As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 26 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Vinte e um

 

 

Os homens aprendem com as mulheres? Frequentemente. Eles admitem

isso publicamente? Raramente. Até hoje .

— ELENA FERRANTE

NA CIDADE DE HOLÍČ se localiza o sítio arqueológico de menires mais

oriental da Europa continental — um Stonehenge eslovaco. 178 Na década de 1940, havia uma pequena comunidade judaica de 360 pessoas que deve ter sido completamente “reinstaladas” antes do início das celebrações do festival da colheita, em 15 de agosto de 1942. Por qual outra razão o presidente Tiso teria decidido comemorar a ocasião nessa cidade fronteiriça de médio porte, a oitenta quilômetros de Bratislava?

Com seu pescoço grosso de buldogue e o colarinho de padre enfiado sob a papada do seu queixo duplo, Tiso era ao mesmo tempo feroz e carismático. Do lado de fora de uma igreja, agricultores carregavam milho e feixes de trigo. Garotas de batas brancas de renda e saias bordadas, com longas tranças e bandanas florais, alinhavam-se ao longo da estrada para receber o presidente com saudações de Heil Hitler . Até os homens estavam vestidos com trajes tradicionais. Fora um bom ano. A prosperidade estava aumentando e o presidente Tiso queria ter certeza de que os cristãos de seu país soubessem por que as coisas estavam indo tão bem. Subindo ao palanque, olhou para os cidadãos que o adulavam com severa bondade paterna.

“As pessoas perguntam se o que está acontecendo é cristão. Isso é humano?”, ele berrou aos não judeus de Holíč, agora livres de seus vizinhos judeus. “Não é apenas pilhagem?”. O microfone estalou. “Mas eu pergunto: não é cristão a nação eslovaca derrotar um inimigo eterno, o judeu? Isso não é cristão? Amar a si mesmo é um mandamento de Deus, e esse amor me ordena a livrar-me de tudo que me prejudica, que ameaça minha vida. E acredito que não preciso convencer ninguém de que o elemento judeu

eslovaco sempre foi uma ameaça a nosso estilo de vida!”. 179 Os habitantes da cidade aplaudiram e acenaram com feixes de trigo.

“Não seria muito pior se não nos purificássemos deles? E o fizemos de acordo com o mandamento de Deus. Eslovacos, livrem-se do seu pior cancro! O que os britânicos prometeram aos judeus antes da Primeira Guerra Mundial, apenas para extrair dinheiro deles? Eles prometeram a eles um Estado, que não receberam em troca. E, vejam bem, Hitler não pediu nada e agora está lhes dando a eles um Estado!”.

Esse “Estado” eram os campos de extermínio da Polônia.

As notícias falsas não estavam apenas em alta — eram as únicas notícias disponíveis, divulgadas pelo jornal propagandista da Guarda Hlinka, o Gardista . Um artigo publicado em novembro de 1942 foi intitulado “Ako ziju zidia v novom domove na vychode? ”, ou “Como os judeus estão vivendo em seus novos lares nos arredores?”. A foto ao centro mostrava jovens judias vestidas de branco, com seus vestidos típicos e lenços amarrados na cabeça, sorrindo para a câmera. “Elas não parecem estar

mortas de vergonha”, diz a legenda. 180 Na próxima coluna, “um policial judeu orgulhoso de ter sido fotografado”. A retórica era tão manipuladora que até os mais desconfiados parecem tê-la engolido, talvez porque não suportassem acreditar que sua própria boa sorte se devia a infortúnios causados a seus antigos amigos e vizinhos judeus. Um aposentado não judeu acreditou de tal maneira no restabelecimento dos judeus como noticiado pelo jornal Gardista que enviou uma carta ao ministro do Interior, Alexander Mach, reclamando que os judeus idosos estavam recebendo tratamento melhor do que ele, um cidadão eslovaco. Ele pediu para ser

tratado do mesmo modo. 181

A capacidade que as pessoas têm de acreditar que as políticas governamentais direcionadas às minorias não são racistas ou injustas não é exclusiva da década de 1940. Regimes modernos são igualmente culpados de praticar genocídio disfarçando-o de políticas de imigração, convicções religiosas, diferenças étnicas ou razões econômicas. O fator comum é que as primeiras vítimas são sempre as mais vulneráveis e as menos “valorizadas” na cultura-alvo. Em 15 de agosto de 1945, milhares de mulheres e crianças foram mortas nas novas câmaras de gás. Apenas as mulheres mais aptas e “mais afortunadas” ainda estavam vivas.

No mesmo dia em que o presidente Tiso se autocongratulava por seus valores cristãos, 2.550 homens, mulheres e crianças da Polônia e da Holanda chegaram a Auschwitz — mas apenas 124 homens e 153 mulheres

seriam registrados no campo. 182 Dez dias depois de serem transferidas para Birkenau, a população do campo das mulheres aumentou em quase 2 mil. Uma nova força de trabalho escrava estava pronta para substituir as “veteranas”, meninas esgotadas que estavam lá havia quase cinco meses.

NÃO HÁ UMA DATA EXATA na Crônica de Auschwitz que confirme quando ocorreu a primeira seleção de prisioneiras registradas para execução na câmara de gás, mas sabemos pelas sobreviventes que aconteceu logo após sua chegada a Birkenau. Também sabemos pelos “Livros da Morte” de Auschwitz que pelo menos 22 mulheres do primeiro transporte morreram

em 15 de agosto. 183 É a primeira vez que se documenta tantas mortes de mulheres registradas em um dia específico. E isso é uma evidência de que a primeira seleção de prisioneiras ocorreu em 15 de agosto, imediatamente após a chamada da manhã.

Sussurros passearam pelas filas. Por que elas não foram enviadas para o trabalho? O que estava acontecendo? Era algo bom ou ruim? Ninguém sabia o que a palavra “seleção” significava. Selecionadas para quê? Forçadas a esperar sob o sol quente, sentindo mais bolhas irromperem em sua cabeça e pescoço nus, impedidas de se abrigarem à sombra enquanto as horas passavam, as meninas mexiam os pés e olhavam em volta.

Muitas das que estavam no campo desde março “não aguentavam mais ficar em pé direito. Ou tinham marcas. Hematomas”, lembra Linda. Então, elas “tiveram que se despir”. É um fato que muitas sobreviventes — até mesmo as que escreveram suas memórias, como Rena Kornreich — omitem ou evitam mencionar em seus depoimentos. As garotas eram selecionadas nuas. Dessa forma, elas não podiam esconder suas inflamações ou feridas abertas, sua fisionomia esquelética ou erupções cutâneas. Frida Benovicova

tinha estudado com Edith quando eram meninas. 184 Agora, a garota de 18 anos e sua irmã de 23, Helen, estavam na frente da fila. Rena Kornreich (nº 1716) estava a poucas fileiras de distância e viu uma das irmãs ser instruída pela SS a ir para a direita. A outra foi instruída a ir para a esquerda.

“Por favor, não me separe da minha irmã!”. Uma das irmãs caiu de joelhos e implorou por misericórdia. Ninguém sabia ao certo o que significam as direções. Seja qual fosse a circunstância, as irmãs queriam ficar juntas. O homem da SS olhou para a garota que implorava e sacudiu a mão. Frida correu atrás de Helena e a abraçou com força.

Nuas, as duas andaram de mãos dadas em direção a caminhões de carga, nos quais foram postas a bordo violentamente junto às demais selecionadas. Rena não tinha ideia de quem eram as meninas, mas sabia que estavam no primeiro transporte e acreditava que seus números eram 1000 e 1001. Para onde quer que estivessem indo, ela sabia que “não poderia ser bom”.

Levaria 75 anos para eu encontrar a família delas e descobrir seus nomes.

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