As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Vinte e Três
Birkenau realmente foi o início do campo de extermínio .
— EDITH GROSMAN
EM 2 DE SETEMBRO, O DR. JOHANN PAUL KREMER — um homem careca, de olhos esbugalhados e muito pouco atraente — chegou para
substituir um dos médicos do campo que adoecera de tifo. 192 Em seu primeiro dia de orientação, o geneticista e professor de anatomia da Universidade de Münster presenciou a desinfecção de prisioneiros, a dedetização de um bloco com gás Zyklon B, a aplicação mortal de injeções de fenol em pacientes doentes e a execução nas câmaras de gás de 545 homens e meninos franceses e 455 mulheres e meninas. Adepto do uso meticuloso de diários, Kremer escreveu em uma página de papel em branco naquela noite: “Presente pela primeira vez em uma operação especial, do lado de fora, às três horas da manhã. Em comparação a isso, o Inferno de Dante parece quase uma comédia. Não é à toa que Auschwitz é chamado de campo de extermínio!”. Isso não pareceu incomodá-lo minimamente.
Ao meio-dia, alguns dias depois, o dr. Kremer acompanhou o médico das tropas, sargento-mor Thilo, até o Bloco 25, onde mulheres e meninas esqueléticas estavam “sentadas no chão” no pátio do lado externo. Pendendo de seus corpos, os uniformes imundos e surrados dos soldados russos. Horrorizado pelos fantasmas vivos de olhos vazios, o dr. Thilo virou-se para o colega e disse: “Estamos no anus mundi [ânus do mundo]”. Ele se referia a mulheres.
Os “cadáveres errantes” no pátio do Bloco 25 eram conhecidos como Musselmen (gíria racista para se referir a muçulmanos), o que significava que eram prisioneiros sem esperança. Esses homens e mulheres doentes e famintos eram mais temidos do que vistos com pena. Ninguém queria se aproximar desses lembretes físicos daquilo que todo prisioneiro corria o risco de um dia se tornar: um zumbi, um golem, um ser humano se transformando em não humano. Apaixonados por seu poder de desumanizar e destruir, os SS os chamavam de “visão terrível”, “os mais horrendos dos horrendos”. Os prisioneiros, igualmente aterrorizados com a visão desses esqueletos frágeis, tentavam ser mais gentis, dizendo que as mulheres “não
estavam muito vivas, mas ainda não totalmente mortas”. 193 Havia um medo profundo entre os prisioneiros de se tornarem tão fisicamente frágeis e tão espiritualmente destruídos, de se tornarem um dia aqueles cujo “espírito que
Deus havia soprado em suas almas fora agora totalmente sugado”. 194 Eles temiam que fosse contagioso. De fato, a doença foi amplamente responsável pela deterioração desses prisioneiros.
O dr. Kremer testemunhou esses mortos-vivos sendo forçados a entrar em caminhões e então transportados para fora da seção feminina em direção às câmaras de gás. Eles nem sequer foram agraciados com a dignidade de entrar no vestiário onde os judeus se despiam antes de entrar nos “chuveiros”. No lugar disso, foram forçados a tirar a roupa do lado de fora para que seus uniformes pudessem ser queimados, em vez de desinfetados. À mercê dos elementos, algum espírito surgiu dentro deles e, então, eles imploraram por suas vidas.
— Por caridade… — eles choraram e imploraram aos homens da SS.
“Todos foram levados para a câmara de gás e executados.” 195
“AS MENINAS MORRIAM diariamente, às dezenas e centenas”, diz Edith. Mesmo que uma garota não pudesse andar, ela tinha que sair para a chamada e ser contada antes de ser levada às câmaras de gás. “Eu conhecia uma garota de Humenné que foi trazida para a contagem em um carrinho de mão, o mesmo carrinho de mão que estava sendo usado para carregar tijolos nas construções.” Ela não lembra o nome da garota.
Quando as meninas não tinham forças para se levantar e ir para a chamada, eram espancadas pelas supervisoras dos blocos e dos quartos. Uma garota foi espancada por não se levantar para trabalhar e, ao final da surra, pareceu sentar-se apoiada contra a parede em sua koja . Elas a contaram sem perceber que tinha morrido. Margie Becker diz: “Ela ficou lá sentada com os olhos abertos” por alguns dias. Ninguém percebeu.
Os ventos fortes do outono varriam as planícies e invadiam os quartéis de Birkenau, que não eram tão hermeticamente fechados quanto os de Auschwitz. Penetravam as aberturas da argamassa, ferroavam a carne tenra das meninas malvestidas. Sem nada que barrasse a ventania, lufadas uivantes assombravam seu sono exausto. Cobertores surrados — um para cada três meninas — mal cobriam seus corpos frágeis. Conforme elas se aconchegavam em busca de calor, bastava apenas uma tosse no cobertor para transmitir as bactérias. Os piolhos rastejavam de uma garota adormecida para outra, espalhando doenças sem preconceitos — e matavam tanto a SS quanto as prisioneiras.
O tifo é uma doença que vive da guerra, da fome e do desastre, e Auschwitz era uma tempestade perfeita para uma epidemia: superlotado,
sem higiene e infestado de piolhos. 196 “A batalha contra as pragas era central e [elas] se tornaram um inimigo mortal”, lembra a Kapo Luise Mauer. Sem terem como tomar banho ou lavar seus uniformes imundos, as prisioneiras estavam à mercê de surtos de doenças. Apesar das desinfecções mensais, o tifo se espalhava sem parar, passando de rato para prisioneiro, de prisioneiro para prisioneiro, de prisioneiro para captor. “Em Auschwitz, ruas inteiras estão infectadas de tifo”, escreveu o dr. Kremer em seu diário.
“O primeiro-tenente Schwartz é um dos doentes”. 197
“O campo das meninas sofreu mais. As pobres desgraçadas estavam
cobertas de piolhos e pulgas”, 198 escreveu Rudolf Vrba, em coautoria com Alfréd Israel Wetzler, em “Auschwitz Reports ” um ano e meio depois. O campo não possuía instalações sanitárias suficientes para o número de mulheres que as usavam. A única fonte de água potável ficava em “um pequeno banheiro, ao qual um prisioneiro comum não tinha acesso”.
Havia tantas doentes morrendo que seus corpos eram descartados do lado
de fora, nos fundos dos blocos do hospital. 199 Deixadas ali, essas infelizes meninas e mulheres eram recolhidas como se fossem toras de madeira e levadas para o crematório. Um dia, não muito depois de ter chegado a Birkenau, Margie Becker ouviu seu nome ser chamado entre os moribundos que agonizavam no chão, sob o sol quente.
“Água, por favor…”
Na foto da sua turma escolar de 1938-1939, tirada em Humenné, Zena Haber está no centro da fila de trás, mais alta do que as outras garotas. Inclinada para a frente, ela parece desconfortável com sua altura e seu corpo. Parece que sorrir nas fotos não era muito popular naquela época, pois quase ninguém sorri no retrato. Os braços estão cruzados ou atrás das costas. Apenas Edith, de pé na última fila, perto de Zena, está de braços abertos; suas mãos tocam a garota sentada embaixo dela, uma amiga de cujo nome ela não se lembra mais. Os cabelos claros cacheados de Zena estão penteados para trás. Com o queixo abaixado, ela parece estar encarando a câmera, mas há uma curva tênue em sua boca, suficiente para imaginarmos que, se a câmera tivesse clicado apenas um segundo depois, teria registrado um sorriso.
“Ela era uma garota alta e bonita”, diz Margie. Agora, sua amiga de infância, uma adolescente, estava morrendo.
Era um dia quente. O sol batia em seus corpos. Zena Haber tinha feridas no corpo e um caroço nos lábios. Não havia água. Nem piedade. Mas havia uma bela jovem morrendo de sede e doente, negligenciada pelo mundo. Margie sentiu-se impotente e culpada — ela não podia fazer nada pela amiga, não tinha como ajudar. E estava com medo de tocá-la. E se ela pegasse a doença de Zena? Dividida entre seu próprio senso de autopreservação e seu desejo de ajudar a amiga, Margie se desculpou com Zena e saiu correndo.
O TIFO SURGIA ABRUPTAMENTE, muitas vezes enquanto as meninas estavam no trabalho. As articulações de Joan Rosner doíam tanto que ela precisou parar de cavar para recuperar o fôlego. Apoiando-se em sua pá, ela sentiu a dor queimar os membros.
“Endireite-se!”, uma de suas amigas sussurrou.
Joan (nº 1188) tentou se endireitar, mas estava muito fraca.
“Ataque!”, a mulher da SS ordenou. Elas ouviram o som das patas contra a sujeira. O hálito quente e fétido golpeou seu rosto quando o cachorro agarrou seu braço, que ela erguera involuntariamente para proteger a garganta. Os dentes do cachorro afundaram em seu bíceps enquanto ela tentava se defender. Por alguma razão, a mulher da SS chamou o cachorro de volta e ele não a matou. Sangrando no pescoço e no braço, Joan voltou a trabalhar como uma louca. Cabeça baixa. Escavar. Escavar. Sem parar. Em meio à dor. O sangue pulsava em suas têmporas. Estava com febre. Escavar. No final do dia, Joan conseguiu atravessar o portão do campo sem ser desviada para o outro lado e desabou na koja, onde dormiu sem pegar pão. No meio da noite, ela se sentou em seu beliche.
“Estou indo para casa.” Ela se arrastou para fora.
“Joan! Onde você vai?”, uma de suas amigas a chamou.
“Minha mãe está me esperando na carruagem”, disse ela com grande naturalidade. E saiu do bloco.
Sair depois do toque de recolher era perigoso, mas sua colega acordou algumas outras meninas e elas correram atrás de Joan, que estava caminhando de propósito até a cerca elétrica e o que ela pensava ser a carruagem de sua mãe.
Elas a agarraram e lutaram para impedi-la de alcançar os fios. Febril e delirante, ela lutou contra elas.
— Onde está minha mãe? — ela perguntou.
— O que você está fazendo aqui?
Ela olhou em volta do campo. Para as torres de vigia. Os holofotes.
— Onde estou?
Sob o manto da noite, elas levaram Joan até o hospital do campo. Ela precisava de pomada e remédios para as mordidas do cachorro e compressas frias para diminuir a febre que atormentava sua mente. As seleções ainda eram uma ocorrência relativamente nova, então as meninas provavelmente não sabiam que Joan poderia ser morta por convalescença. Mas sabiam que ela morreria se tentasse ir trabalhar de manhã.
Entra a dra. Manci Schwalbova. Ela se compadecia ainda mais das garotas eslovacas e tentava fazer o possível para ajudá-las. Mas, naquele momento, o único medicamento disponível para os prisioneiros judeus era carvão vegetal. “Davam-nos carvão para tudo”, diz Joan. Ela ainda teve sorte de conseguir carvão; em meados de outubro, os judeus já não
poderiam usufruir de nenhuma intervenção médica. 200
O hospital pode não ter oferecido muito em termos de remédios, mas pelo menos Joan conseguiu descansar em uma cama de verdade e se hidratar. Sua febre diminuiu e as perfurações dos dentes do cão cicatrizaram. Mas a vida nunca era uma certeza em Auschwitz. Quando ela estava começando a se recuperar, um dos médicos passou pela enfermaria e escolheu dez meninas para ir ao seu consultório, onde ele estava realizando experimentos. Joan foi uma dessas garotas. Felizmente, quando chegaram ao consultório a eletricidade havia acabado. O médico mandou as meninas de volta ao hospital e disse: “Voltem amanhã”.
Joan não estava tão doente assim. Ela sabia que sua vida dependia de não voltar ao hospital e foi direto para o seu bloco, desaparecendo no anonimato das milhares de mulheres ao seu redor. Essa trégua ajudou-a a se recuperar, mas, durante semanas suas amigas tiveram que ajudá-la a passar pelos SS, que pairavam como abutres no portão, ansiosos para alimentar as câmaras de gás com prisioneiras doentes. Ela tinha cinco amigas nas quais podia confiar. Elas estavam sempre juntas — sempre ajudando umas às outras. Ela não revela os nomes delas em seu testemunho.
“Ter alguém que cuidasse de você era muito importante”, diz Martha Mangel (nº 1741). “Todo mundo cuidou de alguém”. Para Martha, esse alguém era sua prima mais velha, Frances Mangel-Tack, que havia chegado no quarto transporte e assumido uma posição desde cedo como supervisora de bloco, assim como sua prima Frida Zimmerspitz. Ambas eram atraentes, inteligentes e astutas. Eta Zimmerspitz (nº 1756) conta que, logo depois que elas chegaram ao campo, Frida reclamou para um dos homens da SS que as Kapos haviam roubado a comida delas e o homem lhe deu um pouco de presunto. “Choramos”, lembra Eta, mas “comemos”.
Frida tornou-se supervisora do Bloco 18 e deu às suas três irmãs posições como supervisoras de quartos e escreventes do bloco. Sua prima Frances não seria supervisora de bloco por muito tempo. Em vez disso, ela se tornaria uma das poucas Kapos judias em Auschwitz, uma posição que faria dela alguém de má reputação entre as prisioneiras.
O ROSH HASHANÁ — o ano-novo judaico — e as Grandes Festas chegaram com o primeiro rubor do outono. Folhas de bétula douradas cintilavam no chão, cobrindo as covas comuns com uma manta amarela. Bandos de estorninhos sobrevoavam aquele mar de sofrimento humano. Com as recém-chegadas entrando no campo, as meninas souberam quando começava o Yom Kipur. Quando o sol se pôs atrás das torres de vigia, muitas meninas, apesar da fome lancinante, começaram a jejuar.
“Do que eu jejuei?”, Bertha Berkowitz (nº 1048) se pergunta. “Ficávamos sem comer o ano todo, mas eu jejuei.”
O jejum renovou sua fé e espírito, deu-lhes coragem para resistir à tentação do desespero. Apesar das injustiças diárias que estavam sofrendo, a SS não conseguira dobrar sua fé.
Não era incomum que a SS usasse os feriados judaicos como uma oportunidade de punir judeus e desonrar tradições sagradas. Algumas semanas após o Yom Kipur, o feriado da colheita judaica chegou. O Sucot é uma feliz celebração da colheita e da abundância, por isso, seria o momento perfeito para se fazer uma colheita de judeus. A partir de primeiro de outubro e nos três dias seguintes, o campo feminino não trabalhou. Em vez disso, as meninas foram forçadas a ficar em posição de sentido o dia inteiro — nuas —, esperando para passar pelo comitê de seleção, que, com um sinal dos polegares, as enviava para a vida ou para a morte — à esquerda ou à direita. Ao final do Sucot, 5.812 mulheres haviam sido enviadas para as
câmaras de gás. 201 A ala hospitalar agora estava vazia.
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