As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Onze
Quando o perigo é grandioso, Deus é mais misericordioso .
— o ETA ZIMMERSPITZ ( PAI DA n 1756)
NA EXTENSÃO VAZIA das estepes polonesas, as meninas foram forçadas a marchar através da neblina e do mau tempo em direção ao que Linda Reich descreveu como “luzes e caixas tremeluzentes”. Ao se aproximarem, elas viram o quartel de dois andares cercado por arame farpado. Estava muito frio. Um vendaval açoitava a planície, criando montes de neve finamente esculpidos. A temperatura estava próxima de zero grau Celsius. Edith estremeceu e ficou perto de sua irmã. Se seus pais soubessem... Se seus pais soubessem...
Ao longo de uma estrada de terra, as meninas perambulavam por aquele apocalipse. Alheias a seus corpos e mentes, elas caminhavam penosamente pelo solo congelado de um país estrangeiro. Acima de suas formas frágeis, ergue-se um portão de entrada, com listras vermelhas e brancas, e elas avançaram com dificuldade sob a mentira em ferro fundido que pairava sobre todos os prisioneiros que entravam em Auschwitz: Arbeit macht frei — “O trabalho liberta”. Nenhuma das meninas notou o “b” de cabeça para baixo que os prisioneiros poloneses haviam fundido na placa em 1940 — um dos primeiros atos de resistência no local que logo engoliria suas vidas.
Ao avistar um grande prédio de tijolos com uma enorme chaminé, Linda sussurrou para uma amiga: “Essa deve ser a fábrica onde vamos trabalhar”. Na realidade, era uma câmara de gás que ainda não estava funcionando.
As quatro irmãs Zimmerspitz e três de suas primas entraram incertas no complexo. Frida, a mais velha das irmãs, murmurou para o resto: “Nós não vamos ficar”.
NEM TODAS AS 997 MENINAS eram estrangeiras. Ironicamente, as meninas que fugiram da Polônia para obter segurança na Eslováquia agora estavam de volta como prisioneiras involuntárias. Quando as meninas polonesas passaram por seus compatriotas poloneses, acharam que os homens que as encaravam pareciam loucos saídos de um hospício. Na verdade, esses homens faziam parte da primeira linha de combatentes da resistência polonesa, capturados logo após a queda do país, em 1939. Muitos deles fariam tudo o que pudessem para ajudar as novas prisioneiras, especialmente as polonesas. Ainda não havia homens eslovacos no campo.
Marchando pela Lagerstrasse , a principal via do campo, entre fileiras de alojamentos de dois andares, as meninas chegaram a outro portão — este, preso a uma parede de tijolos com arame farpado no topo. Quando o portão se abriu e as meninas passaram por um posto de guarda menor, elas avistaram outras mulheres. Para Regina Schwartz e suas irmãs, que foram informadas de que estavam sendo enviadas à linha de frente para serem violadas por soldados alemães, ver outras mulheres deve ter trazido algum sentimento de alívio. Pelo menos elas não estavam na frente de batalha para servir como escravas sexuais.
Essas mulheres não lhes ofereceriam muito conforto, porém. Elas mesmas haviam chegado apenas algumas horas antes das meninas judias. Tratava-se das primeiras 999, selecionadas por Himmler na prisão feminina mais notória da Alemanha, Ravensbrück. Formavam uma mistura eclética de assassinas, golpistas, prisioneiras políticas (comunistas ou antinazistas),
“crentes radicais” 91 (muitas eram Testemunhas de Jeová), prostitutas e
“associais” (lésbicas — na verdade, chamadas de “mamães sapatas” 92 pelos prisioneiros). Pode parecer estapafúrdio hoje em dia que algumas dessas atividades fossem consideradas criminosas, mas, sob as leis alemãs da época, as pessoas eram rigorosamente processadas — e condenadas — se nelas incorressem. Nossas meninas judias, então, eram culpadas apenas por terem nascido.
Uma das prisioneiras políticas transferidas de Ravensbrück, Bertel Teege, esperava que cumprir sua sentença em Auschwitz fosse mais fácil e que as condições também fossem melhores. Ela ficaria muito decepcionada. Seu rosto possuía uma estranha assimetria, e seus olhos e até sua boca pareciam levemente desnivelados. Mas era um rosto transparente — austero e, ao mesmo tempo, perdido, um rosto que não podia esconder as coisas que já tinha visto e que estava prestes a ver, coisas que a maioria das pessoas nunca conseguiria compreender.
Sua amiga mais próxima e confidente era a comunista Luise Mauer. Aos 36 anos, Mauer tinha lábios finos, sorridentes, e um olhar que parecia buscar a verdade. Quase nada a amedrontava, mesmo depois de cinco anos em Ravensbrück.
Ao chegar a Auschwitz, Teege sentiu uma ponta de esperança ao ver “seis casas de pedra com capacidade para mil pessoas cada”. Haveria muito espaço para as prisioneiras, aparentemente. Poucas horas depois, ela ficaria chocada ao ver centenas de jovens judias, “todas bem-vestidas, com malas cheias de roupas caras, dinheiro e joias, diamantes e comida. Elas foram informadas de que ficaram aqui por três meses, portanto, trouxeram consigo tudo de que necessitariam para sobreviver. Elas estavam, deste modo, bem
equipadas, pois acreditaram nas mentiras dos nazistas”. 93
Olhar para essas jovens bem-educadas, bem alimentadas e saudáveis, apesar das bochechas manchadas de lágrimas, enchia algumas das novas guardas de Ravensbrück de pena e outras de ódio sádico. Prisioneiras de olhos vidrados observavam as meninas como raposas perseguindo cordeiros. Ignorantes de sua situação, nossas garotas não tinham ideia do que as esperava. As detentas de Ravensbrück sabiam. Agora, elas podiam ser artífices da crueldade, em vez de vítimas dela. Profanar a inocência é prazeroso para quem tem uma personalidade perversa, e isso não era incomum entre as mulheres de Ravensbrück. Elas estavam prestes a receber carta branca para punir, repreender, espancar e matar aquelas jovens mulheres judias. Certamente não tinham sido levadas a Auschwitz para trabalhar no escritório.
Sobre as novas recrutas, o comandante Rudolph Höss escreveu: “Acredito que Ravensbrück foi vasculhada cuidadosamente para que se encontrassem as ‘melhores’ para Auschwitz. Elas superavam com folga os seus equivalentes do sexo masculino em termos de resiliência, sordidez, vingança e depravação. Eram, na maioria, prostitutas com muitas condenações, e algumas eram criaturas verdadeiramente repulsivas. Desnecessário dizer que essas mulheres terríveis usaram as prisioneiras abaixo delas para dar vazão total a seus desejos perversos. Elas não tinham alma nem quaisquer sentimentos”. Obviamente, Höss nunca escreveu sobre sua própria falta de alma. Ou sobre a da SS.
ANTES DA DÉCADA DE 1990, o transporte das 999 mulheres judias era tido, por ex-prisioneiros e eslovacos, como o “primeiro transporte” para Auschwitz. Então, em uma reviravolta irônica, os historiadores repensaram essa classificação e removeram as meninas de sua categoria, substituindo-as por um trem de vagão único com quarenta homens judeus que haviam sido presos por crimes menores pela Gestapo e foram experimentalmente “mortos com Zyklon B” em 15 de fevereiro de 1942. Também foi negado às meninas o reconhecimento histórico de terem feito parte do “primeiro transporte de mulheres para Auschwitz” porque essa nomenclatura foi dada ao trem que transportou as 999 Reichsdeutsche , as prisioneiras de etnia alemã de Ravensbrück. Por que às guardas alemãs, que muitas vezes foram também as assassinas de nossas meninas, foi concedido o status de terem composto o “primeiro transporte de mulheres para Auschwitz”?
Embora a definição comum do substantivo “transporte” pressuponha o movimento de mercadorias ou pessoas por intermédio de um sistema de trânsito, na Alemanha nazista o termo significava muito mais. Significava a Solução Final. Foi nessa data, 26 de março de 1942, que o termo “transporte” deve ter assumido essa nova definição. “Bens” agora significava judeus; “transporte” significava morte. No entanto, poucos são os livros sobre a história do Holocausto — e pouquíssimos os sites sobre o assunto — que incluem as garotas ou o primeiro transporte em suas cronologias do Holocausto. Nossas 999 meninas raramente fazem parte de uma nota de rodapé.
Na Eslováquia, as meninas mantêm seu lugar na história, sendo reconhecidas e reverenciadas por terem composto o primeiro transporte para Auschwitz. Os próprios historiadores de Auschwitz se referem à chegada das meninas como o “primeiro transporte judeu em massa registrado”. Em 1942, o IVB4 — o Departamento de Assuntos de Evacuação Judaica — identificou as meninas como presentes no primeiro
transporte judeu “oficial” da Solução Final de Eichmann. 94 Sem debate, é assim que as meninas devem ser lembradas.
CONFORME MARCHAVAM pela estrada do campo para um complexo afastado de onde ficavam os homens, separado por um portão, um muro de tijolos e arame farpado, as meninas se perguntavam por que havia tantas medidas de segurança. O arame estava lá para protegê-las dos residentes
insanos do outro lado do muro? 95 Nunca lhes ocorreu que tudo aquilo servia para impedir sua própria fuga. Elas estavam apenas indo trabalhar por alguns meses, afinal de contas.
Do outro lado do portão, as meninas foram instruídas a depositar suas bagagens em uma pilha. O protocolo em Ravensbrück era confiscar os pertences das prisioneiras, revistá-los e depois devolvê-los. Por isso, até mesmo as novas guardas de Ravensbrück ficaram confusas. Como as meninas judias encontrariam suas coisas naquela pilha enorme que estava sendo juntada? Algumas das meninas judias fizeram a mesma pergunta, só conseguindo ameaças como resposta. Aquelas que ainda tinham alguma comida consigo foram forçadas a abandoná-la também. Isso foi especialmente cruel, pois elas não tinham sido alimentadas desde o dia anterior e havia pouca preocupação em alimentá-las agora. Mas elas eram garotas cumpridoras da lei, boas meninas, e obedientemente fizeram o que lhes fora ordenado, colocando a comida de lado junto com suas bagagens.
Em um mundo normal, depois de uma longa e suja viagem de trem, você esperaria que houvesse um banheiro, uma troca de roupas, uma tigela quente de sopa, um chuveiro. Em vez disso, nossas meninas foram forçadas a ficar ao relento, sob frio e neve por horas, enquanto a nova comandante do campo de mulheres, Johanna Langefeld, e suas subalternas da SS tentavam entender a situação. Ninguém parecia saber o que estava fazendo, e a ineficácia provavelmente era agravada pelo fato de a lista de meninas ter sido numerada incorretamente. Elas eram contadas repetidamente e o resultado era sempre o mesmo: 997. Não 999. Elas não conseguiam explicar os números discrepantes. Alguma garota tinha escapado? Em algum momento, alguém deve ter notado os erros nas páginas e rabiscou na capa da lista de Poprad, em lápis vermelho: “wäre zu nummerieren und alph. zuordnen ” (“numerar e organizar em ordem alfabética”). Essa lista foi datilografada em 28 de março e confirma que o número exato de mulheres que embarcaram no trem em Poprad chegou a Auschwitz no dia seguinte. Agora, havia 997 mulheres judias no campo, e não 999.
Quando as meninas foram finalmente liberadas, as Kapos — é assim que as novas guardas de Ravensbrück seriam chamadas a partir de agora — abriram as portas do Bloco 5 e a SS ordenou que as garotas entrassem. Morrendo de frio e desesperadas, elas correram para as portas, amontoando-se umas sobre as outras enquanto as Kapos batiam nelas para que se separassem.
“Todo mundo empurrou todo mundo. Todo mundo gritou. Estava muito frio”, lembra Linda. Empurrando amigas e estranhas, elas pisavam nos pés umas das outras enquanto entravam no prédio. “Estávamos com sede. Tínhamos que ir ao banheiro.” Todas queriam ficar onde estava quente, mas lá dentro não havia luz, camas ou calor. Uma palha imunda estava espalhada no chão. Havia dez privadas para mais de novecentas meninas. Descobriram que a única água disponível era a que pingava de um cano no porão, então as meninas tinham que lamber as gotas do cano sujo. Desidratadas e exaustas, eles estavam no limite.
Irena Fein e sua amiga Gizzy Grummer se sentarem em um dos poucos bancos disponíveis, enquanto outras meninas se sentaram nas mesas. Todas estavam cansadas e queriam descansar, mas “as Kapos nos fizeram deitar no chão sujo de palha”. Logo que elas se deitaram na palha coberta de sangue, “milhões de pulgas nos cobriram dos pés à cabeça. E aquilo por si só já poderia nos deixar loucas. Estávamos todas cansadas e tudo o que
queríamos era descansar”. 96
Percevejos subiam em suas pernas. As meninas que haviam se deitado no chão pulavam e se levantam de novo, gritando e dando tapas em si mesmas enquanto insetos sugadores de sangue picavam e se espalhavam por suas pernas e rosto. Era como se todas as pragas que Deus enviara sobre os faraós do Egito estivessem sendo lançadas sobre elas — “dez pragas em um
dia”, 97 diz Helena Citron.
Uma garota ficou tão histérica que correu para um homem da SS que estava parado à porta, observando o tumulto com indiferença. “Eu não quero viver nem mais um minuto”, ela gritou na cara dele. “Eu já sei o que
vai acontecer conosco!”. 98 Quando o homem da SS olhou para a jovem, os gritos de terror das outras diminuíram. Até as garotas mais desesperadas se afastaram da garota que gritara com o guarda da SS. Ele fez um gesto, indicando que ela deveria segui-lo. Ela recuou.
Ele então apontou para a porta, que agora estava aberta.
“Qualquer um que tivesse cérebro sabia para onde a levariam”, diz Helena Citron. “Para um lugar melhor, definitivamente não. Ela foi a primeira a ser levada.” Pode ter sido Jolana Grünwald ou Marta Korn, as únicas prisioneiras registradas nos Livros da Morte em março de 1942. Quem quer que fosse, ela nunca mais foi vista.
Elas estavam com muito medo para que conseguissem dormir. “Tínhamos medo de que as Kapos e os homens viessem nos matar”, diz Edith. “Ninguém dizia o que iria acontecer conosco.” Não saber levava
todas à beira da insanidade. 99
A única coisa de que Edith se lembra claramente é de ter escondido seus absorventes de tecido em um tijolo em cima do fogão, para recuperá-los mais tarde. Fora isso, sua mente jovem apagou aquela noite, como alguém que se desvia de uma poça de lama para evitar sujar suas roupas ou, no caso de Edith, sua mente. Chorando muito, elas demoraram a dormir.
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