muito jovem, mas...

— Quer dizer que não faz qualquer diferença?

A mulher não respondeu.

— Está bem — disse Marja, levantando-se. — Vamos acabar logo com isso.

 

A sala do tribunal estava quase vazia. Só alguns curiosos ou desocupados estavam sentados na parte reservada ao público. Quando ela passou, olharam-na com curiosidade, mas sem qualquer interesse pessoal. Ela nada significava para eles.

De repente, à sua passagem, alguém tocou-lhe no braço.

— Alô, Marja.

Ela se voltou, espantada, e viu Mike com um sorriso amistoso e tranquilizador nos lábios.

— Tentei vê-la, mas não me deixaram — murmurou ele rapidamente.

O rosto dela voltou a ser uma máscara impassı́vel. Não adiantava dizer-lhe que ela havia dito terminantemente que não queria ver pessoa alguma. Continuou a andar.

A mulher da Assistência Social que vinha atrás dela disse com um sorriso amistoso:

— Rapaz simpático, esse. É seu namorado?

— Não sei quem é — disse Marja, com os olhos imóveis. — É a primeira vez que o vejo.

O juiz era um velho de aspecto cansado e enfadado. Olhou para Marja e disse:

— E acusada de haver agredido seu padrasto com uma faca.

Marja nada disse.

— O Sr. Ritchik está presente? — perguntou o juiz ao escrivão.

O escrivão chamou:

— Sr. Ritchik!

Peter apareceu, vindo dos fundos da sala. Trazia ainda o rosto coberto por um grande curativo branco. Marja olhou para ele como se fosse um estranho. Já fazia cinco semanas que não o via e isso parecia uma vida inteira.

— Quer contar-nos o que aconteceu, Sr. Ritchik? — perguntou o juiz.

— Ela não presta, Excelência — começou Peter. — É uma vagabunda. Nunca quis ouvir ninguém. Trabalhava no dancing e nunca voltava à noite para casa. Quando acontecia voltar, era de madrugada. Naquela noite, eu disse que ela precisava voltar para casa mais cedo como toda moça decente. Quando fui dormir, ela entrou no meu quarto furtivamente e me cortou com a faca.

Marja não pôde deixar de sorrir. Se não fosse o respeito que devia à memória de sua mãe, contaria o que realmente havia acontecido. Mas Katti tinha direito a essa paz pelo menos.

Tudo correu rapidamente. Ela ficou de pé diante do juiz enquanto ele olhava para ela por cima dos óculos.

— Marja, vai ser mandada para a Casa Correcional Rose Geyer para moças, onde icará até completar dezoito anos. Tenho a esperança de que aproveite o tempo que ali passar aprendendo uma pro issão e uma maneira cristã de viver.

Ela o olhou com absoluta indiferença.

— Alguma pergunta?

Ela sacudiu a cabeça.

O juiz bateu com o martelo na mesa e levantou-se. Todo mundo no tribunal ficou de pé enquanto ele se retirava pomposamente. Quando a porta se fechou à sua passagem, a mulher da Assistência Social disse:

— Venha comigo, Marja.

Marja seguiu-a maquinalmente. Mike estava de pé e tentou dizer alguma coisa, mas ela fingiu que não o vira. Uma expressão de infinita mágoa se estampou no rosto dele, e só quando chegou à porta foi que ela compreendeu que ele estava chorando.

A Casa Rose Geyer icava no im do Bronx. Marja olhou para tudo com curiosidade quando saltou do carro com o guarda e outra funcionária da Assistência Social. Quase não era mais cidade ali. A casa estava rodeada de campos abertos.

Uma hora depois, foi levada ao gabinete médico por outra moça, que a olhou cheia de curiosidade, mas não disse uma só palavra enquanto caminhava pelo grande corredor cinzento.

Ela abriu a porta para Marja.

— Entre, meu bem — disse ela, numa voz que não era desagradável. Um homem magro e grisalho levantou a cabeça. — Trago-lhe mais uma ovelha, doutor — disse a moça.

O médico olhou-a com indiferença, apontou para uma saleta ao lado e disse:

— Entre ali e tire a roupa toda.

O exame foi breve e eficiente. Vinte minutos depois, ela estava vestida e de volta ao gabinete.

O médico entregou-lhe uma receita.

— Entregue no dispensário. É para tomar durante todo o seu tempo de gravidez.

Marja levou um susto. Olhou em torno. A moça que a tinha levado estava sentada no outro extremo da sala.

— Quem, eu? — perguntou, sem acreditar.

A moça então falou:

— Claro que não pode ser comigo, meu bem. Estou aqui há dois anos sem um homem, e como é duro!

Marja olhou para o médico e para a receita e começou a rir, compreendendo afinal.

O médico perguntou-lhe, admirado:

— Em que é que está achando tanta graça?

Ela olhou para ele, com as lágrimas a rolarem-lhe pelo rosto. Era o pior de tudo. Ele não saberia. Ninguém saberia.