As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Sete
As mulheres são portadoras da vida e da luz para o mundo.
— A CABALA
SABÁ — SÁBADO, 21 DE MARÇO DE 1942
SE NÃO NO SABÁ, QUANDO MAIS, meninas judias jovens, solteiras e bem-criadas certamente estariam em casa? Realizar os registros no dia anterior ao Sabá garantia às autoridades que, se qualquer uma tentasse se esconder e evitar a convocação do governo para o trabalho, ela poderia facilmente ser capturada pela manhã na casa de seus pais.
Esconder-se envolvia suas próprias incertezas, mas não havia muitas outras opções, especialmente para adolescentes. Para livrá-las do status de solteiras, que as tornava imediatamente vulneráveis, algumas famílias passaram as semanas após o anúncio inicial tentando casar suas filhas. Outras enviaram suas meninas para casas de parentes na vizinha Hungria. As famílias às quais foram prometidas exceções governamentais não achavam que tais ações drásticas fossem necessárias. Porém, quando as exceções não chegaram, elas tiveram apenas duas opções: obedecer a lei e entregar suas filhas ou infringi-la e escondê-las. As famílias Gross e Friedman obedeceram; os Amster, não.
Nas primeiras horas do dia 21 de março, a polícia local apareceu no vilarejo onde morava Adolf Amster com os guardas da Hlinka. Uma batida na porta naquele início de manhã significava apenas uma coisa. A mãe de Magda correu para o quarto da filha e a mandou para “o esconderijo sob o telhado” de sua grande casa. Esfregando os olhos de sono, o sr. Amster atendeu a porta o mais inocentemente possível. O modo como o receberam não foi agradável.
Giora Shpira se lembra de ter visto seus ex-colegas de escola, agora guardas da Hlinka, capturando suas amigas — colegas de classe prendendo colegas de classe. Portanto, é provável que Adolf Amster tenha aberto a porta naquela manhã e se deparado com os mesmos jovens que outrora haviam sido meninos espinhentos que conheciam sua filha. Porém, agora, eles lhe apontavam armas. Ele disse aos guardas que o governo havia se comprometido a conceder exceções à família Amster, portanto, não havia com que se preocuparem. Enfatuados com o poder que lhes conferiam seus uniformes negros, os meninos o arrastaram para a rua, ergueram seus cassetetes e o espancaram.
Teria sido porque o sr. Amster era um judeu rico que eles optaram por atacá-lo e degradá-lo publicamente? Os vizinhos saíram e assistiram à cena horrorizados. Ensanguentado e machucado, Amster pediu aos jovens que parassem. Ele não era tão rico e importante assim que não pudesse implorar.
Os rapazes gritavam com ele:
— Que tipo de filha deixa seu pai ser espancado até a morte? Se Magda realmente se importasse com o pai, ela o salvaria! Como é possível ela deixá-lo sofrer tanto?
A armadilha fora lançada e o amor era a isca. Ouvir o pai sendo violentamente atacado era mais do que Magda podia suportar. A garota gentil de cabelos cacheados apareceu na rua. Seu pai a abraçou e implorou aos guardas que a deixassem ficar. Ele não tinha outra filha. Eles precisavam dela em casa. E quanto aos seus próprios serviços para o governo?
Os guardas riam e zombavam dos Amster. Empurrando a delicada Magda para longe, forçaram-na a descer a rua cheia de neve para se juntar às outras garotas que pensaram que poderiam se esconder. Meninas bondosas eram muito fáceis de encontrar!
A ALGUNS QUILÔMETROS de distância, em uma comunidade nos arredores de Prešov, a Guarda Hlinka chegou à casa da família Rosner e deu à sua filha, Joan, duas horas para fazer as malas. Ela e outras 23 meninas de Šarišské Lúky foram “espremidas como sardinhas em uma caminhonete”, levadas para o centro da cidade e largadas no quartel de bombeiros, onde seus nomes foram conferidos. Eram cerca de dez horas da manhã e mais de duzentas jovens estavam sendo examinadas no quartel.
Embora fosse cedo, Giora Shpira e seu irmão ouviram falar do incidente na casa dos Amster e esperaram do lado de fora do quartel para ver o que aconteceria a seguir. Quando as garotas subitamente saíram e começaram a marchar na direção da estrada, os meninos foram correndo atrás delas, chamando os nomes de Magda e Klara enquanto tropeçavam pelas ruas. Como era a manhã do Sabá, alguns membros da comunidade judaica ainda não sabiam que as meninas estavam sendo tratadas como criminosos comuns, e, sem nem uma última carícia ou beijo de suas famílias, agora marchavam para a estação de trem. A imagem das jovens perdidas e confusas ainda assombra Giora. “O pior momento de todos foi quando pegaram as meninas e as reuniram... Era o ensaio de todo o mal que viria a
seguir.” 64
Ver suas filhas embarcando em um trem de passageiros reforçou a ilusão de que a convocação realmente tinha a ver com um trabalho para o governo, e isso pode ter aliviado a ansiedade que os pais judeus sentiram quando as meninas foram levadas. À luz da manhã, as meninas abriram as janelas e se inclinaram para mandar beijos para seus familiares e apanhar no ar os que eles enviavam de volta. Elas gritavam para os seus pais, se eles estivessem lá. Orações foram feitas. Poucas foram atendidas.
Ida Eigerman não teve a quem acenar, além de sua tia. Ela se perguntava como estariam seus pais na Polônia; se soubesse, talvez tivesse fugido da estação. De fato, em poucos dias, em sua cidade natal, Nowy Sącz, judeus idosos, juntamente com empresários judeus e não judeus, seriam levados ao cemitério judaico e mortos a tiros. Entre os assassinados estavam, provavelmente, os pais de Ida e os pais de Rena Kornreich, de Tylicz.
A futura mãe de Orna Tuckman, Marta F., tinha uma família numerosa acenando para ela. A seu lado, no mesmo vagão, estavam suas boas amigas: Minka, Margita e outra Marta. Aos vinte e poucos anos, eram mulheres jovens que encaravam aquela situação diferentemente das adolescentes, que estavam sendo separadas de seus pais pela primeira vez. Elas já tinham empregos fixos e vidas que se estendiam além de suas famílias próximas. Sair de casa para trabalhar durante três meses para o governo tornaria a vida de suas famílias mais difícil, mas porque elas trabalhavam e obtinham uma renda necessária para seus lares. Ademais, apesar de ainda jovens, elas se preocupavam com o futuro. Como poderiam se apaixonar e se casar se tinham o serviço governamental para cumprir pelos próximos três meses? Que homem esperaria por uma jovem indisponível para longas caminhadas e doces carinhos? Será que também haveria homens judeus trabalhando na fábrica de sapatos?
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