As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Trinta e Três
Algumas pessoas dizem que os anjos têm asas. Mas meus anjos tinham
pés .
— EDITH FRIEDMAN
NO SEGUNDO ANIVERSÁRIO DA deportação das meninas da Eslováquia, as trabalhadoras do Canadá cumpriam turnos de doze horas, mas, depois do trabalho, elas podiam andar um pouco pela estrada do campo. Ida Eigerman pensou que, como a sauna ficava ali perto, ela poderia entrar e tomar um banho. Sozinha. Virando as torneiras, ela abriu a água quente até queimar a sua pele. Esfregou a carne e inalou o vapor até sentir os pulmões limpos de fuligem, óleo e morte. Ela deixou a água cair sobre sua testa e escorrer pelos cabelos, seios e quadris. Ela se limpou em lugares que nunca ousaria tocar se a SS estivesse vendo. Ela se deleitou com o silêncio, a privacidade, a paz da água espirrando no cimento sob seus pés cansados.
O toque de recolher soou do lado de fora. Não havia toalhas. Não havia como secar-se rapidamente. Ela vestiu o uniforme novamente e correu para fora.
“O que você está fazendo?”, uma das mulheres da SS gritou com ela.
O cabelo de Ida estava molhado. Suas roupas, úmidas. O rosto, limpo.
Dois homens da SS foram até ela. “Eles tinham mãos assim. Eu nunca vi mãos tão grandes.” Um dos SS a estapeou com tanta força que seus dentes estremeceram na boca.
— 1930, você ganhou vinte e cinco! — a mulher da SS ordenou.
Vinte e cinco chibatadas.
Ida ficou aterrorizada. No dia seguinte, quando o comandante chegasse, ia chamar o seu número para que ela recebesse a punição. “Enquanto isso, Schmidt, a Kapo , precisava de algumas meninas para ir à Stabsgebäude .” Ida se ofereceu e escapou do castigo. Chegando ao porão das instalações da SS, Ida encontrou uma velha conhecida, Rena Kornreich (nº 1716). Fazia quatro anos que tinham travessado a fronteira da Polônia para se esconderem nas casas de seus tios em Bardejov. Agora, seus tios e tias haviam perecido, seus pais haviam perecido; a maioria de seus primos se fora também. Como elas, que estavam em Auschwitz desde o início, ainda permaneciam vivas?
O IMPONENTE PORTÃO DA MORTE, no descampado varrido pelo vento de Birkenau, era intimidador. Onde dois anos antes não havia nada além de imensos terrenos vazios, trilhos de trem agora seguiam até o portão, para que a carga humana pudesse ser entregue diretamente na boca do inferno.
Os números dados aos homens estavam agora na casa de 175 mil; às
mulheres, 76 mil. 246 Não há dúvida de que se registrar no campo em vez de ir direto para a câmara de gás era muito mais improvável para as mulheres. Em abril, 21 mil mulheres foram registradas como residentes de Birkenau, enquanto 46 mil homens estavam detidos nos complexos dos campos de Auschwitz-Birkenau.
Em 7 de abril, haveria dois a menos: Alfréd Wetzler e Rudolf Vrba
estavam prestes a empreender sua famosa fuga de Auschwitz. 247 Eles seriam alguns dos poucos fugitivos bem-sucedidos, mas os mais importantes, porque sua fuga daria ao mundo o primeiro relato concreto sobre a configuração do campo de extermínio e a localização das câmaras de gás e dos crematórios, além do número aproximado de judeus que já tinham sido eliminados. O seu relato também traria a primeira menção às meninas dos primeiros transportes, aos horrores que elas haviam sofrido naqueles primeiros meses e ao fato de o número de sobreviventes entre elas
ser equivalente “a 5% do número original” 248 * — ou cerca de quatrocentas.
Tragicamente, a história não só se recusaria a reconhecer as meninas como as Forças Aliadas deixariam de agir com base nas informações de Vrba e Wetzler. Apesar de o seu relato ter sido enviado à Suíça, Estados Unidos, Grã-Bretanha e Vaticano, os Aliados não achavam que bombardear os trilhos ou os crematórios seria suficiente para “salvar as vítimas em
qualquer extensão apreciável”. 249 Eles estavam errados. Os judeus foram danos colaterais em uma guerra global, e Auschwitz era agora uma máquina de matar capaz de executar e cremar 20 mil pessoas por dia.
Enquanto Rudolf Vrba e Alfréd Wetzler esperavam fervorosamente que seu relatório salvasse os judeus húngaros do morticínio, o primeiro transporte húngaro, com “quarenta a cinquenta vagões de carga” com “aproximadamente cem pessoas” por vagão, chegou a Auschwitz. Não se tem registro do número de homens, mulheres e crianças desse transporte que foram assassinados. Ele foi, no entanto, documentado de uma maneira muito mais explícita.
O 250 SS-Hauptscharführer Bernhard Walter, chefe do laboratório fotográfico de Auschwitz, e seu assistente, SS-Unterscharführer Ernst Hofmann, fotografaram os judeus húngaros da Rutênia Cárpata que desembarcavam dos vagões. As fotos — que mostram multidões de pessoas andando nos trilhos da ferrovia, crianças em pé na floresta de bétulas do lado de fora das câmaras de gás e crematórios, meninas rindo enquanto separavam artefatos para o Canadá — faziam parte de um ensaio fotográfico projetado para mostrar à Cruz Vermelha que os prisioneiros judeus estavam sendo bem tratados e, assim, dissipar quaisquer rumores sobre campos de extermínio. É um retrato arrepiante do assassinato em massa, compilado pelos próprios assassinos.
Debruçada sobre uma pilha de panelas e frigideiras recolhidas dos recém-chegados que agora seguiam para o gás, Linda Reich está vestida com uma blusa branca e calça escura ajustada à cintura. Ela tinha ficado horrorizada com os milhares de judeus húngaros que vira passando pelas pilhas de ordenação no Canadá durante a manhã toda.
— Sorria! — o SS Walter gritou para ela enquanto ajeitava o foco da câmera.
Como ela conseguiu se parecer com alguém que acabara de ouvir uma piada, embora uma arma estivesse apontada para a sua cabeça? Os seus dentes se exibem para a câmera. O clique preserva a imagem. Os SS seguem em frente. Para Linda, é como se seu espírito tivesse sido roubado. Ela não está emaciada pela fome. O seu cabelo está preso atrás da cabeça. Suas roupas parecem limpas. Ela parece um ser humano normal organizando alguns tachos e panelas, não um trabalhador escravo vasculhando milhares de itens roubados de pessoas sendo sufocadas em câmaras de gás localizadas a apenas quinze metros de distância, atrás do fotógrafo.
Impotentes, as meninas do Canadá assistiram aos húngaros caminhando para a morte. Trabalhar tão perto das câmaras de gás era devastador para todas elas. Algumas meninas aconselharam às mães com filhos pequenos que os deixassem com as mulheres mais velhas. Elas não explicaram por quê.
Muitas das sobreviventes que trabalharam no Canadá, como Erna e Fela Dranger, de Tylicz, Polônia, nunca falaram sobre sua experiência. Falar sobre como era viver e trabalhar tão perto das câmaras de gás é inconcebível — para sempre.
“Havia quatro crematórios seguidos e, a cerca de quinze metros de distância, estavam os quarenta barracões de ordenação”, explica Linda. Nesses barracões, trabalharam Helena, Irena, Marta F., Erna, Fela, Peggy, Mira Gold e muitas outras. Não havia muros ao redor das câmaras de gás. “Elas ficavam em um prédio de tijolos vermelhos, com plantas bonitas em volta e grama verde.” As meninas do Canadá eram distrações involuntárias para os judeus a caminho da morte. Atraindo muita atenção, as meninas bem-vestidas que separavam itens do lado de fora se pareciam com “seres humanos”, não trabalhadores escravos.
De certa forma, essa foi uma versão inicial das rampas de carregamento encurvadas que o Dr. Temple Grandin projetou para matadouros, com base na ideia de que os animais que estão atrás vejam os que estão à sua frente e mantenham a calma enquanto se posicionam dentro das canaletas. Da mesma forma, os judeus que saíam dos transportes e se dirigiam para a morte olhavam as jovens que trabalhavam no Canadá e pensavam: Seremos nós em breve .
Na realidade, “95% iam direto para a câmara de gás”. As meninas olhavam para fora “dia e noite, e viam as chamas no céu… e o cheiro, as nuvens se assentando e as cinzas — negras, sebosas, enormes em nosso rosto”.
Com a chegada em massa dos transportes húngaros, havia uma grande quantidade de novos itens a serem organizados, então, trezentas meninas foram adicionadas aos destacamentos de classificação. Agora, seiscentas garotas trabalhavam no Canadá, revezando-se em turnos. Os homens traziam as bagagens das rampas de transporte e as empilhavam em montanhas. As meninas tinham que inspecionar tudo, porque “havia muita comida. Eles [os judeus] estavam escondendo seus objetos de valor. Então, tínhamos que tirar tudo e procurar”. As meninas não tinham permissão para jogar nada fora, nem mesmo óculos quebrados. “As coisas boas, salame, queijos, alimentos não perecíveis, embalagens com doces e assim por diante, ficavam de um lado.” Coisas quebradas, como vidro e peças de cerâmica, do outro. Dizia-se que o vidro era triturado e misturado à massa do pão servido aos prisioneiros em Birkenau.
Linda testemunhava as idas e vindas dos SS, que apanhavam alguns bens dos húngaros para si. O Canadá era como uma loja de doces para a SS. Multilíngue e sempre alerta, Linda mantinha anotações mentais sobre quem vinha buscar peles e joias, prometendo a si mesma que, se sobrevivesse, um dia os faria pagar.
EM JULHO DE 1944, o plano de Eichmann de eliminar nas câmaras de gás o equivalente a quatro transportes de judeus por dia ainda não havia se
realizado, mas os transportes e execuções haviam aumentado. 251 À medida que as temperaturas do verão se tornavam mais inclementes, o mesmo acontecia com os desembarques. “As multidões, o calor e as filas, intermináveis. Sem fim. Você sabe, não dava para ver o fim”, lembra Linda. “As pessoas ficavam cansadas. E gritavam em húngaro para as meninas que trabalhavam no Canadá: ‘Víz! Víz! Água! Água!’”.
As meninas no Canadá tinham acesso a água. “Uma das minhas colegas de trabalho não aguentou. Ela encheu de água uma garrafa da pilha que estávamos organizando e jogou por cima da cerca. Uma criança correu atrás para pegar.”
Aos 23 anos, Gottfried Weise, um atraente homem da SS, não parecia capaz de praticar assassinato a sangue frio. Seus olhos contíguos e o nariz sério davam-lhe a aparência de alguém honrado e correto. Ele correu atrás da criança, arrancou a garrafa das suas mãos e a jogou fora. Então, ele jogou a criança para cima, enfiou-lhe a baioneta enquanto ela caía, agarrou-a pelo braço e “esmagou a cabeça da criança contra a parede”. Uma mulher gritou. Então, silêncio.
“Quem fez isso?”, ele berrou para as meninas. “Quem deu água para esses judeus imundos?”. Ele marchou para o depósito de organização, apontou a arma para as meninas e ordenou que todas se alinhassem. “Quem fez isso?”, ele gritou.
Ninguém disse uma palavra.
“Se você não se apresentar, eu matarei uma garota em cada dez. As mortes serão culpa sua!”.
Ninguém se mexeu. Ele atirou na primeira garota da fila.
“Quem fez isso?”. Ele deu dez passos. Atirou na próxima garota.
“Quem jogou água para aqueles judeus sujos?”.
Silêncio.
Dez passos. Tiro.
Sessenta meninas foram executadas por causa daquela garrafa de água. No dia seguinte, havia sessenta novas garotas no Canadá. Uma dessas novas garotas era provavelmente uma adolescente chamada Julia Birnbaum, que acabara de ver seus pais e irmãos irem para a câmara de gás. Tatuada com o
número A-5796, ela chegou em 24 de maio de 1944. 252 Seu pai olhou para ela e disse: “Os poloneses não estavam mentindo. É isso.” Sua mãe disse que eles sempre estariam juntos, mas então um homem amável e sofisticado, com o dedo preso em um dos botões de metal de seu uniforme, perguntou-lhe: “Quantos anos você tem?”.
Por alguma razão, ela mentiu. “Quinze.”
O dr. Mengele fez um sinal para ela sair da fila. 253 Julia passou diretamente do registro para o destacamento de organização logo no primeiro dia em que chegou; a garota de 14 anos trabalhava agora no Canadá com Linda, Helena e as outras veteranas.
Vrba provavelmente se referia aos dez primeiros transportes da Eslováquia, que trouxeram 6.051 e 197 jovens eslovacas e tchecas, respectivamente, para Auschwitz até o final de abril de 1942.
OceanofPDF.com