As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 42 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Trinta e Sete

 

Ser honesta

sobre minha

minha dor

é o que

me torna invencível.

— NAYYIRAH WAHEED, Salt

ROSE (Nº 1371) FOI LIBERADA DO BLOCO 11 no outono, mas não para retornar à fazenda em Harmęże. Em vez disso, ela foi incluída em um destacamento de trabalho formado para limpar os escombros ao redor da câmara de gás destruída. Foi um trabalho árduo, mas ela tinha sorte de estar viva e fora do Bloco Smierci .

À medida que a frente russa se aproximava, a SS transportava mais prisioneiros para o interior da Alemanha, preparando-se para uma possível evacuação. Em 28 de outubro, Bertha foi transportada para Bergen-Belsen com mais 1.038 prisioneiros. É provável que, naquele transporte, também estivesse uma jovem holandesa da qual ninguém ouvira falar ainda, Anne Frank. Bergen-Belsen “era o pior. Não tínhamos mais força, a comida era horrível e não havia trabalho”. Bertha, porém, conseguiu trabalho; ela foi alocada ao hospital novamente, “onde havia pilhas e pilhas de cadáveres”.

Poucas semanas depois, Joan (nº 1188), Ella (nº 1950) e as irmãs de Ella — Edie (nº 1949) e Lila (nº 3866) — foram transferidas para Reichenbach, na Alemanha, a cerca de duzentos quilômetros de Auschwitz, onde havia uma fábrica de armas.

De volta a Auschwitz, os rumores que corriam pelo campo eram a única maneira de os prisioneiros saberem o que estava acontecendo no mundo exterior. Essas notícias chegavam com o chá todas as manhãs. Enquanto os homens carregavam os caldeirões de ferro para os blocos, transmitiam as últimas notícias às serventes, que, por sua vez, repassavam as notícias às meninas nas filas enquanto enchiam seus copos vermelhos. “Eles nos diziam que havia pessoas ligadas à resistência lutando contra os alemães”, lembra Linda. A mensagem mais importante era: “Resista, resista. Talvez

sejamos os afortunados que sobreviverão.” 263

As coisas definitivamente estavam mudando. Sem o conhecimento dos prisioneiros, Himmler havia ordenado o fim da “matança com Zyklon B nas

câmaras de gás de Auschwitz”. 264 Os transportes também pararam, mas “a matança continuou de maneiras diferentes. Eles matavam as pessoas atirando nelas. Eles traziam algumas pessoas, você sabe, trinta, quarenta pessoas, e as matavam. Só deixavam que algumas entrassem. Mas o

massacre acabara”. 265 As meninas no Canadá continuavam trabalhando em turnos de doze horas, organizando roupas e outros itens. Então, houve um período de atividade frenética, com os SS entrando no depósito de

ordenação e “roubando roupas, joias e objetos de valor. Era uma festa”. 266 Como esquilos armazenando nozes para o inverno, os homens da SS furtavam “tudo o que podiam” para garantir seu próprio futuro.

O INVERNO DE 1944 traria outra forte frente ártica para a Europa. Enfrentar o terceiro inverno em Auschwitz seria um feito inacreditável para as meninas; sua esperança permanecia obscurecida pelas nuvens que decoravam o horizonte cinzento. “Aqui e ali, encontrávamos pedaços de jornal. Então, vimos que a guerra estava chegando ao fim.” A maior parte da Europa já estava ocupada por forças aliadas e seus aviões passavam voando o tempo todo. “Eles bombardearam muitas vezes, mas nunca o campo [em si]”, lembra Linda, “e estávamos orando por isso”.

Apesar do relatório de Rudi Vrba e Frank Wexler e dos mapas do campo que eles haviam desenhado na primavera de 1943, os únicos edifícios destruídos por bombas foram dois quartéis cheios de camisas-marrons

soldados alemães que nem da SS eram. 267 Aqueles jovens tinham chegado até a flertar com as garotas judias e a lhes oferecer um bom pão alemão, o primeiro que elas comeram em anos. Minutos depois de os soldados darem o pão para as meninas, o prédio foi destruído. Mas os blocos dos prisioneiros continuaram de pé. A sede da SS, as cercas elétricas, os trilhos, os crematórios e as câmaras de gás — tudo permaneceu intacto. Reféns dentro do campo, os prisioneiros se aterrorizavam com a chance de o fim da guerra chegar tarde demais para salvá-los.

“Eu juro para você”, um dos SS disse a Linda e às outras, “o único caminho para a liberdade de vocês passa pela chaminé”.

ENQUANTO ISSO, EDITH OUVIRA DIZER que “havia algumas meninas de Humenné trabalhando nos destacamentos de costura, e eu disse a Elsa que deveríamos tentar o trabalho de consertar roupas”. Ela tinha bons instintos. Embora não estivessem trabalhando ao ar livre, e sim limpando os blocos, sair de Birkenau foi a coisa mais inteligente que elas poderiam ter feito, uma vez que as tensões e o mau humor aumentavam entre as Kapos e a SS. Quanto pior ficava a guerra para os alemães, pior para os seus prisioneiros. Com a ajuda de uma de suas amigas, Edith e Elsa foram aceitas nos destacamentos de costura, “onde cerzíamos meias o dia todo”. Nesse destacamento, Edith encontrou duas amigas de Humenné, as irmãs Gelb, Kornelia e Etelka. Era o último trabalho que teriam em Auschwitz.

POUCO ANTES DO NATAL, Linda e as outras garotas que trabalhavam no turno da noite no Canadá alinharam-se em frente àquelas que trabalhavam no turno do dia. Diante de ambos os grupos estavam duas enfermeiras e uma mesa. “As cinco primeiras da fila tinham que ir à mesa”, onde as enfermeiras tiravam sangue do braço das meninas. Os bancos de sangue alemães estavam vazios e agora eles precisavam do sangue de seus escravos. As meninas estremeceram com a picada da agulha e observaram o sangue encher os frascos para salvar seus inimigos.

Depois de tantos anos vistas como inferiores e intocáveis, sendo tratadas como (e chamadas de) sub-humanas por seus captores, de repente seu sangue era adequado para ser misturado com sangue ariano e salvar vidas alemãs? “Eles extraíam a vida de nós, centímetro por centímetro. Eles extraíram [nosso] sangue também”. Como recompensa, cada menina recebeu pão e salame. O único pensamento positivo que ocorreu a Linda foi que a guerra realmente deveria estar no fim; por qual outra razão os alemães se inclinariam a usar sangue judeu? Elas não foram “doadoras de sangue”, Linda insiste. Nenhuma garota daria seu sangue ao exército alemão por vontade própria. Os alemães chamavam os judeus de sanguessugas; agora, “quem eram as sanguessugas?”, Linda pergunta. “Não os judeus. Eles literalmente sugaram nosso sangue no final. E foi feito à força”.

NA VÉSPERA DO NATAL, um SS entrou no bloco e anunciou: “Temos uma surpresa especial”. Ele bateu palmas e ordenou que todas fossem à sauna. Lentamente, Linda, Peggy e suas amigas se afastaram da relativa segurança de seu bloco no Canadá e foram rumo ao que acreditavam ser a morte certa. A sauna era o local onde os prisioneiros eram desinfetados e processados, mas, desde que o Crematório 5 fora destruído, havia rumores de que a sauna também havia se tornado uma câmara de gás secreta. Elas se entreolharam com medo profundo nos olhos.

“É isso”, pensou Linda. Pelo menos ela morreria com Peggy (nº 1019), que se tornara uma de suas melhores amigas.

Dentro do grande espaço vazio da área de se despir, um palco havia sido montado. “Foi muito bem-feito”. As meninas olharam ao redor do local deslumbradas e confusas. Figurões da SS estavam sentados em cadeiras na frente do teatro improvisado; dentre eles, o dr. Mengele e o dr. Kremer, a infame Irma Grese e a supervisora do campo, Maria Mandel. Silenciosamente, as meninas se acomodaram nos fundos do local. Se a SS estava lá, elas não seriam mortas com gás.

Na plataforma subiram duas meninas gregas, Susie e Lucia, que trabalhavam no Canadá. Trajando vestidos formais, elas estavam quase irreconhecíveis. Susie pigarreou. Entoou uma nota. Lucia entrou em sintonia com ela. Então, Susie começou a cantar.

Che bella cosa na jurnata ’e sole…

Suas vozes ergueram-se acima do cimento da sauna e explodiram no coração das meninas do Canadá. Linda e as outras podiam não saber italiano ou napolitano. Elas podiam não saber o que as palavras significavam. Elas podiam nem saber que era uma canção de amor. Mas quando Susie voltou os olhos para Lucia e Lucia continuou a partir do refrão, as meninas souberam que a música era para elas.

Ma n’atu sole

Cchiù bello, oi ne’.

’O sole mio…

Suas vozes erguiam-se harmoniosas tanto sobre a SS como sobre os judeus. Elas compartilhavam o mesmo ar, o mesmo sangue, a mesma música, o mesmo momento. As duas sopranos dedicavam aquela serenata às suas companheiras de prisão, sabendo muito bem o que estavam cantando e o que as palavras significavam. Quantos anos se haviam se passado desde que alguma delas pensara: Que coisa maravilhosa, um dia ensolarado . Ou sentira o ar calmo depois de uma tempestade, o ar fresco.

Elas haviam perdido irmãs, irmãos, amigos, mães, pais, tios, tias, primos, filhas e filhos. O local foi inundado de lembranças de rostos iluminados pelo sol, agora desaparecidos. Será que Ruzinka viu o rosto de querubim de Aviva na música? Será que Helena lançou um olhar furtivo para Franz Wunsch? De quem Linda tinha saudade? Ou será que ela se esquecera de como sonhar com o amor? Será que alguma delas viveria o suficiente para ver o rosto de um amante à noite?

As vozes subiam cada vez mais alto, elevando o coração e as esperanças das meninas de oitava em oitava. Seus rostos se tornaram sóis; suas vozes, o caminho das meninas para algum lugar distante. Onde canções de amor deveriam morrer, “O sole mio” sobreviveu.

NAQUELA VÉSPERA DE ANO-NOVO, a SS bebeu e comemorou, enquanto os prisioneiros de Auschwitz seguravam a respiração. Se o fim estivesse próximo, quanto tempo levaria? Seria 1945 o último ano de suas jovens vidas ou o começo de uma nova era? Para comemorar o primeiro amanhecer do ano-novo, cem mulheres polonesas e cem homens poloneses — todos presos políticos e, provavelmente, partícipes da Revolta de

Varsóvia — foram executados a tiros fora do Crematório 5. 268 As meninas que trabalhavam no turno da noite no Canadá estremeceram. As que estavam dormindo acordaram. O céu amanheceu ameaçador. Haveria mais execuções. Mais transferências. Mais perdas. Nos quatro dias entre a véspera de ano-novo e 4 de janeiro, a população do campo de mulheres em Birkenau diminuiu em mais de mil. Muitas delas provavelmente foram transferidas para outros campos, mas o registro não é claro sobre para onde foram — e ser “transferida” muitas vezes significava algo completamente diferente.

Embora os bombardeiros americanos estivessem fazendo voos regulares de reconhecimento e tirando fotografias aéreas do complexo, Auschwitz era um pesadelo que não acabava. No final da tarde de 6 de janeiro, as meninas dos destacamentos de costura e lavanderia foram chamadas para uma chamada à tarde. Com Edith e Elsa estavam, entre outras do primeiro transporte, Rena Kornreich, sua irmã Danka, suas amigas Dina, Ida Eigerman, Ruzena Gräber Knieža. Qualquer coisa fora do comum causava alarme; marchar em direção a Auschwitz I era motivo de grande preocupação. Elas foram paradas em frente ao cadafalso do carrasco.

Dois nós aguardavam suas vítimas na forca. Duas das quatro meninas que haviam contrabandeado a pólvora para os meninos do Sonderkommando — heroínas dos prisioneiros — estavam prestes a ser executadas. Edith não se lembra de quais garotas da fábrica de munições foram forçadas a subir no cadafalso, mas teriam sido Ella Gartner, Regina Safir ou Estera Wajsblum.

Os homens da SS gritaram: “Vocês têm que assistir, porque então saberão como serão punidas se fizerem algo contra nós”.

Quem desviou o olhar foi ameaçado de morte.

Quando a sentença foi lida e os nós foram ajustados ao redor da cabeça das garotas, o SS-Obersturmführer e Schutzhaftlagerführer Franz Hössler

vociferou: “Todos os traidores serão destruídos desta maneira!”. 269

“‘Vida longa a Israel!’, as meninas gritaram, e começaram a recitar em uníssono uma oração hebraica”, lembra Rena Kornreich (nº 1716). “Suas vozes foram interrompidas quando as cadeiras sob seus pés foram removidas.”

Poucas horas depois, Roza Robota e a quarta menina foram executadas

na frente das garotas do Canadá. 270 Linda, Peggy, Margie, Helena, Erna e Fela Dranger, além de todas as demais, haviam trabalhado ao lado de Roza, comido com ela, falado com ela, dormido perto dela — e agora elas choravam por ela. Talvez ela tenha tido sorte. Ser enforcada era melhor do que ser queimada. Ser enforcada era melhor do que ser morta com gás ou espancada até a morte. Ou do que morrer de fome. Ser enforcada significava que você era um indivíduo. Que as jovens que desafiaram a SS e que ajudaram a organizar o ataque às câmaras de gás causavam mais medo nos opressores do que nos prisioneiros.

“Aquelas garotas permaneceram em nossa memória o tempo todo”, diz Edith.

AS EQUIPES DE DEMOLIÇÃO começaram a desmontar os crematórios e

a explodir alguns dos blocos nos campos femininos. 271 Vigiadas pela SS, as funcionárias da secretaria receberam ordens de carregar documentos de

“‘prisioneiros’, atestados de óbito e arquivos em um automóvel”. 272

O céu noturno das longas noites de janeiro brilhava em vermelho e laranja sob as pesadas nuvens. A sessenta quilômetros de distância, Cracóvia estava queimando. “A guerra estava chegando tão perto, e os tiroteios — você podia ouvi-los.” Com a frente de batalha tão próxima, Linda e as meninas que ainda trabalhavam no Canadá temiam ser o último grupo levado para as câmaras de gás, onde seriam fuziladas por terem visto demais. Elas eram mais saudáveis do que a maioria das outras meninas do campo, estavam bem alimentadas e trabalhando em um local interno. Mas sob a mirada silenciosa das chaminés manchadas de carvão era difícil acreditar na liberdade. Ainda assim, a presença constante das forças aliadas nos céus sobre o campo revigorava a coragem dos prisioneiros “de esperar pelo amanhã. Talvez amanhã seja melhor”.

Os rumores sussurrados chegaram com os homens que traziam os caldeirões de chá pela manhã: “Preparem-se”. O campo fervilhava com os boatos de uma evacuação e dos planos da SS de incinerar o local.

“Quem ficar para trás será queimado vivo.”

“Os SS vão derramar gasolina ao redor do perímetro, ligar os fios da cerca, trancar os portões e botar fogo.”

Enquanto a SS fazia planos de usar os prisioneiros como escudos humanos e marchar com todos eles a pé em direção à Alemanha, os presos que trabalhavam junto à resistência em Auschwitz contrabandearam um último recado:

Caos, pânico entre os SS bêbados. Estamos tentando, com todos os

meios políticos que temos, tornar a partida o mais tolerável possível e

proteger do extermínio os inválidos que supostamente ficarão para

trás.

A direção das marchas da morte estava sendo delineada pelas autoridades, mas, com as ordens mudando constantemente, apenas uma coisa era certa. “Esse tipo de evacuação pressupunha o extermínio de pelo

menos metade dos presos”. 273

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