As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 41 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Trinta e Seis

 

ERA 30 DE SETEMBRO DE 1944. Os homens eslovacos que trabalhavam no Canadá, responsáveis pelo esvaziamento dos vagões, reconheceram suas próprias famílias chegando no primeiro transporte eslovaco em quase dois anos. Amigos. Ex-vizinhos. A irmã de Lenka Hertzka, Lilly, a nova bebê, a sobrinha de dois anos que Lenka não conhecia, e sua mãe — que escrevera para ela com tanta frequência, de forma tão encorajadora, enviando latas de sardinhas e beijos exequíveis — agora estavam na fila para o gás. Por

alguma razão, Milan não estava com sua mãe. 262

Foi uma tortura que destruiu as almas das meninas eslovacas do Canadá. Os poucos familiares que ainda lhes restavam na Terra — a única esperança que elas tinham de poder voltar a um lar — estavam agora caminhando para a morte certa, do outro lado da cerca. Irena Fein viu sua irmã com seus filhos. Será que Irena de repente desejou poder resgatar sua irmã, como Helena fizera? Ela teria ousado? Irena assistiu à sua família desaparecer no prédio de tijolos do qual não havia retorno.

Levava apenas um momento para ver alguém que você conhecia — ou para ser reconhecida. Divididas entre querer se esconder e desejar ver as pessoas que conheciam e das quais se lembravam, elas se revezavam na observação das filas. Mas esses reencontros eram difíceis, unilaterais.

Na fila que seguia para a câmara de gás, o pai e a mãe de Klary Atles viram Margie Becker separando roupas no Canadá.

“Você parece bem, Margie!”. O rabino Atles disse. Ela estava vestindo jeans azul e uma bela camisa. Seus cabelos haviam crescido e quase alcançavam seus ombros. “Você viu nossa filha Klary?”.

Era uma pergunta natural. Eles sabiam que Margie estava no primeiro transporte com ela. Margie congelou, incapaz de responder.

“Oh, ela não está mais viva?”, o pai de Klary disse, tristemente.

“O crematório estava a apenas dois passos de distância.” Margie olhou para eles e pensou: Em alguns minutos, vocês também não estarão mais vivos.

NO INÍCIO DA MANHÃ de 7 de outubro de 1944, quando as meninas do turno da noite formavam a fila em frente às meninas do turno do dia para serem contadas e trocarem de lugar — trabalho por repouso —, uma enorme explosão destruiu a austeridade do Canadá. Fumaça e fuligem encheram o ar. Pela primeira vez, as cinzas não eram restos de seres humanos, mas de concreto. Uma das câmaras de gás havia sido explodida.

Como era difícil não celebrar pelos “meninos do Sonderkommando ”. As meninas não podiam nem sorrir, embora seus corações festejassem alegremente enquanto as sirenes tocavam.

Em questão de minutos, centenas de SS saltaram dos caminhões e dos jipes e invadiram o Canadá. Os arredores do Canadá. A frente do Canadá. As costas dos garotos que fugiam moviam-se entre os troncos das árvores, tão visíveis quanto a cauda branca de um cervo. As balas da SS deixavam suas marcas.

Alguns dos meninos correram para o bloco de ordenação, onde rapidamente se enterraram sob as pilhas de roupas. Vários SS mantiveram as meninas sob a mira de armas enquanto caçavam os culpados. Em todos os lugares havia gritos. Urros. Latidos. Rosnados. As meninas estavam acostumadas a pessoas morrendo em silêncio. Os meninos morriam fazendo barulho. Cada tiro ricocheteava no coração compassivo das jovens. O ruído das vidas dos “meninos” do Sonderkommando sendo apagadas fraturou aquela manhã. Havia apenas um conforto: era melhor levar um tiro do que morrer no gás.

Durante uma busca minuciosa pelos barracões de ordenação, os homens da SS esfaquearam montes de roupas com suas baionetas. SS Franz Wunsch encontrou um garoto escondido nos casacos. SS Otto Graf encontrou outro. Eles arrastaram os meninos para fora e os jogaram no chão. Depois, eles os espancaram até que não houvesse mais respiração em seus corpos machucados e quebrados.

“Sabíamos que agora seria o nosso fim”, diz Linda. “Absolutamente o fim.” Elas tinham visto demais. Era apenas uma questão de tempo até que elas, como os meninos do Sonderkommando , fossem executadas para guardar os segredos de Auschwitz na silenciosa fuligem de seu solo cinza. Não havia como elas saírem vivas.

Na manhã seguinte, os caldeirões de chá chegaram com um aviso sussurrado do campo: quatro jovens mulheres foram apanhadas. Uma delas, sua colega de trabalho, Roza Robota. Nenhuma delas havia entregado um único nome, apesar das horas de tortura. A rede que formava a resistência estava a salvo.

As meninas trocaram a notícia entre si, tomando seu chá morno e escondendo os sorrisos atrás das tigelas vermelhas. A história das meninas que haviam contrabandeado a pólvora para o Sonderkommando encheu todas as prisioneiras de orgulho, coragem e rebeldia. Talvez todas elas morressem, mas pelo menos haviam feito alguma coisa. Aqueles rapazes e moças tinham desferido um golpe por todos, e todos levaram isso a sério. Talvez elas sobrevivessem, de alguma forma. Talvez o mundo soubesse da verdade algum dia.

Infelizmente, embora a resistência tenha agido, apenas uma câmara de gás fora danificada a ponto de não poder ser consertada. A máquina de matar seguiria sem maiores percalços na direção da Solução Final.

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