As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Trinta e Dois
1º DE DEZEMBRO DE 1943
Cara Lenka!
Espero que você tenha recebido a carta de Willi e a foto de Milanko.
Enviamos também a jaqueta, o salame e os remédios. Ontem,
enviamos sapatos e linguiças — espero que em breve recebamos
notícias suas, detalhando se entregou tudo para Kato [Katarina
Danzinger (nº 1843)]. Em novembro, enviamos roupas e 500 coroas e
você já as deve ter recebido.
Além disso, 3,5 e 2 quilos — mal conseguimos respirar —, você os
recebeu? Pergunte para Kato. Willi espera que a cunhada dele a tenha
visitado. Bela está muito doente, chorando por Magduska.
Estamos todos pensando em você. Aguente firme!
Beijos, Lilly 243
APÓS QUINZE MESES de Leichenkommando , a dra. Manci Schwalbova disse a Bertha e às outras que trabalhavam com ela que era hora de mudar
para um destacamento diferente. 244 Nem todas tinham conseguido sobreviver esses quinze meses, mas Peshy Steiner, Elena Zuckermenn e Margie Becker ainda estavam lá. A dra. Manci Schwalbova usou o pouco poder de que dispunha para arrumar um lugar para as meninas no Canadá — elas mereciam um trabalho mais fácil depois de tanto tempo carregando cadáveres.
Contudo, o Canadá não era o paraíso que todos pensavam ser. “Conseguíamos comer durante o dia, mas tínhamos que passar pelas seleções”, diz Bertha. “E, no primeiro dia, torci o tornozelo e fui trazida de volta em uma maca. Eu pensei que seria mandada para o crematório”. Ser uma das protegidas da dra. Manci Schwalbova a salvou, e Bertha foi autorizada a continuar trabalhando. A organização de roupas não exigia muita caminhada, e desde que ela pudesse ficar de pé e organizar, poderia permanecer viva. No entanto, Bertha “não teve sorte no Canadá”. Ela fez amizade com uma garota da França e decidiu dar um presente para ela. Ela tinha visto outras garotas escondendo roupas e saindo sem serem pegas. Quão difícil poderia ser? Bertha colocou uma blusa sob o uniforme, pouco antes do final do dia de trabalho, e saiu para a chamada.
— 1048! — um dos SS gritou.
Bertha possui um daqueles rostos honestos, transparentes. Suas bochechas coraram. Era tudo de que o SS precisava para saber que seu palpite estava certo.
— Tire o uniforme!
Lentamente, ela tirou a jaqueta e sua própria blusa, e então a roupa amassada que ela tentava contrabandear caiu no chão. Ela teve sorte de não ser punida com as mesmas vinte e cinco chibatadas que Joan Rosner recebera quando foi pega roubando. Mas para Bertha, uma adolescente ainda agarrada à sua vaidade, o castigo que recebeu foi pior. O homem da SS ordenou que raspassem sua cabeça.
Até aquele momento, sua cabeça fora raspada apenas sete vezes. Desde que ela se juntara ao Leichenkommando , seu cabelo permanecera intacto. Ter cabelo era como uma medalha de honra. Um símbolo de status. Um sinal de que você era especial. Agora, Bertha tinha pontas de cabelo saindo como espinhos do seu couro cabeludo. Ela se sentiu feia. Pior, ela estava feia! Mas raspar a cabeça causou algo bem mais sério àquela adolescente — destruiu seu espírito. Ela “não conseguia parar de chorar” e caiu em completo desespero. Foi “a única vez que eu realmente quis cometer suicídio”.
Para meninas profundamente religiosas, raspar a cabeça era algo que deveria ocorrer apenas como parte de seu casamento. Em seu primeiro dia em Auschwitz, Bertha foi uma das garotas brutalmente tratadas no exame ginecológico, tendo sido roubada de sua virgindade. Para Bertha, a cabeça recém-raspada anunciava publicamente sua vergonha e sua violação. Por quinze meses, seus cabelos permaneceram seguros; agora, o horror daquele primeiro dia voltava à tona. A dor. O sangue. As garotas gritando ao seu redor. Seus próprios gritos.
Ela havia perdido tudo. Sua família. Sua casa. A virgindade. Perder o cabelo foi a última gota — inconsolável, ela chorou e chorou. Ela considerou atirar-se aos fios elétricos e acabar com tudo. Peshy Steiner veio em seu socorro. Peshy amava Bertha. Ela a consolou e confortou. Salvou a amiga de tirar a própria vida.
Em um documentário de 1981, Bertha se inclina contra a koja do Bloco 27, onde viveu e dormiu ao lado de Peshy. “Foi aqui que Peshy Steiner salvou minha vida”, ela diz. É um momento de profundo pesar, pois Bertha não foi capaz de salvar a vida de Peshy. “Ela estava muito, muito doente.” E não diz mais nada.
Quando Peshy ficou mortalmente doente, a dra. Manci Schwalbova certamente foi chamada para ajudá-la, mas os milagres em Auschwitz eram poucos e distantes uns dos outros. Nem todas poderiam ser salvas das muitas doenças pavorosas — incluindo a meningite — que se escondiam nos cantos imundos em que as meninas levavam sua vida. Peshy e Bertha eram como irmãs. Sem sua amiga de infância, Bertha enfrentou outra noite sombria dentro de sua alma. Como Edith, ela teve que procurar outras garotas para ajudá-la a sair do abismo da dor. Elena Zuckermenn (nº 1735) foi uma dessas garotas.
Embora Bertha “não tenha tido sorte” trabalhando no Canadá, Margie Becker teve. Ela era uma ladra talentosa — “uma artista”, ela diz, com um brilho malicioso nos olhos. “Uma vez, contrabandeei um roupão no meu sapato! Eu quase morri, de tão apertado.” Ela começou a administrar seu próprio mercado ilegal, trocando roupas contrabandeadas por comida.
Para as amigas, porém, ela dava as coisas de graça. Margie conhecera uma garota que falava uma variedade diferente de ídiche, e as duas se tornaram amigas íntimas enquanto comparavam as disparidades linguísticas entre seus dialetos. A garota pediu a Margie que a ajudasse a transferir-se para um destacamento de trabalho melhor. Margie contrabandeou para ela “um par de calças de lã e um suéter”, e a próxima coisa que ouviu foi que a menina fora acolhida por uma das famílias da SS e estava trabalhando como empregada doméstica. Tudo porque estava bem-vestida. “Sabe, essa é a diferença que fazia na vida de alguém estar vestido. Eles sempre gostaram de quem estivesse vestido decentemente”, diz Margie, balançando a cabeça. “Aqueles nojentos.”
Margie até encontrou um anel de ouro, que ela colocou no dedo do pé e escondeu no sapato. Depois, usou-o como uma conta-poupança, trocando o anel por margarina e pão, que ela compartilhou com as amigas. As bugigangas e os objetos de valor que as meninas encontravam no destacamento dos lenços as ajudavam a sobreviver, desde que não fossem muito descaradas com o que roubassem e não fossem pegas. Joan Rosner (nº 1188) viu uma garota levar um tiro entre os olhos depois que foi pega escondendo algumas joias no bolso.
A DRA. MANCI SCHWALBOVA ficou sabendo das dificuldades por que Bertha passava no Canadá e a levou para ser mensageira na enfermaria do hospital, onde ela podia ficar de olho na adolescente e protegê-la. Bertha carregava documentos e memorandos de um campo para o outro e passava os dias na entrada dos fundos da ala, esperando pelas ordens. Ela também ajudava na entrega de comida aos prisioneiros acamados e “conseguia um pouco mais de comida por fazer” essa tarefa. Servir como mensageira do hospital seria o último trabalho que Bertha desempenharia em Auschwitz-Birkenau. Também seria a última vez que ela veria suas velhas amigas trabalhando no Canadá.
No início do ano novo, as meninas que trabalhavam no Canadá foram separadas do restante do campo. O Canadá já havia sido transferido para Birkenau para acomodar a expansão de apenas alguns barracões de organização para mais de vinte. Agora, na tentativa de impedir que roupas e outros objetos de valor fossem contrabandeados para a população carcerária em geral, a SS requisitou que as meninas fossem transferidas para dois blocos internos no Canadá. Não havia fios de alta voltagem no Canadá, “apenas arame farpado. Os dois primeiros barracões eram nossos alojamentos e os outros dezoito, os locais de trabalho. Do outro lado, os homens se alojavam em apenas um barracão. Fomos separadas completamente das outras prisioneiras. Não tínhamos mais contato com
elas”, explica Linda Reich (nº 1173). 245
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