As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Quatro
O que poderiam possivelmente querer com elas? Eram não mais do que
crianças, em sua grande maioria.
— LADISLAV GROSMAN , The Bride
EMMANUEL FRIEDMAN TINHA ORGULHO da inteligência de suas filhas e queria que elas se formassem — Lea, advogada; Edith, médica — para que pudessem assumir o controle de sua própria vida. Os homens com quem ele costumava orar seguiam as antigas instruções do Talmude de que as mulheres deveriam ficar em casa e trabalhar como mães, e o repreendiam por ele querer educar suas filhas. Emmanuel, um defensor apaixonado do direito dado por Deus às mulheres quanto à sua própria educação, prontamente deixou aquela sinagoga e encontrou um local mais liberal. Foi o código judaico contra a educação que forçou Edith e Lea a desistirem de seus sonhos de seguir carreiras profissionais. Outra jovem, Manci Schwalbova, havia estudado durante anos para se tornar médica e só tinha que prestar mais um exame antes de se formar. Então, veio o código. Manci não obteve permissão para prestar o exame final.
Emmanuel e Hanna Friedman estavam preocupados porque suas filhas não poderiam nem terminar o ensino médio. Como elas conseguiriam alcançar sucesso se não tivessem sequer o diploma do ensino médio? E agora elas teriam de trabalhar para o mesmo governo que havia negado seu direito à educação?
A ÚNICA BOA NOTÍCIA era que se prometia isenções para famílias cujos negócios fossem economicamente essenciais para o governo e para a guerra, e os Friedman supostamente eram uma dessas famílias. Havia algumas outras igualmente afortunadas. As netas de Chaim Gross, Adela e Debora, também deveriam ser isentas. Quando a família Gross decidiu que Debora já tinha idade suficiente para se casar com Martin Grosman, esperava-se que houvesse uma dupla exceção para ela, tanto por causa de seu marido quanto por causa do seu avô. Aos 18 anos, Adela não tinha essa dupla segurança.
Apesar de sua beleza, Helena Citron ainda não era casada e sua família não era rica. Não haveria exceção para os Citron. A menos que Helena se casasse imediatamente, ela teria que trabalhar para o governo. Sua irmã mais velha, Ruzinka Grauber, era casada e tinha um filho. Ruzinka estaria segura.
Hanna Friedman apertou seu avental e franziu a testa. As exceções eram um alívio muito bem-vindo para famílias importantes para o governo, mas os vizinhos de Hanna também tinham filhas. E as amigas de Edith e Lea? Zena Haber, Margie Becker e Anna Herskovic, de cabelos cor de morango, uma garota delicada que não fora feita para fábricas ou trabalhos agrícolas. E quanto a Annou Moskovic, de rosto doce e carinhoso, que sempre achava uma desculpa para passar na casa dos Friedman no dia em que assavam pães? Annou amava o pão da sra. Friedman. Será que Irena Fein seria isenta, por trabalhar na loja de material fotográfico e ajudar sua família com essa renda extra? Por que todas não podiam ficar e trabalhar em casa para o governo? Hanna sentia-se aflita e preocupada enquanto suas filhas recolhiam a louça do jantar. Ela teria que preparar um pouco mais de massa, para poder fazer um pão trançado extra para Annou.
Sentado ao lado da lareira na “sala branca”, Emmanuel olhava para o rosto preocupado de sua esposa. Não havia dúvida de que suas filhas estavam “maduras para ir” para o trabalho.
“Lea já tem os documentos para viajar para a Hungria”, Hanna lembrou seu marido. “Deixe-as ficar lá, onde as coisas estão um pouco mais tranquilas. Assim que Lea chegar, Edith pode atravessar a fronteira e se juntar a ela. É melhor elas irem embora do que serem mandadas para o serviço.”
Emmanuel não gostava da ideia de evadirem-se dos mandatos legais impostos pelo governo. “É lei”, disse ele à esposa.
“Uma lei ruim.”
“Mas é lei.” E, para um judeu, infringir a lei simplesmente não é a mesma coisa que para um não judeu. Ele temia as consequências.
O debate entre os Friedman era um exemplo dos dilemas que as famílias judias enfrentaram por toda a Eslováquia. A neve, outrora branca e imaculada, tornara-se cinza e suja. Os pinheiros, agora pesados por causa de gelo, dobravam-se e seus galhos partiam-se com o vento implacável. Sulcos profundos marcavam a paisagem nevada, serpenteando pelo chão congelado. Nuvens carregadas atravessavam o céu noturno até a fronteira húngara, em direção à frente oriental.
Nenhum judeu dormiu bem naquela semana.
EM PREŠOV, ADOLF AMSTER tinha certeza de que, por ser um importante empresário, receberia isenções para sua família — assim, sua
filha caçula, Magda, estaria a salvo. 33 Os Hartmann, que administravam uma fazenda essencial de gado leiteiro, também seriam isentos. A julgar pelo que diziam algumas pessoas, parecia que todos teriam direito a uma exceção. Proprietários de fábricas, comerciantes qualificados, agricultores — qualquer família que tivesse um negócio economicamente viável e importante para o governo eslovaco teria permissão para manter suas filhas em casa.
Os documentos que autorizavam as isenções não eram poucos, e as secretárias do ministério em Bratislava devem ter datilografado diligentemente muitos deles. Mas o processo era tudo menos simples, e a burocracia do governo, já não muito eficiente, tornara-se agora ainda mais modorrenta. Quando as notícias sobre o serviço obrigatório chegaram a Roma, o Vaticano enviou outro representante, naquele mesmo mês de
março, para interceder em nome dos judeus. 34 Para combater a pressão do
Vaticano, 35 Eichmann enviou para Bratislava seu braço direito e
“especialista consultor em assuntos judaicos”, 36 o membro ligeiramente gordinho da SS Dieter Wisliceny. Sua missão era ajudar a garantir que o
primeiro transporte “oficial” 37 de judeus fosse executado sem problemas. Wisliceny consultou Konka sobre as difíceis questões envolvidas na deportação das primeiras mil garotas, mas Konka tinha certeza de que seu plano “grandioso” de transportar 5 mil meninas em cinco dias era possível.
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Sem saber do caos político causado pelas exceções, os pais judeus esperavam que o governo entregasse a papelada prometida antes que suas filhas tivessem que se apresentar para o serviço. Todos os dias, Hanna Friedman esperava ansiosamente pela chegada do correio. Segurando suas filhas e abraçando-as espontaneamente, ela acariciava os cabelos de Lea, fazia carinho na bochecha de Edith e cantava canções junto com elas enquanto faziam suas tarefas. Chaim Gross fazia sua equipe contatar o Ministério do Interior por telefone. O casamento de Debora foi adiantado. Como ela também sofria de artrite reumatoide juvenil, certamente seria dispensada do trabalho. Mas e a outra neta, Adela?
O prefeito de Humenné tranquilizava as famílias judias consideradas essenciais, mas, sem a documentação oficial do ministério, suas palavras não tinham significado algum. Emmanuel Friedman conhecia há anos os homens que trabalhavam no governo regional, mas eles estavam tão perdidos como ele em relação às exceções. Ninguém sabia quando elas chegariam. A única coisa concreta era o aviso severo repetido por toda a cidade: se o nome de uma garota estiver na lista e ela não aparecer para se registrar, será presa.
Havia uma lista de nomes?
De fato, havia.
QUANDO A ALEMANHA ANEXOU a Eslováquia, conselhos judaicos
foram convocados, com a aparente intenção de defender as comunidades. 39 Na realidade, esses conselhos não tinham nenhum poder ou responsabilidade, apenas coletavam informações sobre a população judaica local. Inicialmente, esses censos pareceram uma tarefa burocrática inofensiva, mas os dados estavam sendo coletados por razões muito mais repreensíveis e, no fim das contas, permitiriam à Guarda Hlinka se mobilizar contra os judeus eslovacos. Foi como um golpe cibernético, em plena década de 1940, implementado pelo governo. As listas regionais eram feitas em ordem alfabética e incluíam datas de nascimento e endereços. Tudo o que a polícia precisava fazer era aparecer em uma casa ou apartamento da lista e prender a garota que não se apresentara — a menos que seu nome tivesse sido formalmente riscado da lista.
Na manhã de 20 de março de 1942, Brody Sloboda saiu de seu apartamento ao mesmo tempo que um vizinho, um funcionário público não
judeu. 40
“É um dia ruim para ser judeu”, disse o homem a Brody.
“Por quê?”, Brody perguntou.
“Veja isso.” Ele mostrou a Brody uma lista de nomes de meninas. “Eles estão levando meninas judias para campos de trabalho hoje.”
No topo da lista estava o nome de uma prima de Brody, Judita Hassova.
“Faça-me um favor”, disse Brody. “Pode riscar esse nome?”.
O homem pegou o lápis e traçou uma linha sobre o nome dela.
Setenta e cinco anos depois, o filho de Judita, Ivan Sloboda, ainda se pergunta se sua mãe é a razão de ter havido 999 meninas. “Talvez minha mãe fosse a número 1.000?”.
Mas a razão para a configuração numérica de 999 pode ter sido muito mais sinistra.
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