As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Heather Dune Macadam · Capítulo 34 de 49

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As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz

Vinte e Nove

 

AS DUAS CARTAS CRUZARAM CAMINHOS. Na sua, a mãe de Lenka expressou preocupação com a entrega de correspondência — sem se dar conta de que um prisioneiro recebendo correspondência em Auschwitz era algo extraordinário por si só.

8 de março de 1943

Cara Lenka!

Estamos escrevendo a cada dez dias por via postal e também por

intermédio do UZ [Conselho Judaico]. Você acusou recebimento de

apenas dois cartões. Não recebemos seu cartão de janeiro nem a carta

de 15 de fevereiro. Ficaríamos muito felizes em poder lhe enviar algo.

Falamos de você nas refeições e em todas as ocasiões… Também lhe

enviamos dinheiro, e para Magduska também. Os pais de Magduska e

Nusi estão tristes por elas não darem sinal de vida. Se elas pudessem

adicionar algo à sua carta… Se for permitido, por favor, escreva

sempre sobre nossos parentes e conhecidos. Estamos todos com saúde.

Aguardamos suas cartas com impaciência e beijamos você

calorosamente.

Beijos, Milan.

Eu te beijo, Vovô.

De minha parte também, Mamã 222

A carta de Lenka também expressava preocupação com o correio. Apesar de sua posição trabalhando para um dos principais oficiais da Gestapo e dos privilégios que isso lhe garantia, ela nem sempre recebia sua correspondência.

2 de abril de 1943

Meus queridos,

Primeiro, gostaria de lhe desejar feliz aniversário, querida mamãe,

ainda que com tanto atrasado. Desejo à senhora muita saúde e fortuna,

e que possamos celebrar o próximo aniversário juntas. Desta vez, o

presente de sempre, eu receio, estará ausente, mas acredito que a

senhora provavelmente me perdoará. Eu recebi o cartão da Lilly no dia

9 de março. Desde então, estou esperando impacientemente por mais

correspondências, infelizmente em vão. Por que vocês não me

escrevem com mais frequência? Também é permitido enviar salsichas

pequenas e pacotes de queijo. Fora isso, nada de novo. Eu trabalho

como antes e, graças a Deus, tenho saúde. Envio a todos o meu amor e

abraço-os todos.

Lenka 223

O PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DO PRIMEIRO dia das meninas no campo de Poprad coincidiu com o aniversário do SS Franz Wunsch. Ele completava 21 anos. Um ano antes, as meninas caíam em lágrimas enquanto eram levadas para longe de seus pais e famílias. Agora, elas mal piscaram quando o mais recente transporte da Grécia chegou, carregando

2.800 homens, mulheres e crianças 224 — 2.191 dos quais foram encaminhados às câmaras de gás. As 192 mulheres registradas no campo receberam os números de 38.721 a 38.912; os números dos 417 homens começaram em 109.371. Enquanto organizava as roupas e os pertences dos gregos, Rita — a Kapo dos lenços brancos — anunciou novamente às meninas que precisava de artistas. Como micos amestrados. Escravas de entretenimento e trabalho.

Ninguém podia dizer não.

Das prisioneiras escolhidas para se apresentar, apenas uma foi sincera ao cantar uma música tradicional de aniversário e aplaudir com entusiasmo: “Que bom que você nasceu; do contrário, realmente sentiríamos a sua falta.

Que bom que estamos todos juntos. Parabenizamos seu aniversário!”. 225

Cantando para Franz Wunsch ao ar livre com todas as outras, será que Helena sentiu que as palavras tinham um significado secreto? Ela estava realmente feliz por elas estarem juntas e por ele ter nascido? Ela poderia imaginar a vida sem ele? A síndrome de Estocolmo ainda não recebera esse nome, mas o fenômeno certamente existia. Na verdade, Helena se apaixonou pelo jovem da SS e ele também se apaixonou por ela. Ele carregou na carteira a foto que tirara dela até o dia da sua morte. Mas não há como negar que era um relacionamento definido pelo poder — o dele. Ela não tinha escolha nesse caso. Não se quisesse sobreviver.

Claro, a sua paixão por Helena dava a ela status e poder sobre as outras. “Se eu tivesse pedido, ele [Franz] teria me atendido em um segundo. Todas as mulheres pareciam descontentes. Havia uma única razão para ficarem descontentes lá. Eu poderia dizer uma palavra e então um quarto delas

desapareceria. * Mas eu não fiz isso.” Esse era um poder extraordinário de se ter, quanto mais admitir que se tinha. Contudo, ela nega ter tido um relacionamento físico com Wunsch. Em testemunhos anteriores, ela afirma que eles compartilharam apenas uma ou duas palavras. Mas, agora, alguns anos depois, ela admite: “No final das contas, eu sinceramente o amava.”

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Quando questionada se via Helena no trabalho, Edith ri. “Eu não a via muito. Tampouco eu o via, para falar a verdade. Eles estavam acima de nós, acima dos montes de roupas. Ela estava muito concentrada em si mesma e em seu amor por esse cara.”

As críticas de Helena acreditavam que ela “permanecia viva” por causa de Wunsch, mas ele não estava lá para protegê-la o tempo todo. “Eu poderia ter sido morta 20 mil vezes em outros lugares”, diz ela. E se a notícia do caso entre os dois tivesse chegado aos superiores de Wunsch, ele seria severamente punido. Claro, ela teria perdido a vida. Ainda assim, entre as prisioneiras, o relacionamento não era o segredo mais bem guardado da guerra. Muitas sobreviventes mencionam Wunsch e Helena em seus testemunhos. “Isso nos irritava a todas”, diz Eta Zimmerspitz (nº 1756).

QUANDO O ANIVERSÁRIO DE UM ANO do primeiro transporte passou, Edith explica que o corpo delas já havia aprendido melhor como sobreviver. “Não que as coisas fossem melhores, mas nosso corpo começou a se acostumar com certas condições — condições climáticas, condições de vida. Quando chegamos, não sabíamos nada, mas agora sabíamos” como sobreviver. A fome afetava a acuidade mental e a força física, mas depois que o corpo se adaptou à falta de comida, também descobriu como se sustentar, pelo menos por um tempo.

O nível de ocupação do campo feminino girava em torno de 15 mil detentas, mas os números dos registros estavam se aproximando da casa dos

40 mil. 227 Em um ano, mais de 24 mil mulheres e meninas registradas no campo haviam morrido, a maioria delas, judias. Das 15 mil mulheres agora registradas, mais de 10 mil foram listadas como “não usadas para o trabalho” e 2.369 foram definidas como “não aptas”, o que provavelmente significa que estavam no hospital ou no Bloco 25. Com as mortes de mulheres sendo agora finalmente calculadas ao término de cada mês, uma imagem mais clara do campo feminino surge das cinzas de sua história. Os totais do mês de março de 1943 revelam perdas devastadoras: 3.391 mulheres morreram no campo, 1.802 delas nas câmaras de gás. Isso significa que 1.589 mulheres morreram de doenças, fome, experimentos médicos ou violência.

Com a epidemia de tifo ainda fora de controle, o comandante Höss ordenou que todos os veículos usados para transportar prisioneiros fossem

agora desinfetados completamente. 228 Ele também ordenou que as roupas dos prisioneiros fossem desinfetadas depois que eles fossem retirados do campo. Nas entrelinhas dessa ordem, percebe-se que ele se refere aos caminhões que levavam prisioneiros às câmaras de gás. Onde mais haveria roupas para desinfetar sem os seres humanos que as usavam?

OS POLONESES QUE DIRIGIAM os caminhões para dentro e para fora do campo feminino de Birkenau e ajudavam as meninas no Leichenkommando estavam sempre pedindo um pouco de comida extra, que Bertha e as outras compartilhavam generosamente sempre que algo sobrava. Com esses homens vinham informações de fora. Com o inverno chegando ao fim, eles disseram a Bertha e às outras que o Pessach ocorreria em algumas semanas.

É compreensível que, para algumas, manter a fé fosse impossível. “Quem precisava de religião lá?”, Edie (nº 1949) pergunta. “Não podíamos exercer nossa religião. Não podíamos nada. Quem se importava?”.

Bertha, porém, importava-se. Ela e suas amigas decidiram arriscar e organizar um Sêder. Avisaram às outras residentes do Bloco 27 sobre seu plano para que pudessem começar a organizar a comida. Uma das meninas contrabandeou passas do Canadá e uma segunda conseguiu um limão e um pouco de açúcar com os trabalhadores da cozinha. Eram os ingredientes

necessários para se fazer vinho de passas, mas faltava a água. 229

As meninas do Leichenkommando tinham acesso a água potável, mas precisavam de algo para transportá-la. A vasilha de Margie provavelmente foi o que elas usaram. No meio da noite, as fabricantes de vinho colocaram a vasilha em cima do fogão a lenha no meio do bloco e aguardaram. Quando se vigia a água no fogo, parece que ela nunca ferve; leva ainda mais tempo quando sua vida depende disso.

No silêncio da noite de Birkenau, sempre havia um relato de tiros, um gemido em meio ao sono perturbado, um suspiro de morte, um rato correndo. Mas naquela noite havia, no Bloco 27, uma sensação de mistério na escuridão. Aquilo era trabalho de Deus. Deu sentido à vida daquelas meninas. A resistência faz isso pelo espírito.

Com a água finalmente fervendo, acrescentaram as passas, o limão e o açúcar e cobriram a vasilha com um lenço para manter o vinho livre de detritos. Colocando-o bem no canto de uma koja para que os ratos não entrassem, elas deixaram o vinho fermentando e adormeceram.

A cada 24 horas, alguém mexia o vinho com sua colher. No segundo dia, algumas bolhas se formaram no topo; no terceiro, as passas haviam subido e flutuavam na superfície, começando a perder a cor. O líquido mudou de translúcido para âmbar-claro. Estava funcionando! Após uma semana de fermentação, o vinho se tornara marrom-escuro — não era a cor mais apetitosa, mas era vinho. As meninas o filtraram com um pano limpo, depositando-o em suas tigelas vermelhas. Então, quando o recipiente esvaziou-se, elas derramaram o vinho filtrado de volta, cobriram a vasilha novamente e deixaram-no descansar em silêncio na koja mais alta até o Pessach.

O dr. Clauberg teve uma ideia diferente para celebrar a Páscoa. Ele havia escolhido Peggy e “outras quatro ou cinco da Polônia que também estavam em Auschwitz” para experiências de esterilização. “Eles nos vestiram com lindos vestidos listrados, um belo casaco curto, um lindo lenço. Eu já tinha

um pouco de cabelo”. 230 Estavam esperando na porta, de manhã, quando Erna, uma das médicas eslovacas que trabalhava com Manci Schwalbova, as viu.

“O que vocês estão fazendo aqui?”, ela perguntou às meninas.

“Não sei o que estamos fazendo aqui”, disse Peggy.

Erna foi diretamente ao escritório falar com o dr. Clauberg. “Você não precisa fazer experimentos com meninas que já estão há um ano em Auschwitz”, ela disse a ele. “Não há mais como fazer experimentos. Elas não menstruam. Nada. É melhor você levar as recém-chegadas dos novos transportes.”

Dez minutos depois, ela voltou à porta e disse: “Meninas, voltem para os seus blocos. Vocês vão trabalhar”.

A bela e curvilínea Marta F. (nº 1796), de Prešov, não teve tanta sorte. Em 1 o de abril de 1942, o comandante Höss transferiu o Bloco 10 do campo principal para o comando do professor e brigadeiro da SS dr. Carl Clauberg,

que usou as mulheres como cobaias em experimentos de esterilização. 231

O SÊDER DESSE ANO seria diferente da recitação espontânea de orações

ocorrida no primeiro ano. 232 E isso era verdade em toda a Europa; Sêders secretos estavam sendo celebrados por judeus nos campos, nos guetos, nos esconderijos e por aqueles que mal eram livres. Essa tradição antiga conectava Bertha e suas amigas a um mundo maior — um mundo invisível, espiritual. Elas não estavam sozinhas em Auschwitz. Elas estavam orando com milhares de pessoas, muitas das quais agora na mesma situação que as primeiras garotas estiveram um ano antes — ou pior. E ainda assim elas oravam. “Você arriscava sua vida para fazer algo assim”, explica Bertha, “mas valia a pena”. Se elas eram punidas por serem judias, então que agissem como judias.

À medida que a noite descia e as sombras do lado de fora cresciam, as meninas do Bloco 27 se organizavam em seus beliches. Uma das mulheres do bloco era professora de hebraico e conduziu as demais como um rabino teria feito, dando sentido aos rituais e lembrando-as das orações. O vinho de passas caseiro foi derramado nas tigelas vermelhas e erguido sobre as cabeças. Uma das meninas havia contrabandeado batatas para dentro do bloco. Não havia matzá, mas comeriam uma batata! O ritual alimentou suas almas e trouxe Deus à miséria de suas vidas. Se Deus havia libertado seus ancestrais da escravidão, como poderia deixá-las em Auschwitz? “Na escuridão, oramos pela liberdade.”

Helena se refere às outras mulheres que trabalhavam no Canadá e sabiam sobre seu relacionamento com Wunsch.

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