As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 21 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Dezesseis

 

 

A escravidão prolongada das mulheres é a página mais sombria da

história da humanidade .

— ELIZABETH CADY STANTON

AS CARTAS CHEGAVAM EM PAPÉIS REFINADOS e muitas vezes timbrados, tanto manuscritas como datilografadas. Algumas incluíam referências de parceiros de negócios, vizinhos e clérigos não judeus. Os rabinos escreveram para declarar que certos membros da comunidade judaica eram vitais para o bem-estar econômico da Eslováquia, depois tiveram que solicitar suas próprias isenções ao governo. Desde o anúncio da convocação de jovens judias solteiras para o trabalho durante a nevasca no final de fevereiro, o Ministério do Interior fora inundado com pedidos de famílias judias que buscavam exceções do governo, as chamadas výnimka . Essas exceções forneceram a famílias inteiras isenções do “trabalho” e da “realocação”.

À medida que a realidade da partida de milhares de meninas judias era assimilada e os jovens começavam a ser chamados para trabalhar também, aumentavam os rumores de que famílias inteiras seriam realocadas. E, quanto mais esse novo rumor se espalhava, mais e mais pedidos de exceções chegavam ao Ministério do Interior. Até funcionários do governo eram citados como referências agora. O ministro da Educação e Cultura Nacional, J. Sivak, ficou conhecido por ajudar seus amigos e colegas judeus. O Arquivo Nacional da Eslováquia possui caixas de arquivos cheias desses pedidos. Milhares deles. Pedidos de reconhecimento e justiça, mas principalmente pedidos de misericórdia por sua vida.

Havia um preço a pagar pela liberdade — quer dizer, se você tivesse a

sorte de ser recomendado para uma exceção. 131 A ironia de que judeus tiveram que pagar para não serem escravizados não pode ser ignorada. Havia uma nova economia, e os homens que recolhiam as recompensas eram os mesmos fascistas que deportavam judeus e confiscavam empresas e propriedades judaicas.

O primeiro transporte não ocorreu de acordo com o plano de Konka. 132 Nem o segundo, nem o terceiro, nem o quarto. Reunir milhares de meninas era mais difícil do que ele pensava, especialmente nas comunidades rurais. Alexander Mach ficou furioso quando Konka não conseguiu entregar 5 mil judeus em cinco dias. Ele nem sequer enviou 5 mil em cinco transportes. O que os alemães pensariam deles? Konka foi demitido.

O novo chefe do Departamento 14, Anton Vašek, foi logo apelidado de “rei dos judeus” eslovaco. Um burocrata gorducho, de olhar suspeito, com desejo de dinheiro e poder, ele estava prestes a se refestelar em ambos. Com pilhas de pedidos de exceções chegando todos os dias, sua decisão era uma mercadoria pela qual valia a pena pagar. O processamento dos pedidos de exceções não era mais realizado por ordem de chegada ou de acordo com a urgência de governadores e prefeitos regionais. Agora, dependia de quem pagasse mais dinheiro mais rápido. Vašek estava acumulando uma pequena fortuna vendendo isenções — mas muitas vezes evitava fornecer a documentação necessária para proteger a família que lhe pagara.

Embora fossem de vital importância para as famílias judias, os pedidos não eram uma prioridade para os ministros do governo de Tiso. O processo não era rápido e, sem o estímulo financeiro, levava ainda mais tempo. Teria sido por isso que a riquíssima família Amster recebeu sua exceção antes dos Friedman? Não que isso tenha feito diferença no final das contas; nenhuma das duas recebeu os documentos a tempo de impedir a partida de suas filhas para o trabalho.

Emmanuel Friedman parecia não perceber que molhar a mão de figuras importantes era uma opção ou que a segurança de suas filhas estava à venda. Pode ser que, no início de março, subornar funcionários do governo ainda não fosse obrigatório. Em maio, já sob Vašek, o custo para se obter uma exceção tornara-se realidade.

Os documentos tinham uma aparência estranha. Inúmeros traços, como em código Morse, preenchiam os espaços da página para evitar alterações. Na parte superior, em letras maiúsculas, havia dizeres assegurando tratar-se de um documento legítimo do Ministro do Interior, o distrito e a cidade e, finalmente, um número de departamento. Quatorze era o Departamento Judaico. A seguir, listavam-se os nomes dos chefes de família, sua profissão, local de residência e data de nascimento, seguidos por uma referência ao estatuto §22, que legalmente permitia que o portador do documento permanecesse na Eslováquia. Então, incluíam-se a data e a versão eslovaca da saudação Heil Hitler , uma referência hiperbólica ao regime, ancorado na Guarda Hlinka, que era usada para todas as saudações oficiais na época — “Na stráž! ” (Em guarda!). Por fim, procedia-se à autenticação, com o carimbo do gabinete do ministro do Interior e a sua assinatura logo a seguir. Na maior parte desses documentos, o nome de Anton Vašek aparece nessa linha. O de Gejza Konka consta daqueles emitidos no início de março.

A próxima parte crucial do documento era a lista de membros da família que seriam cobertos pela exceção, o seu grau de parentesco com o chefe da casa e as respectivas datas de nascimento. Depois dessa lista, mais um número de referência e outra saudação Na straz! Depois que essa seção era validada mais uma vez por um representante do ministro do Interior, a papelada era enviada a um representante regional, ao prefeito ou ao governador do distrito, que tinha que aprovar a coisa toda. Portanto, existem três datas importantes em todos os documentos: a data na parte superior, junto ao nome do ministro do Interior, é a data em que o documento estava em Bratislava. Na parte inferior do documento, junto ao nome do prefeito (ou governador) do distrito, há outra data. Sobre o timbre do governo, uma declaração legal era então carimbada, com uma data final, assinatura e o selo da região.

Uma výnimka levava pelo menos uma semana para ser processada em julho de 1942, mas o procedimento só era iniciado após um pedido formal ter sido aprovado e referências de não judeus terem sido coletadas para

confirmar a posição e a importância da família judaica para o Estado. 133 Em março de 1942, os atrasos eram mais corriqueiros, porque o processo ainda não havia sido testado, o que pode explicar por que o prefeito de Humenné disse a Emmanuel Friedman para não se preocupar, pois as exceções de sua família estavam a caminho.

Causa mais surpresa o intervalo de tempo entre a data próxima à assinatura do prefeito e a data do selo regional, etapas que provavelmente eram providenciadas no mesmo prédio do governo, talvez na mesma sala. Também é um mistério o motivo pelo qual as famílias Amster e Hartmann receberam suas exceções apenas alguns dias depois que as meninas foram levadas de suas casas, horas antes de o transporte deixar Poprad, e as famílias Friedman e Gross só as receberam duas ou três semanas mais tarde. Dos muitos judeus de Humenné, cerca de quatrocentos seriam supostamente protegidos pelas exceções presidenciais em decorrência de sua importância econômica ou por terem se convertido ao catolicismo antes

de 1941. 134

A vidraçaria de Emmanuel Friedman, assim como ocorrera com os negócios de outros profissionais judeus, foi arianizada. Agora, era dirigida por um não judeu chamado sr. Baldovsky, que, no entanto, não sabia como executar as tarefas de um vidraceiro certificado. Por isso, os governos alemão e eslovaco ainda precisavam de Emmanuel Friedman. Seu trabalho agora era ultrassecreto, o que pode parecer estranho. Que negócio poderia ser tão importante, a ponto de exigir que Emmanuel Friedman fosse vendado antes de ser levado ao trabalho por um motorista indicado previamente pelo governo? O fato é que ele era levado regularmente a um aeródromo secreto na zona rural, onde passava seus dias consertando para-brisas de aviões bombardeiros. Na cidade, o sr. Baldovsky cuidava das tarefas mais corriqueiras.

Foi depois do Pessach que a prometida výnimka da família Friedman finalmente chegou. Emmanuel Friedman já tinha conseguido descobrir para onde Edith e Lea haviam sido levadas, talvez por meio do carimbo em seus cartões-postais, talvez mediante seus contatos no governo. Então, ele fez algo que o sr. Amster e os irmãos Hartmann não haviam considerado. Ele

pediu ao sr. Baldovsky que fosse a Oświęcim e liberar suas filhas. 135

Como a maioria das pessoas, Emmanuel Friedman ainda acreditava que suas meninas estavam trabalhando para o governo eslovaco e seriam liberadas em três meses, mas ele e sua esposa estavam infelizes sem Edith e Lea em casa. Por que não ir ao escritório administrativo do centro de trabalho e apresentar as exceções governamentais aos funcionários competentes, para que assim as garotas pudessem ser liberadas? Talvez eles pudessem trazer Adela Gross também.

O sr. Baldovsky e Emmanuel Friedman não eram tão ingênuos a ponto de negligenciar a elaboração de um plano de emergência. Se houvesse algum problema para liberar as meninas, o sr. Baldovsky entraria em contato com elas e as ajudaria a escapar. Assim que estivessem a bordo de um trem de passageiros, estariam a salvo, porque carregavam isenções e viajavam com um não judeu. Esse era o plano.

O sr. Baldovsky prontamente embarcou em um trem de passageiros para Žilina, lá pegou um segundo e seguiu para a fronteira polonesa.

AS TORRES DE VIGIA SE ERGUIAM como gigantes estoicos na nevasca. A neve se acumulava e se prendia nas farpas das cercas de arame. As silhuetas de soldados da SS se moviam pelas auréolas brilhantes em torno dos holofotes das torres de guarda. Uma rajada de neve caiu no escuro, prendendo-se aos cílios das meninas quando elas hesitantemente entraram na Lagerstrasse para a chamada matinal. Ninguém queria sair nessa repentina tempestade de abril: nem a SS, nem os cães de guarda, nem as Kapos . As novas prisioneiras, menos ainda. Calçando nada além dos seus tamancos, seus pés afundavam na neve até os tornozelos. O vento passava pelos buracos de bala no uniforme ou pelas pernas nuas sob os vestidos. O gelo queimava a pele das bochechas e do couro cabeludo raspado. Alinhando-se da melhor forma que podiam, piscando para tirar a neve dos olhos, as meninas tentavam ficar de pé sem tremer. Arrogante e com ar de superioridade, o comandante Rudolf Höss passou pelas prisioneiras, em uma de suas raras aparições no campo das mulheres. Suas botas eram altas o suficiente para que a neve não as penetrasse, e, enquanto caminhava pelos arredores, ele olhava para as Kapos infelizes que contavam as meninas miseráveis. Era um amanhecer escuro e, enquanto “elas ainda estavam nos contando, ouvi a mulher da SS [Johanna Langefeld] dizer a ele: ‘Com esse tempo, não podemos mandá-las trabalhar’. Höss bateu a bota e gritou com ela: ‘Para os judeus, clima não importa!’”.

Isso dizia tudo. Edith olhou para a tempestade furiosa. Por que elas não podiam limpar os blocos ou algo assim? Como alguém podia ser tão cruel? Ou ele simplesmente rechaçou a ideia porque foi a supervisora quem sugeriu? A briga sobre quem estava no comando do novo campo feminino mal tinha começado e não só Langefeld já era a perdedora como suas prisioneiras também. As meninas saíram para trabalhar enquanto a neve se amontoava ao seu redor.

Para salientar ainda mais o argumento do comandante, o homem da SS encarregado de subir o portão ordenou que as meninas tirassem seus tamancos, porque o som da madeira batendo na parte de trás dos seus pés o incomodava. Era difícil acreditar que ele pudesse ouvir qualquer coisa além do vento uivante. Mas era sua prerrogativa fazer o que quisesse. Se o comandante Höss podia forçar os judeus a trabalhar, seus soldados poderiam fazê-los andar descalços. Tudo era uma questão de poder. E os judeus não o tinham. As meninas tiraram seus calçados e marcharam silenciosamente sob o lema invertido do arco do portão: ierf thcam tiebrA .

Agora, as meninas tinham que tirar os sapatos sempre que saíam e entravam no campo, mas, pouco depois de essa ordem se tornar definitiva, a neve começou a derreter. Pelo menos elas não estavam mais andando descalças na neve. Agora, caminhavam sobre lama congelada. Para as meninas que trabalhavam nos campos espalhando esterco, surgiu um novo problema. O solo úmido e argiloso arrancava os tamancos de seus pés. Perder o “sapato” era equivalente a receber uma sentença de morte. Linda perdeu os dela nos primeiros dias do degelo. As outras meninas, temendo ficar sem os seus, começaram a tirá-los antes do trabalho, e então pisavam descalças na lama fria e grossa, carregando esterco nos braços.

O SR. BALDOVSKY CHEGOU à estação de trem de Oświęcim, perguntou sobre o caminho para o campo de trabalho e caminhou diretamente até os portões de Auschwitz. Quando os guardas o detiveram, ele pediu para falar com o comandante. Eles olharam para ele incrédulos.

— E quem é você?

Ele se apresentou e mostrou as exceções.

— Vim libertar Lea e Edith Friedman, de Humenné, que foram convocadas por engano para o trabalho do governo. Estes são os documentos oficiais que as dispensam.

Os guardas riram.

— Em que língua isso está?

— Eslovaco.

— Nós somos alemães.

O sr. Baldovsky explicou o que os documentos diziam.

— Elas estão isentas do trabalho! — ele exclamou.

— Na Eslováquia, talvez. Mas estamos na Grande Alemanha agora.

Os guardas não sabiam de quem ele estava falando, de qualquer maneira. Edith? Lea? Friedman? Ele só podia estar brincando.

— Quais são os números delas?

— Elas têm números?

— Todas têm números!

Irritados, os guardas da SS empunharam as armas e ordenaram ao empresário que fosse embora, ou eles o matariam. O sr. Baldovsky recuou. Era hora de apelar para o plano de emergência. Ele conhecia as garotas Friedman bem o suficiente para reconhecê-las, e Adela seria fácil de identificar por causa dos fartos cabelos ruivos. Onde quer que Adela estivesse, Lea e Edith certamente estariam por perto.

Seguindo pela estrada, ele contornou as cercas de arame farpado que cercavam as fileiras de blocos de tijolos que compunham Auschwitz. Nos campos, ele avistou criaturas descalças que cambaleavam em meio à neve e à lama, carregando excrementos com as mãos nuas. Como elas vestiam roupas mal ajustadas, que se abriam com o vento frio, ele pôde ver que elas não usavam roupas íntimas. Tampouco lenços para cobrir sua cabeça quase careca. Eram mulheres, certamente, mas se pareciam mais com o golem dos mitos judaicos do que com mulheres.

O sr. Baldovsky estremeceu ao vê-las. Essas certamente não eram as judias bem-criadas que ele conhecia de Humenné. Examinando o horizonte bege e cinza pálido, ele não viu mais nada e mais ninguém. Auschwitz deve ser um manicômio. Ele concluiu que as informações de Emmanuel Friedman estavam incorretas. Não era possível que Edith e Lea estivessem nesse inferno. Havendo falhado em sua missão, ele retornou a Humenné e disse ao sr. Friedman e à sua esposa: “Edith e Lea devem ter sido levadas para outro lugar. Não há como elas estarem em Auschwitz. Esse lugar não é

um campo de trabalho, é um local para doentes mentais.” 136 O que ele teria pensado se tivesse visto as garotas nas tarefas de demolição, jogando tijolos na cabeça de outras?

Edith suspira. “Você pode imaginar, uma pessoa normal chega, olha em volta e vê aquelas meninas sem cabelo andando por aí, pouco vestidas. Ela nos vê sem meias, com as pernas nuas na neve. Que impressão causamos? Não a impressão de que somos seres humanos normais.”

A AVALIAÇÃO DE BALDOVSKY DE QUE Auschwitz era um abrigo para loucos rapidamente se tornava realidade. Muitas garotas estavam perdendo a cabeça. O trauma causado por terem sido arrancadas de forma abrupta dos lares gentis e atenciosos de seus pais e catapultadas para essa brutalidade causava severas complicações. Destituídas de sua identidade, emocionalmente destruídas, exauridas e desumanizadas pela crueldade física e verbal, até as meninas mais fortes tinham dificuldade para manter a sanidade. Talvez elas tivessem morrido e não estavam mais na terra dos vivos? Talvez não houvesse nada além da neblina subindo dos pântanos. QUANTO MAIS EXTENUANTE a atribuição de trabalho, mais rapidamente as meninas se enfraqueciam com a falta de comida. O frio também acelera a queima de gordura e calorias, e aquelas primeiras semanas trabalhando ao relento causaram uma perda de peso crítica. A sobrevivência de muitas meninas dependia de elas conseguirem trabalhos internos, ou trabalhos externos menos rigorosos, mas o único serviço interno era a limpeza dos blocos, e essa tarefa cabia às supervisoras e suas ajudantes imediatas. Para o resto das meninas, havia apenas tarefas de demolição, adubagem, limpeza das ruas. “Em pouquíssimo tempo, parecíamos fios de espaguete. Provavelmente, eu pesava cerca de trinta quilos”, diz Edith.

Madge Hellinger assumiu a tarefa de dormir ao lado das meninas mais frágeis que falavam sem parar durante a noite. Como uma mãe ou irmã mais velha, ela as confortava quando se mexiam e se agitavam, atormentadas por pesadelos. Quando acordavam para o pesadelo real de Auschwitz, ela falava com elas de maneira gentil e encorajadora. Conforto e afinidade eram essenciais para as meninas que não tinham irmãs ou primas junto delas. O cuidado dispensado a elas por mulheres também jovens, mas já alguns anos mais velhas, ajudava a mitigar o terror e o choque das primeiras semanas.

As circunstâncias também causavam certa dissociação ética. As meninas mais profundamente religiosas percebiam que sua moral enfraquecia à medida que a necessidade de sobreviver crescia. Auschwitz era um tipo de jogo cruel que divertia a SS e as Kapos , muitas das quais se deliciavam em jogar prisioneiras contra prisioneiras. As meninas tentavam ajudar umas às outras, mas, quando grupinhos baseados em laços familiares e de amizade começaram a ser formados, algumas acabaram excluídas. Era uma questão de sobrevivência não apenas das mais aptas, mas também das mais afortunadas, com uma feroz competição pelo recurso mais limitado: comida. Todas as meninas do campo chegaram com um código de ética religioso estrito, mas em poucas semanas estavam roubando umas das outras: comida, cobertores, “qualquer coisa que não estivesse ligada ao seu corpo”.

“Eles nos jogavam umas contra as outras. Foi tão horrível”, diz Edith. “Você sempre estava em perigo, e não apenas de perder sua vida, mas de perder sua alma. Quanto mais tempo passávamos lá, mais próximo da alma a lâmina chegava. A moral é algo que, se está embutida em você, não pode ser eliminada, por mais depravada que seja a vida que você é forçado a viver. Eu acho que algumas meninas preferiram morrer a agir com as outras”. Outras simplesmente eram más.

Edie (nº 1949) — que havia chegado com a irmã Ella — admite sem

rodeios: “Eu roubei de tudo.” 137 De fato, quando a Cruz Vermelha enviou pacotes de comida para os prisioneiros no campo, Edie (que tinha o mesmo nome e sobrenome de nossa Edith) ficou com a responsabilidade de distribuí-los entre as prisioneiras. Como havia dois pacotes com o nome dela, ela achou por bem ficar com ambos. Nossa Edith não recebeu nenhum.

“Você não tem ideia do que fará para sobreviver até ser forçado a escolher entre morrer de fome ou comer, congelar ou se aquecer, rezar ou roubar. Você pode orar antes de roubar. ‘Deus, perdoe-me por pegar o cobertor dessa garota porque alguém pegou o meu. Deus, perdoe a garota que roubou meu pacote da Cruz Vermelha para que ela pudesse comer e eu não.’” Aos 94 anos de idade, Edith oferece uma perspectiva rara sobre o incidente: “Depois de todos esses anos, ainda guardo rancor daquela garota. Ela comeu. Eu não. Nós duas tínhamos dezessete anos. Nós duas sobrevivemos. Sabe, mesmo depois de ficar velho, você não se esquece dos males feitos contra você, mas fico feliz em dizer que já tenho idade suficiente para não me importar mais… Você não conhece uma garota até que viva com ela ou, como nós, até que fique presa com ela. É aí que você descobre não apenas quem ela é, mas quem você é. Essa é a questão. Nós éramos adolescentes. Nós não éramos adultas. Ainda éramos jovens, estávamos habituadas a ficar de mau humor, a ser preguiçosas, a fugir de uma obrigação ou a dormir até tarde. Apenas um mês atrás, estávamos rindo e fofocando sobre as últimas notícias da nossa comunidade, e agora víamos garotas morrendo, garotas da nossa idade que deveriam viver para se tornar velhinhas como eu, agora mortas antes do tempo. E, depois, há a pergunta: será que vai acontecer comigo também? Também estarei morta em breve?”.

Há outra coisa que Edith não perdoa. Quando as supervisoras do bloco assumiram seu posto, provavelmente serviam o pão e a sopa em porções igualitárias às companheiras de prisão. No entanto, à medida que os dias passavam e seu próprio estômago também doía de fome, muitas começaram a roubar comida para si e para suas amigas ou parentes. “As Blockältesters [supervisoras de bloco] tinham de cortar o pão em quatro pedaços”, explica Edith. “Mas elas começaram a cortar o meio do pão. Portanto, se houvesse cem pedaços de pão para nós, as supervisoras do bloco ficavam com cem dessas fatias extras do meio para si. Elas próprias as comiam ou davam para suas irmãs ou primas, enquanto o resto de nós passava mais fome.”

Podemos realmente culpá-las? Nós seríamos melhores? Se você tem primas e elas estão passando fome, como se preocupar com estranhos? Mesmo com as porções extras, todo mundo ainda passava fome. “Nenhum judeu jamais esteve com a barriga cheia em Auschwitz”, diz Edith. “Até que você realmente tenha passado fome, não sabe o que é capaz de fazer com outro ser humano.”

Como a comida era a chave da sobrevivência, pegar uma fila em que a pessoa servindo a sopa também a mexia, de maneira que os legumes e a carne de cavalo — ainda que podres — não ficassem no fundo da panela, era uma dádiva de Deus. Uma sobrevivente lembra de garotas gritando “tem carne na minha sopa!” sempre que tinham a sorte de receber algo para mastigar. Linda Reich (nº 1173) cuidava de mexer a sopa sempre que a servia, mas muitas meninas escumavam a superfície e serviam apenas o caldo, guardando o “melhor” para si mesmas. Às vezes, pegar o final da fila ajudava, mas se o caldeirão fosse esvaziado muito cedo e você ainda não tivesse sido servida, acabaria sem sopa.

Linda se lembra de correr para ir tomar a sopa do chamado “almoço”, porque a SS atirava em qualquer uma que fosse para a fila muito lentamente. A morte não tinha lógica ou motivo — vem em um instante, muitas vezes sem aviso. Esta não era uma sociedade distópica criada por algum romancista. Auschwitz era um Jogos vorazes da vida real.

Ao anoitecer, quando finalmente terminavam de trabalhar, as meninas eram forçadas a formar uma fila antes de marchar de volta para o campo. “As últimas da fila tinham que arrastar os cadáveres de volta, porque eles

também precisavam ser contados.” 138 Ninguém queria ser a última da fila — jamais —, especialmente nos serviços de demolição, em que sempre havia várias garotas mortas. Acrescente à crueldade da tarefa a pura exaustão de se ter trabalhado o dia todo, então as meninas quase não tinham mais forças para carregar os cadáveres. Muitas vezes, a garota morta era arrastada pelo chão até que “não tivesse mais pele nas costas”, diz Linda, com tristeza. “Sempre havia sangue na estrada.”

Após a chamada da noite, Linda e outras começaram a notar que algumas das meninas feridas nunca retornavam aos blocos. Nunca. “Era muito estranho”, diz Edith. “Se uma pessoa estivesse doente, se tivesse uma pequena ferida na perna, era separada das outras, recolhida, e não a víamos mais.” Para onde iam essas pessoas? No começo, não lhes ocorreu que as meninas desaparecidas estavam sendo mortas.

Em seu depoimento nos julgamentos de Ravensbrück, em 1945, a prisioneira política e Kapo Luise Mauer relatou que “a máquina criminosa agora estava a todo vapor. Qualquer pessoa considerada inapta para o trabalho ou que fosse descoberta escondida nos blocos pela supervisora [Johanna Langefeld] era morta”. Mauer e Bertel Teege receberam ordens de selecionar as meninas que não pudessem mais trabalhar e enviá-las para o “sanatório”. O sanatório, é claro, agora era uma câmara de gás inteiramente funcional. As duas Kapos decidiram que “preferiam morrer a ajudar esses assassinos fascistas” e recorreram à sua chefe, SS Langefeld. Uma luterana severa, Langefeld frequentemente se via dividida entre os seus valores religiosos e as violentas exigências de seu trabalho, e respeitava o julgamento moral das próprias Teege e Mauer. Em um raro momento de compaixão, Langefeld não as denunciou por insubordinação, o que provavelmente salvou suas vidas.

Quando o trabalho de selecionar mulheres para o “sanatório” foi transferido para outras pessoas, Mauer e Teege iniciaram uma “campanha de sussurros” para alertar discretamente as supervisoras de bloco de que deveriam mandar todas as meninas para o trabalho, ocupando as doentes

com serviços internos. 139 Elas não ousaram explicar por que era necessário enviar meninas doentes para trabalhar. Não podiam confiar a ninguém a informação de que ser enviada ao “sanatório” significava ser assassinada,

ou elas mesmas seriam mortas. 140 Como resultado da campanha, muitas prisioneiras doentes passaram a achar que as supervisoras estavam sendo cruéis ao não permitir que fossem enviadas ao sanatório, e insistiram para que pudessem ir. Essas garotas eram levadas enquanto as demais estavam fora trabalhando — e nunca mais eram vistas.

NO FINAL DE ABRIL, mais de 6.277 jovens, a maioria judias, haviam sido registradas em Auschwitz — 197 tchecas, algumas polonesas que

haviam se escondido na Eslováquia, e as restantes, eslovacas. 141 O número era superior ao da população carcerária total de Ravensbrück. No entanto, desconhece-se a quantidade de mulheres vivas que ainda faziam parte da população carcerária de Auschwitz.

Na mesma época em que uma nova atribuição de trabalho foi criada, a irmã de Erna Dranger, Fela, chegou no oitavo transporte eslovaco. Era 23 de abril. O número de Fela era 6030. Erna e Fela fizeram parte do primeiro grupo de meninas (formado principalmente por “veteranas”) que foram trabalhar na nova atribuição: organizar roupas. Dentre elas, estava também Magda Amster, cujo pai passara a noite tentando salvá-la.

Desde que perdera o sapato, Linda Reich ficava escondida no final das filas durante as chamadas, tentando evitar ser mandada para o trabalho externo. Agraciada com a oportunidade de transferir-se para o destacamento de organização de roupas, ela prontamente roubou um par de sapatos para si. Poucas das garotas responsáveis pela organização se esqueceram de suas amigas, e rapidamente descobriram como furtar itens e trazê-los de volta para as outras. Era isso que elas chamavam de “organização”.

Sapatos eram os itens mais essenciais de que as meninas necessitavam. Como Linda, outras haviam perdido seus tamancos na lama, e andar descalça era um caminho certo para uma morte precoce. Outros itens, como roupas íntimas, sutiãs, lenços e meias, também entraram nos blocos e melhoraram um pouco a vida das mulheres, ajudando-as a se sentirem novamente como tais. Para as meninas que organizavam as roupas, contrabandear essas coisas era como uma rebelião silenciosa contra as autoridades. Era também uma maneira de honrar sua identidade cultural — guardar roupas judaicas para vestir judeus, em vez de vê-las sendo enviadas para vestir os alemães. Ninguém cobrava por esses presentes, pelo menos não no começo. Todas só queriam ajudar umas às outras da maneira como podiam.

“Havia uma garota do nosso transporte que nos trazia algo da cozinha, algo cozido, como uma batata”, lembra Edith. “Ela sabia como fazer isso sem que os guardas a pegassem, porque eles revistavam todas, especialmente as meninas que trabalhavam com comida ou com roupas.” Todas as sobreviventes contam histórias semelhantes, de terem ganhado itens de vestuário de importância vital ou comida contrabandeados por suas amigas. Tal qual o quartzo polonês escondido na terra sob seus pés, ajudar umas às outras endurecia sua determinação de sobreviver e comprimia as meninas em pedras semipreciosas de apoio mútuo.

O serviço de organização de roupas era uma operação bastante pequena nesse momento, mas ajudou a salvar muitas vidas naqueles primeiros dias. Trabalhar internamente organizando roupas se tornou uma das atribuições mais desejadas. O trabalho não era apenas relativamente fácil, mas as meninas também não passavam frio e, se nenhum guarda estivesse olhando, podiam comer os pedaços de comida que encontravam nos bolsos. Obviamente, ser pega significava receber vinte chicotadas e ser mandada de volta ao trabalho duro lá fora. A organização compensava esse risco, no entanto.

As roupas ficavam armazenadas primeiro em um bloco. Nele, Linda e as outras dobravam blusas, saias, casacos e calças, dez por pacote. Em seguida, esses pacotes eram transferidos para outro bloco, onde eram empilhados e guardados. Depois, eram carregados nos vagões para transporte de gado que haviam trazido os prisioneiros e enviados de volta para a Alemanha. Assim, em vez de voltarem vazios, os vagões que transportavam os judeus retornavam carregados de pertences dos próprios judeus. Gravada nos vagões, havia uma mensagem: “Para as famílias que

têm filhos na frente de batalha.” 142

Ainda ignorantes quanto às reais circunstâncias da época, algumas das meninas deixavam nas roupas mensagens em pedaços de papel, na esperança de que as famílias alemãs que as recebessem alertassem as autoridades, que assim tomariam providências: “Achtung! Roupa judaica do campo de concentração”. Elas não sabiam que, na verdade, as autoridades tinham conhecimento de tudo.

COM O AVANÇO DA PRIMAVERA, os campos onde as meninas espalhavam estrume estavam agora sendo lavrados e plantados com brotos de batata. Edith e Lea foram designadas para uma nova atribuição: limpar os riachos e lagoas ao redor do perímetro de Auschwitz, que estavam imundos — cheios de lixo e, às vezes, com ossos humanos enterrados no fundo da lama. Forçadas a entrar na água, elas retiravam o lixo e o depositavam nas margens para ser coletado. “No verão, essa não era uma atribuição tão ruim assim, mas, no início da primavera e no final do outono, congelávamos. Íamos para a cama encharcadas e acordávamos encharcadas. Nós nunca nos secávamos.”

A essa altura, algumas das meninas haviam sido transferidas para

diferentes blocos. 143 Irena Fein estava no Bloco 8 — do qual, Ella (nº 1950), irmã de Edie, provavelmente foi uma das supervisoras. Ella nunca confirmou ter exercido o cargo, mas sua irmã trabalhou como escrevente do bloco, uma posição que teria dado às irmãs certo poder e as ajudado em sua rotina dentro do campo. A essa altura, sua irmã mais nova, Lila, também havia chegado ao campo no terceiro transporte. Se Ella havia sido promovida a supervisora do bloco ou de um dos quartos, fora uma importante promoção. Aos 21 anos, Ella não era apenas mais madura do que muitas das outras meninas, mas frequentara a escola de secretariado e aprendeu habilidades que cedo ou tarde a destacariam para uma posição muito mais importante no campo. Funcionárias como supervisoras de blocos ou de quartos não precisavam mais ter a cabeça raspada.

A desinfecção de piolhos e o corte do cabelo e dos pelos aconteciam a cada quatro semanas, sempre em um domingo. Algumas meninas agora tinham que mostrar-se, nuas, a seus próprios pais e irmãos. Obrigados a fazer o trabalho com pressa, os homens acabavam cortando as meninas com as tesouras elétricas pesadas, especialmente quando tentavam se apressar para terminar logo o serviço nas partes íntimas. O “banho” desinfetante sempre vinha após a depilação. As meninas esperavam sem roupas e em longas filas sua vez de pular no tonel por alguns minutos — esse era o único acesso a água que elas tinham durante o mês, mas o desinfetante não limpava o corpo. Apenas queimava.

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