As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Quinze
Eu quero ser a última garota do mundo com uma história como a minha .
— NADIA MURAD , Que eu seja a última
NAS CASAS DAS MENINAS DEPORTADAS, pais e mães ficavam cada vez mais preocupados. Não apenas não tiveram notícias de suas filhas como, alguns dias depois que o primeiro trem partiu de Poprad rumo ao desconhecido, um funcionário da linha férrea local apareceu com um recado de uma das garotas, escrito em um pedaço de papelão. Como ela conseguiu entregar o bilhete para o engenheiro, ninguém sabe. Mas ele certamente sabia quem ela era, e se importava o suficiente para ter arriscado a vida para entregar o recado à família da garota:
O que quer que façam, não sejam pegos e deportados. Aqui estamos
sendo mortas.
A assinatura dela estava abaixo do aviso.
Chocados com a notícia, alguns não judeus imediatamente tomaram medidas para ajudar seus vizinhos. Em Poprad, Valika Ernejová, de 19 anos, foi levada para a casa da família de um amigo, e um documento de identificação falso foi feito para ela. Jan Kadlecik e sua família esconderam
com sucesso “Stefánia Gregusová, nascida em 24 de março de 1923”, 123 pelo resto da guerra.
À medida que as notícias do bilhete contrabandeado irradiavam de Poprad para as comunidades vizinhas, outras famílias tomaram providências para esconder suas meninas ou enviá-las para a Hungria. Para aquelas fora do alcance das notícias, a sensação de que havia algo errado espreitava. Tudo o que podiam fazer era esperar que suas filhas estivessem trabalhando em segurança na fábrica de calçados.
Então, os cartões-postais começaram a chegar.
Era Sabá quando as meninas foram forçadas a escrever para casa pela primeira vez. Bertha Berkowitz se recusou a escrever para seus pais por causa disso. Uma amiga escreveu as mentiras para ela. Os textos continham informações falsas e já vinham prontos, tendo sido concebidos para amenizar receios e garantir às futuras vítimas, as famílias das meninas, que estava tudo bem, que havia muito para comer. Espero vê-los em breve …
A essa altura, todas as meninas já sabiam o que significava essa última linha — suas famílias também seriam levadas para Auschwitz. Era a última coisa que qualquer uma delas queria. Nas margens, muitas das garotas adicionaram às escondidas advertências em eslovaco, polonês, húngaro ou ídiche — qualquer coisa que alertasse suas famílias sobre as deportações e que não pudesse ser decifrada pelos alemães.
Nem toda família recebeu cartões-postais. A Kapo Bertel Teege foi
instruída a jogar fora centenas de cartões depois de coletá-los. 124 Entre os que ela destruiu, talvez estivessem os de Magduska e Nusi — os Hartmann nunca receberam notícias de suas filhas.
Algumas semanas depois, as meninas foram forçadas a escrever novamente. Desta vez, elas receberam vários cartões para preencher de uma só vez e ordens de atribuir-lhes datas que só ocorreriam dali três meses, seis meses, nove meses. Era um truque para garantir que as famílias na Eslováquia continuassem recebendo cartas em casa e pensassem que as meninas estavam vivas e bem. Se ouvissem algo que contrariasse isso, diriam: “Como é possível? Acabamos de receber notícias dela!”.
Os pais que recebiam cartões se perguntavam sobre os carimbos. Como suas filhas acabaram na Polônia? Por que elas não pareciam calorosas como de hábito? Onde ficava Oświęcim, afinal?
Apesar das garantias redigidas no papel, muitas mães devem ter começado a sentir uma profunda sensação de desconforto, angústia e desespero. Há evidências científicas de que o cérebro da mãe carrega o
DNA do bebê após o nascimento. 125 Que pessoa não passou pela experiência de estar em perigo, chateada ou fazendo algo imprudente, e sua mãe de algum modo ficar sabendo? Momentos depois de você receber más notícias, sofrer um acidente ou terminar um relacionamento, sua mãe envia uma mensagem ou telefona: Eu estava pensando em você. Está tudo bem ?
Isso pode muitas vezes parecer uma coincidência, mas, à medida que a ciência descobre cada vez mais sobre o cérebro e o DNA, é de se questionar se esse elo consciente e invisível poderá algum dia ser explicado. Tomemos o bambu como exemplo. O bambu floresce raramente, talvez a cada sessenta ou cem anos, mas quando as plantas genitoras florescem, sua prole
— não importa em que lugar do mundo esteja — também floresce. 126 Talvez a intuição de uma mãe seja como o bambu. Não importa onde você esteja, ela ainda está conectada a você.
Enquanto mães na Eslováquia rezavam por suas filhas naquele primeiro Sabá após a partida, será que essas orações chegaram de alguma forma às filhas por meio das células microquiméricas do cérebro e, como o bambu, fizeram florescer força e coragem?
As meninas precisavam de toda a coragem e determinação que pudessem adquirir, porque as provações reais da vida no campo — o trabalho — estavam prestes a começar. Era um trabalho destinado a destruir corpo, mente e espírito. As meninas não sabiam disso no começo. Reunidas para serem informadas sobre os detalhes do trabalho, foi-lhes dito que poderiam trabalhar com agricultura, culinária, construção ou limpeza. Madge Hellinger (nº 2318) achou que trabalhar no serviço agrícola seria agradável e apressou-se a voluntariar-se, mas uma das Kapos alemãs, que se interessara por ela, impediu-a de se juntar ao serviço e, com um tapa firme em seu rosto, disse: “Eu preciso que esta fique por aqui.”
Chocada com o tapa, Madge imediatamente desconfiou da Kapo , que prontamente promoveu-a ao posto de ajudante, para limpar os blocos e servir o chá e o pão. Somente quando as meninas voltaram de seu primeiro dia de trabalho é que Madge percebeu a sorte que teve.
Linda Reich (nº 1173) qualifica o serviço agrícola como nojento, degradante e exaustivo. Forçadas a espalhar esterco com as próprias mãos, as meninas carregavam excremento de vaca nos próprios braços pelos campos congelados e cobertos de neve, calçando nada além de seus “tamancos”. Edith e Lea encontraram pedaços de jornal no campo, com os quais envolveram os pés, na esperança de que o papel ajudasse a manter os
seus dedos quentes, mas “estava nevando”, 127 e as folhas molhadas se desintegraram rapidamente. Era um trabalho repugnante. Era impossível limpar-se depois de finalizado.
O setor principal em que as meninas foram forçadas a trabalhar foi o da “construção”. Seu trabalho? Demolir casas usando nada além de suas próprias mãos. Literalmente.
As casas em questão haviam sido confiscadas dos poloneses da região para a expansão do complexo de Auschwitz. “Fomos as máquinas que tiveram de destruir as residências até os alicerces”, explica Helena Citron (nº 1971).
Depois que os prisioneiros do sexo masculino enfraqueciam as estruturas com explosivos, as jovens “tinham que derrubar o que sobrasse [das casas bombardeadas] batendo nas paredes com barras de ferro longas e muito pesadas”, confirma Bertel Teege. Eram necessárias cinquenta meninas para empunhar essas barras de ferro muito longas e muito pesadas, às quais
círculos de metal haviam sido soldados para servirem de alças. 128 Empunhando essas “alças”, as meninas “golpeavam a parede”, diz Helena Citron. “No momento em que o muro desabava, as garotas da frente eram esmagadas, soterradas, e morriam.”
Às vezes, as meninas eram divididas em dois grupos: aquelas que subiam ao segundo andar das casas deterioradas para jogar telhas e tijolos ao solo e as que permaneciam no térreo para recolher os escombros, enquanto tentavam desviar dos tijolos que caíam. “Se você tomasse muito cuidado ao jogar os tijolos lá para baixo [e tentasse não machucar as meninas lá embaixo], a Kapo provavelmente a mudaria de lugar, então você trabalharia
sob a chuva de tijolos vinda do andar superior”. 129
Transportar os tijolos também fazia parte do trabalho. Após carregá-los em vagões improvisados, as meninas tinham que empurrar a pesada carga até um terreno a alguns quilômetros de distância, onde uns poucos prisioneiros russos que ainda sobreviviam eram mantidos em barracões de madeira. As mulheres não sabiam que os tijolos que elas descarregavam naquele local estavam sendo usados para construir novos blocos para mulheres em uma clareira próxima à floresta de bétulas — Birkenau.
O trabalho dessas equipes de demolição deveria ser feito por homens fortes e resistentes, não por mulheres e meninas — muitas das quais pesando menos de 45 quilos e medindo 1,50 metro de altura. À noite, as meninas da demolição retornavam aos blocos machucadas e sangrando devido aos cortes. Aquelas que se posicionavam à frente na chamada matutina eram as mais propensas a serem escolhidas para o serviço de demolição. “Todas as manhãs, empurrávamos nossas melhores amigas para a frente”, Helena admite, “já que queríamos sobreviver. Nós rapidamente nos transformamos em animais. Todas cuidavam só de si mesmas. Era muito triste”.
As outras opções de trabalho não eram muito melhores.
Bertha Berkowitz (nº 1048) se lembra de marchar cinco quilômetros para uma área onde as meninas tinham que cavar valas. “Eu não tenho ideia do uso que faziam delas, mas esse era o nosso trabalho, dia após dia.” A pior parte era que elas não faziam sequer um intervalo mínimo, pois as supervisoras se recusavam de maneira absoluta a permitir. Até mesmo levantar-se para endireitar as costas depois de cavar a argila pesada que compunha o solo polonês era motivo para uma chicotada da SS — ou algo pior. A oficial da SS Juana Bormann adorava soltar seu pastor-alemão sobre as garotas que paravam por um momento. “Era um trabalho duro. Cavávamos sem parar”, diz Linda Reich.
Ainda havia tanta neve nas estradas que a SS designou algumas meninas para removê-la. Depois de trabalharem nos campos, Edith e Lea acabaram alocadas para esse serviço. “Nada de vassouras. Nem pás. Tudo era feito com as mãos”, lembra Edith. “Usávamos nossas mãos nuas para amontoar neve sobre pedaços de papelão e jornais velhos e depois os puxávamos para as laterais da estrada.” À noite, ela e a irmã caíam nos colchões de palha derrotadas, “tão congeladas e tão cansadas que não queríamos levantar nem para buscar o pão”. Mais forte que Edith, Lea fazia sua irmãzinha levantar-se e ficar na fila para conseguir sua porção. Sem comida, elas nunca sobreviveriam, e Edith já era franzina. Lea tinha que fazer com que a irmã pegasse o pão, ainda que estivesse sempre seco, não tivesse gosto e fosse feito, como desconfiavam muitas prisioneiras, de serragem e farinha.
Parte básica da dieta no campo, o pedaço de pão não era maior do que a palma da mão de uma mulher pequena, tendo menos que dez centímetros de largura. Como apenas uma porção diária era distribuída para as mulheres — os homens recebiam duas porções —, algumas meninas criaram uma maneira de fazer com que durasse mais: comiam metade à noite e o resto de manhã. Ter algo sólido no estômago antes de tomar o chá e sair para trabalhar ajudava a tornar mais duradouros o efeito das poucas refeições.
Trabalhar na remoção de neve permitiu que Edith e sua irmã tivessem acesso a um pequeno prazer: elas coletavam bitucas de cigarro descartadas pela SS, apanhavam folhas de jornal e enrolavam novamente os restos de tabaco no papel. À noite, acendiam esses cigarros improvisados no fogo dos fogões a lenha. Fumar não era um luxo, tinha um propósito prático. “Ajudou a disfarçar a fome.”
A corpulenta Joan Rosner (nº 1188) foi enviada para trabalhar na cozinha. De início, ela se sentiu algo satisfeita com a oportunidade, e esperava que seria fácil furtar um pouco de comida extra. Não era. Os guardas da SS observavam as meninas com cuidado e espancavam qualquer uma que fosse pega mordiscando até mesmo uma casca de cenoura. A carga horária era igualmente brutal. As responsáveis pela cozinha tinham que acordar à uma da manhã para fazer o chá. Os caldeirões nos quais a sopa e o chá eram feitos eram gigantescos. Duas ou três meninas tinham que subir em escadas para alcançar os tonéis e, nessas posições precárias, uma menina enchia a enorme chaleira enquanto as outras duas a seguravam firmemente. Manter as chaleiras de ferro fundido firmes nas plataformas de madeira era difícil. Além disso, conchas gigantescas eram usadas para preenchê-las — e, ao manusear essas conchas, as meninas se queimavam repetidamente no metal quente. Quando as chaleiras se enchiam, as garotas tinham que fazer a operação inversa, isto é, descer com as chaleiras cheias de volta pelas escadas até o chão. Era uma tarefa hercúlea, e não demorou muito tempo para ocorrer uma catástrofe. Uma das garotas no topo da escada perdeu o equilíbrio ao ser queimada por uma chaleira. O caldeirão tombou e o líquido derramado atingiu uma garota que estava embaixo. Os urros da jovem escaldada até a morte devem ter sido perturbadores até para os guardas da SS de plantão, porque imediatamente decidiu-se que o trabalho era pesado demais para as meninas. Então, “os meninos começaram a trabalhar lá”.
No canteiro de obras, mais acidentes aconteciam. De pé, no alto de uma das casas demolidas, uma das meninas polonesas, Sara Bleich (nº 1966), escorregou em um tijolo solto e caiu dois andares até o térreo. Prostrada sobre o entulho de tijolos e cimento, ela olhou para os céus e se perguntou se era o fim. Ela não conseguia se mexer. E tinha quebrado a mão direita. Ela sabia que não adiantava gemer ou chorar e esperou pelo golpe de misericórdia de um dos SS ou pelo cachorro que viria dilacerá-la. Felizmente, uma das Kapos mais gentis ordenou que Sara fosse levada ao recém-criado Revier , ou bloco hospitalar. Lá, a dra. Manci Schwalbova engessou o braço dela e tratou das suas costas com quinze minutos de gelo, seguidos por quinze minutos de compressas quentes. Sara precisaria de seis semanas para conseguir andar novamente. A essa altura, milhares de meninas e mulheres judias estariam em Auschwitz, e jovens judeus também teriam começado a chegar. Apesar dos ferimentos, Sarah foi reenviada para as tarefas de demolição e construção. Era uma “tarefa pesada, destinada a homens. Para uma jovem como eu, era [desumano]”.
Dentro de algumas semanas, porém, as meninas que caíam das casas em demolição não receberiam mais tratamento. Enquanto os homens da SS gritavam para elas trabalharem mais rapidamente, outras duas garotas escorregaram e caíram do telhado. Os corpos retorcidos se contraíam de dor, então um SS caminhou resolutamente até elas e ergueu sua arma.
“Teremos férias por ter atirado nelas”, 130 disse ele. Ele atirou em uma. Seu colega atirou na outra.
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