As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 24 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Dezenove

 

Um soldado novato entrou no quartel e ficou muito triste e

com muito medo; sentado e tremendo, ele viu que os

outros soldados estavam cantando e de bom humor.

Ele olhou para eles e perguntou: — Vocês não estão com medo?

— Claro que estamos com medo.

— Então, como vocês podem estar de bom humor e cantando?

— Porque já estamos acostumados a ter medo .

— ILYA EHRENBURG , conforme relatado por Edith

AGORA FAMILIARIZADAS COM A VIDA nessas “condições

malucas”, 163 as prisioneiras começaram a sentir que estar no campo era de certa forma um modo de vida. Elas até passaram a se referir a seus blocos como “casa”. “Sabíamos quando ir ao banheiro sem que alguém estivesse lá e quando o banheiro estava limpo. Sabíamos como não fazer mais do que podíamos, não mais do que precisávamos; sabíamos mostrar a eles que estávamos trabalhando, mas sabíamos como economizar nossas energias”, diz Edith. “Estávamos acostumadas a ter medo e sabíamos como viver com medo.” As recém-chegadas, não.

Fazia tanto calor naquele verão que a cabeça raspada das mulheres sofriam com as bolhas de queimaduras solares. Seus pés estavam inchados, cheios de bolhas e com cortes causados pelos tamancos abertos. A poeira avolumara-se pela falta de chuva. O suor criava faixas marrons nas dobras de suas peles enquanto elas escavavam a terra, derrubavam casas e tiravam os piolhos sempre presentes em seus corpos.

Quando os transportes com as famílias começaram a chegar, não poderia haver mais dúvidas de que algo estava acontecendo, porque nenhuma criança aparecia no campo. Mulheres e crianças desapareciam pouco depois de chegarem.

A rede de notícias dos prisioneiros era rápida e eficiente. Graças a essa rede informal, Helena Citron (nº 1971) soube que seu irmão estava no campo. “Espere na janela do seu bloco depois do trabalho e ele virá até a janela do outro lado da cerca”, disse-lhe um dos prisioneiros sem retardar o passo de sua caminhada. Após a chamada da noite, Helena esperou junto à janela até ver o irmão aparecer na janela do andar de cima, do outro lado da cerca. Mesmo à distância, ela percebeu que ele ficou chocado com sua aparência. Será que ela realmente envelhecera tanto em tão pouco tempo?

“Por que você não ficou escondido?”, ela perguntou a ele.

— Pensei que poderia vir resgatá-la.

Ele disse a ela que ele e seus pais haviam sido deportados para Lublin. A irmã mais velha, Ruzinka, obtivera documentos arianos e morava com o marido, que era engenheiro em Bratislava. A troca de notícias viajava no ar, acima do arame farpado.

Na manhã de 25 de julho, Edith e Lea saíram para a chamada e viram Aron, irmão de Helena, pendurado nos fios elétricos que cercavam o campo. Ele havia sido baleado ao tentar escapar. As irmãs olharam nervosas ao redor, preocupadas com o que Helena pudesse fazer se visse o corpo do pobre irmão. Quando o alvorecer cinzento desapareceu sob a luz do dia, o cadáver brilhou no emaranhado de fios pretos. “Eles deixaram o corpo no arame até a chamada terminar”, lembra Edith. Era uma mensagem que nenhum judeu pôde ignorar.

Com medo de que as notícias fizessem Helena suicidar-se, as irmãs Friedman decidiram guardar o segredo para si. No entanto, quando as meninas saíram para trabalhar, os eslovacos do campo masculino gritaram

para Helena: “Seu irmão não está mais vivo!”. 164

Transportes cheios de famílias deportadas para Lublin começaram a chegar. Helena e as outras meninas escutavam desesperadamente os relatos dos prisioneiros que transportavam bagagens e pertences para o depósito de organização. Os homens contaram às meninas que algumas tinham os pais vindo para o campo. E quanto àqueles que não viessem? O medo as paralisou.

Houve “um grito alto que quase abriu os céus. Meus pais e irmãos mais novos estavam a caminho do crematório”, diz Helena. Mas, pelo menos, “em mais uma ou duas horas eles não sofreriam mais. Às vezes, nessas situações, a morte é a melhor coisa”. Tudo que ela tinha agora era sua irmã Ruzinka e sua sobrinha Aviva, escondidas em algum lugar da Eslováquia.

EM 17 DE JULHO DE 1942, o SS-Reichsführer Heinrich Himmler foi aos seus campos de extermínio para inspecionar as instalações e verificar relatórios sobre os planos de expansão. Aos 42 anos, ele tinha bochechas de esquilo e seu queixo estava começando a amolecer e a cair. Óculos redondos, do tipo pincenê, equilibravam-se em seu nariz acima do bigode fino. Ele parecia mais um estudante arrogante, do tipo que costumava tirar só notas 10 e ser espancado por valentões depois da aula, do que um assassino em massa. Agora ele era o valentão, percorrendo os países recém-ocupados pela Alemanha e seus campos de concentração — que já eram muitos. Auschwitz e Birkenau eram os maiores.

Pouco antes de sua chegada, Johanna Langefeld disse a cinco de suas prisioneiras de Ravensbrück favoritas que pediria a Himmler a anulação de suas sentenças. Havia um motivo para essa solicitação. Langefeld também planejava pedir a Himmler que a transferisse para Ravensbrück. Mas, sem ela para proteger suas preferidas, ela sabia que as condições dessas mulheres piorariam, especialmente com uma nova superintendente, que naturalmente teria suas próprias favoritas. Foi uma ação que mais tarde salvaria sua vida. Emmy Thoma, Tilly Lehmann, Luise Mauer e Bertel Teege sairiam em defesa de Langefeld durante os julgamentos de Ravensbrück, em 1947.

No mesmo dia em que Himmler visitou o campo, dois transportes da Holanda chegaram, trazendo 1.303 homens e meninos e 697 mulheres e

meninas. 165 Em uma reunião com outros quatro oficiais, Höss deu uma visão geral do complexo até aquele momento e então passou a palavra ao major-general da SS Hans Kammler, que usou modelos e plantas para ilustrar os planos dos novos prédios, depósitos de resíduos e câmaras de gás. Depois, levaram Himmler a um passeio pelas zonas agrícolas, cozinhas, enfermarias — onde supostamente eram atendidas as vítimas da epidemia de tifo — e a estação de trem, onde os judeus da Holanda já haviam desembarcado e esperavam em longas filas caóticas com seus pertences.

Himmler e seus companheiros monitoraram o processo de seleção, que resultou em 1.251 homens e 300 mulheres sendo aceitos no campo. O restante do transporte — 399 mulheres e meninas e 50 homens e meninos — foi levado à câmara de gás do Bunker 2. Como os crematórios ainda não estavam funcionando, Himmler ficou particularmente interessado em ver como os corpos eram retirados da câmara de gás e transportados para as valas comuns onde eram enterrados. Foi um dia cheio.

À noite, uma recepção em homenagem a Himmler foi realizada, e os oficiais da SS puderam conhecer seu Reichsführer e brindar à sua saúde. Em seguida, houve um jantar formal realizado na casa do general-brigadeiro da SS Gauleiter Bracht em Katowice, localizada 36 quilômetros ao norte de Oświęcim. Lá eles jantaram com suas esposas. Como de hábito, em certo momento chegou a hora de as mulheres saírem, para que os homens pudessem discutir os eventos do dia e a agenda do dia seguinte, enquanto fumavam charutos e bebiam uísque. O campo feminino era o ponto alto do programa.

Na manhã seguinte, sob o forte calor do verão, as meninas aguardavam de pé a chamada quando os portões do campo feminino se abriram e Himmler em pessoa apareceu. A essa altura, o setor feminino estava tão superlotado que “era preciso passar por cima das pessoas que ficavam do

lado de fora dos blocos”, lembra Linda Reich. 166 Centenas de novas prisioneiras dormiam no chão. Casos de tifo se multiplicavam.

A SS Langefeld não era o tipo de mulher que perdia tempo embelezando os cabelos com um ferro de passar. Ela simplesmente o prendera em um coque sob o quepe, mas, em compensação, suas botas estavam tão polidas e pretas que reluziam sob a sua saia. E, embora o dia estivesse quente, Langefeld não suava. Não era culpa dela o comandante Höss permitir que tantas mulheres se alojassem no espaço exíguo do campo, que deveria abrigar apenas 5 mil prisioneiras. Agora, Himmler veria por si mesmo os problemas que ela estava enfrentando.

As garotas judias observavam enquanto as Kapos que eles normalmente temiam se alinhavam nervosamente em filas organizadas de cinco. Ombros para trás, queixo erguido, olhar para a frente, as Kapos estavam atentas, cientes de que, embora fossem superiores aos judeus, eram inferiores aos olhos de todos os outros — criminosas que podiam ser eliminadas tão rápida e facilmente quanto as mulheres judias. Enquanto Himmler caminhava pelas fileiras de prisioneiras de Ravensbrück para inspecioná-las, Langefeld explicava os crimes de cada uma, apontando as prostitutas, assassinas, comunistas. Então, eles pararam na fila da frente, onde estavam as favoritas de Langefeld.

Ao passarem por Bertel Teege, Luise Mauer e os outras três, Langefeld fez uma pausa e se dirigiu ao Reichsführer .

— Herr Himmler, tenho um pedido a fazer.

Os outros homens podem ter sido surpreendidos por sua ousadia. Mas os dois SS tinham a mesma idade, e Himmler aprovara há muito tempo as habilidades organizacionais de Langefeld.

Apontando para suas cinco assistentes, ela disse: “Essas mulheres são as prisioneiras mais veteranas daqui. Elas trabalharam duro e acredito que cumpriram suas penas de prisão com honra e dignidade. Eu sempre pude contar com elas e nunca tive problemas. Peço-lhe que reconheça as suas

penas de prisão como cumpridas.” 167

Luise Mauer não podia acreditar que Langefeld estava cumprindo a promessa. Presa desde 1935, ela nunca se permitiu imaginar livre sob o Terceiro Reich. Ela era considerada uma traidora de seu país porque era comunista. Himmler voltou os olhos para Mauer e se dirigiu diretamente a ela. “Por que você está na prisão?”.

Mauer esticou o peito e falou direta e honestamente. “Fui presa pela primeira vez em 1933. Meu marido era membro do conselho do KPD (Kommunistische Partei Deutschlands — Partido Comunista da Alemanha) em Hessen. Em 1935, fui presa novamente e sentenciada a quatro anos por traição. Ao final do julgamento, fui levada a Ravensbrück e, na primavera deste ano, cheguei a Auschwitz.”

“Você era comunista”, disse Himmler, parecendo enojado. “Você ainda é?”.

Apesar das possíveis consequências de sua resposta, Mauer corajosamente respondeu: “Sim”.

Ali perto, o SS Maximilian Grabner ficou surpreso com a resposta, mas Himmler continuou seu interrogatório. “E qual é a sua opinião agora sobre o Estado Nacional Socialista?”.

“Desde 1933 eu conheci apenas prisões e campos de concentração, então só posso me sentir pessimista em relação ao Estado Nacional Socialista.”

“Então, darei a você a oportunidade de conhecer nosso novo Estado. Você está livre!”. Mauer olhou interrogativamente para Langefeld e os superiores da SS ao seu redor.

“Mas, Herr Himmler”, o SS Grabner deixou escapar. “Ela é irrecuperável e politicamente não confiável!”.

Himmler olhou obliquamente pelo pincenê no nariz e limpou as lentes. “Apesar disso, eu vou libertá-la. Mas, antes disso, ela terá que trabalhar na casa da Waffen-SS.” Ele se virou para Langefeld e fez algumas perguntas adicionais sobre Mauer, depois voltou-se para a prisioneira. “A supervisora diz que você sabe cozinhar. Você pode servir como cozinheira.” Era como liberdade condicional. De fato, quatro das cinco Kapos não seriam libertadas por mais um ano ou dois. Somente Bertel Teege foi libertada imediatamente.

Quando Teege atravessou os portões de ferro com o lema Arbeit macht frei , ela não pôde deixar de perceber que fora uma das poucas afortunadas que realmente trabalhou para conseguir sua liberdade.

A INSPEÇÃO DO campo feminino era fundamental para a visita de Himmler, mas o que ocorreu não foi uma chamada normal. Liberadas de sua própria inspeção, as Kapos se juntaram às mulheres da SS, gritando para que as meninas se despissem diante do Reichsführer da Schutzstaffel (SS). Qualquer hesitação era punida com o chicote. Despidas de seus imundos uniformes russos, as meninas receberam ordens para “Sair! Marchar!” à frente de Himmler, Höss e os outros inspetores do sexo masculino.

— Mantenham seus braços esquerdos esticados e levantados à sua frente!

Elas estavam muito assustadas para se envergonharem. Olhos para a frente, dentes cerrados, as meninas mantiveram os braços esquerdos estendidos à sua frente, as palmas das mãos voltadas para Himmler. “Se elas tivessem mandado estender a mão direita, eu teria sido escolhida para morrer”, diz Joan (nº 1188). Ela “tinha uma grande ferida” na mão direita.

No fim das contas, as únicas prisioneiras que morreram naquele dia foram as vinte testemunhas de Jeová usadas em uma demonstração de

técnicas de açoite. 168 Depois de serem espancadas até a morte, Himmler aprovou o açoitamento de mulheres no campo.

Tendo sido bem-sucedida em seu pedido de libertação de suas Kapos favoritas, Langefeld aproveitou a oportunidade para também pedir a Himmler que a transferisse para Ravensbrück, citando não apenas diferenças de opinião com Höss, mas também a falta de respeito com que era tratada pelos guardas da SS. Em seus diários, Höss reclama

repetidamente de Langefeld, 169 e é provável que ele já tivesse manifestado a Himmler seu desagrado. Himmler não só negou o pedido como deteriorou ainda mais sua posição de supervisora ao instruir Höss a permitir que as Kapos tivessem permissão para “descontar seus demônios nas prisioneiras”.

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Várias delas estavam presas por terem cometido assassinato, e Himmler agora lhes dava licença para matar — judias. O pouco controle que Langefeld tinha sobre as Kapos perversas agora se perdera, mas eram as mulheres judias que realmente pagariam por isso.

NO FINAL do dia, o SS-Reichsführer concluiu seus negócios com Höss em uma reunião privada, na qual disse ao comandante que em nenhuma circunstância as operações da Sipo (Polícia de Segurança) deveriam ser interrompidas, ainda mais por falta de acomodações. Ele ordenou que Höss concluísse a construção do campo de Birkenau e matasse todos os prisioneiros judeus impróprios para o trabalho. Finalmente, em reconhecimento ao seu trabalho e desempenho, Höss foi promovido a

tenente-coronel da SS. 171

As 999 meninas que Bertel Teege vira chegar em 26 de março — ou as que restaram — não teriam a mesma sorte de deixar Auschwitz. Com os prisioneiros de guerra russos quase totalmente exterminados e a construção dos blocos praticamente concluída, o tenente-coronel Rudolph Höss merecera sua promoção. Três semanas após a visita de Himmler, ele anunciou que Birkenau estava pronto para receber prisioneiras.

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