As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Doze
Nunca devemos dizer que todos são iguais. Não, eu acho que sempre há
uma exceção. Em toda miséria há alguma bondade. Tem que haver. De todo
inferno, alguém tem que voltar .
— o MARTHA MANGEL , n 1741
ÀS QUATRO DA MANHÃ, batidas secas levaram os sonhos das garotas para longe e as Kapos entraram no bloco, golpeando qualquer uma que ainda estivesse dormindo no chão. “Zählappell! Zählappell! Chamada! Chamada! Raus! Raus! ”. Foi uma corrida caótica do lado de fora da Lagerstrasse . Lá, elas foram obrigadas a formar fileiras de cinco, em um ritual que estava prestes a definir sua única forma de existência: contagens. Levaria horas. De pé na neblina, antes do amanhecer, Edith sentiu os dentes baterem de medo, o corpo estremecer de exaustão. Finalmente, ao alvorecer, cinquenta das meninas nas filas da frente foram instruídas a marchar para dentro de um prédio. O resto formou uma fila do lado de fora e esperou.
Lá dentro, o processamento começou. Primeiro, elas foram instruídas a tirar a roupa. Toda a roupa. Até suas peças íntimas e seus sutiãs foram depositados em uma pilha. Então, elas iam a uma mesa, onde suas joias eram coletadas.
Uma das guardas disse: “Tirem seus brincos, relógios, pingentes e anéis.
Vocês não precisarão mais deles”. 100
As meninas os colocavam sobre a mesa. “Ainda achamos isso divertido”,
101 lembra Laura Ritterova. “E daí? Ganharemos algum dinheiro e compraremos novas joias. O mundo nos pertencia. Dissemos umas às outras: ‘E daí? Podemos trabalhar.’”
A diversão logo cessou quando algumas das meninas, cujas orelhas tinham sido furadas quando pequenas, não conseguiram tirar seus brincos. Edith era uma delas. Uma das Kapos se aproximou, agarrou as orelhas de Edith e arrancou os brincos, rasgando-lhe a carne. Sangue escorreu por seu pescoço. Lea se lançou para proteger a irmã, mas que poder tem uma adolescente nua contra adultas armadas? Mal houve tempo para confortar sua irmãzinha antes que elas ouvissem uma garota gritando.
“E então o pesadelo começou”, diz Edith.
Para jovens virgens criadas em lares judeus conservadores ou ortodoxos, ficar nua na frente de outras mulheres era chocante por si só. E agora na frente de homens — pela segunda vez naquela semana para muitas delas? Nunca ocorrera tal coisa. Ficaria ainda pior, todavia. O processamento típico das prisioneiras feito pelas guardas de Ravensbrück incluía mais do que uma revista. As primeiras duzentas meninas agora eram submetidas a exames ginecológicos grosseiros, conduzidos com a sensibilidade de um açougueiro estripando uma galinha. Bertha Berkowitz, de dezesseis anos, foi a número 48. Quando ela fala desse momento, é com um encolher de ombros triste — nada mais é dito. Outras dentre as primeiras evitam mencionar o abuso.
“Eu nunca falei sobre isso porque ficava muito envergonhada”, confidencia Joan Rosner (nº 1188), mais de cinquenta anos depois. “Quando fomos examinadas internamente e a SS colocava a mão em nossas partes íntimas, era como se nos estuprassem.” Ela faz uma pausa. “Sangrávamos, e eles fizeram isso às cem daquela manhã e às cem que vieram antes, e depois pararam porque estavam procurando joias. Como não encontraram nenhuma joia, pararam.” Como a maioria das mulheres, Joan manteve a experiência em segredo. “Eu me sentia muito envergonhada. Agora que sou uma senhora de idade, eu me dou conta: por que devo me envergonhar? Foram eles que fizeram. Estávamos sangrando e eles haviam arrancado de nós os anéis que agora tinham nos dedos.”
Os relatos a respeito do episódio variam. Havia um médico enfiando as mãos nas vaginas das meninas para verificar se elas escondiam objetos de valor ou isso ficou a cargo das guardas de Ravensbrück? As duas coisas, talvez. O sangue escorria pelas coxas das meninas violadas. Os exames ginecológicos foram interrompidos depois que o suposto médico riu: “Por que se preocupar? São todas virgens!”.
Gargalhadas irromperam entre as guardas de Ravensbrück. As meninas defloradas agora mancavam na fila, enquanto se dirigiam para a próxima fase do processamento.
Elas estavam todas chorando. “Nós choramos com elas”, diz Irena Fein.
Como se o fato de serem maltratadas por guardas do sexo feminino não fosse horror suficiente, as meninas agora eram forçadas a ficar nuas na frente dos prisioneiros homens que foram designados para atuar como barbeiros. Os detentos poloneses também estavam horrorizados, mas, acostumados a serem espancados até a submissão, fizeram o que lhes fora ordenado: primeiro cortar os cabelos, depois os pelos das axilas, os pubianos e os das pernas. Forçadas a subir em banquinhos para que os homens pudessem depilá-las com mais facilidade, as meninas eram alvos fáceis dos repugnantes olhares de cobiça dos guardas da SS, que riam lascivamente das jovens vulneráveis. Enquanto isso, os prisioneiros
encaravam o púbis de cada garota. 102
Quando Adela Gross entrou na sala, as cabeças se viraram. Seus lindos cabelos ruivos cacheados desciam espiralados por suas bochechas. Margie Becker se lembra: “Uma amiga minha, uma irmã, na verdade, também tinha cabelos ruivos muito bonitos, e eles procuraram por lâminas, facas ou coisas assim no cabelo dela”. Quando o homem da SS enfiou um pente grosso nas madeixas de Adela, ela manteve o queixo erguido, apesar da humilhação. Quando terminou, ele dirigiu um olhar brutal para os ruivos pelos pubianos da garota.
Ele ordenou que ela subisse em um banquinho, de modo que sua virilha ficasse ao nível dos olhos do homem que iria depilá-la. Em instantes, Adela foi desprovida de sua força e de sua beleza única. Careca, parecia-se com todas as outras adolescentes ao seu redor. Não restara nada de seu cabelo vermelho marcante. Apenas as sardas permaneciam.
As meninas agora foram empurradas para fora do prédio de processamento e forçadas a esperar nuas na neve, que batia em seus joelhos, para a desinfecção. Tremendo à mercê dos ventos de março, elas abraçaram seus seios nus. A pele irritada pela depilação tornara-se avermelhada. Sem roupas íntimas ou absorventes, não havia como esconder os fluxos menstruais. “Todas as meninas pareciam ter menstruado”, diz Edith. “Havia sangue na neve sob nossos pés.” As que estavam na frente pisotearam a neve rosada com os pés descalços, enquanto a fila avançava lentamente para um imenso tonel de desinfetante.
As meninas perguntaram por que tinham de ser desinfetadas.
“Vocês, judias, trouxeram piolhos para o campo”, respondeu um homem da SS.
“Nós nunca tivemos piolhos!”, Irena Fein se indigna. “Como poderíamos? Tínhamos acabado de chegar.” Mas tentar argumentar seria inútil. Considerar que judeus eram “sujos” era o único estereótipo que a SS levava em conta.
Quanto tempo elas ficaram na neve? Tempo demais. O calor de seus pés descalços derreteu a neve em que pisavam, que então se transformou em gelo. Quando receberam ordens de entrar no tonel de água gelada, iam cinquenta por vez, sangrando ou não. O desinfetante queimava sua carne recém-raspada. Depois que as cem primeiras foram banhadas, a água já estava imunda. E nunca foi trocada.
Ao saírem do tonel, as meninas corriam na neve até o prédio derradeiro, onde uniformes russos haviam sido empilhados para serem usados. A lã tinha endurecido por causa das fezes e do sangue secos, e havia buracos de bala em muitos deles. Não havia roupas íntimas para proteger a pele delicada das meninas. As insígnias russas dos soldados mortos ainda eram visíveis nas roupas. Linda recebeu uma blusa masculina que “era tão grande que se arrastava no chão” e um par de calças de equitação que subiam até sua cabeça. Não havia “nada para ajustá-las”. Apenas as últimas trinta meninas receberam roupas diferentes. Edith, Lea, Helena e Adela receberam vestidos listrados. Os vestidos não eram quentes e não havia leggings , tampouco meias de lã, para cobrir as pernas ou roupas íntimas.
Uma pilha de calçados as esperava agora. Algumas prisioneiras se referem a eles como tamancos, mas é um termo educado para os “badalos”: pedaços de madeira com tiras de couro pregadas nas laterais. Imagine sandálias, mas sem formato anatômico nem fivelas de ajuste, muito menos pares correspondentes. Os sapatos haviam sido feitos por prisioneiros, que provavelmente não tinham ideia de que seriam usados por mulheres jovens e, por isso, não pensaram em fazer algo que acomodasse pés menores e mais delicados. Sendo assim, apenas as meninas do início da fila tiveram sorte. Elas vasculharam a pilha até encontrar pares que se ajustassem. As do final ficaram com o que havia sobrado.
Finalmente, retângulos brancos de tecido com números e estrelas amarelas foram entregues a cada garota para serem costurados em seus uniformes mais tarde. A primeira tira de tecido branco tinha os números 1-0-0-0 impressos. A garota seguinte recebeu 1-0-0-1, a próxima, 1-0-0-2 — e assim por diante. Um escrevente anotava os números de registro ao lado dos nomes das meninas. Testemunhas acreditam que as irmãs Frida e Helena Benovicova, de Modra nad Cirochou, cidade não muito distante de Humenné, estavam entre as primeiras garotas. Peggy, que havia caminhado duas horas para chegar ao ponto de ônibus em Stropkov, recebeu o número o 1-0-1-9 e Bertha Berkowitz, de 16 anos, 1-0-4-8. O primeiro trabalho delas foi costurar os números na frente dos uniformes para que fotos pudessem ser tiradas.
Finalmente registradas e vestidas para o “trabalho”, cada garota recebeu uma tigela vermelha e uma colher de sopa, sendo em seguida dispensada para o exterior frio, onde lhes disseram para ficar em fila e aguardar. Filas de cinco. Cinco em fila. Separadas da rotina desordenada da vida civil, as meninas estavam rapidamente se tornando manequins uniformizados.
Ao saírem do último prédio, as meninas que estavam na frente da fila agora podiam ver suas amigas ainda do lado de fora dos edifícios de processamento, vestidas com suas melhores roupas, botas, casacos, luvas, chapéus. Elas avisaram aos gritos:
“Joguem fora suas joias!” 103
Aquelas cujos cabelos ainda não haviam sido cortados não reconheceram as pobres miseráveis de cabelos raspados, em uniformes de soldados mortos e calçando sandálias de dedo abertas, que, na neve, gritavam para elas. Ninguém se reconhecia mais. Nomes foram lançados ao ar, até que as meninas que ainda aguardavam o processamento compreenderam que logo elas seriam também pobres miseráveis de cabelos raspados.
Rena Kornreich tirou o relógio e pisoteou-o na lama, prometendo a si mesma não permitir que os nazistas confiscassem qualquer outra coisa que ela possuía.
A maior parte das meninas vindas de Humenné estava no final da fila: Sara Bleich, 1-9-6-6, ficou separada por apenas três meninas de Lea e Edith: 1-9-6-9 e 1-9-7-0. Helena Citron recebeu os números 1-9-7-1. Quando as últimas trinta garotas saíram da Lagerstrasse , já anoitecia. E elas ainda tinham que ser contadas. Seria a única vez em que sua formação seguiria a ordem numérica. E também a última em que todas estavam vivas.
Quando a noite caiu, elas foram direcionadas para o Bloco 10, no final do campo feminino. As meninas tropeçaram umas nas outras para entrar no relativo calor do edifício e sair do frio. Enquanto se empurravam para entrar, a decência humana já começava a se dissolver. A educação era coisa do passado, ou reservada apenas para amigos e familiares. “Tenho bons cotovelos”, diz Linda Reich (nº 1173) repetidas vezes em seu testemunho.
Dentro do bloco, longe dos guardas e dos cães, as meninas se entreolharam e gritaram o nome de suas amigas:
— Adela! Magda! Lea! Edith! Gizzy!
Cabeças raspadas. Uniformes masculinos. Ninguém mais tinha a aparência de antes. “Não nos reconhecemos”, diz Helena Citron. “E, então, em vez de chorar, começamos a rir. Nós rimos histericamente, porque não havia mais nada que pudéssemos fazer. Nós rimos porque as lágrimas não eram suficientes.”
HORAS MAIS TARDE, após a humilhação do processamento, Edith voltou furtivamente ao Bloco 5 para recuperar os absorventes que havia escondido nos tijolos do grande forno no centro do bloco. Alguém havia roubado seus absorventes. “Não que eu fosse precisar. Não menstruei mais até o fim da guerra.”
Isso aconteceu com todas as meninas. É preciso que haja uma certa quantidade de gordura corporal para a mulher menstruar, e, com uma dieta de menos de mil calorias por dia, não resta gordura para sustentar o corpo feminino. Adicione à equação uma dose considerável de chá com sedativos todas as manhãs, administrada para tornar as meninas mais influenciáveis e confusas. “Você se sente como um zumbi. Eles nos davam brometo, para que o cérebro não funcionasse. Não precisávamos pensar”, diz Edie (nº 1949). O brometo também ajudava a conter o desejo sexual e a inibir a menstruação.
Determinadas mulheres já na casa dos vinte anos continuaram menstruando por alguns meses, mas a única maneira de conseguir um absorvente era ir ao hospital e mostrar ao médico que você estava sangrando. Rena Kornreich evitou essa humilhação usando pedaços de jornal que encontrou no campo. Eles não eram higiênicos, mas permitiram que ela mantivesse seu segredo. Roubadas daquele rito de passagem no qual se tornariam mulheres — a menstruação —, algumas garotas mais jovens começaram a questionar suas própria identidade. O que elas eram agora se nem mulheres eram mais? Ainda eram seres humanos? “Do ponto de vista da higiene, foi bom não ter [nossas menstruações]”, admite Edith. “Não havia condições de higiene em Auschwitz, e, sem a possibilidade de manter-se limpa e de se lavar todos os dias, ninguém quer menstruar. Mas sentíamos que não éramos mulheres sem a menstruação.” Claro, a última coisa que a SS queria era que elas se sentissem mulheres. Provavelmente foi por isso que as vestiram com uniformes de prisioneiros de guerra russos falecidos.
O PRÉDIO DE TIJOLOS DE DOIS ANDARES do Bloco 10 dava para um pátio com um muro também de tijolos ao final. Do outro lado do pátio ficava o Bloco 11, conhecido pelos prisioneiros como Bloco Smierci — o Bloco da Morte. Era aqui que presos políticos, prisioneiros de guerra, combatentes da resistência e espiões eram mantidos em confinamento solitário e torturados; eles eram levados para serem fuzilados no pátio. Não era fácil testemunhar essas execuções. Rena (nº 1716) dormia ao lado das janelas cerradas que davam para aquele lado do bloco. Ela costumava espiar pelas aberturas à noite, e viu prisioneiros de guerra russos serem executados. Um dos detentos homens informou-a mais tarde de que as meninas estavam usando os uniformes desses prisioneiros russos executados.
Na frente do andar superior do Bloco 10 havia janelas que as meninas usavam para conversar com os prisioneiros poloneses no segundo andar do
bloco masculino do outro lado da parede. 104 Chamando pelas recém-chegadas, ansiosos por notícias do mundo exterior e pelas vozes mais suaves das mulheres, os não judeus poloneses ajudaram prontamente as mulheres do campo. Saudosos de um idioma compartilhado e de relações humanas, os homens poloneses — alguns dos quais estavam no campo desde 1940 — jogavam às meninas polonesas porções de pão, cordas para amarrarem as calças largas e cartas de amor. As meninas eslovacas, porém, não recebiam o mesmo tipo de atenção.
ÀS QUATRO DA MANHÃ do segundo dia, serviram chá às meninas. Algumas sobreviventes dizem que era café. O sabor era tão ruim que ninguém podia ter certeza. Esse desjejum líquido era a única “refeição” que as meninas recebiam pela manhã. Pouco tempo depois, Edith e Lea descobriram que podiam usar o chá para escovar os dentes. Não havia como cuspir o líquido “muito, muito valioso”, apesar de seu gosto horrível. “A fome dói demais, muito mesmo, [mas] a falta de água é ainda pior. A sede era insuportável”, diz Edith. Apesar disso, ela e Lea “usavam um pouco para lavar as mãos e o rosto”. Depois de alguns minutos para o chá e o banheiro, as meninas se organizavam em fileiras de cinco. Em pé. Em pé. Sem se mexerem. O ritual logo estaria consolidado em seus cérebros.
A luz do alvorecer banhava os telhados, as cercas de arame farpado e as torres de vigia ao redor, enquanto a SS e as Kapos faziam a contagem. Após a chamada, as 996 meninas receberam ordens de limpar o quartel e algumas das mulheres mais velhas foram escolhidas para cargos de supervisão. Por serem judias, elas ainda eram subalternas, mas as mulheres alçadas àquelas primeiras posições de poder imediatamente subiram na hierarquia: de escória, tornaram-se algo um pouco mais importante. Imbuídas da tarefa de manter a ordem, elas acordavam o bloco de manhã, serviam a comida e decidiam quem ficava para a limpeza, quem saía para trabalhar e quem ganhava mais pão. A primeira guardiã judia do Bloco 10 foi uma jovem chamada Elza. Ninguém parece se lembrar de seu sobrenome. Ela era rigorosa e, em poucos dias, tornou-se conhecida por bater nas garotas que se atrasavam para a chamada ou que ficavam em seu caminho. Quando lhe disseram que deveria arrumar uma assistente, ela escolheu a irmã. Podemos culpá-la? Quem mais ela escolheria?
HOJE, O BLOCO 10 não é aberto ao público, mas uma permissão especial de visita é concedida a sobreviventes, filhos de sobreviventes e pesquisadores, que entram por sua porta lateral com passos reverentes. O primeiro andar é de cimento e tem um corredor com quartos de cada lado, em cujos beliches as meninas dormiam. Na parte dianteira do bloco, em um lado do corredor há algumas privadas imundas quebradas e, no outro, um aposento com um longo cano para o asseio, embora não houvesse sabão para as prisioneiras. No centro do prédio há uma chaminé, que era usada para os fogões a lenha nos dois andares.
Subindo pelo patamar vemos uma escada larga. No topo da escada, há dois quartos pequenos, onde as supervisoras dos blocos e suas assistentes dormiam. Além disso, não há mais nada, apenas uma parede dividindo o espaço aberto. Em 1942, estava cheio de beliches com colchões de palha finos e cobertores de lã ainda mais finos.
As meninas escolheram dormir perto de suas amigas e formaram pequenos grupos de apoio. Quase todo mundo conhecia ou reconhecia garotas de sua respectiva província. À noite, de seus beliches, algumas meninas conversavam sobre comida, sua casa e seus pais. Outras não falavam de nada. A maioria simplesmente chorava até dormir.
A recém-casada Ruzena Gräber Knieža (nº 1649) estava chorando amargamente em seu beliche quando Annie Binder, uma das Kapos , se aproximou e lhe disse em tcheco: “Não chore. Minha criança, você não
deve chorar. Você deve ser forte. Você deve tentar sobreviver.” 105 As presas de Ravensbrück têm uma reputação terrível, mas Ruzena afirma: “Dentre elas havia mulheres maravilhosas.” Annie Binder era uma delas. Além dela, outras duas Kapos — uma prostituta, Emma, e uma comunista chamada Orli Reichert, que mais tarde seria conhecida como “o anjo de Auschwitz” — aparecem em vários testemunhos como responsáveis por salvar muitas e muitas vidas.
Como as novas Kapos eram detentas também, entendiam a vida carcerária sob o regime nazista e algumas tentavam auxiliar as meninas. “Muitas Kapos alemãs nos ajudaram por meio de uma campanha indireta de sussurros [e avisos]: se não trabalhássemos, não seríamos mantidas.” Ninguém entendia o que estava em jogo ou o que significava não ser
“mantida.” 106 Algumas acharam que isso significava que voltariam para casa mais cedo se não trabalhassem. Nesse ponto, elas ainda não entendiam que o verdadeiro objetivo de Auschwitz era destruí-las. Apesar das condições e do tratamento terríveis, elas ainda acreditavam que seriam mandadas para casa em alguns meses.
O rosto de Edith assume uma expressão solene. “E, então, as meninas começaram a morrer.”
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