79 Park Avenue
Capítulo 2
— Sr. Bell, quantos drinques tomou antes de encontrar-se com a Srta. Flood naquela noite? — Perguntou Vito com voz clara e firme.
O corpulento homem que estava sentado na cadeira das testemunhas olhou desconsoladamente para o juiz.
— Não sei ao certo. Sei que bebi muito... É só isso que eu sei...
— Dez drinques? Doze? Vinte? — perguntou Vito.
— Talvez dez.
— Talvez dez. E quantos drinques tomou com ela no bar?
— Quatro? — perguntou o homem.
— Posso garantir-lhe que não sei, Sr. Bell. Quem estava lá era o senhor e não eu.
— Mas não sei...
— Não sabe — exclamou Vito. — Não sabe quantos drinques bebeu antes de encontrar-se com a minha cliente, não sabe quantos drinques tomou com ela no bar. E possı́vel lembrar-se de quantos tomou no apartamento dela?
— Não... não sei. Não posso ter certeza. Só sei é que bebi muito naquela noite.
Vito sorriu.
— É quase disso, apenas, que temos certeza, Sr. Bell — Parece que não tem certeza de nada do que aconteceu naquela noite, não é mesmo, Sr. Bell?
— Eu tinha mil e quinhentos dólares no bolso quando saí naquela noite — disse o homem, zangado. — No dia seguinte, não tinha mais um centavo.
— Quando foi que deu por falta do dinheiro, Sr. Bell?
— Quando acordei. Olhei para cima da cômoda. Quando vi que o dinheiro não estava lá, procurei nos bolsos e não encontrei.
— Onde aconteceu isso, Sr. Bell? E a que horas?
— No meu quarto no hotel, às nove e meia da manhã.
— Telefonou imediatamente então para a polícia e deu queixa do furto?
— Não. Vesti-me, desci e fui perguntar na portaria se alguém havia achado o dinheiro.
— Telefonou então para a polícia?
— Não, telefonei para a companhia de táxi para saber se algum motorista havia encontrado o dinheiro.
— Era todo o dinheiro que trazia, Sr. Bell?
— Era. Não gosto de levar trocados no bolso. Atrapalham muito. Sempre mando ficarem com o troco.
— É só, Sr. Bell. Muito obrigado — disse Vito, afastando-se abruptamente.
O homem olhou em torno, embaraçado. Depois, levantou-se e foi sentar-se numa cadeira. Vito esperou um momento e então chamou um nome. Um homem pequeno e magro levantou-se e foi para a cadeira das testemunhas. Prestou o juramento e sentou-se.
— Qual é a sua profissão, Sr. Russo? — perguntou-lhe Vito.
— Sou chofer de táxi.
— Para que companhia trabalha?
— Para a Shaggy Dog Cab. Trabalho à noite.
— Reconhece alguém nesta sala?
— Sim, aquele homem — disse ele, apontando Bell.
— Conhecia-o pelo nome antes de chegar a este tribunal?
— Não. Só o reconheci porque fiz uma corrida com ele uma noite.
— Quando foi isso?
Russo tirou uma folha de papel do bolso. — Tenho aqui a folha de serviço daquela noite. Foi na terça-feira da semana passada.
Vito pegou a folha de papel e perguntou:
— Que é isto?
— É a minha folha de serviço. Diz onde foi que peguei cada freguês, para onde o levei e quanto marcava o relógio. É por aí que o patrão fiscaliza a quilometragem e o dinheiro recebido. Também diz a hora das corridas.
— E consta aí a corrida que fez para o Sr. Bell?
— Sim, está aqui. Quatro e quarenta da manhã.
— Quatro e quarenta da manhã — disse Vito, lendo o papel.
— Da 72nd Street para o Hotel Sherry. Foi essa a corrida?
— Foi — respondeu o motorista — Sessenta cents.
— Como foi que ele lhe pagou?
— Tirou uma nota de um dólar de um maço muito grande e me disse que ficasse com o troco.
Vito olhou para o juiz com uma expressão de inocência.
— Mais uma pergunta, Sr. Russo. Qual era o estado do seu freguês? Estava no seu juízo perfeito?
— Não. Estava inteiramente bêbado.
— É só, Sr. Russo. Muito obrigado.
Vito, ainda com os olhos voltados para o juiz, esperou que a testemunha se levantasse e mostrou então um leve sorriso. Viu que o juiz o olhava cheio de bom humor e sorriu mais largamente.
— Requeiro que o caso contra a minha cliente seja arquivado, por absoluta falta de provas.
— Deferido. Caso arquivado — disse o juiz.
— Obrigado, Meritíssimo — disse Vito, enquanto o juiz suspendia a sessão. Voltou-se então para Maryann.
Ela lhe estendeu a mão, sorrindo.
— Obrigada, Hank.
— Disse que eu era o melhor. E eu tinha de fazer tudo para não desmenti-la.
Ela se levantou e ele a ajudou a vestir o casaco. Viu pelo canto dos olhos um homem entregar um papel a Bell. Riu para si mesmo enquanto se encaminhavam para a saı́da.
Bell dirigiu-se a Vito quando eles passaram junto a ele:
— Que quer dizer isto, Sr. Vito?
— Isto o quê?
— Esta ação por falsa acusação, calúnia e... dano moral. Duzentos e cinquenta mil dólares de indenização!
— Bem, Sr. Bell, de hoje em diante, quando acusar uma pessoa inocente, espero que se lembre de que há leis também para protegê-la.
Maryann estava rindo quando saíram do tribunal.
— Preparou o papel antecipadamente — disse ela. — E se houvéssemos perdido?
— Não podíamos perder.
— Por que não?
Vito não respondeu à pergunta dela.
— Não temos um encontro para um jantar? — perguntou ele.
— Claro que temos.
— A que horas?
— Vá pegar-me no meu apartamento. Às sete e meia.
— Ótimo. Tenho de voltar ao escritório. Vou chamar um táxi para você.
Quando o táxi chegou, ela entrou e perguntou:
— Por que diz que não podíamos perder? Se não tivesse encontrado aquele chofer de táxi, tudo seria dificílimo.
— Quem foi que encontrou o chofer de táxi?
— Ah! Quer dizer... — murmurou ela compreendendo.
— Quem podia contestar? Bell estava tão bêbado que não poderia lembrar-se da cara do motorista. Foi muito simples encontrar um homem da mesma companhia que estivesse disposto a lembrar-se de mais do que Bell se lembrava. Especialmente um homem que trabalha à noite e não se aborrece de ganhar algum dinheiro extra num trabalho fácil à tarde.
— Você é mesmo o melhor — disse ela, sorrindo.
Ele fechou a porta.
— Sete e meia em ponto — disse ele e saiu assobiando.
Olhou para o relógio. Quase seis horas. Pegou o telefone e, quando a secretária atendeu, disse:
— Telefone para o barbeiro e diga-lhe que me espere. Quero fazer a barba daqui a alguns minutos.
— Está bem, Sr. Vito — disse a secretária e acrescentou: — O Sr. Drego está ao telefone.
— Não disse que queria falar com ele.
— Eu sei. Ele é que telefonou neste momento.
Vito apertou o botão de ligação.
— Alô,Ross.
— Preciso vê-lo hoje à noite — disse Ross, ansiosamente.
— Não pode ser. Consegui uma folga da patroa e vou levar para jantar a garota mais linda deste mundo. Deixe para amanhã.
— Tem de ser esta noite, Hank. Querem que eu vá para o oeste na semana que vem e nós temos de acertar umas coisas.
— Ih! Não tenho sorte mesmo.
Ross riu pelo telefone e disse:
— Não lhe tomarei muito tempo.
— Mesmo assim.
— Essa garota deve ser um estouro, Hank. Ainda não o vi interessado assim por ninguém.
— Não creio que haja outra como ela no mundo, Ross. É uma mulher cem por cento.
— Quero ver para crer. Traga-a, se ela puder ficar de bico calado.
— Está bem. Estaremos em sua casa as oito horas.
— Não — disse Ross. — É melhor nos encontrarmos no Clube Shelton as oito e meia. Levarei também uma garota. Assim, se alguém nos vir, estaremos apenas nos divertindo.
— Está certo — disse Vito, desligando.
Ross era um camarada muito vivo, às vezes vivo até demais. Pegou o telefone e discou um número.
Joker estava certo. Tinha dito muitos anos antes que o garoto tinha de ser bem controlado.
— Quero falar com Joker — disse ele.