As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 44 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Trinta e Nove

 

 

UM ROMANCE TERMINARIA AQUI. Culminaria com todo mundo seguro e feliz, viajando para casa para se reunir com os entes queridos. A ficção pode fazer isso. A não ficção, não. E não é assim que as guerras terminam.

Havia jovens vulneráveis, sozinhas em um mundo de soldados do sexo masculino, que tiveram de lutar muito e por muito tempo, que queriam ser recompensados. Nenhuma mulher estava verdadeiramente segura.

Quando ouvimos os soldados russos contarem a história, notamos

que, para eles, o sexo com as prisioneiras era um ato fraternal de amor — uma celebração da vida. Sexo com mulheres alemãs era vingança. Mas fossem as mulheres prisioneiras ou Kapos , alemãs ou judias, polonesas ou eslovacas, francesas, holandesas ou italianas — tudo era estupro. Depois que Orli Reichert (nº 502), o “Anjo de Auschwitz”, saiu de Malchow, todas as mulheres que estavam com ela foram estupradas pelo Exército Vermelho libertador.

“Então, agora estávamos livres, mas não estávamos”, explica Edith. “Não havia trens, automóveis ou pontes. Tudo havia sido bombardeado e destruído. Eles eram soldados armados e nós não tínhamos nada. Nós estávamos com muito medo. Só tínhamos um número no braço para mostrar, mas eles estavam interessados nas partes baixas do nosso corpo, não nas de cima.”

O grupo de garotas de Edith encontrou no chão uma bandeira com uma suástica e rasgou-a com as próprias mãos. Depois de arrancarem a suástica, fizeram lenços vermelhos para si, de forma que os russos as respeitassem por serem comunistas. Naquela noite, onze soldados russos chegaram, carregando baldes de comida, ovos e leite que haviam cozinhado para elas. Tudo muito jovial e gentil no início, mas depois se tornou estranho. Os homens sentaram e observaram as meninas comendo. “Quando terminamos de comer, não sabíamos o que fazer e estávamos cansadas, então dissemos: ‘queremos ir para a cama.’”

“Nós também”, disse um dos soldados com uma risada, e então deu um agarrão — um gesto que ele achou ter sido amável — em uma das meninas.

Ela lhe deu um tapa. “Não!”.

“Mas nós as alimentamos.”

“Nós nunca estivemos com um homem. Somos apenas meninas.”

“Mas nós as alimentamos.”

Essa era a lógica deles. Os soldados tentaram manipular as meninas para que concordassem em ter relações sexuais com eles, mas elas se mantiveram firmes.

Finalmente, um oficial se levantou. “Saiam!”, ele pediu. “Deixem-nas em paz!”.

As meninas deram um suspiro de alívio quando os soldados desapareceram na noite. Então, o oficial se virou, olhou para elas e sorriu. “Então, quem quer ficar comigo?”.

“Você acabou de expulsar os outros.”

“Sim, mas tenho mais direitos porque sou oficial”, ele explicou.

“Ainda somos meninas, mesmo que você seja oficial”, argumentou a mais velha. “Você tem que sair também!”.

De má vontade, ele partiu com os outros. As meninas trancaram a porta do celeiro e se aconchegaram o mais perto possível umas das outras, como filhotes de cachorro, na palha. De manhã, elas contaram aos trabalhadores poloneses o que havia acontecido.

“Eles vão voltar. Se não conseguiram nada na primeira noite, eles voltarão, até que consigam na segunda ou na terceira”, alertaram os poloneses. “Vocês não podem mais ficar aqui”. Eles decidiram levar as meninas para uma estação de trem na fronteira com a Polônia.

Os poloneses trouxeram dois cavalos de tração do pasto, amarraram-nos a uma carroça e ajudaram as meninas a subir. Sentada na parte de trás da carroça, Edith olhou para o céu azul, vazio de bombardeiros. A primavera irrompia ao seu redor. Todas as cores do mundo eram mais vibrantes, mais intensas. O verde era mais verdejante. O rosa, mais rosado. As flores tinham os aromas mais doces. A Terra era um milagre. Cada cheiro, cada som, cada lufada de ar era uma experiência extraordinária. Depois de três anos sem experimentar um único prazer, Edith vivenciou todas as sensações, até que as células de seu corpo acordaram e cantaram.

Em um pomar de cerejeiras, os poloneses desamarraram os cavalos e lhes deram água. As meninas subiram nas árvores. Edith apoiou-se em um galho, estendeu a mão sobre a cabeça e colheu os primeiros frutos da liberdade. Seus dedos, lábios e dentes ficaram manchados de um vinho-escuro. O suco escorreu pelo queixo. Ela cuspiu os caroços nas outras de brincadeira. Houve risadas. Elas riram. Pararam. Entreolharam-se e então riram ainda mais. Revivida, Edith juntou cerejas em seus braços, bolsos e boca, até não poder mais carregar nenhuma.

Um oficial russo passava com seu cavalo e olhou para as meninas sentadas na parte de trás da carroça. “Judias?”, ele perguntou.

Elas assentiram.

“Esconda-as à noite para evitar que sejam estupradas ou mortas”, ele alertou aos poloneses.

Então, foi isso que eles fizeram. Todas as noites eles buscaram um celeiro ao longo da estrada, onde as meninas podiam se esconder no feno e dormir até que a viagem à estação de trem terminasse. Mas agora havia outro problema. Sem documentos ou dinheiro, como elas poderiam chegar em casa?

Era uma pergunta feita por milhares de refugiados em todo o continente. Outra pergunta era: devemos ir para casa? Para muitos sobreviventes judeus, essa resposta era não.

“Eu não tinha família mais”, Joan ainda chora, anos depois. “Apenas um primo de segundo grau. Você simplesmente não se acostuma com isso.” Ela tinha também uma tia, irmã de sua mãe, e um endereço no Bronx, em Nova York. Joan escreveu para ela e foi uma das primeiras meninas a emigrar para os Estados Unidos.

As meninas polonesas decidiram não voltar para casa. Elas sabiam que não havia mais ninguém lá. Rena Kornreich e sua irmã, Danka, foram para a Holanda; suas amigas Erna e Fela ficaram na Suécia; Dina Dranger foi para a França. Sara Bleich acabou emigrando para a Argentina. Margie Becker tinha uma tia nos Estados Unidos, que lhe enviou cem dólares assim que recebeu notícias da sobrinha. Margie comprou um vestido decente e seguiu para o leste, para a Eslováquia. No trem para casa ela conheceu Solomon Rosenberg, seu futuro marido, que também retornava dos campos.

PARA AQUELES QUE VOLTAVAM PARA CASA, as viagens assumiram proporções épicas, dignas da odisseia de Ulisses, com um obstáculo a ser enfrentado após o outro. As pessoas pegavam caronas em trens, imploravam por um lugar em alguma carroça que passasse por elas e caminhavam por quilômetros. Edith teve que atravessar uma ponte de madeira caindo aos pedaços sobre as águas escuras e tortuosas do rio Váh — cortesia da neve que derretia das montanhas na primavera.

Algumas garotas, como Kato (nº 1843), uma das amigas de Lenka Hertzka em Prešov, tinham um cartão da Cruz Vermelha que lhes garantia passagem livre nos trens. Outras, como Edith, não tinham nada.

Linda soluça ao se lembrar do momento em que a comissão internacional chegou ao campo de pessoas deslocadas, onde ela e suas amigas estavam em quarentena, e anunciou que agora eram consideradas “cidadãs do mundo”. Elas receberam documentos que lhes permitiriam ir para onde quisessem. Tudo o que elas realmente queriam era voltar para a Eslováquia. “Eu já sabia que meu irmão gêmeo, minha irmã, meus outros irmãos, enfim, que todo mundo havia sido exterminado. Mas eu queria ir para casa.”

Uma vez por semana, um trem partia de Praga para Bratislava. Para pegá-lo, Linda e suas amigas caminharam de Berlim até Praga, uma viagem de 318 quilômetros. Quando chegaram a Praga, o trem estava tão cheio de refugiados que não havia mais espaço lá dentro, então Linda, Peggy e algumas outras meninas escalaram o trem e viajaram no teto.

“Por que não viajar no teto do trem? Eu era jovem.” E estava viva.

Do alto do trem, o mundo se descortinou. A liberdade era um horizonte de montanhas verdes distantes, um céu de azul profundo. A desolada paisagem cinza-bege de Auschwitz desapareceu no brilho deste horizonte purificado pelas tempestades. Nenhuma cerca de arame farpado ou torre de vigia despontava na distância. A liberdade era o vento em seus cabelos, o doce ar da primavera e as árvores floridas. O sol aquecia seus ossos cansados, esquentava seus músculos endurecidos pelo trabalho, a fome e o medo. A tensão esvaía-se no teto metálico do trem. Ao passarem por cidades e vilas, os refugiados acenavam pelas janelas e de cima do trem. Os moradores aplaudiam e acenavam de volta. Assim como haviam feito mais de três anos antes, as meninas começaram a cantar. Desta vez, porém, não cantaram o hino nacional eslovaco.

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