79 Park Avenue

Harold Robbins · Capítulo 39 de 55

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79 Park Avenue

Capítulo 2

— Sr. Bell, quantos drinques tomou antes de encontrar-se com a Srta. Flood naquela noite? — Perguntou Vito com voz clara e firme.

O corpulento homem que estava sentado na cadeira das testemunhas olhou desconsoladamente para o juiz.

— Não sei ao certo. Sei que bebi muito... É só isso que eu sei...

— Dez drinques? Doze? Vinte? — perguntou Vito.

— Talvez dez.

— Talvez dez. E quantos drinques tomou com ela no bar?

— Quatro? — perguntou o homem.

— Posso garantir-lhe que não sei, Sr. Bell. Quem estava lá era o senhor e não eu.

— Mas não sei...

— Não sabe — exclamou Vito. — Não sabe quantos drinques bebeu antes de encontrar-se com a minha cliente, não sabe quantos drinques tomou com ela no bar. E possı́vel lembrar-se de quantos tomou no apartamento dela?

— Não... não sei. Não posso ter certeza. Só sei é que bebi muito naquela noite.

Vito sorriu.

— É quase disso, apenas, que temos certeza, Sr. Bell — Parece que não tem certeza de nada do que aconteceu naquela noite, não é mesmo, Sr. Bell?

— Eu tinha mil e quinhentos dólares no bolso quando saí naquela noite — disse o homem, zangado. — No dia seguinte, não tinha mais um centavo.

— Quando foi que deu por falta do dinheiro, Sr. Bell?

— Quando acordei. Olhei para cima da cômoda. Quando vi que o dinheiro não estava lá, procurei nos bolsos e não encontrei.

— Onde aconteceu isso, Sr. Bell? E a que horas?

— No meu quarto no hotel, às nove e meia da manhã.

— Telefonou imediatamente então para a polícia e deu queixa do furto?

— Não. Vesti-me, desci e fui perguntar na portaria se alguém havia achado o dinheiro.

— Telefonou então para a polícia?

— Não, telefonei para a companhia de táxi para saber se algum motorista havia encontrado o dinheiro.

— Era todo o dinheiro que trazia, Sr. Bell?

— Era. Não gosto de levar trocados no bolso. Atrapalham muito. Sempre mando ficarem com o troco.

— É só, Sr. Bell. Muito obrigado — disse Vito, afastando-se abruptamente.

O homem olhou em torno, embaraçado. Depois, levantou-se e foi sentar-se numa cadeira. Vito esperou um momento e então chamou um nome. Um homem pequeno e magro levantou-se e foi para a cadeira das testemunhas. Prestou o juramento e sentou-se.

— Qual é a sua profissão, Sr. Russo? — perguntou-lhe Vito.

— Sou chofer de táxi.

— Para que companhia trabalha?

— Para a Shaggy Dog Cab. Trabalho à noite.

— Reconhece alguém nesta sala?

— Sim, aquele homem — disse ele, apontando Bell.

— Conhecia-o pelo nome antes de chegar a este tribunal?

— Não. Só o reconheci porque fiz uma corrida com ele uma noite.

— Quando foi isso?

Russo tirou uma folha de papel do bolso. — Tenho aqui a folha de serviço daquela noite. Foi na terça-feira da semana passada.

Vito pegou a folha de papel e perguntou:

— Que é isto?

— É a minha folha de serviço. Diz onde foi que peguei cada freguês, para onde o levei e quanto marcava o relógio. É por aí que o patrão fiscaliza a quilometragem e o dinheiro recebido. Também diz a hora das corridas.

— E consta aí a corrida que fez para o Sr. Bell?

— Sim, está aqui. Quatro e quarenta da manhã.

— Quatro e quarenta da manhã — disse Vito, lendo o papel.

— Da 72nd Street para o Hotel Sherry. Foi essa a corrida?

— Foi — respondeu o motorista — Sessenta cents.

— Como foi que ele lhe pagou?

— Tirou uma nota de um dólar de um maço muito grande e me disse que ficasse com o troco.

Vito olhou para o juiz com uma expressão de inocência.

— Mais uma pergunta, Sr. Russo. Qual era o estado do seu freguês? Estava no seu juízo perfeito?

— Não. Estava inteiramente bêbado.

— É só, Sr. Russo. Muito obrigado.

Vito, ainda com os olhos voltados para o juiz, esperou que a testemunha se levantasse e mostrou então um leve sorriso. Viu que o juiz o olhava cheio de bom humor e sorriu mais largamente.

— Requeiro que o caso contra a minha cliente seja arquivado, por absoluta falta de provas.

— Deferido. Caso arquivado — disse o juiz.

— Obrigado, Meritíssimo — disse Vito, enquanto o juiz suspendia a sessão. Voltou-se então para Maryann.

Ela lhe estendeu a mão, sorrindo.

— Obrigada, Hank.

— Disse que eu era o melhor. E eu tinha de fazer tudo para não desmenti-la.

Ela se levantou e ele a ajudou a vestir o casaco. Viu pelo canto dos olhos um homem entregar um papel a Bell. Riu para si mesmo enquanto se encaminhavam para a saı́da.

Bell dirigiu-se a Vito quando eles passaram junto a ele:

— Que quer dizer isto, Sr. Vito?

— Isto o quê?

— Esta ação por falsa acusação, calúnia e... dano moral. Duzentos e cinquenta mil dólares de indenização!

— Bem, Sr. Bell, de hoje em diante, quando acusar uma pessoa inocente, espero que se lembre de que há leis também para protegê-la.

Maryann estava rindo quando saíram do tribunal.

— Preparou o papel antecipadamente — disse ela. — E se houvéssemos perdido?

— Não podíamos perder.

— Por que não?

Vito não respondeu à pergunta dela.

— Não temos um encontro para um jantar? — perguntou ele.

— Claro que temos.

— A que horas?

— Vá pegar-me no meu apartamento. Às sete e meia.

— Ótimo. Tenho de voltar ao escritório. Vou chamar um táxi para você.

Quando o táxi chegou, ela entrou e perguntou:

— Por que diz que não podíamos perder? Se não tivesse encontrado aquele chofer de táxi, tudo seria dificílimo.

— Quem foi que encontrou o chofer de táxi?

— Ah! Quer dizer... — murmurou ela compreendendo.

— Quem podia contestar? Bell estava tão bêbado que não poderia lembrar-se da cara do motorista. Foi muito simples encontrar um homem da mesma companhia que estivesse disposto a lembrar-se de mais do que Bell se lembrava. Especialmente um homem que trabalha à noite e não se aborrece de ganhar algum dinheiro extra num trabalho fácil à tarde.

— Você é mesmo o melhor — disse ela, sorrindo.

Ele fechou a porta.

— Sete e meia em ponto — disse ele e saiu assobiando.

 

Olhou para o relógio. Quase seis horas. Pegou o telefone e, quando a secretária atendeu, disse:

— Telefone para o barbeiro e diga-lhe que me espere. Quero fazer a barba daqui a alguns minutos.

— Está bem, Sr. Vito — disse a secretária e acrescentou: — O Sr. Drego está ao telefone.

— Não disse que queria falar com ele.

— Eu sei. Ele é que telefonou neste momento.

Vito apertou o botão de ligação.

— Alô,Ross.

— Preciso vê-lo hoje à noite — disse Ross, ansiosamente.

— Não pode ser. Consegui uma folga da patroa e vou levar para jantar a garota mais linda deste mundo. Deixe para amanhã.

— Tem de ser esta noite, Hank. Querem que eu vá para o oeste na semana que vem e nós temos de acertar umas coisas.

— Ih! Não tenho sorte mesmo.

Ross riu pelo telefone e disse:

— Não lhe tomarei muito tempo.

— Mesmo assim.

— Essa garota deve ser um estouro, Hank. Ainda não o vi interessado assim por ninguém.

— Não creio que haja outra como ela no mundo, Ross. É uma mulher cem por cento.

— Quero ver para crer. Traga-a, se ela puder ficar de bico calado.

— Está bem. Estaremos em sua casa as oito horas.

— Não — disse Ross. — É melhor nos encontrarmos no Clube Shelton as oito e meia. Levarei também uma garota. Assim, se alguém nos vir, estaremos apenas nos divertindo.

— Está certo — disse Vito, desligando.

Ross era um camarada muito vivo, às vezes vivo até demais. Pegou o telefone e discou um número.

Joker estava certo. Tinha dito muitos anos antes que o garoto tinha de ser bem controlado.

— Quero falar com Joker — disse ele.