As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Seis
Não foi culpa dos meus pais, eles não sabiam que era meu destino .
— o ROSE , n 1371 (EDITH GOLDMAN )
FOI O CHEFE do Departamento Judaico, Gejza Konka, quem teve a ideia de fazer com que as ordens individuais de deportação fossem entregues em cima da hora, assim ninguém teria tempo suficiente para escapar ou se
esconder. 56 Obviamente, o anúncio dos primeiros transportes havia sido publicado com duas semanas de antecedência, portanto, Konka deve ter decidido alterar essa política quando as cotas pretendidas não foram alcançadas. No mandato de seu sucessor, as deportações às vezes eram executadas dentro de poucas horas. As famílias que viviam em vilarejos com menos de vinte pessoas não tinham ideia do que estava acontecendo nas cidades. As notícias das ordens para as jovens ainda não haviam chegado às comunidades mais rurais. Ninguém nesses pequenos povoados sabia sobre os pedidos de isenção — não que essas pessoas fossem ricas o bastante para comprar uma ou suficientemente importantes para serem consideradas.
Apesar das garantias do prefeito de Humenné de que as exceções para as meninas dos Friedman e de outras famílias locais supostamente importantes logo seriam providenciadas, a papelada não havia chegado. Para cidadãos que sempre cumpriram a lei, infringi-la nunca é uma decisão fácil, por isso, na manhã de 20 de março, a maioria das famílias levou suas filhas aos centros de registro, conforme ordenado. As garotas Friedman estavam entre as que cumpriram as ordens. Elas podiam levar consigo uma bagagem de até quarenta quilos, mas “não tínhamos quarenta quilos para levar conosco”, diz Edith. Ela e a irmã dobraram suas melhores roupas — um suéter, uma saia, algumas calças legging quentes — porque é isso que você coloca na mala quando precisa ir a algum lugar, suas melhores roupas. A mãe embrulhou o pão caseiro em um pano e o acondicionou na mala de Lea. Esforçando-se para transparecer tranquilidade, elas se convenceram de que estavam cumprindo um dever pelo país. Lea beijou a mãe primeiro, depois foi a vez de Edith. Quando saíram de casa, não tinham dúvida de que voltariam em algumas horas.
A ideia de deixar os pais e a família por três meses era assustadora para muitas daquelas jovens criadas em casas religiosas e protetoras. Giora Shpira se lembra de sua mãe e da mãe de Magda lavando o cabelo das respectivas filhas com água da chuva, para que as madeixas compridas das meninas ficassem macias e limpas. Eram garotas muito amadas, que não fariam nada de errado. Seus pais fariam qualquer coisa por elas.
Algumas garotas pensaram que estavam embarcando em uma aventura. 57 Margie Becker confessa que deixar sua família para “trabalhar na fábrica de calçados” foi a primeira vez em que ela desobedeceu seriamente à mãe. “Minha mãe disse: ‘Você não precisa ir’. Eu queria ir com minhas amigas. Os amigos são muito importantes nessa idade. Então, eu não queria ser
deixada para trás.” O mesmo aconteceu com Adela e sua amiga Gizzy. 58 Elas não tinham medo do trabalho e pensavam nele como uma chance de provar aos eslovacos e aos alemães o quanto estavam errados sobre os judeus. Elas iriam lhes mostrar quão fortes as judias eslovacas realmente eram.
Piri, Eta, Rena, Fanny, Olga, Marta, Ida e centenas de outras jovens de toda a Eslováquia, diante do espelho, escovavam os cabelos e garantiam a si mesmas: Tudo vai ficar bem, você voltará para casa em alguns meses, e então você se casará, terminará o ensino médio e começará sua vida...
Por que alguém deveria duvidar do que lhes havia sido dito?
“REGISTRAR-SE” ERA a apresentação oficial para o serviço, mas não necessariamente seu início imediato. Sendo assim, as meninas se apresentaram acreditando que voltariam para casa para o Sabá. Essa era a armadilha que Konka cuidadosamente preparara — o fator surpresa era primordial.
As lembranças sobre o momento do registro variam de comunidade para comunidade. A única memória constante é de que a atmosfera nos prédios onde as meninas se registravam era surreal e estranha. Em Humenné, o prédio usado era uma escola; em Prešov, o quartel dos bombeiros; em Bardejov, a prefeitura. Sem saber o que esperar, mas confiantes de que estavam fazendo a coisa certa, alguns pais nem sequer acompanharam suas filhas aos centros de registro. Se o fizessem, seriam forçados a esperar do
lado de fora, sob a garoa de março, 59 que derretia os últimos resquícios das tempestades de neve de fevereiro.
As meninas das vilas vizinhas chegaram a pé ou em carroças puxadas por cavalos, com as botas cobertas de neve e lama. Acompanhadas de irmãos ou dos pais, elas saíram de manhã cedo para chegar à cidade a tempo. Como as garotas da cidade, elas estavam vestindo suas melhores roupas para o Sabá. Nem todas essas meninas das comunidades periféricas eram desconhecidas; muitas tinham parentes na região. Diversas famílias rurais entregaram suas filhas de bom grado, gratas pela oportunidade que as meninas tinham recebido de apoiar financeiramente suas famílias empobrecidas.
As garotas da cidade, que haviam demorado para se arrumar em casa, agora corriam para o local de registro. Mães por todos os lados das ruas de Humenné acenavam para suas filhas, dentre elas Klary Atles (a filha do rabino abastado), a desajeitada Zena Haber, a linda Helena Citron, a impetuosa Margie Becker, a escultural Ria Hans e sua irmã mais nova, Maya, de cabelos crespos, e as amigas de Lea, Anna Herskovic e Annou Moskovic, com sua fatia extra de pão feito pela sra. Friedman. Junto a Edith e Lea, garotas que se conheciam pela vida inteira atravessaram os trilhos do trem e subiram a rua até o prédio da velha escola.
Um policial estava parado na porta, instruindo os pais a ficar do lado de fora e esperar. As garotas se organizaram em uma única fila e entraram na escola em que não tinham permissão para estudar havia mais de um ano. O policial conhecia a maioria das meninas desde que eram crianças presas à saia de sua mãe. Afinal, todo mundo conhecia todo mundo em Humenné. Ele sabia de alguma coisa? Se sabia, não deixou transparecer. As persianas das janelas foram fechadas para que ninguém pudesse ver nada.
Podemos imaginá-las entrando obedientemente no prédio: Anna Herskovic, com cabelos de um loiro-avermelhado ao lado de Helena Citron, de cabelos negros, seguida da ruiva Adela Gross. Tinham cabelos escovados e lustrosos, com os cachos caindo sob os chapéus de inverno. Adela parecia um pouco perdida sem a irmã mais velha. Edith olhou em volta cautelosamente, mas ficou perto da própria irmã. Edith só estivera longe de casa antes para visitar seu tio em Stropkov, e a ideia de sair de casa por alguns meses já a enchia de ansiedade. Pelo menos ela estaria com a irmã e as amigas.
“Somos fortes e jovens. Isso não será nada”, 60 vangloriou-se uma das amigas de Adela, seu entusiasmo juvenil incentivando as outras a serem otimistas.
As meninas sussurravam entre si enquanto a fila avançava até duas mesas longas, onde nomes eram fornecidos e desculpas bem preparadas eram ditas. As meninas mais ricas falavam com propriedade — haviam lhes prometido exceções e por isso deveriam ser dispensadas do serviço. A qualquer momento, seus pais viriam correndo pela rua, agitando os papéis que as excluiriam do trabalho obrigatório. Confiantes de que seriam tratadas com respeito por causa da posição de suas famílias na comunidade, essas meninas mais ricas escondiam quaisquer dúvidas e preocupações sob um semblante audaz. As meninas mais pobres se curvavam ao destino ou suplicavam por libertação, entregando aos funcionários um pedaço de papel que reconhecia sua condição como responsáveis pelo ganha-pão de suas famílias. Nenhuma das autoridades civis respondeu a esses difíceis apelos ou prestou atenção à posição social dos pais das meninas ricas.
Se alguém era confiante o suficiente para dizer algo sobre as isenções, esse alguém era a garota da família judia mais rica de Humenné. Orgulhosamente, Adela Gross olhou de cima a baixo para os homens intimidadores, suas sobrancelhas arqueadas no formato de uma pergunta silenciosa, e, em seguida, os informou de que seu avô era Chaim Gross, o tão reconhecido magnata do setor madeireiro. Uma exceção lhe havia sido prometida pelo próprio presidente Tiso. Eles a miraram com desdém.
— Próxima!
Existe um olhar que os homens dão quando não querem ser incomodados por uma mulher, um olhar tão desdenhoso que ela se sente ao mesmo tempo desconsiderada e invisível. Esse era o olhar que as meninas recebiam. Para muitas, foi a primeira vez que elas haviam enfrentado tamanha desumanização.
Edith notou que, na grande mesa ao lado das autoridades civis, havia vários guardas da Hlinka e um homem da SS. Isso a surpreendeu. O que a SS tinha a ver com eles?
Era uma boa pergunta. Se soubessem a resposta, seus pais, vizinhos e toda a comunidade poderiam ter oferecido mais resistência. Mas não sabiam, e, embora garotas inteligentes como Edith tenham notado a situação e se questionado a respeito, elas sabiam que, nesses casos, era melhor nem questionar. Ninguém teria respondido, de qualquer maneira. Quem responde às perguntas de garotas?
Enquanto seus nomes iam sendo riscados na lista, elas foram questionadas sobre sua profissão: costureira, ajudante doméstica, chapeleira, operária. As adolescentes que ainda moravam com os pais eram
listadas como “domésticas”. 61 Nenhuma foi considerada como apenas uma “criança”. Com mais de cem meninas agora no prédio, elas foram instruídas a tirar as roupas para que um médico pudesse fazer um exame físico. As meninas congelaram com essa ordem. Nenhuma delas jamais havia se despido na frente de um homem. As autoridades pareciam encantadas com o terror absoluto nos olhos das meninas. Os homens deram ordem para que se despissem. Relutantemente, lentamente, Edith e suas amigas começaram a desabotoar e abrir os zíperes de suas blusas e saias.
Margie Becker usava dois casacos, um cinza mais claro e seu melhor casaco bege por baixo, para mantê-la aquecida. Ela parecia muito elegante, mas não menos do que as outras garotas ricas de Humenné. Dobrando seu lindo vestido azul com cuidado, ela hesitou ao pensar em colocá-lo no chão, que estava sujo da lama trazida de fora. Outras garotas também hesitaram e procuraram uma maneira de pendurar suas roupas adequadamente nos ganchos da parede.
— Este é um exame físico! Tirem tudo! — um dos funcionários berrou.
De pé, de calcinha e sutiã, elas envolveram os braços estreitos em volta das cinturas e seios e tremeram.
“Tínhamos muita vergonha de estar ali na frente de homens sem nossas roupas”, lembra Edith. Um médico não judeu subia e descia as fileiras examinando seus corpos em desenvolvimento.
“Abra!”, ele gritava, espiando dentro de uma boca. “Coloque sua língua pra fora.” Ele examinava a língua delas.
Edith zomba de suas memórias. “Não era um exame físico.”
“A convocação era uma chance para diversão barata e obscena, com garotas sendo despidas por decreto oficial”, escreveu Ladislav Grosman anos depois.
“Se eles queriam ver os seios de uma garota, eles a faziam remover o sutiã”, confirma Edith. “Eles não estavam interessados nos meus.”
Atrás do médico, um funcionário folheava as páginas de sua lista, buscando Citron em uma página. Gross em outra. Checado. Ele deveria fazer anotações relativas à saúde das garotas, mas “todo o exame era uma mentira”. Se elas eram saudáveis ou não, não importava. Os oficiais precisavam apenas parecer se importar; na realidade, eles não precisavam se importar.
“Como você está se sentindo?”, o funcionário perguntou a Edith.
“Sinto tonturas com frequência.”
“Todo mês?”, ele sorriu desdenhosamente.
Ela se sentia mais um animal de fazenda do que um ser humano. Amontoadas como um rebanho de ovelhas perdidas, as meninas estremeciam sob os olhares dos homens. Por que não havia governantas, como na escola, para protegê-las dos olhares de luxúria dos funcionários? Por que os seus pais não estavam lá? O único conforto que elas tinham era que faltava pouco para o Sabá, em poucas horas tudo terminaria e elas seriam liberadas para abraçar sua mãe sob a luz de velas e bênçãos. Tudo que Edith queria era ouvir o pai cantar “Shabat Shalom ” e sentir seu abraço forte e reconfortante.
Do lado de fora, na calçada, os pais sacudiam as pernas para impedir a dormência nos dedos dos pés. Algumas horas já haviam se passado e todos os judeus da cidade, bem como metade dos não judeus, circulavam nos arredores da escola sentindo-se confusos e angustiados. O que antes havia sido fofoca agora era realidade, e ainda havia perguntas a serem feitas. O que eles estavam fazendo com as meninas? Por que estava demorando tanto? Elas nem sequer almoçaram!
Vozes impacientes surgiram do lado de fora da escola:
— O que está acontecendo com nossas garotas?
— Elas estão indo trabalhar.
— Que tipo de trabalho?
— Ouvi dizer que era uma fábrica de sapatos.
— Não pode ser apenas uma fábrica.
— Por quanto tempo?
— Três meses.
— Onde fica essa fábrica?
Ninguém sabia as respostas.
LÁ DENTRO, AS IRMÃS FRIEDMAN ESTAVAM junto de garotas que conheciam pela vida toda. Algumas eram amigas de Lea, outras, de Edith. Todo mundo se conhecia do mercado, da sinagoga, de mergulhar no rio em um dia quente. Havia também mais de cem meninas que elas não conheciam muito bem, que tinham vindo das províncias. Sob o olhar lascivo dos homens, as meninas passaram a compartilhar um novo tipo de afinidade silenciosa. Centenas de rostos pálidos e ansiosos se espelhavam uns nos outros. Classes sociais não as dividiam mais. Elas eram iguais em seu medo.
Rena, uma das refugiadas polonesas, havia deixado sua mala na casa onde trabalhava como babá. “Alguém a levará para buscá-la”, disse o policial. A prima de Erna, Dina, havia decidido se esconder, mas em algum momento da tarde entrou tropeçando na escola, escoltada pela Guarda Hlinka; o rosto dela estava vermelho de humilhação, o cabelo despenteado. Ela foi encontrada e presa.
O tempo passava devagar e as adolescentes ficavam cada vez mais impacientes e irritadiças. Então, as engrenagens do governo começaram a se mexer. Novas ordens foram dadas. Vestir-se. Mover-se. As autoridades — homens em sua totalidade — estavam gritando.
— Peguem suas coisas!
— Entrem na fila!
— Mexam-se!
Assustadas não apenas pelas instruções, mas pela dureza das ordens, as garotas trombavam umas nas outras enquanto se vestiam e se dirigiam a uma porta aberta. Cercadas por guardas armados, elas saíram sob o crepúsculo.
Na frente da escola, alguém gritou que as meninas estavam saindo pela saída de emergência nos fundos. A multidão correu pela rua lateral. Alguns pais voltaram apressados para casa a fim de preparar o jantar das filhas, certos de que elas estariam famintas e logo chegariam. Outros correram até a fila de garotas e chamavam seus nomes. Perguntas surgiam entre as pessoas: para onde elas estavam sendo levadas? Quando elas voltariam?
Margie Becker conhecia um dos guardas da Hlinka e perguntou a ele se podia ir à sua casa para se despedir de sua mãe. Ele a retirou da fila e desceu a rua com ela. Parada ao lado de um de seus vizinhos, “do qual também era parente”, a mãe de Margie segurava a cortina da janela, apertando-a com as mãos. Ela não queria chorar na frente do guarda, embora o conhecesse desde que ele era menino. Por que ele, de todas as pessoas, estava levando a filha dela, sua amiga de infância, embora? Lágrimas escorreram por seu rosto enquanto ela sussurrava para a filha que “não lhe daria a satisfação de vê-la chorar...”. Após entregar a Margie um pouco da comida que preparara para o Sabá — “chalá fresco e alguns hambúrgueres” —, ela lhe deu um beijo de despedida. Seria a última refeição kosher que Margie faria pelos próximos três anos. Foi também a última vez que ela viu sua mãe.
De volta à fila de garotas, Margie arrastava sua bagagem junto com as amigas. Primeiro pela rua principal. Depois pela rua Gross. Malas chocavam-se contra canelas e tornozelos arranhados, suas alças praticamente enterradas nas palmas das mãos das meninas. A mala de Edith pesava quase tanto quanto ela. Seus irmãos sempre brincavam que, se viesse um vento forte, poderia soprá-la para longe. A mão de sua irmã agarrou a alça para com ela compartilhar o fardo. Lágrimas ardiam nos olhos de Edith. Algo estava errado. Ela podia sentir isso em seus ossos, mas era tarde demais para correr ou se esconder. Procurando pela a segurança dos adultos na multidão, ela encontrou apenas pesar.
A notícia de que as meninas estavam sendo levadas diretamente para a estação ferroviária se espalhou pela cidade instantaneamente, e toda a população de Humenné correu pela rua Ševčenkova para chegar à estação de trem de estuque amarelo e vermelho antes que fosse tarde demais.
Cercadas pelos guardas da Hlinka, com suas feições severas, uniformes pretos e armas, as mais jovens começaram a chorar. Os guardas afastaram para trás as mães que tentavam se aproximar para abraçar suas filhas. Edith procurou freneticamente por seus pais em meio à crescente multidão. Ela os viu. Chorou mais. Vozes ansiosas chamavam. Irmãos para irmãs. Mães e pais. Tias e tios. Primos, avós, amigos. Nomes surgiam no ar frio, misturados com orações. Quantas garotas estavam lá? Mais de duzentas. Quantas lágrimas? Lágrimas demais para contar.
“Estávamos com tanto medo do que poderia acontecer que não conseguíamos pensar”, lembra Edith. “À nossa volta, todas as meninas choravam.”
Lamentações. Lágrimas e acenos. Acenos e lágrimas. O forte vento de março soprava das montanhas. Lea agarrou a mão de sua irmã para que Edith não fosse levada junto com as folhas secas e pela tristeza.
Na estação, um trem de passageiros aguardava. Forçadas a dirigir-se à plataforma, as meninas carregavam suas bagagens pelas escadas de metal dos vagões e subiam a bordo. Aglomerando-se nas janelas, elas se despediram de seus pais e familiares. Lou Gross era pequeno demais para se lembrar de ter ido à estação de trem despedir-se de Adela, mas sua irmã e o resto da família acenavam uns para os outros.
“Quando você me vir da próxima vez, serei uma mulher casada”, Debora gritou. “Sentirei sua falta, Adela! Lea! Anna!”.
Nas janelas abertas do trem, as meninas se inclinavam e gritavam de volta para suas famílias:
— Não se preocupem! Eu estarei em casa em breve! Eu te amo!
Pairando sobre a cabeça de seus vizinhos e parentes e de toda a Humenné, Edith ouviu a voz da mãe: “Com Lea, não estou tão preocupada, ela é forte. Mas Edith... ela não é”.
O apito do trem soou. Os vagões se moveram. Enquanto Humenné desaparecia à distância, Margie Becker tentava aliviar a tensão e outras se juntaram a ela. Klary Atles, que era mais velha, fez um discurso motivacional. Ela lembrou às garotas mais velhas que deveriam ajudar as mais jovens, porque todas precisavam ser adultas agora. Então, Gizzy Ziegler provocou Adela. Alguém começou a cantar. Helena, que tinha uma linda voz de soprano, juntou-se à canção. Com a resiliência do otimismo juvenil, as meninas reavivaram seu senso de aventura. Elas estavam desbravando o mundo. Elas estavam juntas. Elas estavam prestes a fazer algo pelo seu governo. Elas eram adultas agora. Logo, todas começaram a se sentir mais animadas e positivas em relação ao desconhecido. Até a ideia de viajar no Sabá, algo contrário à tradição judaica, contribuiu para o seu senso de maturidade. No espírito do dia sagrado, Margie e outras compartilharam a comida que a mãe delas lhes haviam entregado com garotas que não tinham nada e não haviam comido o dia inteiro.
Enquanto o trem fazia uma curva na ferrovia, os picos mais altos a leste da cordilheira apareceram no horizonte. Magníficos penhascos brancos brilhavam sob o sol poente. As garotas se inclinaram para fora das janelas e gritaram que podiam ver o pico de Gerlachov!
Algumas das meninas camponesas nunca tinham visto as montanhas Trata antes. Tomadas de idealismo patriótico e senso de propósito,
começaram a entoar o hino nacional eslovaco. 62 As vozes de Edith e Lea destacavam-se sobre o barulho do motor.
Há relâmpagos sobre as Tatra
Troveja furiosamente
Vamos detê-los, irmãos
Por tudo isso, eles desaparecerão
Os eslovacos reviverão
Nossa Eslováquia dormia profundamente
Mas o raio e o trovão
Encorajaram a terra a despertar.
A noite já se anunciava quando o trem parou na estação de Poprad. Desembarcando com suas malas e alegria contagiante, as meninas foram recebidas por membros da Guarda Hlinka, que vestiam casacos pretos e empunhavam chibatas de equitação. Não eram mais os meninos que elas conheciam desde crianças. Estes eram homens violentos e de rosto duro, que gritavam para que marchassem e chicoteavam suas costas e traseiros. Os mesmos picos irregulares das montanhas Tatra, que encheram seus corações de música e patriotismo, agora pareciam frios e ameaçadores. Tudo que era estranho ficou ainda mais estranho. Um quartel vazio de dois
andares esperava por elas. 63 Desamparada e cansada, Edith pensou que, agora, pelo menos seriam informadas do que estava acontecendo e saberiam o que esperar. Mas não havia comitê de boas-vindas, ninguém para cuidar delas ou qualquer organização. As meninas perambulavam pelo prédio enorme, confusas sobre onde deveriam dormir. Como ninguém lhes dizia o que fazer, muitas deram um jeito de pendurar redes improvisadas nas pilastras. Quando a noite caiu, o prédio vazio ecoava o som de garotas tentando dormir enquanto soluçavam de tanto chorar.
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