As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Nove
A história tem falhado com quase todos aqueles que são banais .
— MIN JIN LEE
POPRAD, QUINTA-FEIRA, 25 DE MARÇO DE 1942
O TELEGRAMA DO ESCRITÓRIO DE KONKA 76 que tratava da questão da “libertação preliminar do trabalho” para os judeus, de acordo com a
emenda nº 255, 77 foi enviado “a todos os governadores de distrito, policiais e diretores de Bratislava e Prešov, entregue a suas próprias mãos” e marcado como “Confidencial e urgente”. Entre as meninas que a emenda poderia ter salvado estavam Edith e Lea, Adela Gross, Magda Amster, Magduska e Olga Hartmann.
É provável que as judias que pediram uma exceção de acordo com a
cláusula foram autorizadas a trabalhar [grifo nosso] e foram incluídas
nas listas.
Os governadores estão cientes desses casos, pois esses pedidos
foram enviados pelos escritórios ou pelo escritório do presidente para
serem examinados.
Peço aos oficiais (presidentes) que não convoquem essas judias e
que as removam das listas como pessoas adicionadas às listas por erro.
Em guarda!
Em nome do ministro:
Dr. Konka
Não podemos deixar de notar o eufemismo presente em “foram autorizadas a trabalhar”. Também está claro no telegrama que o presidente Tiso ainda não havia aprovado as isenções de trabalho para ninguém. As listas regionais de trabalhadores importantes, conforme definido no nº 255, podem ter sido apresentadas por prefeitos e governadores das várias regiões do país. Elas talvez tenham sido enviadas ao governo em Bratislava, mas então o processo se tornara mais moroso, enquanto o presidente Tiso decidia quem “poderia trabalhar”. Então, o prefeito de Humenné, que havia dito ao sr. Friedman que suas filhas tinham que se apresentar para o serviço porque era isso que a lei dizia, agora recebia ordens para fazer exatamente o oposto: elas deveriam ser removidas das listas.
Mas a lista já havia sido feita. As meninas estavam prestes a ser deportadas.
No início, houve apenas uma resposta ao telegrama de Konka. A Filial do Distrito do Centro Judaico na cidade de Levoča enviou um telegrama a Konka solicitando que três de suas residentes fossem libertadas. Eram garotas que Ivan Rauchwerger conhecia.
A data no telegrama está manchada, 78 quase ilegível após 75 anos. Tiras de fita adesiva foram coladas à folha de papel retangular, que se tornou quebradiça com o tempo. Os selos estão rasgados.
dept. 14 [sic]
Levoča
Magdalena Braunova, nascida em 28 de março de 1926, foi levada a
Poprad para cumprir seu dever de trabalho após completar 16 anos
Hermina Jakubovicova, nascida em 14 de agosto de 1921, foi,
durante a apresentação feminina em 26 de fevereiro de 1942,
reconhecida como incapaz de trabalhar; apesar disso, ela foi levada
para o campo de Poprad em 23.3.1942
Lenka Szenesova (sobrenome de batismo Singerova), como pessoa
casada, também foi levada para Poprad e as três pessoas mencionadas
foram levadas por engano para cumprir seu dever de trabalho,
portanto, pedimos que você faça uma correção e as envie para casa.
Filial do Distrito do Centro Judaico Levoča
Então, uma enxurrada de telegramas de judeus desesperados começou a chegar ao ministério.
Em Poprad, preparativos muito diferentes eram feitos. No jantar daquela quinta-feira, as meninas de Levoča (Magdalena, de 15 anos, Hermina, incapacitada, e Lenka, casada) estavam na fila para sua porção de algo chamado de “goulash”, embora mais parecesse lixo. A refeição continha, de acordo com as instruções alimentares, a quantidade total de carne da semana: cem gramas — menos do que se tem em uma lata de comida de gato. Essa seria a última refeição real que elas consumiriam pelos próximos três anos. Isso se elas sobrevivessem aos próximos três anos.
À tarde, os guardas gritaram para que todas reunissem suas coisas e fizessem fila do lado de fora. Havia uma estranha sensação de alívio. Após o estresse constante causado pelo desconhecido, a sensação de que um destino horrível as esperava e os dias aguardando no quartel, as meninas enfim estavam indo para algum lugar. Impacientes, elas juntaram suas poucas coisas e conversaram entre si, adivinhando, sempre adivinhando: será que elas estavam indo para a fábrica agora? Iam começar a trabalhar em breve? Será que seriam mais bem alimentadas na fábrica?
Organizar mil pessoas para fazer qualquer coisa raramente é uma tarefa fácil. Houve gritos entre as garotas. Irmãs e primas apressavam umas às outras. Caos.
Ninguém havia trazido tanta coisa assim. A maioria das jovens ainda usava o que tinham vestido no dia em que saíram de casa. Casacos de lã, sapatos práticos, leggings de lã, talvez meias-calças para as meninas da cidade. As meninas vindas dos vilarejos usavam saias mais longas e blusas tricotadas à mão. Todo tipo de adorno, de chapéus da moda a lenços ao estilo babushka , cobria a cabeça das meninas.
NO INÍCIO DO DIA, pelo menos dois médicos judeus haviam se apresentado em Poprad após receberem ordens para acompanhar um comboio de garotas. Devia haver sete médicos judeus no transporte. Quando o dr. Weiszlovits chegou, ele foi informado de que seus serviços não eram mais necessários e dispensado. As autoridades lhe disseram que havia médicos suficientes para o transporte, mas, de fato, havia apenas um,
o dr. Izak Kaufmann. 79 Evidentemente, um médico era suficiente para 999 mulheres jovens.
Há alguma confusão sobre a presença do dr. Kaufmann no transporte. Alguns acreditam que o dr. Kaufmann substituiu a última garota da lista, Giza Neuwirth, de 25 anos, mas isso não coincide com os registros do Yad Vashem. A sua presença no quartel não teria como ser encoberta; ninguém se esqueceria da presença de um homem entre as garotas, muito menos de um médico, mas nenhuma sobrevivente menciona um médico no quartel. Certamente, Edith nunca o viu. E, quando nossa jovem testemunha, Ivan Rauchwerger, foi a Poprad para ver sua namorada, pediram-lhe que levasse alguns remédios usados pelas garotas. Se houvesse um médico no quartel, por que as meninas teriam pedido medicamentos?
O dr. Kaufmann foi recrutado como parte do estratagema das autoridades e, assim como o dr. Weiszlovits, deve ter chegado no dia da partida. O nome dele não se encontra em nenhum lugar da lista com os 999 nomes de meninas, datilografada em 24 de março de 1942. Ele só é encontrado no rodapé de uma lista separada, juntamente aos nomes de 99 das meninas. Ao lado de seu nome, lê-se que ele era o único médico para mil “pessoas”.
QUANTO TEMPO É NECESSÁRIO para se encher um trem de carga com quase mil mulheres? Será que ainda era luz do dia quando a última delas saiu para respirar o ar fresco da montanha e enviar uma oração a Deus, agradecendo por estar livre do horrível quartel?
Aquele momento de trégua desapareceu quando os guardas ordenaram que elas marchassem para a linha do trem.
Era a fila mais longa de vagões que Edith já tinha visto. Até os trens usados no mercado de gado eram menores. O tamanho fez com as meninas tremessem. “Não achamos que aqueles vagões eram para nós”, diz Linda Reich. Então, a Guarda Hlinka abriu as portas dos vagões para gado e ordenou que as meninas entrassem.
Quem, em sã consciência, embarcaria de bom grado em um trem de carga como aquele? Não havia rampas. As rampas eram usadas para o gado embarcar, mas não para seres humanos. Como elas poderiam entrar? Os vagões eram muito altos em relação ao solo para que pudessem ser alcançados por garotas que trajavam saias e carregavam bagagem. Nenhuma delas sabia como subir a bordo e nenhuma delas queria. Elas travaram diante da ideia.
Os guardas começaram a xingar e gritar. “Vamos, vadias judias. Vamos.”
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A caçula de três irmãs, Regina Schwartz, perguntou ingenuamente: “Para onde vocês vão nos levar?”.
“Para a frente de batalha, para que os soldados alemães possam se divertir com vocês”, disseram os guardas, rindo.
Eram homens frios, que não se importariam quando as meninas começassem a chorar. Chicotes seriam utilizados caso houvesse lágrimas.
“Como um animal”, Margie Becker diz sobre o modo como um homem da SS a encarou. “Ainda me lembro dos olhos azuis dele, penetrantes olhos azuis. Ele colocou a língua para fora...”. E, ofegando para ela, disse em alemão: “Agora suas línguas também vão ficar para fora”. Era uma intimidação e uma ameaça; logo elas sentiriam fome e sede. “Foi muito horrível.”
Embora o primeiro transporte tenha partido secretamente à noite, uma semana depois, quando já estava partindo de Poprad o terceiro transporte, vários pais haviam alugado carros “para ficar com as filhas, desesperados por terem de se separar de suas crianças. As meninas eram transportadas em vagões para gado — cada um com uma placa que dizia ‘oito cavalos’ ou ‘quarenta pessoas’. Essa era a última visão que seus pais, desesperados, tinham delas”, lembra Ivan Rauchwerger. “As meninas estavam confusas, inquietas, e muitas choravam.” É improvável que as garotas do terceiro transporte tenham apanhado e sido forçadas a entrar nos vagões, como as do primeiro transporte, porque agora havia testemunhas: muitas pessoas, tanto judeus como não judeus, vieram a Poprad ver as meninas sendo levadas embora.
“Tentávamos manter nossa feminilidade, mas não havia como entrar no
trem com as saias e os vestidos”, 81 diz Edith. Para evitar os golpes nas costas, elas tiveram que ajudar umas às outras a subir nos vagões e a carregar suas bagagens, sem ajuda dos homens. As moças mais velhas lutavam para manter a compostura e a dignidade. As adolescentes choravam histericamente. Eram boas meninas. Meninas cujos pais pagavam impostos e cumpriam a lei. Meninas que se registraram obedientemente para trabalhar porque seu governo lhes havia dito que deveriam fazer isso, mesmo que muitas nunca tivessem ficado longe de casa nem por um dia em suas vidas. O que aquelas boas meninas faziam em vagões usados para transportar o gado para abate, vagões que ainda cheiravam a esterco, urina e medo?
Edith e sua irmã se abraçaram, mas Edith pouco se lembra da viagem de trem. O cérebro só pode processar as coisas até certo limite. Depois de tantas atrocidades, a mente daquelas jovens simplesmente deixou de processar o horror. A realidade havia se tornado um pesadelo do qual elas não conseguiam acordar.
APESAR DE TER SIDO DISPENSADO, o dr. Weiszlovits não deixou a estação Poprad imediatamente. Em vez disso, ele viu horrorizado aquelas jovens carregando suas bagagens e sendo empurradas para dentro dos vagões de gado. Depois, ele correu para casa e disse à esposa que a Eslováquia “não era lugar para uma criança”. Eles cuidaram para que seu filho de 12 anos, Yehuda, fugisse antes que fosse tarde demais. Ele foi levado para a Hungria, onde se escondeu pelo resto da guerra. Yehuda
sobreviveu ao Holocausto. Seu pai e sua mãe, não. 82
QUANDO CAIU A NOITE e a última das meninas subiu a bordo, os guardas caminharam ao lado do trem, verificando se as barras de metal das portas estavam aferrolhadas com segurança. Do lado de dentro escutavam-se vozes agudas lamentando e suplicando. Os guardas batiam nas portas e seguiam em frente, acenando quando cada vagão era liberado para partir. O condutor tocou o apito. A luz do sinal mudou de vermelho para verde. O motor acelerou-se. O chefe da estação acionou o desvio e o transporte avançou para a pista principal. Conforme os vagões balançavam para a esquerda e para a direita, pois o peso da carga era insignificante demais para manter o transporte equilibrado e rijo, o chefe anotou no registro da estação: Horário de partida : 20:20 .
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