As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 31 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Vinte e Seis

 

OITO SEMANAS APÓS seu discurso sobre valores cristãos em agosto, o

presidente Tiso decidiu diminuir a deportação de judeus. 209 Evidentemente, mais de dois terços da população judaica da Eslováquia já estavam mortos ou trabalhavam como escravos em vários campos eslovacos ou poloneses, e o governo eslovaco devia milhões ao Terceiro Reich pelas “realocações”. Uma quantia que, a Assembleia Eslovaca percebeu, “interfere[ia]

profundamente nas finanças do Estado” 210 e no desenvolvimento econômico futuro do país.

O fim das deportações trouxe alívio para aqueles que não haviam sido removidos de suas casas e para os viviam sob a convicção de que as isenções presidenciais os protegiam. A salvo em sua fazenda, a família Hartmann continuou a se corresponder com Lenka Hertzka. Um de seus primeiros cartões-postais está escrito a lápis e tem um selo roxo alemão do Führer . No carimbo postal, em tinta vermelha, consta: Auschwitz Oberschlesien (Alta Silésia), a região da Polônia onde o campo se localiza.

28 de novembro de 1942

Meus queridos,

Antes de mais nada, quero lhes enviar as felicitações de aniversário,

mesmo que seja um pouco cedo demais, mas os bons desejos tornam-

se ainda melhores com o tempo. Desejo-lhes também boa saúde e

alegria, e que o bom Senhor lhes dê forças para continuar trabalhando.

Aqui, o inverno está chegando e acho que em breve será o mesmo com

vocês. À noite, viajo em meus pensamentos para a cidade e me lembro

dos velhos lugares familiares.

Lenka

A escrita está tão desbotada que a saudação é quase indecifrável, mas o cartão-postal é endereçado ao tio de Ivan Rauchwerger, Adolf. Ivan não sabe como Lenka Hertzka conheceu seu tio.

TRABALHAR NO CANADÁ não isentava um prisioneiro de ficar doente ou morrer, mas oferecia maneiras de esconder amigos doentes. Às vezes, bastava um pequeno descanso para alguém se recuperar. Ida Eigerman (nº 1930) estava trabalhando em um dos destacamentos dos lenços quando contraiu tifo.

O truque para passar pelos guardas quando você estava muito doente era posicionar-se entre dois outros prisioneiros que o ajudassem a andar. Dessa maneira, os prisioneiros conseguiam passar incólumes pelos olhos da SS, que buscava cumprir sua cota de envio de detentos para as câmaras de gás priorizando os enfermos e convalescentes, para substituí-los por novos trabalhadores vindos de guetos judeus na França, Bélgica, Grécia, Holanda…

Tendo conseguido chegar ao bloco de organização, Ida foi escondida sob as pilhas de roupas para poder dormir o dia inteiro e recuperar as forças. Durante o dia, as meninas ficaram de olho nela. Deram-lhe água e um pouco de comida que haviam encontrado em um bolso antes de voltar ao trabalho. No final do dia, quando a SS não estava olhando, elas a ajudaram a sair da pilha de roupas e a passar pela seleção ao entrar em Birkenau. Se elas não protegessem umas às outras, quem protegeria? Era a única maneira de sobreviver. Foi isso que as mulheres fizeram umas pelas outras. Isso é o que as mulheres faziam pelos homens também.

No outono de 1942, Rudolf Vrba era um dos que traziam a bagagem dos transportes para o bloco de organização, onde conheceu muitas das jovens mulheres com lenços brancos e vermelhos. A epidemia de tifo infectava os campos masculino e feminino, e Rudi se tornou uma de suas vítimas. Ele foi atacado agressivamente pela doença enquanto carregava malas para os destacamentos de ordenação. Por três manhãs seguidas, seus amigos o ampararam entre si enquanto passavam pelos guardas da SS para trabalhar. Depois de passarem pela SS, eles o levavam para onde as meninas eslovacas trabalhavam. As meninas o escondiam, exatamente como haviam escondido Ida, em enormes pilhas de roupas.

Febril e desidratado, ele não sabia muito o que estava acontecendo, mas, ao longo do dia, as meninas se revezaram para lhe oferecer sorrateiramente um pouco de água com limão e açúcar. Elas até lhe davam algum tipo de pílula. Sobreviver ao tifo era como passar incólume pela roleta-russa, pois a doença levava quem ela quisesse, sem muita razão ou motivo. Alguns dias depois, ele foi levado à enfermaria e um remédio de verdade lhe foi administrado para reduzir a febre. Mas foi o sustento espiritual das meninas eslovacas que levantaram “o pouco que restava de minha força de vontade”.

COMEÇOU COM UMA DOR DE CABEÇA e uma rigidez tão dolorosa dos músculos que Edith mal conseguia se mexer. Ela sentia náuseas, além de calafrios em um momento e febre ardente no outro. Se a SS examinasse sua língua, veria os pontinhos reveladores e a teriam mandado para o gás. Ela não conseguia comer e caiu em um estupor. Tudo doía, até os seus olhos. “A lembrança da dor é muito nítida, muito viva. Sinto-a quando falo sobre isso. Eu me vejo. Eu vejo Lea me puxando para o trabalho, dizendo: ‘Fique em pé.’” Edith não conseguia ingerir nada além de líquidos, então Lea dava a ela o seu chá e a sua sopa e comia o pão de Edith em troca. “Eu devia estar com uma febre de 41 graus e ia trabalhar levantando tijolos no canteiro de obras.”

O corpo de Edith lutou contra a infecção por várias semanas; então, ela acordou uma manhã e se sentiu viva novamente. O estupor da febre havia passado e ela ansiava por comida sólida. Olhando para as vigas de madeira acima do beliche, ela se perguntou em que mês estavam e sentiu formar-se em seus lábios um leve sorriso de alívio. Virando-se para a irmã, ela sussurrou a boa notícia: “Lea, estou com fome!”.

Com os olhos vidrados e pálida, Lea olhou para a irmã mais nova. “Mas eu não.”

AGORA OS PAPÉIS FORAM REVERTIDOS. Era Edith quem se certificava de que Lea comesse porções extras de chá e sopa, enquanto ela comia o pão de Lea.

O tifo não é passado diretamente de uma pessoa para outra; é transmitido por piolhos. Existem algumas formas diferentes da doença, no entanto. E, em um lugar como Birkenau, teria sido fácil infectar-se com os três tipos, porque os vetores das três variantes estavam presentes: piolhos, ratos e ácaros.

Nas duas primeiras semanas depois que Lea adoeceu, Edith amparou a irmã quando saíam para o trabalho. Ainda fraca e se recuperando de sua própria doença, Edith tinha que puxar Lea das prateleiras de madeira que serviam de cama, ajudá-la a passar pela chamada e, em seguida, guiá-la em meio à SS até os destacamentos de limpeza dos charcos. O trabalho com o qual Helena havia sido ameaçada era uma realidade regular para Edith e Lea, e isso causara um grande prejuízo para as garotas Friedman. Quando elas pegavam papel e garrafas na água fria, suas mãos e pés se contraíam na umidade. Quando chovia e a temperatura caía, puxavam a sua bainha para acima dos joelhos, mas a água era tão profunda que os vestidos ainda assim ficavam molhados. Quando elas saíam da água, flocos de gelo se formavam em suas roupas. E o inverno estava se aproximando.

Ocasionalmente, era possível escapar do trabalho esgueirando-se para os beliches superiores e se mantendo escondida sob os cobertores finos durante o dia. Se você tivesse sorte, as supervisoras do bloco e do quarto permitiriam que você ficasse lá sem impedimentos. Porém, se você tivesse azar e a SS vasculhasse os blocos, você poderia ser pega e enviada para o Bloco 25 — ou diretamente para o gás, como ocorreu com Hinda Kahan.

Lea estava doente há duas semanas, mas, em vez de recuperar suas forças, ela estava ficando cada vez mais fraca e menos reativa aos pedidos de Edith para se levantar e ir trabalhar. Então, em uma manhã, ela não conseguia nem levantar a cabeça. A força para lutar havia se esvaído dela. Quem já esteve assim doente conhece o sentimento. Incapaz de se mover, seu corpo tão pesado quanto uma rocha, você precisa repousar. Você não pode fazer nada. Mas o descanso era um luxo não disponível para os judeus.

Assustada com a recusa da irmã em se levantar, Edith implorou: “Lea, você precisa se levantar. Vamos.”

Lea mal podia menear a cabeça de um lado para o outro para responder que não.

“Talvez eu pudesse ter feito mais”, Edith ainda se culpa, mas ela era uma adolescente, sozinha em um mundo hostil que não fora projetado para permitir que as pessoas sobrevivessem. Ela não tinha ideia do que mais poderia fazer além de dar seu chá a Lea. Sua sopa. Suas orações. Na sua mente juvenil, Lea tinha que se recuperar. Lea era a mais forte. Edith era a garota magricela que preocupava a mãe.

Helena e algumas outras meninas dos lenços brancos moravam no Bloco 13 com Edith e Lea. Uma delas deve ter percebido o quão difícil estava sendo para Edith e conseguiu um lenço branco para ela, assim ela poderia juntar-se ao destacamento de organização. Como Edith já tinha bons sapatos, não precisava se preocupar com os tamancos barulhentos chamando a atenção indesejada da Kapo Rita.

Edith precisava desse trabalho mais leve para recuperar suas próprias forças. Ela também precisava conseguir comida extra para a irmã e, talvez, mais um lenço branco. Se ela conseguisse incluir Lea no destacamento de organização, talvez ela recuperasse a saúde. Mas o tempo estava acabando. Bastava um guarda da SS encontrar Lea escondida no bloco e tudo estaria acabado. Cheia de planos para resgatar a irmã, Edith marchou com Helena na manhã seguinte para Auschwitz I, onde, juntas, as duas organizariam casacos. Bem, pelo menos uma delas organizou casacos.

Edith ouvira os boatos de que uma das garotas estava tendo um caso com um homem da SS. Agora, de pé ante uma mesa comprida, esvaziando bolsos com comida e outros pertences, ela percebeu Helena olhando para o belo e jovem oficial da SS que supervisionava seu trabalho. Os olhares entre os dois eram elétricos. Quando Helena desapareceu da mesa de organização e esgueirou-se nas montanhas de roupas ao redor, todas se concentraram no trabalho e fingiram não notar. Pouco tempo depois, o SS Wunsch foi até uma prateleira alta para se juntar a ela. Edith ficou chocada, porque a família Citron era estritamente ortodoxa. Mas quem era ela para julgar? “Ela amava esse sujeito”, diz Edith. “Eles estavam apaixonados.”

Há uma fotografia de Helena, em seu uniforme listrado da prisão, sorrindo largamente para a câmera. Seus grossos cabelos escuros chegam à altura dos ombros. Seu rosto está cheio, vívido. Não há fome. Atrás dela, o cenário de Auschwitz. Deve ser a única imagem de uma prisioneira realmente sorrindo em Auschwitz-Birkenau. Ela parece não apenas feliz, mas apaixonada.

NO FINAL DO DIA, Edith havia escondido alguns pedaços de comida nos bolsos, mas Lea precisava de mais do que comida. Ela precisava de remédios. Porém, mesmo a dra. Manci Schwalbova estava tendo problemas para obtê-los para prisioneiros judeus doentes.

Edith voltou ao bloco cheia de ideias sobre como ajudar a irmã. Talvez pudesse trocar sua comida por um limão ou água limpa para ela beber. Talvez pudesse fazê-la erguer a cabeça e comer um pouco de pão. Mas, quando ela chegou, não havia ninguém no beliche onde Lea deveria estar. Em pânico, ela correu para a supervisora do bloco, Gizzy, e sua irmã.

“Onde está a minha irmã? Onde está a Lea?”.

Eles a tinham levado ao Bloco 25.

“Como eles puderam fazer isso? Por que vocês não os impediram?”, ela gritou.

Era o dilema de Auschwitz. As supervisoras de blocos e quartos até permitiam que as meninas se escondessem para escapar do trabalho, mas se as Kapos ou a SS inspecionasse os blocos, elas eram obrigadas a enviar as meninas que se escondiam para o Bloco 25 — uma passagem só de ida para a morte. Depois que uma garota era registrada no Bloco 25, ela não conseguia escapar. Para entrar ou sair do bloco, era necessário passar pelos seguranças da SS e, depois, pela supervisora do bloco. Então, como Edith entrou no Bloco 25 para ver sua irmã não apenas uma vez, mas duas?

“Tínhamos nossos truques”, diz Edith. “Mas Cilka com certeza não me ajudou!”.

Cilka era a guardiã do Bloco 25. Ela tinha apenas 15 ou 16 anos e era cruel. Era uma daquelas mencionadas pela dra. Manci Schwalbova que haviam deixado o poder subir à cabeça. Cilka não era o tipo de pessoa que faria um favor a alguém.

“Talvez alguém do Leichenkommando tenha me dado uma braçadeira”, reflete Edith. Nesse caso, essa pessoa provavelmente teria sido Margie Becker, mas após todos esses anos é difícil lembrar de todos os pequenos favores que as meninas faziam umas pelas outras. “Talvez porque eu usasse um uniforme listrado e tivesse um lenço branco, eu parecesse importante o suficiente para entrar.” A verdade é que ela não se lembra.

O Bloco 13 ficava a apenas um bloco do Bloco 25; Edith não teve que andar muito para chegar à entrada do pátio. Sob o manto da noite, ela entrou no Bloco 25, que era uma geladeira de morte, sombria e claustrofóbica. Corpos jaziam por toda a parte e garotas gemiam no escuro. Edith sussurrou o nome da irmã e ouviu uma resposta. Ela encontrou Lea deitada no chão imundo. “Eu segurei a mão dela. Beijei sua face. Eu sabia que ela podia me ouvir.” Os olhos de Lea estavam úmidos quando Edith passou a mão em sua fronte. “Eu estava sentada com ela, olhando seu lindo rosto, e senti que deveria ser eu no lugar dela. Eu tinha ficado doente e sarado. Por que ela não?”. Na escuridão do bloco sem iluminação, os ratos passavam correndo. O ar cheirava a morte e disenteria. Estava muito frio. Edith tentou dar um pouco de comida para Lea, que não conseguiu comer. Aninhando-se ao lado da irmã, Edith tentou aquecê-la com o corpo. Ela ficou muito tempo ali, depois esgueirou-se de volta pelas sombras para o seu bloco. Foi uma noite de sonhos vazios e sono agitado.

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