As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Prefácio
por Caroline Moorehead
NINGUÉM SABE AO CERTO, nem saberá, o número preciso de pessoas que foram transportadas para Auschwitz entre 1941 e 1944, assim como quem morreu lá, ainda que muitos acadêmicos estimem cerca de 1 milhão. Mas Heather Dune Macadam sabe exatamente quantas mulheres da Eslováquia foram colocadas no primeiro comboio que chegou ao campo em 26 de março de 1942. Ela também sabe, após pesquisa meticulosa em arquivos e entrevistas com sobreviventes, que quase mil jovens judias, algumas com não mais do que quinze anos, foram reunidas em toda a Eslováquia na primavera de 1942, sendo informadas de que seriam enviadas para prestar serviços ao governo na recém-ocupada Polônia e ficariam longe de casa por não mais do que alguns meses. Poucas delas retornaram.
Tendo baseado sua pesquisa em listas guardadas no Yad Vashem, em Israel, em testemunhos do Instituto de História Visual e Educação USC Shoah e nos Arquivos Nacionais Eslovenos, localizado as poucas mulheres sobreviventes ainda vivas e conversado com seus familiares e descendentes, Macadam conseguiu recriar não apenas o contexto de onde vieram as mulheres a bordo do primeiro comboio, mas também sua vida diária — e morte — durante seus anos em Auschwitz. Sua tarefa tornou-se mais difícil e suas descobertas, ainda mais impressionantes, devido à perda de registros, aos diferentes nomes e apelidos utilizados, além das variações de grafia, e ao período de tempo transcorrido desde a Segunda Guerra Mundial. Escrever sobre o Holocausto e os campos de extermínio não é, como ela diz com razão, fácil. A maneira como ela escolheu fazê-lo, usando a licença de uma romancista para reimaginar cenas e recriar conversas, confere ainda mais realidade ao seu texto.
FOI APENAS no final do inverno de 1940-1941 que a empresa IG Farben se estabeleceu nas redondezas de Auschwitz, convenientemente perto de uma união de ferrovias e várias minas com fornecimento suficiente de água, para a construção de uma nova fábrica de borracha artificial e gasolina sintética. Auschwitz também tinha como objetivo exercer um papel na “Solução Final para a questão judaica”, pois era um lugar onde, além de serem designados ao trabalho, prisioneiros seriam mortos rapidamente, e os corpos, rapidamente descartados. Quando, em setembro, o primeiro experimento utilizando ácido prússico, ou Zyklon B, demonstrou-se efetivo para envenenar e asfixiar 850 prisioneiros, Rudolf Höss, o primeiro comandante do campo de trabalho, viu a resposta ao “problema judeu”. Desde que os médicos do campo lhe garantiram que o gás “não derramava sangue”, ele concluíra que seu uso pouparia seus homens do trauma de testemunhar visões desagradáveis.
Antes, porém, o campo precisava ser construído. Um arquiteto, Dr. Hans Stosberg, foi convidado a elaborar os planos. Na Conferência de Wannsee, em 20 de janeiro de 1942, o Gabinete Central de Segurança do Reich estimou que a Europa ocupada enviaria um total de pouco menos de 11 milhões de judeus. Conforme disse Reinhard Heydrich, segundo na hierarquia da SS, logo abaixo de Heinrich Himmler, eles deveriam ser “colocados para trabalhar de uma maneira adequada dentro da estrutura da Solução Final”. Aqueles muito frágeis, jovens ou velhos demais para trabalhar deveriam ser mortos imediatamente. Os mais fortes trabalhariam e seriam assassinados no devido tempo, já que “essa elite natural, se libertada, deveria ser vista como uma potencial célula germinativa de uma nova ordem judaica”.
A Eslováquia foi o primeiro estado satélite a realizar deportações. Depois de ter feito parte do reino da Hungria por mais de mil anos e, após o final da Segunda Guerra Mundial, integrado a Tchecoslováquia, havia se tornado um país independente apenas em 1939, sob proteção alemã, cedendo grande parte de sua autonomia em troca de assistência econômica. Jozef Tiso, sacerdote católico, tornou-se presidente, baniu partidos de oposição, impôs a censura, formou uma guarda nacionalista e espalhou o antissemitismo, que vinha crescendo desde a chegada de ondas de judeus refugiados da Áustria após a Anschluss . Um censo estimou o número de judeus em 89 mil, ou 3,4% da população.
A ordem para que mulheres judias solteiras entre 16 e 36 anos se registrassem e levassem seus pertences a um ponto de encontro não fora vista inicialmente como alarmante, embora algumas famílias prescientes tenham feito tentativas desesperadas de esconder suas filhas. De fato, algumas das garotas acharam emocionante a ideia de trabalhar no exterior, principalmente porque foram asseguradas de que logo estariam em casa. Sua inocência tornou o choque da chegada aos portões de Auschwitz mais brutal, e não havia ninguém lá para prepará-las para os horrores que estavam por vir.
Nesse mesmo dia, 999 mulheres alemãs chegaram de Ravensbrück, que já estava abarrotado com 5 mil prisioneiros e não poderia receber ninguém mais. Escolhidas antes de partirem por serem funcionárias de perfil adequado, elas supervisionariam o trabalho das jovens mulheres judias, que consistia em desmantelar edificações, limpar o terreno, cavar e transportar terra e materiais, assim como em realizar atividades de agricultura e pecuária. Deste modo, elas liberariam os homens que já estavam em Auschwitz para trabalhar nas tarefas mais pesadas de expansão do campo. Oriundas de famílias grandes e amorosas, acostumadas a modos gentis e a uma vida confortável, as mulheres eslovacas foram recebidas a gritos, despidas e tiveram a cabeça raspada. No campo, eram submetidas a intermináveis chamadas no amanhecer gelado, forçadas a andar descalças na lama e a lutar por comida, recebiam punições arbitrárias e eram obrigadas a trabalhar até a exaustão – frequentemente, até a morte. Elas tinham fome, estavam doentes e apavoradas. As guardas de Ravensbrück foram mais tarde reconhecidas por Höss por terem “superado, em muito, seus equivalentes masculinos em dureza, sordidez, vingança e depravação”. No final de 1942, dois terços das mulheres do primeiro comboio estavam mortas.
E Auschwitz continuou crescendo. Judeus de toda a Europa ocupada, da França e da Bélgica, da Grécia e da Iugoslávia, da Noruega e depois da Hungria, chegavam em grandes quantidades, logo alcançando-se a taxa de três trens a cada dois dias, cada trem consistindo de cinquenta vagões com mais de 80 prisioneiros cada. Em junho de 1943, quatro crematórios estavam em funcionamento, capazes de queimar 4.736 cadáveres por dia. A maioria dos recém-chegados, famílias inteiras com bebês e crianças pequenas, ia direto para as câmaras de gás.
As mulheres eslovacas sobreviventes, agora com corpo e mente mais fortes, desenvolveram estratégias para se manterem vivas, voluntariando-se para os trabalhos mais desagradáveis, encontrando segurança nos serviços de costura e de supervisão da agricultura ou ainda nos escritórios do campo, tornando-se cada vez mais hábeis em escapar do extermínio diário dos mais fracos, daqueles que adoeciam ou que se tornavam muito fracos para realizar algum trabalho útil. Era, conforme observa Macadam, “uma gangorra de sobrevivência”. Os mais afortunados encontravam alguma ocupação junto ao “Canadá”, termo irônico usado na prisão para designar os bens que os nazistas pilhavam dos judeus que chegavam, os quais haviam sido instruídos a levar com eles entre 30 e 45 quilos de coisas que achavam que poderiam precisar. Cobertores, casacos, óculos, louças, instrumentos médicos, máquinas de costura, sapatos, relógios de pulso e móveis abarrotavam uma extensa rede de armazéns, nos quais equipes dos detentos mais afortunados ou astutos, além de mulheres prisioneiras, trabalhavam em turnos contínuos, preparando remessas para colocar nos trens de volta para a Alemanha. Mais tarde, foi estimado que pelo menos dois baús, pesando mil quilos cada e contendo objetos de valor, eram enviados de volta a Berlim toda semana.
Por um longo período, as famílias dessas mulheres eslovacas não tinham ideia de onde elas estavam. Os poucos cartões-postais que chegavam, com referências confusas a pessoas há muito tempo mortas, eram enigmáticos e frequentemente tão peculiares que muitos pais conseguiam persuadir a si mesmos de que suas filhas estavam a salvo, sendo cuidadas de forma apropriada. Mas, com o passar dos meses, o medo se espalhara, tornando-se ainda pior quando novas deportações passaram a levar famílias inteiras. Um dos momentos mais comoventes do livro de Macadam é a chegada de familiares a Auschwitz, recebidos com horror pelas mulheres sobreviventes, que sabiam o destino que aguardava seus pais e irmãos.
Muito foi escrito sobre a experiência de Auschwitz, a batalha pela sobrevivência, o tifo, os gases, as condições cada vez piores, a fome e a brutalidade, e Macadam não se esquiva do horror. Livros como este são essenciais: lembram os leitores modernos de eventos que nunca devem ser esquecidos.
A obra também aborda de modo rigoroso os antecedentes das deportações eslovacas, a vida nas comunidades judaicas antes da guerra, a crescente perseguição aos judeus e a inocência das famílias que preparavam suas filhas para a deportação. Macadam escreve de forma igualmente comovente sobre a tristeza das poucas sobreviventes que, ao voltar para casa, encontraram seus pais mortos, suas lojas fechadas, suas casas e pertences roubados pelos vizinhos. Setenta mil pessoas – mais de 80% da população judaica eslovaca de antes da guerra – haviam morrido, e o regime de partido único do pós-guerra proibiu qualquer discussão sobre o Holocausto. Aquelas que estavam no primeiro transporte saíram de casa ainda meninas. Três anos e meio depois, voltaram como mulheres, mais velhas do que seus anos diziam, pois tinham visto, sofrido e suportado demais. O próprio fato de terem sobrevivido as tornara suspeitas: o que elas haviam feito? De que concessões morais haviam lançado mão para não terem morrido com suas amigas?
HÁ UM RELATO MARCANTE que permanece na mente por muito tempo. Uma das jovens sobreviventes, Linda, depois de escapar de Auschwitz e das marchas da morte que tiraram a vida de muitos sobreviventes, cruzou países mergulhados no caos e devastados pela guerra, sob risco constante de ser estuprada, finalmente se encontra em um trem rumo à sua casa. Os vagões estão cheios de refugiados, então ela segue para a parte superior e lá, empoleirada em um comboio em movimento lento, olha para uma paisagem que não inclui arame farpado, torres de vigia ou guardas segurando armas. Ela está, percebe agora, livre; é primavera e as folhas das árvores estão ficando verdes.
OceanofPDF.com