As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 19 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Quator Ze

 

 

[A narrativa do Êxodo] ensinou a grande lição de solidariedade humana

de que não podemos desfrutar dos frutos da riqueza enquanto outros

comem o pão da opressão .

— JONATHAN SACKS , autor de The Jonathan Sacks Hag gada

NA QUINTA-FEIRA, 2 DE ABRIL, o terceiro transporte chegou a Auschwitz, carregando 965 jovens judias solteiras. Assim como as meninas do primeiro transporte, as desse grupo haviam sido reunidas na parte oriental da Eslováquia e mantidas em Poprad. Muitas eram parentes ou amigas das meninas do primeiro transporte. Entre elas estava a futura melhor amiga de Edith, Elsa Rosenthal, de 16 anos.

Enquanto o sol se punha no horizonte e as torres de vigilância tornavam-se mais sombrias e ameaçadoras, o Bloco 5 era novamente tomado de garotas sendo atacadas por pulgas e percevejos. Era o aniversário de uma semana do primeiro transporte e a primeira noite do Pessach. Em homenagem ao feriado, a SS enviou todas para trabalhar em um “buraco alagadiço como nunca tínhamos visto antes”, diz Margie Becker. O serviço envolvia limpar resíduos acumulados nas lagoas e cursos d’água ao redor do complexo. Em pouco tempo, isso se tornaria uma tarefa imposta como punição, mas, no Pessach, era mais uma tática de aculturação. “Havia uma garota, Ruzena Gross... Ela estava ensopada. Chegamos ao bloco e nos deitamos, mas não havia cobertor, não havia nada. Nós tremíamos

terrivelmente”. 119

Encharcada, Klary Atles, de 26 anos, filha de um dos rabinos de Humenné, saltou do beliche e falou emocionadamente às meninas que tremiam e choravam: “Em casa, todo mundo pegaria pneumonia”, ela disse, tentando animar o espírito das demais, exatamente como fizera no dia em que o trem as levara de casa. “Vocês verão que Deus nos ajudará. Ninguém

ficará doente”. 120 Discursando tão apaixonadamente como seu pai, ela contou como Deus as libertaria, assim como libertara os judeus do Egito. Deus os havia protegido das pragas e Ele as protegeria agora. Deus matou aqueles que haviam escravizado seus ancestrais e mataria agora quem as estava escravizando. Tudo o que elas tinham de fazer era convidar Elias para adentrar seus corações. Se elas pelo menos tivessem à mão copos suficientes para deixar um para o profeta. Se ao menos pudessem abrir a porta sem serem mortas. A convicção de Klary se espalhou pelo bloco, e logo algumas das meninas começaram a celebrar pequenas versões do Sêder em seus beliches. Outras simplesmente caíram no sono.

De alguma maneira, Bertha Berkowitz (nº 1048) conseguiu arrumar um livro de orações hebraicas. Não havia vinho kosher para beber nem as típicas ervas amargas para comer — o gosto azedo da escravidão já era forte o bastante. Bertha sussurrou o texto do Hagadá para Peshy Steiner e algumas de suas amigas, que haviam se reunido nos beliches. Sem pais ou irmãos para conduzir a cerimônia, as meninas tiveram que tomar a dianteira e dizer as bênçãos do Kadish, memorizadas em seus corações após tanto tempo honrando a tradição. No escuro, algumas delas ergueram suas tigelas vermelhas vazias sobre a cabeça e sussurraram: “Bivhilu yatzanu mimitzrayim, halahma anya b’nei horin . Apressadamente saímos do Egito [com nosso] pão da aflição, [agora somos] pessoas livres”.

— Por que esta noite é diferente de todas as outras noites?

É difícil imaginar como elas poderiam responder. Suas lágrimas se derramaram na escuridão.

Sem matzá para partir, sem matzá para comer, o Pessach seria incompleto, mas meninas devotas como Bertha evitaram comer o pão fermentado a semana inteira. “Fiz isso por respeito aos meus pais. Este foi o meu desafio — a única coisa que pude fazer por eles.” Ela cedeu e comeu a sopa horrível e não kosher de carne de cavalo, mas rezou para que Deus a perdoasse.

Uma parte do ritual do Pessach envolve a realização de perguntas cujas respostas ensinam as leis, a ética e a história do povo judeu. As perguntas são feitas a quatro filhos de Israel. Mas havia apenas filhas de Israel naquele bloco em Auschwitz, então a primeira pergunta — “Quais são os testemunhos, os decretos e as leis que o Eterno, nosso Deus, ordenou-lhes?” — teve que ser feita à filha sábia em vez de ao filho sábio. Então, à filha ímpia se deveria perguntar “O que este serviço significa para vocês?”. Mas aqui fazemos uma pausa, porque nesta saga não há garotas malvadas — ainda. Isso estava por vir. Essa pergunta lembrou Bertha, Peshy e suas amigas da importância de não se afastarem daquelas que amavam, de não agir com desapego e falta de compaixão e de não se isolarem umas das outras. Para merecer a liberdade, é preciso participar da comunidade e ajudar os outros. O cumprimento desses estatutos as ajudaria a sobreviver em Auschwitz.

As duas últimas perguntas lembram os participantes de que a alguns falta inteligência, e eles precisam de ajuda para encontrar as respostas, por meio de Deus e da família, que os libertarão da escravidão. Se ao menos isso ainda fosse assim tão simples...

Em 1942, o Holocausto judeu ainda não havia se estabelecido. Foi somente depois do fim da Segunda Guerra Mundial que a tradição judaica adicionou ao Sêder um quinto filho, para representar todas as crianças judias que não sobreviveram, e uma quinta pergunta.

Às vésperas do Holocausto, muitas das meninas que participavam dos rituais secretos do Sêder com Bertha e em outros lugares dos blocos estavam prestes a se tornar aquele quinto filho... E já estavam fazendo a pergunta sem resposta.

“Por quê?”

EXAUSTAS APÓS TEREM LIMPADO TERRENOS ALAGADIÇOS, demolido prédios, tirado neve, carregado esterco e cavado valas, muitas das 997 meninas adormeceram bem antes de terminarem as orações do Pessach. Isso não é incomum no Sêder. As crianças sempre adormecem em suas cadeiras; até os adultos ocasionalmente cochilam. Algumas vozes suaves recitaram as dez pragas, mergulhando os dedos em um pouco da água de suas tigelas vermelhas ou simplesmente imaginando o derramamento de água, uma gota ritual para cada praga e para aqueles que ainda sofrem no mundo. Será que alguém estava sofrendo mais do que elas naquele momento? A afirmação de Helena Citron de que “Auschwitz foi como dez pragas em um dia” ressoou no escuro, enquanto algumas vozes cansadas cantavam “Dayenu ” sem entusiasmo ou alegria. O significado da palavra — “teria sido suficiente” ou “suficiente” — não aliviava as feridas espirituais das recém-escravizadas.

No Sêder tradicional, os participantes estão com tanta fome (e, às vezes, tão bêbados) que, quando as orações terminam, todo mundo ataca a comida posta na mesa com gosto. Em Auschwitz, as orações foram recebidas com mais fome e uma esperança vazia por suas famílias. “Estávamos prontas a dar a vida para ver nossos pais mais uma vez”, diz Bertha.

Não havia porta para abrir e convidar Elias a entrar em suas vidas. Que profeta entraria em Auschwitz, afinal? Com a pouca energia consciente que lhes restava, algumas podem ter meditado sobre a futura chegada do messias, mas a maioria caiu em um sono profundo e exausto. Lembrando as bênçãos de seu pai, a voz suave de Bertha sussurrou os salmos sobre aquelas que dormiam ao seu redor:

Eu amo o Senhor, porque ele ouviu a minha voz; Ele ouviu meu clamor

por misericórdia. Porque ele virou seu ouvido para mim, Eu o

chamarei enquanto viver.

Os cordéis da morte me prenderam,

a angústia da sepultura tomou conta de mim;

Fui superada pela angústia e tristeza.

Então invoquei o nome do Senhor:

“Senhor, salve-me!” 121

O silêncio solene do Bloco 10 foi quebrado por tiros durante a noite: onze prisioneiros poloneses foram fuzilados na parede de execução do lado de fora. Na manhã seguinte — Sexta-feira Santa —, o quarto transporte com 997 meninas e moças judias solteiras chegou ao campo. “No domingo

de Páscoa, 89 detentos e 31 prisioneiros de guerra russos” morreram. 122 Não sabemos quantos desses 89 detentos eram do sexo feminino, mas estava ficando claro que os nazistas não tinham escrúpulos de profanar tanto a religião cristã quanto a judaica.

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