As 999 Primeiras Mulheres de Auschwitz
Trinta e Oito
Se os oceanos fossem tinta e o céu, papel, Eu ainda não conseguiria
descrever o horror do que estou passando .
— 274 ESCRITO POR UM MENINO POLONÊS NO GUETO DA CRACÓVIA
AS FUNCIONÁRIAS DA SECRETARIA pararam de encher automóveis com caixas de arquivos e começaram a trazer “vários documentos do
campo” 275 que estavam nos escritórios da SS para serem destruídos em fogueiras improvisadas. Entre esses registros, fotografias de centenas de milhares de prisioneiras e grande parte dos dados do campo feminino: total da população, registros de mortes, datas e números das seleções e registros de execução.
À medida que os rumores sobre a evacuação aumentavam, a dra. Manci Schwalbova trabalhava para ajudar todas que estivessem bem o suficiente para andar. Helena estava no hospital quando o SS Wunsch a instruiu a evacuar. Era o tipo de aviso que a rede de sussurros conseguiria disseminar rapidamente — se Wunsch queria que Helena fosse embora, qualquer um que fosse capaz também deveria fazê-lo. A nova campanha de sussurros foi lançada: se você puder andar, salve-se. Ninguém queria ficar trancado lá dentro quando Auschwitz fosse fechado e incendiado, tornando-se um crematório gigante.
As prisioneiras que tinham acesso a roupas no Canadá começaram a contrabandeá-las em potes de sopa vazios. Rena Kornreich e suas amigas da lavanderia receberam botas, luvas, casacos e açúcar. O SS Wunsch certificou-se de que Helena e sua irmã tivessem roupas quentes e um par de bons sapatos. Foi a última “boa” ação que ele faria pela mulher que amava. “Volto para a frente de batalha e você sai. Se algo mudar no mundo e perdermos a guerra, vocês me ajudarão como eu a as ajudei?”, ele perguntou.
Helena prometeu. A irmã dela, não.
QUANTO ÀQUELAS DOENTES DEMAIS para deixar a enfermaria, a dra. Manci Schwalbova e as demais integrantes da equipe médica fizeram o que podiam. Porém, por também serem judias, as integrantes da equipe médica não eram mais presas importantes. Eram defesa contra os russos, assim como todo o resto.
Os prisioneiros, frenéticos, organizavam-se como podiam para sobreviver ao último esforço da SS para destruí-los. Quem usasse trapos na marcha da morte morreria congelado. Os homens e mulheres do Canadá fizeram todo o possível para roubar roupas e sapatos para os outros. Os que trabalhavam nas cozinhas contrabandeavam açúcar, pão e outros itens não perecíveis para os amigos.
Nesse ínterim, as fogueiras salpicavam com cinzas a paisagem coberta de neve, enquanto registros de prisioneiros eram jogados nas chamas do esquecimento.
EDITH SABIA QUE ELA jamais sobreviveria à marcha. “Como, com tuberculose na perna, eu vou conseguir marchar centenas de quilômetros na neve? Eu não posso fazer isso”, ela disse a Elsa.
“Se você não vai, eu não vou.” Elsa foi inflexível.
“Por favor, Elsa. Vá!”. Edith teria caído de joelhos para implorar à amiga, mas não conseguia dobrar a perna esquerda. “Salve-se. Vá! Você está bem! Vá!”.
“Sem você, eu não vou!”. E, então, Edith se juntou à fila com Elsa e disse que tentaria ir.
À uma da manhã de 18 de janeiro, a chamada final foi realizada. Deixando para trás suas pacientes na enfermaria do hospital, a dra. Manci Schwalbova juntou-se às filas de evacuação como um número sem nome, ao lado de Edith, Elsa e Irena Fein (nº 1564). Outras garotas que viajaram com Edith no primeiro transporte também ficaram por perto, garotas que estavam trabalhando nos Novos Blocos por ocasião da marcha da morte e que provavelmente estavam no mesmo grupo de Edith: Ruzena Gräber Knieža, Rena e Danka Kornreich, Dina Dranger, Ida Eigerman e, provavelmente, Lenka Hertzka.
Em um grupo separado, que também se preparava para evacuar, estavam as meninas do Canadá: Linda, Peggy, Ida, Helena, Margie, Regina Schwartz e suas irmãs Celia e Mimi, Elena Zuckermenn, as irmãs Eta e Fanny Zimmerspitz e sua prima Martha Mangel, além de muitas outras. “Abrimos e fechamos Auschwitz”, diz Edith.
A MARCHA DA MORTE QUE SE SEGUIU seria o ato final para muitas, incluindo as primeiras meninas. Porém, para uma em particular, tudo acabou antes mesmo de a marcha começar. Ria Hans (nº 1980) trabalhava no hospital, onde muitas vezes ajudara pacientes a sair da enfermaria antes que a SS chegasse e as matasse. Em 18 de janeiro, uma dessas pacientes era a irmã mais nova de Ria, Maya. “Ela tinha tuberculose e estava tão doente que não conseguiu dar um passo.” Como Ria poderia deixar sua irmãzinha ser queimada viva no campo? Ela não teria permissão para ficar para trás e morrer junto com ela. Ria roubou um frasco de morfina e injetou uma morte indolor na veia de sua irmãzinha. Era a coisa mais gentil, a única coisa que ela podia fazer.
Juntando-se a Manci e Edith na fila de meninas e mulheres, Ria não conseguia olhar para elas. As meninas de Humenné olharam em volta. Onde estava Maya? Ria não disse.
Elas até podiam ter idade de adolescentes, mas agora eram adultas. Mulheres. E outra delas se fora para sempre. Maya não chegara aos vinte anos de idade. O fardo da morte da irmã pesou no coração de Ria. Como ela poderia levantar uma perna após a outra? Como poderia pisar em um único tufo de neve, considerando o que havia perdido? Como ela poderia viver com o que tinha feito?
“Todas ficaram bravas com ela”, diz Edith, “mas ela tentou salvar Maya do sofrimento. Como ela saberia que a SS não queimaria o campo depois que saíssemos? E quem sabe se os russos teriam chegado a tempo de salvá-la?”.
Um dia inteiro foi necessário para organizar a evacuação. Quando as mulheres receberam a ordem de sair, muitas já estavam exaustas de tanto ficar em pé e esperar. A neve caía pesada e dura. Sua profundidade, que até há pouco estava na altura do tornozelo, agora ia até o joelho. Fortemente vigiadas pelos espectros da SS nas torres de vigia, as filas de mulheres partiram com espaços pequenos entre elas. As filas masculinas já haviam saído algumas horas antes, abrindo caminho através dos montes de neve.
A ordem “para os judeus não há clima” nunca foi tão verdadeira. A primeira fila de mulheres marchou sob a nevasca. Quando “eles nos tiraram da Lager ”, Irena interpretou as fogueiras da SS como uma confirmação da conflagração, e pensou que todos os que permaneceram no campo estavam agora queimando vivos. Na verdade, levaria mais alguns dias para se esvaziar o campo inteiro — e, apesar das ordens para “liquidar” os prisioneiros doentes, o major da SS Franz Xaver Kraus nunca botou fogo no
perímetro cheio de gasolina com um fósforo derradeiro. 276 Um campo minado foi preparado do lado de fora das cercas, mas as armadilhas não impediriam a libertação de Auschwitz nove dias depois.
ERA POSSÍVEL OUVIR TIROS à distância, mas as mulheres estavam indo na direção oposta à do avanço russo e da esperança de liberdade.
A “neve tinha mais de um metro, talvez dois metros de altura”, diz Linda. Ela tinha sapatos, mas eles não eram do mesmo par. “Não importava. Eram sapatos” — e ela tinha meias quentes nos pés. Muitos prisioneiros não tinham nada. Os prisioneiros “do campo [Birkenau] tinham apenas aquelas roupas muito finas de verão [e] tamancos de madeira”. Não havia como aqueles prisioneiros sobreviverem ao frio.
Divididas em grupos separados, as prisioneiras marcharam em várias direções diferentes rumo à fronteira alemã. Como resultado, as histórias das meninas e o número de dias que elas passaram na neve variam.
“Quem marchava na frente pavimentava o caminho para quem vinha atrás. A SS ficava ao lado.” Alguns dos SS andavam a cavalo, apontando armas para as prisioneiras. Quem “não conseguia andar foi morto a tiros imediatamente”. Linda, Peggy e Mira Gold (nº 4535) permaneceram no final do seu Kommando , tão para trás quanto puderam. “Passávamos por cadáveres.” Linda estremece com a lembrança. Sua voz oscila. “Se o cadáver ainda tivesse algo útil, um sapato ou um suéter, nós pegávamos. Mas não tínhamos força para tirá-los do caminho. Então, você sabe, nós pisávamos neles na neve. A estrada ficou pavimentada de cadáveres.” A fila de Linda seguiria uma das rotas mais longas. Indo para o norte, atravessaria a Polônia pelas montanhas, e elas marchariam por uma semana. A maioria das outras seguiu para o oeste.
“A neve ficou vermelha, como quando chegamos a Auschwitz”, lembra Edith. “Mas, naquela ocasião, as meninas sangravam devido à menstruação. Agora, era por causa dos tiros.” À medida que a tarde descendia, a nevasca continuava, e a neve acumulada, untada de sangue, transformava-se em gelo sob seus pés. A dra. Manci Schwalbova escorregou e caiu. Rapidamente, Edith e Elsa a levantaram, antes que algum SS pudesse atirar nela. Algum tempo depois, encontraram a dra. Rose, uma das colegas de Manci que também havia ajudado Edith. Ela fora morta a tiros. Uma médica, assassinada. Não importava mais se você tinha ocupado uma posição especial. “Eles não tinham respeito por ninguém.”
“Eu mal conseguia levantar os pés da neve”, lembra Ruzena Gräber Kneiža. “Meus pés molhados afundavam.” Ria Hans estava “morta de cansaço”. Cada passo pesava, enquanto ela lamentava por sua irmã mais nova.
Marchando sobre montes de cadáveres, as meninas gritavam os nomes daquelas que haviam perdido em meio à nevasca e à escuridão.
— Onde você está? Pode me ouvir?
Suas vozes pareciam de fantasmas — sem corpo e invisíveis, uivando nomes na tempestade. “Ouvimos falar das filas de nossas amigas…”. Helena não consegue nem mesmo terminar sua frase.
“A exaustão também se abatera sobre Ruzinka”, lembra Helena. “Ela não tinha mais filhos nem marido. Ela se sentou duas vezes. Eu também havia perdido minhas forças. Ela não tinha motivo para viver. Ela não queria mais se levantar.”
Ela olhou para Helena e disse: “Você é jovem. Vá! Não tenho mais ninguém por quem devo manter-me viva. Vá!”.
Por tudo o que haviam passado juntas e porque ela amava profundamente sua irmã, “naquele momento eu já não pensava. Eu não tinha pensamentos. Nós havíamos nos tornado algo que não tem explicação em nosso mundo. Já era o bastante”.
A SS estava a apenas uma fila de onde Ruzinka havia afundado na neve — e onde agora aguardava o doce conforto de uma bala na cabeça.
Apesar de lhes restar também muito pouco de força, as amigas de Ruzinka a ergueram e a arrastaram. Tal como aconteceu com tantos outros na marcha da morte, essa ajuda deu-lhe os poucos minutos de que seu espírito precisava para recuperar as forças — e quando seu espírito reviveu, seu corpo fez o mesmo.
Como Edith sobreviveu à marcha da morte? Ela própria não consegue acreditar. “Com a perna mancando até o fim, como eu pude sobreviver, enquanto outras mais saudáveis, não? É um milagre que eu não posso explicar. Eu acho que foi Deus.”
O poder de Deus deve ter funcionado através de Irena Fein, então: “Eu arrastei comigo uma garota de Humenné. Ela era jovem. Ela não conseguia andar”.
“Não consigo. Não consigo. Não faça isso comigo”, dizia a garota.
“Você consegue! Eu fiquei com os pés congelados!”, Irena gritou, lembrando-a de que ela própria havia perdido dois dedos do pé por congelamento, dois anos antes. Se Irena podia marchar, qualquer um poderia marchar. Ela empurrou a garota para a frente, forçou-a a continuar andando. “Caso contrário, ela teria levado um tiro”, diz Irena.
Aquela garota era Edith.
“A ÚNICA COISA que tínhamos para comer era neve. Congelada. Molhada.” Naquela primeira noite e na segunda, as filas de mulheres jovens passaram por fazendas grandes, em cujos celeiros elas foram autorizadas a descansar por um tempo. A palha as aquecia, mas estavam completamente encharcadas. As que não conseguiam lugar dentro dos celeiros dormiam na neve do lado de fora. “Você sabe, você se molha, se aconchega. E, então, tudo congela em você. Muitas tinham narizes congelados, dedos congelados. Não ousei tirar meus sapatos molhados porque não seria capaz de colocá-los de volta”, diz Linda. “As meias estavam molhadas. Tudo estava molhado.”
Rena Kornreich (nº 1716) esgueirou-se para a porta dos fundos de uma casa de fazenda. “Eu tenho uma irmã e nós duas estamos com muita fome. Nós somos de Tylicz. Se você puder nos dar uma batata, eu darei a ela a metade. Se você me der duas, eu fico com uma.” A esposa do fazendeiro deu a Rena duas batatas quentes e dois ovos cozidos.
No testemunho de Regina Schwartz (nº 1064), o trauma da marcha da morte é brutalmente evidente. Torcendo as mãos, ela parece agitada e ansiosa. O pânico surge em seus olhos. Ela fica confusa. O entrevistador continua fazendo perguntas. Mas ela precisa de silêncio. Há momentos em que, ao ouvirmos a história de uma sobrevivente, a melhor coisa a fazer é calar a boca, segurar suas mãos e deixar que nossas próprias lágrimas sejam sua testemunha. Algumas coisas são simplesmente muito duras de recordar. Toda sobrevivente passou por momentos dos quais não consegue falar. Eles não são os mesmos para todas, no entanto. É por isso que as recordações de Linda e Edith sobre a marcha da morte são tão importantes. Elas podem nos dizer o que as outras não suportam lembrar — e não devem ser forçadas a lembrar.
Quando a tempestade de neve começou a se dissipar, os foguetes russos iluminaram o céu “como uma chuva de balas nas alturas”. A frente de batalha estava se aproximando, mas elas estavam sendo levadas para longe, para cada vez mais longe da liberdade. Não é à toa que tantas se sentaram na neve e se recusaram a dar outro passo.
As filas de mulheres marcharam de dois a sete dias, dependendo da rota que haviam tomado; assim, a história das meninas fica bastante complicada. Em 20 de janeiro, o primeiro grupo de mulheres chegou a Wodzisław Śląski, perto da fronteira alemã. Elas foram forçadas a dormir ao relento, perto da estação de trem. Algumas mulheres polonesas não judias faziam parte desse grupo. No dia seguinte, milhares mais chegaram. “Trens com vagões abertos foram disponibilizados desde a manhã até tarde da noite, e neles aquelas prisioneiras quase mortas, inconscientes e febris [foram] carregadas.”
Exaustas e famintas, as garotas estiravam-se na poeira negra dos vagões, usados para transportar carvão. O metal sugava o calor dos corpos. Quando começou a nevar novamente, Rena Kornreich pegou neve fresca na borda de ferro do vagão para se hidratar. Outras estavam fracas demais para fazer qualquer coisa. Todas se amontoaram em busca de calor, mas havia pouco, já que suas roupas permaneciam molhadas de neve. Quando o trem partiu, as meninas mais fracas e as que estavam encostadas no metal morreram congeladas.
No caos da estação, muitas das garotas se perderam das amigas e acabaram em transportes que as afastaram umas das outras, porque os trens seguiam para quatro campos diferentes: Gross-Rosen, Sachsenhausen, Ravensbrück e Buchenwald.
O transporte com 2 mil mulheres foi recusado pelo comandante de Gross-Rosen por causa da superlotação do campo. Depois, seria recusado em Sachsenhausen também. Esse transporte chegou a Ravensbrück em 27 de janeiro, após um total de cinco dias. Por sua vez, o transporte que partira rumo a Buchenwald também foi recusado por motivo de superlotação e redirecionado para Bergen-Belsen. Irena Fein estava nesse transporte.
A última fila de mulheres chegou a Wodzisław Śląski em 22 de janeiro. Rose (nº 1371) estava nesse grupo de prisioneiras. Quando chegaram, foram instruídas a encontrar casas para descansar e se reunir na estação de trem pela manhã. Era um pedido estranho. Por que os prisioneiros não fugiriam, simplesmente? Sem dúvida, muitos tentaram, mas seus uniformes foram pintados com cruzes — e ser capturado e fuzilado era mais provável do que alcançar a liberdade.
Naquela noite, Rose sonhou que os homens da SS vieram e mataram suas amigas e a família que lhes dera abrigo durante a noite, além de ela própria. Aterrorizada, pois sem nada além de seus uniformes para vestir elas seriam pegas, ela convenceu algumas de suas amigas a irem para a estação de trem pela manhã, exatamente como a SS havia ordenado. A compulsão de obedecer à ordem foi mais forte do que o desejo de liberdade ou o medo da morte ainda as mantinha presas? Seja qual for o motivo, elas não aproveitaram a oportunidade para escapar; talvez estivessem muito cansadas e com fome, e simplesmente não soubessem mais o que fazer.
Rose e quatro amigas chegaram à estação de trem e embarcaram em um vagão aberto que estava cheio de prisioneiros. As meninas ficaram aterrorizadas, mas os homens foram gentis e as aconselharam a dizer que haviam recebido ordem de embarcar no transporte quando o trem parou. Rose percebeu, pela direção que o trem seguiu, que estavam indo para o sul, e ela esperava que isso significasse que estavam indo para a Eslováquia. De fato, o transporte atravessou o ponto mais ocidental da Eslováquia, mas continuou em frente após a fronteira e entrou na Áustria, onde entregou as meninas ao campo de concentração de
Mauthausen. Rose ficou arrasada. Elas nunca mais seriam livres?
Enquanto isso, Linda e mais 2 ou 3 mil mulheres ainda estavam marchando. “Andamos por cerca de uma semana”, antes de também acabarem em Wodzisław Śląski e serem levadas em vagões de carvão abertos. Desesperadamente desidratadas, algumas das garotas rastejaram até onde o motor do trem ficava. Lá, não havia apenas calor, mas água quente pingando de uma válvula. “A não ser isso, não havia nada.” Linda e algumas outras beberam a água quente avidamente.
Uma semana caminhando pelo frio e pela neve com quase nenhuma comida havia deixado a maioria das meninas fracas e vulneráveis. Cem meninas foram forçadas a entrar em cada vagão de carvão. Podiam apenas ficar em pé. “Muitas morreram.” As vivas não podiam cuidar das mortas e esperar sobreviver. Linda e as outras não tinham escolha a não ser jogá-las para fora.
Pode parecer cruel agora, mas as meninas mortas roubavam o calor das outras. “Naturalmente, [nós] pegamos delas tudo o que era aproveitável” para ajudar a nos aquecer. Elas acreditavam que as meninas que haviam morrido gostariam que elas pegassem o que pudessem e sobrevivessem. “Não sei por quanto tempo viajamos. Eu não tenho como dizer. Mas a fome — você não sabe… como a fome dói.” A voz de Linda falha. Lágrimas enchem seus olhos. “É pior que uma doença. A fome dói muito…”. Linda leva um tempo para se recompor. Olhando para o lado, engolindo em seco, chorando, ela diz, hesitante: “Essa… essa jornada no trem de Wodzisław para Ravensbrück foi a pior experiência que já tive. Quase morrer de frio, jogar para fora minhas companheiras mortas, que haviam sobrevivido três anos em Auschwitz…”. Apenas para chegar a Ravensbrück — onde não havia espaço para elas. Nem comida. Nada.
EM 27 DE JANEIRO, no mesmo dia em que o transporte de Linda chegou a Ravensbrück, os russos entraram nos campos de Auschwitz e Birkenau. Alguns dias antes, os “30 barracões de armazenagem” no Canadá haviam sido incendiados. Alguns ainda queimavam, e, quando os russos chegaram, mais de um milhão de “peças de roupas femininas e masculinas… foram encontrados nos seis depósitos restantes, parcialmente incendiados”. Eles também encontraram “mais de 600 cadáveres de prisioneiros dos sexos masculino e feminino que foram mortos a tiros ou morreram de outra forma
nos últimos dias”. 277 Dos 5.800 presos ainda vivos em Birkenau, 4 mil eram mulheres. Não se sabe se alguma dessas mulheres esteve no primeiro transporte.
O CAMPO EM QUE VOCÊ TERMINAVA depois da marcha da morte era fundamental para a sobrevivência — e, de todos os campos de extermínio até este momento, Bergen-Belsen foi o mais mortal. Era “um Lager , um campo muito ruim”, diz Irena. “Todo mundo estava doente, todo mundo dormia no chão. Tudo era feito no chão. Eles nos deram água e um pedaço de pão, nada mais.”
Felizmente para Irena, uma velha amiga de sua cidade, que também estava no primeiro transporte e provavelmente fora transferida com Bertha em outubro, a reconheceu e a levou às escondidas para o seu quarto. A
bondade de Ruzena Borocowice, 278 que tinha dezenove anos quando elas foram deportadas para Auschwitz, em 1942, muito provavelmente salvou a vida de Irena.
A IRMÃ DE IVAN RAUCHWERGER, Erika, fez a marcha da morte de Ravensbrück a Bergen-Belsen e conta que comeu grama congelada, que os prisioneiros escavavam debaixo da neve. No campo, ela foi resgatada por duas mulheres de sua cidade natal. Uma delas trabalhava na cozinha e trouxe três batatas cozidas para ela comer. “A segunda, a esposa do professor da escola primária de Erika, conseguiu que ela fosse admitida no alojamento das crianças”. Isso evitou que Erika tivesse de se apresentar na chamada da manhã, durante a qual a SS frequentemente atacava e matava prisioneiros; mais importante, havia menos doenças no bloco das crianças. Ambas as mulheres morreram de tifo “cerca de uma semana após ajudarem Erika”. Entre as crianças do campo estava Milan, sobrinho de Lenka Herzka.
ATÉ O FINAL DE JANEIRO, 9 mil mulheres haviam chegado ao campo
de concentração feminino de Ravensbrück. Um desses grupos 279 — muito provavelmente o de Linda — marchara cerca de 300 quilômetros ao longo de duas semanas antes de embarcar nos vagões de carvão abertos com
destino a Ravensbrück, 280 onde foram deixadas ao relento por 24 horas “porque não havia espaço para elas lá”. Linda e as poucas amigas que lhe sobravam nem podiam entrar em uma barraca. “Pensamos que eram os últimos momentos de nossa vida. Não havia comida, nada. E, ainda assim, outras prisioneiras continuavam chegando.” Quando elas finalmente conseguiram se espremer em uma barraca, o lugar estava “cheio de lama” e não havia espaço para se deitarem.
Edith abre as pernas em um “V” para mostrar como todas se sentaram. Pareciam peças de dominó, sentadas “entre as pernas umas das outras, no chão frio, e encostadas umas nas outras”.
“Em Ravensbrück, era fisicamente impossível viver. Nós éramos realmente como arenques em um barril. Não podíamos nos deitar. Não havia espaço para nós, porque muitas pessoas haviam chegado de outros campos na Polônia que estavam sendo evacuados. Havia milhares de pessoas, muito mais do que o campo poderia suportar. Foi muito difícil. Havia tantas pessoas, sujas, maltrapilhas. Não sei nem se tínhamos comida”. Edith faz uma pausa. “Não tenho recordação de ter recebido comida”. Sobreviver à marcha da morte era uma tarefa insuperável. Agora, havia outra a enfrentar: a fome.
A situação tornava-se cada vez mais desesperadora. Quando todas aquelas pessoas famintas apressaram-se para chegar aos caldeirões de sopa, as Kapos perderam o controle da multidão e as panelas tombaram, derramando sopa pelo chão congelado do campo. Linda chora ao lembrar que se jogara no chão para lamber “a comida do gelo”.
Houve algumas breves reuniões e momentos de ternura. Em meio à aglomeração, Etelka Gelb encontrou a sogra de Ruzena Gräber Knieža, “uma senhora idosa, abalada”. O coração de Ruzena se compadeceu ao ver a mulher, que pensara que nunca mais veria. “A alegria foi grande. O pesar foi terrivelmente grande.” Ela acariciou Ruzena e murmurou-lhe algumas bênçãos. “Se você sobreviver, seja feliz.” Ela foi levada para a câmara de gás no dia seguinte. Mas esse momento havia fortalecido a determinação de Ruzena. “De alguma forma, ela nos abençoou.”
“Escute, Elsa”, disse Edith à sua irmã de campo. “Se eles pedirem voluntários, nós iremos. Nós não sobrevivemos à marcha da morte para morrer lentamente de fome.”
Elsa agarrou Edith aterrorizada. “E se voluntariar-se para o trabalho for uma viagem à câmara de gás?”.
“Vamos, Elsa. Acho que até a câmara de gás é melhor do que isto.”
Os caminhões chegaram ao campo e mil meninas subiram neles. Iriam para o gás? Nem Elsa se importava mais. No final das contas, vários campos nas imediações de Ravensbrück acomodaram as novas prisioneiras. Entre esses campos estavam Retzow (para onde Edith e Elsa foram), Malchow e Neustadt-Glewe.
Ruzena Gräber Knieža (nº 1649), Alice Icovic (nº 1221) e Ida Eigerman (nº 1930) acabaram em Malchow, erguido para abrigar mil mulheres em
apenas dez pequenos blocos. Agora, teria que abrigar 5 mil. 281 Talvez a melhor coisa sobre Malchow tenha sido o fato de a Kapo sênior da ala do hospital feminino, Orli Reichert (nº 502), também estar lá. Tendo chegado a Auschwitz no mesmo dia das primeiras garotas, em 26 de março de 1942, Orli estava encarcerada desde os 22 anos por ser comunista. Longos cílios escuros nos olhos castanhos profundos e pele pálida faziam dela uma jovem deslumbrante, e ela fez tudo ao seu alcance para ajudar as prisioneiras judias a sobreviverem. No momento em que as sobreviventes de Auschwitz viram a mulher conhecida como “Anjo de Auschwitz”, aplaudiram e comemoraram: “Nossa Orli está de volta conosco!”.
Várias outras meninas do primeiro transporte foram transferidas para Neustadt-Glewe, cerca de 120 quilômetros mais para o interior da Alemanha. A coleta de meninas nos caminhões para Neustadt-Glewe aconteceu tão rápido que muitas amigas foram separadas umas das outras. Linda Reich e Dina Dranger estão entre as que ficaram para trás. Enquanto isso, na caçamba aberta dos caminhões viajavam Margie Becker, Peggy, Helena e Ruzinka, Eta e Fanny Zimmerspitz, sua prima Martha Mangel, Regina Schwarz e suas irmãs Celia e Mimi, Julia Birnbaum (nº A-5796), Magda Moskovic (nº 1297) e as meninas polonesas Sara Bleich, Rena Kornreich e sua irmã, Danka.
Essas meninas não comemoraram quando chegaram. Não só não havia um Anjo de Auschwitz no campo como também havia um demônio. A supervisora Dreschler e seus dentes salientes estavam esperando por elas.
Embora esses campos satélites não fossem campos de extermínio, as meninas ainda morriam. Elas eram as últimas a receberem rações, e a comida era limitada. A violência foi outra causa. Uma das Kapos principais em Neustadt-Glewe era uma assassina que se deliciava em pisotear garotas até a morte se tentassem roubar comida. Porém, como não havia quase nenhuma no campo, roubá-la valia o risco. Quando Rena Kornreich tentou roubar três batatas, a assassina veio atrás dela com uma tábua para esmagá-la. Rena escapou para um dos blocos onde provavelmente uma das meninas do primeiro transporte a escondeu em sua koja e salvou sua vida.
QUANDO LINDA FOI TRANSFERIDA de Ravensbrück, ela e um grupo de meninas foram levadas para um alojamento amplo, sem mobília, onde foram trancadas. Não havia onde sentar e, no momento em que a porta se fechou, as meninas entraram em pânico. “Tínhamos certeza de que era uma câmara de gás”. Elas quebraram as janelas e saíram, indo para a floresta.
Uma das mulheres da SS de Auschwitz correu atrás delas, gritando.
— Voltem! Nós não vamos matá-las! Vocês serão fuziladas se eles as encontrarem!
Elas não sabiam em que acreditar, mas, por algum motivo, confiaram na mulher da SS e retornaram lentamente. Pela primeira vez, uma SS estava dizendo a verdade. As meninas não foram assassinadas. Não podemos ter certeza da data em que Linda e as outras se rebelaram, mas Himmler havia iniciado negociações com o governo sueco para entregar “reféns” e emitira uma ordem, em março, “de não matar mais prisioneiros judeus e de tomar
todas as medidas para reduzir a mortalidade entre eles”. 282 Essa ordem pode ter salvado Linda e as outras. Elas foram transferidas para Retzow, onde Edith e Elsa já trabalhavam há um mês.
Ao sul de Ravensbrück, Retzow tinha um campo de pouso e não ficava muito longe de Berlim. Por ser um alvo, o campo de pouso era bombardeado regularmente para que os aviões alemães não pudessem pousar e reabastecer. O trabalho das mulheres presas era sair para o campo de aviação, preencher as crateras e limpar a pista de bombas. Era um trabalho perigoso, mas morrer pelas bombas americanas era melhor do que morrer nas mãos da SS. Além disso, assim que os SS se retiravam para seus bunkers , as meninas ficavam livres para percorrer o campo e a cozinha. Foi a primeira vez em três anos que Edith e as outras comeram algo além de sopa e pão. Sempre que os bombardeiros aliados voavam sobre os arredores e as sirenes dos ataques aéreos tocavam, os SS corriam para a segurança de seus bunkers . As prisioneiras corriam para a cozinha. “Então, tivemos uma vida melhor. Tínhamos comida. Às vezes, havia sêmola e leite, e tínhamos água limpa para nos lavar”, diz Edith.
A LIBERTAÇÃO CHEGARIA mais cedo ao campo de extermínio de Bergen-Belsen. O tifo se tornara uma epidemia incontrolável e já havia ceifado milhares de vidas. Em 15 de abril, quinze dias após Anne Frank morrer por causa da doença, Bergen-Belsen foi entregue às tropas britânicas e americanas. Eram cerca de quatro horas da tarde quando a notícia chegou pelo alto-falante: “Estamos aqui. Estamos aqui. Viemos libertar vocês”. As prisioneiras mal podiam acreditar no que estavam ouvindo. “Às sete horas da noite, o campo estava cheio de comida.” A fome e a doença eram tão severas, no entanto, que muitos prisioneiros morreram por terem comido em demasia as rações do exército. Bertha teve sorte; ela não conseguia manter nada dentro do estômago.
Vinte e oito mil prisioneiros haviam morrido desde fevereiro, e os exércitos aliados criaram punições especiais para a SS e os Kapos ,
forçando-os a transportar os corpos para valas comuns. 283 Obrigaram o dr. Fritz Klein e o comandante do campo, SS Josef Kramer, a rastejar pelos montes de cadáveres que nunca haviam sido cremados ou enterrados. Os cidadãos alemães que vivam nos arredores foram coagidos a atravessar os portões e passar pelos cadáveres macilentos de milhares de seres humanos.
Blocos inteiros foram incinerados para matar os piolhos portadores de doenças. Chuveiros foram montados para as mulheres se banharem, e elas foram tratadas com pesticidas em seguida. Richard Dimbleby, repórter da BBC, descreveu a situação do campo: “Mais de um hectare de terreno com mortos e moribundos. Você não podia distinguir qual era qual… Esse dia
em Belsen foi o mais horrível da minha vida.” 284
Para Bertha e Irena, foi o dia mais incrível.
Lágrimas enchem os olhos agradecidos de Bertha quando ela se lembra dos soldados que a libertaram. “Eles foram ótimos conosco. Tanta compaixão, tanta compreensão.” Há imagens da BBC de Bertha vestindo uma saia e uma blusa branca limpa enquanto conduz dois soldados britânicos bem-vestidos à saída dos crematórios. Enquanto ela caminha com os soldados, eles passam pelo Lagerführer . “Ele era o prisioneiro agora. Eu era uma mulher livre.” Ela possui uma beleza clássica e olhos penetrantes. Não são os olhos de uma vítima. São os olhos de uma jovem mulher que testemunhou o pior da humanidade, sobreviveu a ele e agora carrega o poder dessa verdade em sua alma.
HIMMLER HAVIA COMEÇADO A NEGOCIAR a venda de prisioneiros judeus com o governo sueco em março de 1945. Quem estava cuidando do acordo era o conde Bernadotte Folke, vice-presidente da Cruz Vermelha sueca, que também trabalhava para libertar milhares de prisioneiros suecos, noruegueses e dinamarqueses. O esforço de Folke era repetidamente frustrado pelo narcisismo e incapacidade de reconhecer a derrota de Himmler, mas ele precisava do dinheiro para salvar sua própria pele. Para persuadir os suecos a negociar, ele propôs libertar mil mulheres reféns — e ameaçou matá-las se o acordo fracassasse. Ella (nº 1950), Edie (nº 1949), Lila (nº 3866), Joan (nº 1188) e provavelmente Erna (nº 1715) e Fela (nº 6030) Dranger — além de, possivelmente, Matilda Friedman (nº 1890) — estavam entre as prisioneiras cuja liberdade estava sendo negociada.
Joan trabalhava no interior oco de uma montanha na cidade de Porta Westfalica. Ela descia em elevadores até o fundo da montanha e cuidava da fabricação de bombas e munições. Era o trabalho “mais assustador” que ela já desempenhara. “Pensávamos que nunca sairíamos dali.” Mas o maior medo de Joan era elas ficarem trancadas dentro da montanha para sempre, e ninguém jamais saberia onde elas estavam ou o que aconteceu com elas.
Enquanto Joan trabalhava naquela fábrica subterrânea, Ella, Edie e Lila escavavam valas nos arredores de Porta Westfalica. Então, o assassino em massa com cara de esquilo apareceu em pessoa. Mil prisioneiras estacionadas em Porta Westfalica foram carregadas em vagões de gado e enviadas para o norte. Então, no meio do caminho, o trem parou e voltou. As meninas lá dentro não tinham ideia do que estava acontecendo. Nenhuma delas sabia para onde estavam indo, nem que faziam parte das exaustivas negociações entre Himmler e a Cruz Vermelha sueca para a libertação de reféns. As constantes idas e vindas do trem deixavam seus nervos em frangalhos. “Eles não sabiam o que fazer conosco”, diz Joan. Era um cabo de guerra, com as mulheres servindo de corda.
O conde Folke não podia ceder a todas as demandas de Himmler, que ainda por cima sempre mudava de ideia sobre o que queria, tornando quase impossível um acordo. Quando as negociações fracassaram completamente, os SS abriram as portas dos vagões e começaram a balançar suas metralhadoras, gritando: “Raus! Raus! Saiam! Saiam!”.
Era 1942 tudo de novo. As jovens saíram dos vagões de gado. Elas pensaram estar no meio do nada. De fato, não estavam muito longe do castelo de Ludwigslust.
Forçadas a se agrupar na frente do trem, as meninas se viram diante de uma parede impenetrável da SS, que apontava alternadamente suas metralhadoras para elas ou descansavam as suas armas. Eles ficaram assim — as jovens encarando seus carrascos e estes, suas vítimas assustadas — o dia inteiro. Horas se passaram.
“Nós pensamos que era o fim”, 285 Joan soluça.
À tarde, enquanto a SS se preparava para abater mais de mil mulheres a sangue frio, um soldado alemão atravessou o campo buzinando, agitando uma bandeira branca e gritando: “Parem! Não atirem!”.
Himmler concordara. O conde Folke e o governo sueco haviam comprado a liberdade das jovens.
Os soldados da Wehrmacht — também conhecidos como camisas-marrons — eram um exército regular, não a SS, e agora assumiriam o transporte. Dando-lhes as mãos, ajudaram as meninas a voltar para o trem. Estes eram homens alemães que sorriam gentilmente para elas, tocavam suas mãos, lhes davam pão e garantiam que, na próxima vez que as portas se abrissem, estariam fora da Alemanha. Livres.
Era difícil acreditar em alguém de uniforme.
Quando o trem parou na estação de Hamburgo, Joan ouviu um vendedor de jornais gritando: “Hitler ist tot! Hitler está morto!”.
Olhando através das aberturas na lateral do vagão, ela viu uma tarja preta ao redor da primeira página do jornal. Era verdade. “Não podíamos acreditar.”
Poucas horas depois, exatamente como os soldados alemães haviam prometido, as portas do trem se abriram e as meninas estavam na Dinamarca. “Havia freiras, a Cruz Vermelha, as pessoas jogavam pão pelas janelas.”
“Vocês estão livres!”, elas gritavam. “Vocês estão livres!”.
Levou alguns minutos para que seus olhos se ajustassem à luz da libertação. Suas mentes levaram muito mais tempo. Caminhando entre a multidão na rua, elas receberam “chocolates, charutos e pão branco. Ficamos doentes com aquilo!”. Tendas haviam sido montadas para receber as reféns recém-libertadas. Médicos e enfermeiros as examinaram imediatamente. O mais importante era remover qualquer roupa infestada de piolhos. Era o tipo de protocolo com o qual as jovens já estavam familiarizadas. Elas tiraram as roupas e aguardaram a inspeção.
Os trabalhadores da Cruz Vermelha não tinham a intenção de ser insensíveis quando derramaram gasolina sobre as roupas e tacaram fogo. Mas quando as chamas saltaram do monte de roupas, as meninas entraram em pânico e tentaram fugir. Gritando. Soluçando. Elas se abraçaram umas às outras com medo. “Estávamos nuas e pensamos que seríamos as próximas a serem queimadas. Também não falávamos sueco, então não conseguíamos entender o que eles tentavam nos dizer… Não podíamos acreditar que [o fogo] não era para nós”.
Os suecos bem-intencionados levaram as meninas para longe do fogo. Agora, para os chuveiros, e outra erupção de terror. Como os suecos poderiam saber que tudo em uma vida normal poderia significar morte para meninas que sobreviveram três anos em Auschwitz? Por fim, alguém explicou em alemão que os chuveiros tinham apenas água e o vapor provinha do calor da água, não de gás. Ainda aterrorizadas e trêmulas, as primeiras meninas tomaram banho. Elas foram desinfetadas para eliminar quaisquer piolhos que restassem. Receberam roupas novas e limpas, sem as listras da prisão. Um dos médicos explicou em alemão que, porque seu estômago havia diminuído muito, se comessem demais, ou rápido demais, poderiam morrer. A lição de Bergen-Belsen havia sido aprendida, e os libertadores agora eram cautelosos sobre quais alimentos oferecer às prisioneiras famintas e em que quantidade. As meninas receberam vitaminas e cereais. Mingau quente. Creme de trigo. Foi “divino”.
PORÉM, EM OUTROS LUGARES DA EUROPA, a liberdade ainda não havia chegado para diversas meninas do primeiro transporte. Quando a pista de pouso em Retzow foi fechada e o campo, desativado, Linda integrou-se a um grupo que marcharia em direção a Berlim. Edith e Elsa foram forçadas a marchar em uma direção diferente. Desta vez, os civis também estavam fugindo do avanço russo. Bombardeiros aliados lançavam pacotes de comida. Obviamente, os presos não tinham permissão para pegá-los. A SS ficava com tudo. Linda recebeu apenas “um grande pedaço de sabão Ivory. Nada de comida, mais nada”.
Depois de um longo dia de caminhada, Edith e Elsa ficaram para trás da coluna. A SS estava muito à frente e as sombras cresciam à medida que a noite se aproximava. Havia uma pequena cabana no caminho, abandonada. Edith, Elsa e outras nove meninas olharam para o pequeno refúgio e rapidamente tomaram uma decisão — elas já tinham sofrido o suficiente.
Foi uma decisão simples: “Este é o último lugar a que chegaremos como prisioneiras. A partir daqui, seremos livres”. Elas caíram no chão da casinha e dormiram um sono sem interrupções.
Edith acordou com um zumbido suave no ouvido. Um sopro de asas em sua face. Anjos minúsculos entravam pelas janelas e zumbiam em meio à luz dourada da manhã. Elas haviam adormecido em um apiário.
Ruídos de passos no caminho lá fora. O trinco foi levantado. Um alemão de rosto largo e barbudo entrou, sem saber que havia intrusos espalhados pelo chão. Edith sentou-se e esfregou os olhos.
“O que vocês estão fazendo aqui?”, o homem perguntou.
“Estávamos dormindo”, disse ela.
“Seu pessoal já se foi”, disse ele. “Vou lhes dizer para onde, assim vocês podem alcançá-los!”.
As meninas se levantaram lentamente para não perturbar as abelhas e esgueiraram-se para fora. O apicultor apontou para a estrada e elas seguiram sem pressa na direção imprecisa que ele indicara. Mal saíram de vista, entraram em uma vala para se esconder. Nas imediações, tiros quebravam a calma da manhã silenciosa. A SS estava atirando em prisioneiros ou os russos estavam atirando na SS? As meninas agacharam-se na vala até os tiros cessarem. Duas meninas, uma do primeiro transporte e uma do segundo, decidiram explorar a área enquanto as outras se escondiam. Elas voltaram com boas notícias.
“Encontramos um celeiro vazio, com feno.” Era o lugar perfeito para se esconder durante o dia, enquanto tentavam tirar a tinta vermelha de seus uniformes. As cruzes vermelhas eram tão grossas e chamativas que podiam ser vistas de longe, alvos fáceis para os homens da SS que procuravam fugitivas. Raspar a tinta das costas das camisas e laterais das calças tomou-lhes a maior parte do dia.
Naquela noite, elas voltaram furtivamente à casa do apicultor e roubaram uma galinha. Todas as casas e os animais da fazenda haviam sido abandonados pelos proprietários alemães, que fugiam do avanço russo; portanto, as meninas ordenharam as vacas leiteiras, buscaram ovos nos galinheiros e tiveram sua primeira refeição escassa em liberdade.
No dia seguinte, um oficial da SS passou em sua bicicleta. Ele não parou para olhar dentro do celeiro onde elas estavam escondidas. Ele apenas continuou seu caminho. De uma casa vizinha, dois poloneses que trabalhavam em uma das fazendas viram as meninas puxando água da bomba e gritaram: “Vocês estão com fome?”.
Edith achava que nunca mais voltaria a sentir o estômago cheio, mas os poloneses trouxeram tanta comida que elas nem conseguiram comer tudo. Felizmente, como tinham ingerido mingau e outros alimentos quando estavam em Retzow, o estômago delas podia dar conta do banquete. Depois, elas não tinham mais muito o que fazer, a não ser usufruir o luxo de sentir o estômago cheio.
Enquanto raios de sol desciam pelas janelas abertas, refletindo a poeira e o pólen no ar, elas ouviram a voz de uma mulher gritando do lado de fora: “Der Krieg ist vorbei! A guerra acabou!”.
Correndo para a janela, Edith viu uma mulher alemã andando de bicicleta e balançando a bandeira branca de rendição.
“Nós estamos livres! Livres! Frei! Zadarmo! Fray! ”, elas gritaram em três idiomas diferentes e se abraçaram. Elas choraram de alegria. E, então, choraram de tristeza.
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