As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Dois
Onde há um eslovaco, há uma canção .
— DITADO POPULAR ESLOVACO
EM CASA, OS FRIEDMAN eram como uma família Von Trapp judia em uma versão eslovaca de A Noviça Rebelde . Edith e Lea sempre cantavam durante as tarefas da manhã, então os dias eram lindos, independentemente do clima. E quem precisava do rádio com vozes como as delas?
Hanna Friedman ouvia as filhas cantando e se preocupava com o silêncio que iria cair sobre sua casa se as adolescentes fossem mandadas para longe pelo governo. Quem mais poderia reproduzir os tons melodiosos como os de uma cotovia de Edith ou guturais como os de um pardal de Lea? Alheias ao ouvido sentimental de sua mãe, as meninas cantarolavam melodias lavando a louça do café da manhã, varrendo e limpando o chão da cozinha e, finalmente, abrindo a porta da frente para deixar entrar um sopro de ar frio. Na rua, as crianças já podiam ser ouvidas gritando e rindo na neve. A sra. Friedman bateu os edredons, tirando-lhes a poeira e o sono, e depois os dobrou de volta, colocando-os ao pé da cama para que os colchões pudessem tomar ar.
Lá fora, o mundo era uma maravilha esbranquiçada. Arco-íris brilhavam na neve, formados pelas gotas congeladas penduradas nas bordas dos telhados. Galhos negros de árvores estavam cobertos por uma camada de neve que parecia pó de fadas. Um sol pálido resplandecia através das nuvens finas, à medida que o vento sudeste as varria pelo céu ainda mais pálido.
Em um dia típico de mercado, Edith e Lea iam ao centro da cidade carregando uma cesta e faziam compras para Babi, sua avó. Elas encontravam suas amigas e vizinhas, ficavam sabendo das últimas fofocas e liam os anúncios colocados no quadro de avisos e em volta da praça. Em um dia típico de mercado... Mas esse dia seria tudo, menos típico. Primeiro, o mercado provavelmente estaria quase vazio, pois os agricultores ainda estavam arando a terra. Quando eles finalmente chegassem com seus trenós, os poucos produtos oferecidos para venda estariam congelados pela jornada. Mas era assim mesmo no inverno. Então, não era por isso que esse dia seria diferente de outros dias. Nesse dia, todo mundo estava indo ao mercado para saber se o pregoeiro da cidade tinha algum acréscimo a fazer ao anúncio de sábado, que quase ninguém tinha ouvido, mas no qual agora todos eram forçados a acreditar.
As meninas ainda não sabiam de nada. Ainda não. Depois de ficarem em casa por mais de 24 horas por causa da neve, Edith e Lea provavelmente estavam ansiosas para ver suas amigas, pois saíram correndo pela porta à frente de sua mãe, balançando a cesta de Babi entre elas.
Enquanto as meninas abriam passagem em meio à crosta de neve recentemente caída e seguiam em direção à cidade, elas talvez tenham ouvido as portas abrindo e fechando ao longo da rua, à medida que homens e mulheres jovens, ansiosos por sair, atravessavam os montes de neve nas calçadas que mal podiam ser discernidas. Havia apenas uma leve insinuação de sussurros, ouvidos por acaso, e a única maneira de descobrir o que realmente estava acontecendo era investigar a verdade. Para isso, uma das melhores amigas de Lea pode ter chamado seus nomes. Com um chapéu de tricô sobre os cabelos ruivos cor de morango, Anna Herskovic talvez tenha corrido para se juntar às irmãs Friedman neste dia atípico de mercado.
Anna Herskovic era uma garota alegre e comunicativa, com grandes olhos castanhos e pele pálida. Uma garota bonita rodeada de garotas bonitas. Antes de o mundo se voltar contra elas, Anna e Lea adoravam ir ao cinema juntas. Verdadeiras cinéfilas, sempre economizavam dinheiro para assistir ao último lançamento; isto é, até os cinemas serem incluídos na lista de lugares que os judeus estavam proibidos de frequentar.
Ao longo das margens estreitas do rio Laborec, galhos de bétulas haviam sido cortados e adornados com garrafas coloridas de vidro para coletar a seiva das árvores à medida que a temperatura subisse. Com a última onda de frio, as garrafas mal tinham algum líquido transparente no fundo. Mas os dias mais quentes estavam chegando e as garrafas tilintavam ao vento como sinos, balouçando enquanto aguardavam o fluxo do tônico doce que respinga das bétulas na primavera.
Em ambos os lados dos trilhos da ferrovia, fortes de neve talvez tenham sido construídos para que as crianças atirassem bolas de neve umas nas outras, em uma guerra microcósmica que imitava a da Europa, embora os dois lados daqui provavelmente comemorassem logo o armistício ao andarem de trenó juntos. Preparando-se, as meninas pegavam a neve em suas luvas e ameaçavam os rapazes aleatórios que ousavam selecioná-las como alvo. As meninas mais velhas, como Edith e Lea, podiam perambular pela pequena ponte até a cidade sãs e salvas. Virando repentinamente para a esquerda, elas fizeram um rápido desvio para a rua Štefánikova, onde moravam suas amigas Debora e Adela Gross.
A rua Štefánikova era carinhosamente chamada de rua Gross pelos habitantes da cidade porque onze das casas da rua eram ocupadas pelos
filhos e netos do rico comerciante madeireiro Chaim Gross. 9 Até Ladislav Grosman e sua família, que não eram parentes dos Gross, moravam na rua Gross.
Se Ladislav e seu irmão, Martin, estivessem tirando a neve das calçadas com pás quando as meninas chegaram, certamente teriam cumprimentado as jovens, embora Ladislav provavelmente prestaria pouca atenção à esbelta adolescente Edith. Durante o fim de semana, a família Gross não perdeu tempo para garantir que Martin e Debora estivessem formalmente noivos. Quando Debora e Adela encontraram as irmãs Friedman e Anna Herskovic, as notícias das núpcias de Debora, que estavam prestes a acontecer, teriam sido as fofocas mais recentes.
Será que aquelas jovens de dezenove anos mergulharam de cabeça no tipo de conversa mantida apenas por garotas que não se falam há vinte e quatro horas? Adicione o casamento de Debora à conversa e podemos imaginar abraços animados e mazel-tovs . “Debora seria poupada por causa da família de seu avô e também por causa do Martin”, lembra Edith. “Proteção dupla” contra a convocação. Afinal, o governo só queria garotas solteiras. Será que Lea se perguntou se deveria conseguir um marido rapidamente ou a coisa parecia tão ridícula que nem valia a pena se preocupar? Deve ter sido estranho celebrar boas notícias servidas como aperitivo para acompanhar as más.
Edith e Adela não eram amigas tão próximas quanto suas irmãs. Com dezessete anos, Edith não frequentara a mesma classe de Adela na escola, e a diferença de um ano de idade entre elas criava uma divisão que os adolescentes podem achar difícil de ultrapassar. O rosto perfeitamente oval de Adela e seus lábios carnudos destacavam-se, sob a vasta cabeleira de cachos vermelhos espiralados, das feições mais delicadas de Edith. O casamento era algo muito distante para as adolescentes, que ainda tinham que desabrochar em mulheres adultas.
Irena Fein havia trabalhado como assistente no estúdio de fotografia recentemente arianizado da cidade. Uma garota pensativa e amante dos livros, Irena também se dedicou à fotografia enquanto profissão e muito provavelmente aprimorou suas habilidades tirando fotos de suas amigas. Adela parece ter tido a confiança de uma estrela de cinema e teria sido a modelo perfeita, com suas madeixas castanho-avermelhadas e pele de marfim.
Dentro da casa da família Gross, o primo de três anos de Adela, Lou, era um elemento avulso. Irrompendo em meio à neve na direção de suas primas mais velhas, ele implorava para que as meninas brincassem com ele. Elas talvez tenham sorrido e abraçado o garoto, mas seus planos não incluíam servir de babá. Podia não ser um dia típico no mercado, mas era um dia de mercado. Elas tinham planos.
Correndo o risco de ficar com nada além de seu cavalo de balanço para brincar, Lou corria atrás das meninas mais velhas com suas curtas perninhas grossas, chamando as primas por versões mais doces de seus nomes — Adelinka! Dutzi! — e projetando o lábio inferior para fora em um beicinho dramático. Mas em vão.
— Ljako!
A babá usou a forma carinhosa da própria família para chamá-lo e levou o garotinho de volta para dentro, embrulhando-o como um marshmallow antes de devolvê-lo para fora.
NEM TODAS AS JOVENS que estavam a caminho do mercado de
Humenné naquele dia eram eslovacas. 10 Após a invasão alemã da Polônia em 1939, muitos judeus poloneses haviam enviado suas filhas para a relativa segurança da Eslováquia, onde eles ainda tinham alguns direitos e as meninas judias não enfrentavam ameaças de estupro.
Dina e Erna Dranger eram primas de primeiro grau oriundas do que outrora fora uma vila tranquila na Polônia, chamada Tylicz — que, imediatamente após a invasão, se tornara uma cidade fronteiriça estratégica ocupada pelos soldados alemães. Sua melhor amiga, Rena Kornreich, havia escapado primeiro para a Eslováquia. Os Dranger foram em seguida. Tanto Rena quanto Erna tinham irmãs mais novas que viviam e trabalhavam em Bratislava, capital da Eslováquia. Havia pelo menos uma outra refugiada polonesa em Humenné, Sara Bleich, que cresceu a poucos quilômetros de distância, na cidade de Krynica, onde até hoje você pode “banhar-se nas fontes curativas” e encontrar muitos tipos diferentes de água mineral jorrando das nascentes das montanhas. Todas deviam se conhecer.
Podemos imaginar Erna e Dina andando de braços dados pela rua Štefánikova em direção ao mercado naquele dia, conversando animadamente sobre a boda de sua amiga Rena, prestes a acontecer. Rena precisava comprar uma camisola para a noite de núpcias, o que provavelmente provocava todo tipo de rubores e risadas das jovens. Com o Pessach a poucas semanas dali, elas também estavam ansiosas para enviar frutas secas e castanhas para a casa dos pais, que elas não viam há mais de um ano.
Alguns anos mais velhas do que as irmãs Friedman, as meninas polonesas não teriam feito parte dos mesmos círculos sociais que elas. Acolhidas pela comunidade judaica de Humenné, as garotas Friedman eram de uma família local respeitada, enquanto as refugiadas polonesas trabalhavam como babás para famílias abastadas com crianças pequenas. No entanto, se passassem pela casa da família Gross e vissem as pessoas do lado de fora, as meninas polonesas acenariam ou diriam olá. As sardas e os cachos ruivos de Adela eram tão difíceis de não notar quanto o seu sorriso, e elas se reconheceriam mutuamente por ficarem sentadas no andar de cima da sinagoga, na seção feminina. Embora as irmãs Gross fossem de uma família extremamente rica, nunca trataram os outros como inferiores. Elas se dedicavam a viver em um mundo amável, um mundo moral, um mundo que ajudava os menos afortunados e necessitados.
A PALAVRA “humenné” vem da palavra eslava para “quintal”. Nunca uma cidade teve um nome tão apropriado. “Éramos uma grande família”, diz Edith sobre a cidade. “Todo mundo se conhecia. Todo mundo!”.
Outrora uma cidade importante na rota comercial entre os reinos da Polônia e da Hungria, Humenné havia sido um relevante centro cultural
para as artes, conhecida por seu artesanato, feiras e mercado. 11 Os leões esculpidos em mármore contorciam suas caudas de pedra acima do portão de ferro forjado da mansão no final da praça, embora “praça” não seja a palavra certa para a via longa e retangular que servia como centro da cidade. A rua principal não era pavimentada; rolos compressores feitos de troncos e correntes, puxados por cavalos, nivelavam a terra e o cascalho. Com árvores enfileiradas de um lado e lojas do outro, a praça era o ponto de encontro central para judeus e não judeus. Havia apenas um carro na cidade, com um motorista de táxi.
Ao longo das extremidades da praça, na frente dos imensos montes de neve, alguns vendedores e fazendeiros robustos teriam montado barracas. O vento congelaria as mãos sem luvas de um açougueiro gentio, que enrolava seus últimos gomos de linguiça. Peças de queijo estariam cobertas com morim para protegê-las do frio. Ainda não haveria vegetais verdes, apenas batatas, couve-nabo, algumas pastinagas. A polícia militar eslovaca — a Guarda Hlinka — atravessaria as colinas varridas pelo vento, como se patrulhar montes de neve fizesse parte de seu dever. Com suas botas, cintos e jaquetões abotoados até o pescoço para abrigá-los dos ventos das montanhas Tatra e dos Cárpatos, os jovens guardas da Hlinka tentavam parecer intimidadores. Mas, em seus casacos de lã pretos e calças justas, mal tinham idade suficiente para fazer a barba e não intimidavam Adela ou as outras garotas. Por que elas deveriam ter medo? Eles cresceram juntos. E os meninos sempre gostam de brincar de soldado. Ainda assim, parecia estranho que, quando as meninas dissessem olá, seus antigos colegas de escola escolhessem ignorá-las ou encará-las.
O mundo era pequeno neste lugar. Era impossível não cumprimentar os vizinhos, mas, ao longo do ano anterior, os cumprimentos se tornaram mais breves e mais desconfiados, sussurrados em vez de gritados. Então, “de repente, os não judeus pararam de falar conosco”, diz Edith. “Eles nem respondiam quando minha mãe os cumprimentava!”. Como vizinhos podiam ser tão rudes uns com os outros? Mas todo mundo estava ficando cada vez mais nervoso.
Em um dia típico, Edith e Lea teriam entrado no mercado em meio ao cenário familiar dos comerciantes que vendiam mercadorias e à melodia animada dos compradores pechinchando sem se importar com o mundo. No entanto, este foi tudo, menos um dia típico no mercado. As garotas Friedman e suas amigas talvez tenham rido despreocupadamente ao ar livre, mas estavam totalmente alheias aos olhares melancólicos, à solitária lágrima perdida e capturada pelo vento e ao velho policial que as observara com ternura por um momento, confuso por seu próprio sentimento.
Assim que o mercado vespertino estivesse aberto para os judeus, a mãe de Edith teria chegado com a mãe de Irena Fein e a cunhada da sra. Fein, a doula local, que havia feito o parto de Edith, Lea e, provavelmente, de toda a descendência dos Gross neste mundo. Elas teriam visto a sra. Becker com sua filha adolescente, Margie. Margie tinha um humor afiado e atuou em várias peças teatrais de Beth Jacob com Edith e Lea. A família de Margie também era dona da loja na esquina, perto da casa dos Friedman.
Apesar de morarem próximos, virando a esquina após a casa da família Becker e sua loja, os Friedman não eram seus amigos íntimos porque, quando jovens, Emmanuel Friedman e Kalman Becker haviam disputado o amor da mesma mulher. “Minha mãe não era apenas muito bonita”, diz Edith, “ela era a mulher mais inteligente da cidade”. Emmanuel Friedman conquistou seu coração e eles se casaram. Depois, o pai de Margie se recusou a falar com o pai de Edith, exceto “quando iam à sinagoga para o Kol Nidre. Então, eles desejavam tudo de bom um ao outro, um bom ano, um ano saudável, um ano feliz, um ano de riqueza. No restante do ano, eles não se falavam”. Edith ri.
Esta era uma comunidade real. As pessoas se desentendiam e faziam as pazes, algumas tinham princípios religiosos severos, outras eram mais tranquilas. Isso não importava. No mercado, todo mundo conhecia todo mundo. A sra. Friedman teria cumprimentado a sra. Rifka Citron — uma sionista rigorosa e dedicada —, enquanto escolhiam dentre uma lamentável seleção de batatas de final de temporada. Os Citron eram pobres e tinham uma família numerosa. Tinham filhos tanto na casa dos trinta como na adolescência. Seu elegante filho Aron e a linda filha Helena poderiam ter sido estrelas de cinema de Hollywood, especialmente se você os ouvisse cantar. A irmã de Helena, Ruzinka, havia retornado recentemente da Palestina com sua filha Aviva. Correndo atrás de sua tia, a sobrinha de quatro anos de Helena fazia brotar sorrisos tanto nos judeus quanto nos não judeus. Uma pequena cabeça loira com uma grande quantidade de cachos, Aviva tinha a pele mais clara que a maioria dos arianos.
“Hitler não saberia o que fazer com ela”, brincou a mãe de Edith.
“Alguém deve ter pulado a cerca com uma shiksa ”,* era outra piada que
os judeus costumavam fazer. 12
A sra. Friedman sorriu para Helena, que possuía um verdadeiro talento dramático e costumava se apresentar com Margie Becker, Edith e Lea nas produções teatrais anuais organizadas pela escola Beth Jacob, antes que o código judaico mudasse tudo.
Apesar de tudo, os jovens guardas da Hlinka observavam as meninas quando elas atravessavam a praça. Ao contrário de sua sobrinha, Helena tinha cabelos grossos escuros e bochechas arredondadas. Em plena efervescência de sua feminilidade, ela não precisava flertar com os meninos para torturá-los. Tudo o que ela precisava fazer era simplesmente existir. A outra beldade local, Adela Gross, era mais propensa a sorrir timidamente e a olhar para o chão quando um garoto chamasse a sua atenção.
Em dado lugar entre o carrinho que vendia pão e o açougueiro kosher, Edith pode ter visto uma de suas ex-colegas de classe, Zena Haber, com Margie Becker. Era bom falar com as amigas, mas a conversa deve ter sido interrompida quando notaram os pôsteres sendo colados nas laterais dos prédios e o pregoeiro da cidade se dirigindo para o coreto. O tambor do pregoeiro vibrou no ar, acalmando a agitação do mercado judaico. Lojistas e clientes pararam de barganhar. Haveria mais explicações sobre o comunicado veiculado às escondidas durante a tempestade de neve? Com uma multidão agora atenta à sua voz, o pregoeiro da cidade leu o último anúncio, fixado com uma camada de cola para protegê-lo do vento frio e impresso em preto e branco para que todos pudessem ver. Claro, para quem não sabia ler, ele leu em voz alta. Duas vezes.
Apupos estridentes, em choque, foram ouvidos. Quem não tinha conseguido acreditar nas notícias antes agora vinha correndo, enquanto a ária do pregoeiro da cidade ressoava pela multidão, em meio aos protetores de ouvido e toucas, anunciando mais uma vez que todas as meninas solteiras, entre 16 e 36 anos, tinham que se registrar no colégio para um exame de saúde a ser realizado no dia 20 de março e se comprometer com três meses de serviço governamental. Ah! E cada garota não deveria levar
mais do que quarenta quilos de pertences. 13
Isso seria em menos de duas semanas. 14
Vozes irromperam. Todos — o rabino, o padre, o vendedor da tabacaria, os agricultores, os clientes, as meninas solteiras — começaram a falar de uma vez, questionando o pregoeiro, a polícia, os guardas e uns aos outros.
— Que tipo de trabalho? E se elas se casarem nas próximas duas semanas? Para onde serão levadas? Como elas devem se vestir? O que devem levar?
Era uma cacofonia de especulação confusa misturada com indignação e preocupação. Essa ordem não tinha nada a ver com animais de estimação, joias ou compras. Não fazia sentido. Por que o governo quer as garotas? Lea passou o braço em volta de Edith. Margie Becker olhou para Zena Haber e deu de ombros. O que mais podiam fazer? Helena Citron parou de brincar com Aviva e olhou para sua irmã mais velha, Ruzinka. Adela e Debora Gross se deram as mãos.
A MAIOR E MAIS RICA CIDADE do leste da Eslováquia é Prešov. 15 Situa-se a apenas 70 quilômetros a oeste de onde estavam as garotas Friedman e suas amigas, surpreendidas pelo anúncio que mudaria a vida tão jovem delas. Com a maior população judaica da região desde o início dos anos 1600, Prešov abrigava a Grande Sinagoga, perto do centro da cidade. O edifício era ilusoriamente austero por fora, mas equiparava-se em tamanho à catedral gótica da cidade, a igreja católica romana de St. Michuláša.
Em meio a abetos prateados e pinheiros europeus negros, as torres da catedral perfuravam o céu acima da praça, ao lado de uma fonte que comemorava o dia em que os judeus foram autorizados a viver dentro dos muros da cidade, mais de cem anos antes. Presente de Marcus Holländer, o primeiro judeu a se instalar no interior dos portões da cidade, a Fonte de Netuno recebeu um lugar de honra e tornou-se um local de encontro popular para jovens judeus e não judeus. Não mais. Houve um tempo em que Magda Amster, de 16 anos, adorava sentar-se e ficar sonhando acordada em frente às águas da fonte, onde podia se encontrar com sua melhor amiga, Sara Shpira. Agora, o parque e até o centro da cidade estavam fechados para os judeus, e a melhor amiga de Magda havia se mudado para a Palestina.
HOJE, NO FINAL da rua Hlavná, que ainda é a via principal que leva à praça da cidade, há um cruzamento movimentado de quatro faixas e uma série complicada de semáforos. Na década de 1940, abrigava o mercado, onde cavalos puxando trenós e carroças para os vendedores passavam em meio a judeus e não judeus. Tentando encontrar algo remanescente do passado, a filha de Marta F. aponta para a rua movimentada. Agora há uma faixa de pedestres no lugar da casa onde sua mãe vivera com sua grande família.
Caminhar hoje pelas ruas da antiga parte judaica de Prešov é confuso. Uma parede em ruínas, com desenhos feitos por grafiteiros eslovacos, tem quatro fileiras de arame farpado presas a postes de metal enferrujado ao longo da borda superior. No interior da área cercada, há basicamente edifícios abandonados, com a pintura descascada e janelas presas com arames. É difícil imaginar que esse complexo um dia já tenha acolhido três sinagogas, uma escola infantil, um “campo de jogo para crianças”, um açougue kosher e uma casa de banhos. Enquanto as filhas de Marta F. e Ida Eigerman vagam pelo pátio, encontramos a casa do zelador da sinagoga e batemos à porta. Um homem robusto, de rosto gentil, atende a porta. Peter Chudý tem olhos tristes e fala muito pouco de inglês. Orna explica em eslovaco rudimentar que suas mães eram de Prešov e estiveram a bordo do primeiro transporte.
“Assim como a minha”, ele deixa escapar. Momentos depois, estamos em sua casa e vemos uma foto de Klara Lustbader, com o cabelo trançado, vestindo uniforme escolar. A imagem mostra a turma da classe que frequentava com Magda Amster.
Momentos depois, Chudý nos concedeu acesso privado à Grande Sinagoga — prova inegável de que uma comunidade judaica vibrante e devota já vivera em Prešov. O interior desse grande edifício de dois andares, com suas duas torres, é incrivelmente bonito. Sob o teto azul pastel em formato arqueado, com a borda pintada em detalhes com desenhos mouros geométricos e abstratos, um elaborado candelabro de bronze está pendurado. Estrelas ornamentadas e estrelas judaicas douradas pairam sobre as fiéis sentadas na seção das mulheres. No andar principal, os homens oravam diante de um elegante Aron Hakodesh (ou Arca Sagrada da Torá) de dois andares.
Esse é o museu judaico mais antigo do país. Os turistas que visitam a Grande Sinagoga podem encontrar exposições da Coleção Bárkány de artefatos da diáspora judaica medieval no andar superior, na seção feminina. Foi aqui que Giora Shpira posicionou-se na bimá (mesa sacral) e leu a Torá para o seu Bar Mitzvá; é aqui que a mãe de Orna Tuckman, Marta, pode ter feito suas preces, na seção feminina, ao lado de Ida Eigerman, Gizzy Glattstein, Joan Rosner, Magda Amster e cerca de 225 outras jovens prestes
a serem deportadas de Prešov. 16
Há também um livro que lista os nomes das famílias de Prešov que não sobreviveram ao Holocausto. Enquanto examina suas páginas, o rosto de Orna Tuckman é refletido no armário de vidro que se encontra abaixo da estrela judaica. “Isso torna tudo tão real”, ela diz quando encontra o nome dos avós e tenta conter as lágrimas. “Eles existiram.”
POR SER DE UMA FAMÍLIA DE CLASSE ALTA, Magda Amster não era o tipo de garota que tinha que comprar comida nos dias de mercado. Porém, o dia do mercado ainda era uma ocasião social importante, e, após a nevasca, todos estariam meio empolgados e ansiosos para sair. Incrivelmente feliz, com suas delicadas bochechas palidamente rosadas devido ao frio e seu esbelto pescoço envolto em um cachecol tricotado à mão, Magda Amster desceu a colina onde ficava sua casa para se encontrar com Klara Lustbader e algumas outras garotas que conhecera na escola.
Agora que nenhum judeu com mais de quatorze anos podia frequentar a escola, o dia do mercado era uma das poucas ocasiões em que meninos e meninas podiam se encontrar sem que os adultos vigiassem suas conversas. Giora Shpira, o irmão de quatorze anos da melhor amiga de Magda, Sara, era um rapaz estudioso que gostava da companhia de Magda porque ela o tratava como um irmão mais novo. Os óculos de aro preto de Giora circundavam seus olhos brilhantes e inteligentes, mas, agora sem a estrutura de uma educação formal, Giora e seu irmão mais novo, Schmuel, passavam grande parte do tempo estudando em casa ou fazendo trabalhos ocasionais, tentando evitar as travessuras. Os meninos sabiam o quão inteligente cada garota era e em quais estudos cada uma se destacava. Eles conheciam suas famílias e irmãos, e haviam crescido brincando de pega-pega com essas meninas, que agora rapidamente chegavam à idade adulta.
Na praça judaica ao lado da Grande Sinagoga, os neólogos (ou judeus progressistas) e os ortodoxos, além dos judeus chassídicos, que deveriam estar caminhando lentamente pelos paralelepípedos congelados para iniciar o Minchá (as orações vespertinas), conversavam sobre o rumor. Ainda não havia sido feito um anúncio formal em Prešov. E, embora as notícias viajassem rapidamente, elas não viajavam tão rápido a ponto de uma cidade saber o que estava acontecendo em outra no mesmo dia. No leste da Eslováquia, a disseminação das notícias dependia dos pregoeiros de cada cidade.
Não muito longe do centro, a parte judaica de Prešov ficava em um pequeno vale protegido do vento da montanha. Alguns membros juniores da Grande Sinagoga já haviam se dirigido à prefeitura para verificar se havia algum anúncio. Giora e Schmuel tiveram a mesma ideia e passaram pelos homens que seguiam apressados em direção à praça.
Era difícil acreditar que, apenas alguns meses antes, Giora havia feito seu Bar Mitzvá no grande edifício de dois andares e comemorado sua maioridade na casa de Magda Amster com quarenta de seus melhores amigos e colegas de escola — meninas e meninos. A família Amster sempre fora generosa, e o vínculo entre os pais de Giora e os de Magda era ainda mais afetuoso por causa da amizade íntima de suas filhas. Agora, essas mesmas garotas estavam sendo ameaçadas pelo rumor dos serviços para o governo. Giora sentia-se tão cuidadoso quanto alarmado enquanto ele e seu irmão corriam para a rua Hlavná, passando pela loja de espartilhos
de Gizzy Glattstein, 17 onde uma refugiada polonesa, Ida Eigermann, havia encontrado emprego.
Tendo fugido da Polônia em 1940, Ida havia deixado sua família na cidade de Nowy Sącz, onde existia agora um gueto. Ida se escondera primeiramente perto da fronteira com a Polônia, em Bardejov. Lá, ela morou com o tio e trabalhou em seu açougue kosher. Na rua Kláštorská, em frente ao açougue, ficava a sinagoga Bikur Cholim. Na seção feminina, no andar de cima, Ida provavelmente sentava-se perto de Rena Kornreich, que estava escondida na casa de seu próprio tio, que ficava logo virando a esquina. As duas refugiadas polonesas certamente se conheceram antes de Rena se mudar para Humenné. Ida Eigermann tinha as maçãs do rosto proeminentes e cabelos pretos lisos que ela enrolava para tirar da testa. Passava os dias tomando as medidas das mulheres judias de classe média e alta de Prešov, que buscavam espartilhos e outras roupas íntimas.
Depois da loja de espartilhos, descendo a colina em direção à catedral onde ficava a estátua de Netuno, Magda Amster talvez pensasse sobre sua ainda jovem vida nos limites da praça da cidade — onde os judeus não eram mais permitidos. Ela sentia falta de ir à escola, de ter um gato. Acima de tudo, sentia falta da irmã de Giora Shpira, Sara. Sara estava tão determinada a ir para a Palestina que entrou em greve de fome quando seu
pai se recusou a deixá-la ir. Magda não teve chutzpah* suficiente para passar fome ou desafiar os desejos de seu próprio pai e acabou deixada para trás. A irmã e o irmão mais velhos de Magda já haviam ido para a Palestina e Magda entendeu que seu pai queria que pelo menos uma filha ficasse em casa — como era a mais nova, ela compreendeu que esse era seu dever. Ainda assim, ela ansiava pela companhia de sua melhor amiga e irmãos. Em alguns anos, quando ela fosse mais velha, seu pai havia prometido que ela poderia visitar a Palestina. Mas alguns anos são como uma vida inteira para uma adolescente. O vento açoitou seu rosto e fez seus olhos lacrimejarem. A única razão para sorrir foi ver seus amigos Giora e Schmuel descendo a colina rapidamente em direção a ela, balançando uma carta. O vento tentou carregar as finas folhas de papel quando eles passaram a missiva para as mãos enluvadas de Magda, mas ela segurou firmemente a
última carta de Sara: 18
Viver é simplesmente lindo. O mundo é tão perfeito. Quieto em sua
própria felicidade, na qual se deleita e que o enriquece tanto. Eu
obtenho satisfação em meu trabalho e cada parte de mim parece cantar.
Depois de poucos dias de chuva, os céus estão alegres novamente,
azuis e penetrantes, acima das casas cinza. De repente, há plantas,
flores de todas as cores e avencas de folhagem longa aparecem em
meio às pedras. Tudo se refresca, se satisfaz, parece primavera, e eu
também estou feliz e amo estar viva!
Foi um momento de divagação, abalado pelas batidas do pregoeiro de Prešov, que anunciou as mesmas notícias que Edith e suas amigas ouviram em Humenné. Os membros da comunidade judaica de Prešov correram de volta à sinagoga para avisar os anciãos, enquanto os adolescentes se empurravam em meio à multidão para ler o aviso que estava sendo colado com pressa na prefeitura. Por toda a Eslováquia, os mesmos avisos eram colocados e anunciados simultaneamente por pregoeiros tocando sinos de latão ou tambores. A única coisa que mudava era o local para onde as meninas deveriam ir: quartel de bombeiros, escola, gabinete do prefeito, ponto de ônibus. O resto era igual:
Todas as garotas solteiras entre 16 e 36 anos devem se registrar... em
20 de março, para um exame médico, a fim de submeterem-se a três
meses de serviço governamental. Cada garota não deve levar mais de
quarenta quilos de pertences no dia do registro.
“Por que levar garotas?”, Giora Shpira se perguntou. Ele se faria essa pergunta pelo resto de sua vida.
Shiksa é um termo pejorativo usado para falar sobre mulheres não judias. (N.T.)
Palavra em ídiche que expressa “audácia”. (N.T.)
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