As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 10 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Cinco

 

 

A letra Tet:

9: representa beneficência escondida, invertida.

OBCECADOS PELO MISTICISMO E PELO OCULTISMO, os líderes do Terceiro Reich não se furtavam de usar quaisquer práticas para garantir a vitória. Himmler era um ávido seguidor da astrologia, Goebbels era fascinado por Nostradamus e compartilhava sua interpretação das previsões

com Hitler, que se mostrava “muito interessado”. 41 Na década de 1940, o Reich incluía astrólogos “científicos”, especialistas em para-normalidade e praticamente uma divisão inteira dedicada a Nostradamus, que, ao interpretar as profecias, previa a queda da França e de toda a Europa. “Cuidado! Não mostre Nostradamus a ninguém”, alertava Goebbels a seus confidentes. É interessante notar que Nostradamus usa o número 999: “Em um julgamento, 999 podem condenar um homem, mas ele será inocentado se apenas um interceder por ele.” Mas não haveria ninguém para interceder por nossas 999 meninas.

O uso da mitologia pagã por parte de Hitler para manipular as massas está bem documentado, e quanto mais os “cosmobiólogos” apoiavam a

ideologia nazista, 42 mais convencidos os líderes ficavam de que “quem entrasse em contato com ela começava a fazer mágica”. Himmler considerava a astrologia “cientificamente sustentada e completamente

confiável”, 43 portanto, não é de se admirar que ele tivesse seu próprio astrólogo pessoal, Wilhelm Wulff, de quem se tornou tão dependente que, em 1944, consultava as estrelas para traçar decisões e estratégias militares. Nos últimos dias do Reich, o chefe da inteligência estrangeira da SS recorria a Wulff “para descobrir o que Himmler — na época, a segunda

pessoa mais poderosa do Reich — poderia fazer a seguir”. 44

A prática da numerologia remonta aos gregos antigos e ao matemático

Pitágoras, e até mesmo à Babilônia e seu Sistema Caldeu. 45 Os astrólogos costumam usar a numerologia e, dado o amálgama de Nostradamus, mitologia pagã e astrologia usado pelos nazistas, devemos nos perguntar se alguma ou todas essas práticas influenciaram a escolha do número 999, porque o primeiro transporte de mulheres para Auschwitz foi pessoalmente encomendado pelo próprio Himmler.

Em 3 de março de 1942, Himmler visitou Ravensbrück a fim de discutir a nova diretiva adotada na Conferência de Wannsee — a criação de campos de extermínio para judeus — com Max Koegel, comandante de Ravensbrück. Por que envolver Koegel nessa conversa? Ravensbrück era o único campo de concentração alemão para mulheres e, embora não tenhamos provas concretas de que a ordem era atingir primeiro as mulheres jovens, Himmler já sabia, decidira sozinho, que os primeiros transportes da Eslováquia seriam compostos por mulheres jovens. O problema é que Ravensbrück já tinha cerca de 5 mil prisioneiras e não era grande o suficiente para abrigar mais. Um novo campo para mulheres precisava ser criado. Em Auschwitz.

Aprovado o plano de Himmler, o comandante de Auschwitz, Rudolph Höss, ordenou que os blocos de 5 a 10 fossem esvaziados de prisioneiros do sexo masculino. Esses blocos haviam sido usados para abrigar mais de 20 mil prisioneiros de guerra russos, mas, em março de 1942, a maioria morrera ou havia sido executada. Os novecentos prisioneiros de guerra russos que ainda sobreviviam foram transferidos para os antigos estábulos da cavalaria polonesa, a cinco quilômetros de distância. Faltava agora construir uma cerca divisória entre os campos de homens e mulheres e encontrar uma supervisora.

Johanna Langefeld, uma mulher da SS de 42 anos, era a escolha perfeita.

46 Trabalhando em Ravensbrück desde 1939, Langefeld tinha um relacionamento profissional de longa data com Himmler, e ele sabia que podia confiar nas habilidades organizacionais dela para administrar o novo campo de mulheres. Ela acreditava que a recuperação dos presos incluía abuso físico, do tipo que hoje poderia ser classificado como tortura, mas era uma forte defensora das prisioneiras que trabalhavam sob seu comando — que dizer, quando gostava delas. As novas políticas implementadas pela Conferência de Wannsee e por Himmler não eram segredo entre os membros da SS; como superintendente do novo campo de mulheres na Polônia, Langefeld tinha que estar ciente de que as prisioneiras judias sob seu controle seriam usadas para trabalho escravo até que não estivessem mais aptas a trabalhar, o que significava que, nesse ponto, seriam mortas. Embora essa política fosse contrária às suas crenças religiosas, ela não era uma amante de judeus, e a transferência para Auschwitz foi uma promoção bem-vinda. Frequentemente em desacordo com Max Koegel, o comandante de Ravensbrück, ela finalmente seria responsável por um campo inteiro de mulheres e poderia provar a Himmler o seu valor. Pelo menos, era o que ela esperava.

Parece haver apenas uma fotografia conhecida de Langefeld. Ela está caminhando atrás de Himmler e de três outros oficiais da Gestapo, perto da cerca de arame farpado do que provavelmente é Ravensbrück. Himmler caminha à frente dos outros, carregando as luvas nas mãos. Há neve no chão e, atrás dos gigantes da Gestapo, Langefeld parece muito pequena. Ela usa uma boina apertada; seus cabelos grisalhos estão penteados para trás e presos em um coque. Seu sobretudo é liso, sem listras visíveis, e está abotoado até a gola. Sua papada de meia-idade abaixo do queixo termina em uma boca severa e um rosto austero, que lhe dão a aparência de uma matrona azeda e envelhecida.

Auschwitz estava prestes a envelhecê-la ainda mais. Faltando apenas três semanas para o campo receber o primeiro transporte oficial de judeus, ainda havia muito trabalho a fazer. Himmler ordenou que ela selecionasse mulheres da SS, bem como 999 prisioneiras de Ravensbrück, para trabalhar

como 47 Kapos .

Por que não levar mil mulheres? O número 999 era uma coincidência? Himmler fazia alguma coisa por acidente?

Tradicionalmente, acredita-se que a numerologia e a astrologia sejam “ferramentas de sabedoria” que ajudam a estabelecer a ordem em um

universo caótico. 48 Cada número possui significado e poder específicos, mas, quando ele é triplicado, a intenção desse número deve aumentar três vezes seu poder. Portanto, a criação de uma tríade numérica pode servir a um propósito intencional.

No sistema pitagórico, os números representam ciclos. 49 O número 1 é o número de iniciação. O número 9 é o ponto de culminância. De completude. Colocar três 9 juntos indica um ponto-final decisivo, enquanto os números 10 e 1.000, que seguem 9 e 999, respectivamente, representam um novo

ponto de partida — um milênio. Se o 9 é um número das sombras,* um numerólogo poderia examinar a intenção por trás do seu uso. No caso do Holocausto, três 9 indicariam um desejo claro de se terminar algo. O 9 também tem sua própria matemática mística, porque números que são divisíveis por 9 sempre se reduzem a ou culminam em seu número de origem: 9.

9 + 9 + 9 = 27; 2 + 7 = 9.

Usando datas, numerólogos pitagóricos dividem os dígitos que indicam o mês, o dia e o ano em dígitos únicos e, em seguida, fazem a soma para chegar a um número único. Usando esse sistema, a data 26 de março de 1942 também se iguala igual a nove: 2 + 6 + 0 + 3 + 1 + 9 + 4 + 2 = 27 = 2 + 7 = 9.

Além disso, de acordo com o sistema pitagórico, toda letra tem um valor numérico. Heinrich dá como resultado 9, assim como Luitpold e Himmler. Sua data de nascimento, 7 de outubro de 1900, também resulta em 9. Será que Himmler estava usando a sequência de números de seu nome e data de nascimento para determinar o início oficial da Solução Final, na tentativa de ganhar algum tipo de vantagem contra os judeus? Na mente de Himmler, o poder do uso dos números e os mapas astrológicos para esses eventos garantiriam o sucesso da Solução Final. E a questão judaica seria decidida. Completamente.

É difícil saber no que Himmler pode ter acreditado, e não há provas concretas em seus diários, mas o fato é que o número de meninas que chegou a Auschwitz no primeiro transporte não foi equivalente aos 1.500 “indivíduos” originalmente documentados no memorando que Konka assinara em 13 de março de 1942. Em vez disso, foram 999 — exatamente o mesmo número que Himmler havia encomendado dez dias antes em Ravensbrück.

Agora devemos examinar as circunstâncias astrológicas por trás da data em que as garotas chegaram. Um devoto dedicado da astrologia, Himmler requisitava mapas astrológicos desde 1928. Seu próprio mapa é considerado

astrologicamente “extraordinário”, 50 diz Molly McCord, astróloga e numeróloga. Eu não havia dito a ela a identidade de quem eu havia pedido que ela fizesse um mapa, então, inicialmente, ela não fazia ideia de que a data de nascimento era de um dos oficiais mais notórios da SS de Hitler. “Aspectos raros revelam um indivíduo de mente afiada, que fará grandes coisas no mundo, exercerá grande poder e será um grande líder”, explica ela. Suponho que, para os nazistas, ele tenha feito grandes coisas. À medida que ascendia nos escalões da SS, o desejo implacável de Himmler pelo poder fazia dele um adversário político cada vez mais implacável. Ele se destacava por sua habilidade em jogos mentais e de manipulação, sempre procurando o movimento do xeque-mate enquanto planejava nos bastidores uma forma de melhorar sua posição e de usar o poder a seu favor.

Os quatro elementos que regem um mapa astral são ar (intelecto), fogo (energia), terra (solidez) e água (emoção). “Este mapa carece de emoção”, continua McCord. “Com escorpião a zero grau, não há compaixão, e há

pouca empatia pela humanidade.” 51

Obviamente, é possível que as implicações do número 999 tenham servido às particularidades das crenças pessoais de Himmler. Isso não é tão absurdo quanto parece. Goebbels era conhecido por interpretar

Nostradamus de modo a favorecer seus próprios objetivos. 52 Se há algum significado numerológico por trás do 999, esse tipo de raciocínio frio é indicativo do jogo que Himmler fazia no tabuleiro de xadrez da Solução Final. As mulheres eram seus peões. Se convocar as 999 Kapos de Ravensbrück foi seu primeiro passo, as 999 garotas judias seriam o segundo? E será que ele fez os movimentos propositalmente nas datas em que lhe disseram que as estrelas estavam mais bem alinhadas com o mapa

para o sucesso final? 53

De acordo com o astrólogo histórico Robert Wilkinson, a data e a hora do transporte incluíam vários fatores que indicavam tratar-se de uma “bifurcação na estrada do destino”. “Na astrologia”, ele me explica, “a série septil representa pontos em que decisões que devem ser tomadas determinam o futuro ‘destino’ do que quer que esteja acontecendo, um

‘destino irrevogável e absoluto’”. 54 No entanto, Himmler manipulou os sinais ou pediu que fossem interpretados, pois é improvável que ele tenha escolhido as datas de 20 e 26 de março ao acaso, e é ainda mais improvável que ele tenha decidido escolher apenas 999 prisioneiras de Ravensbrück em vez de mil. Ele era muito controlador para fazer isso e, como outros membros do escalão superior do Reich, ele provavelmente desejava a vantagem que acreditava que a astrologia poderia lhe dar.

Na noite em que o trem deixou a estação em Poprad, os planetas estavam alinhados em um trígono complicado envolvendo a data da visita de Himmler a Ravensbrück e a data em que Göring “pediu a completa

aniquilação da população judaica da Europa, em julho de 1941”. 55 Foi a demanda de Göring que pôs em marcha a Conferência de Wannsee para formular a Solução Final, e a sua rápida implementação, algumas semanas mais tarde, resultaria na deportação de nossas meninas.

Datas e horários são elementos cruciais em mapas astrais. Sabemos que o trem deixou a estação às 20h20, algo que, Wilkinson observa, alinha-se com a visita original de Himmler a Ravensbrück. Na manhã seguinte, quando ambos os transportes de mulheres — Kapos e nossas meninas judias — chegaram a Auschwitz, Marte estava em Gêmeos, o que correspondia ao eclipse lunar de 3 de março de 1942 — a data em que Himmler estivera em Ravensbrück para selecionar as 999 Kapos que trabalhariam em Auschwitz. Esse eclipse lunar teve o que é conhecido como uma Quadratura em T mutável, aspecto astrológico considerado bastante poderoso, que cria um “conflito focado”. Conduzida por Marte, essa Quadratura em T mutável criou uma Grande Cruz mutável, que constitui uma “fratura severa”. Essa atração em “direções contrárias pode ser muito destrutiva”. E seria, de fato.

Finalmente, há uma correlação com os anúncios dos pregoeiros das cidades algumas semanas antes. Em 20 de março, exatamente às oito horas da manhã, quando as garotas tiveram que se registrar para o serviço e fazer seu exame médico, o Sol estava no signo lunar de Himmler, que é Áries. Primeiro signo do zodíaco, Áries — o deus da guerra e da agressão — é conhecido por poder e iniciação. Isso significa que aquele era um excelente momento para Himmler iniciar um plano de ação. Havia uma guerra em curso, e, com as estrelas ao seu lado, Himmler atacou — ele atacou jovens judias.

A designação “número das sombras” sugere que este possui conotações negativas, conforme explica a astróloga e numeróloga Molly McCord.

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